(pt) Resposta da Organização Anarquista Terra e Liberdade (OATL) ao PSTU e a Arnaldo Jabor, juntos na deturpação do anarquismo e da luta popular autônoma.

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Sexta-Feira, 28 de Junho de 2013 - 23:09:18 CEST


“Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é brutalidade 
e escravidão.” – Bakunin ---- No dia 16 de Junho, difundiu-se nas redes sociais duas 
mensagens semelhantes: Arnaldo Jabor, o velho reacionário que declarou que os “jovens” que 
lutam pela redução das passagens “não valem 20 centavos”, disse na CBN que “O Movimento 
Passe Livre tinha toda a cara de anarquismo inútil”, por isso ele temeu “que toda a 
energia fosse gasta em bobagens, quando há graves problemas no Brasil”. Ao mesmo tempo, o 
PSTU, com seus famosos slogans – “Liberalismo burguês: a verdadeira filosofia do 
anarquismo”, declarou em seu site: “O anarquismo é hoje uma força influente nos movimentos 
contra o aumento das passagens em todo o país. Sua ideia central é a defesa de um 
movimento ‘horizontal’, formado apenas por ‘indivíduos’, sem partidos ou sindicatos, sem 
qualquer organização, estrutura e estabilidade.

  Essa ideia parece muito boa, mas é muito ruim. O movimento contra o aumento precisa da 
classe trabalhadora para vencer, precisa atrair os movimentos sociais organizados, e é 
justamente aí que a ‘horizontalidade’ e a ‘individualização’ do movimento exibem seus 
limites”.

Vindas de Arnaldo Jabor, conhecido por suas declarações conservadoras e de direita, e do 
PSTU, um partido marcado pelo autoritarismo, a burocratização das entidades e sua 
representação preconceituosa da classe trabalhadora fora das indústrias como 
“lumpem-proletariado” – o velho conceito etnocêntrico de Marx, forjado no seu mundo 
europeu, branco e alemão -, não nos assustam. O anarquismo, como diz o próprio PSTU, com 
sua defesa da “horizontalidade”, sempre foi um inimigo da direita e da esquerda 
autoritária que visa, como falava Bakunin há mais de um século atrás, criar novas 
ditaduras sobre o povo e fundar novos Estados, comandados pela elite intelectual do 
partido, que irão explorar a classe trabalhadora e todas e todos aqueles que fogem do seu 
perfil hegemônico: homem, branco, europeu e heterossexual. Ao contrário do que dizem Jabor 
e PSTU, o anarquismo não é uma rebeldia inútil e nem um modo de realização do 
“individualismo burguês”. É ridículo ler de um partido que se diz democrático e 
revolucionário colocações tão grosseiras e estúpidas como estas: “A ‘liberdade 
individual’, tal como defendida pelo liberalismo e pelo anarquismo, pode ser uma boa ideia 
para as classes médias da sociedade. São elas que lutam pela própria sobrevivência de modo 
sempre individual, com seus pequenos empreendimentos comerciais e empregos competitivos. 
Mas para a classe operária, as coisas são diferentes. A força dos trabalhadores está em 
sua organização, mais do que em seu número ou em suas individualidades”.

Com uma estupidez extrema, o PSTU simplesmente ignora que foram milhares de anarquistas 
que fundaram o movimento operário no Brasil, que criaram os primeiros sindicatos, tocaram 
as primeiras greves, barricadas, associações rurais, escolas e universidades proletárias, 
creches populares, organizações por bairro, tentativas de insurreição, sendo por isso – 
por seu “coletivismo” – perseguidos, jogados em campos de concentração – como a 
Clevelândia, durante o governo Arthur Bernardes – e mortos por sucessivos ditadores. Com 
sua leitura dogmática e burra da história e da realidade, este partido ignora que a 
primeira organização política revolucionária no Brasil, próxima ao que chamamos de 
“partido” (mas distante do que o PSTU e o marxismo-leninismo entendem como partido – uma 
organização hierarquizada e burocrática que leva a “consciência” para o trabalhador 
alienado), foi construída pelos anarquistas em 1919 (o Partido Comunista Anarquista), e 
que desde Bakunin, Makhno, Malatesta, Magón, Durruti, entre tantos outros revolucionários 
anarquistas, a defesa de uma organização específica anarquista, organizada para intervir 
como “minoria ativa” nos movimentos sociais e na luta de classes com propostas, 
estratégias, organização coletiva e programa, é colocada e defendida como uma necessidade 
para a revolução. O PSTU ignora, também, que milhares de anarquistas constroem hoje a luta 
no movimento de favelas, de ocupações sem-teto, de ocupações rurais, com trabalhadores 
desempregados, do setor de serviços, autônomos, trabalhadores rurais, setores da classe 
trabalhadora mais explorada que não fazem parte do que eles chamam de “classe média”. 
Setores que são desprezados pelo partido que se diz da “classe operária” e que centra suas 
atenções no movimento estudantil universitário e nos profissionais do serviço público.

Usando uma retórica frágil, tentam associar também o anarquismo ao “apartidarismo” dos 
militares e reduzem tudo aquilo que ficou conhecido como “movimento anarquista” a esta 
posição. Como organização política específica, com unidade teórica e prática, com 
militância organizada e ação coletiva, acreditamos que não é preciso nem se estender nesta 
crítica – pois, senão, o socialismo do PSB e do PCdoB seria igual ao do PSTU, pois todos 
reivindicam o “socialismo” – e preferimos destacar que este forte sentimento contra as 
bandeiras do PSTU deriva da sua prática oportunista e autoritária, pois suas bandeiras 
estão sempre colocadas na frente das bandeiras que trazem as revindicações do ato, 
tentando criar a imagem de que esta manifestação é obra deste único partido. Não somos 
necessariamente contra a utilização de bandeiras, mas acreditamos que elas devem ser 
utilizadas sem visar tomar e atropelar as mobilizações, como fazem o PSTU.

Por fim, partindo da frase de Jabor sobre a inutilidade do anarquismo, queremos ressaltar 
que após o fim das experiências autoritárias do que foi pessimamente chamado como 
“socialismo real” (pois, para nós, socialismo é liberdade e igualdade) – construídas 
também por Trotski, que antes de ser perseguido por Stalin mandou fuzilar os trabalhadores 
de Cronstadt e os camponeses da Ucrânia que lutavam pela coletivização da terra e a 
manutenção dos soviets (conselhos de trabalhadores) – e da experiência petista, os ideias 
sempre defendidos pelo anarquismo – a democracia direta, a autogestão, a ação direta, as 
mobilizações autônomas, a criação do poder popular, a defesa do coletivismo contra o 
individualismo – tornam-se cada vez mais necessários para que a gente possa criar um 
“mundo onde caibam muitos mundos”, para que o povo possa se auto-governar, destruir o 
capitalismo e criar uma sociedade baseada na liberdade e na igualdade.

Rio de Janeiro, Junho de 2013


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