(pt) Breve análise sobre os últimos acontecimentos e as mobilizações sociais no Brasil e propostas socialistas libertárias para a luta - (FARJ) (en)

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Quarta-Feira, 26 de Junho de 2013 - 09:00:32 CEST


Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) ---- Um rápido contexto ---- As 
manifestações que sacudiram o país contra o aumento das passagens trouxeram novamente a 
ação direta das ruas como um paradigma de luta. Evidenciaram também os limites do 
governismo, do neo-desenvolvimentismo em atender os anseios da juventude, de setores 
precarizados da classe trabalhadora e de outros grupos sociais explorados. Os protestos 
generalizados animaram novamente entidades, organizações políticas, movimentos sociais e 
trabalhadores/as que conseguiram uma vitória significativa, ao baixar o preço da passagem 
em várias cidades. Ainda que a vitória seja parcial e seus frutos tenham sido manipulados 
pelos governos (na maioria das cidades, as prefeituras subsidiarão os empresários), os 
protestos de rua, as ocupações de avenidas e paralisações de estradas figuraram novamente 
como instrumentos de luta massivos.

A crescente cooptação da pauta pela direita

Ao mesmo tempo em que as manifestações traziam fórmulas de luta históricas e combativas da 
classe trabalhadora, a direita começou a se infiltrar nos atos. Primeiro com a mídia 
burguesa pautando demandas genéricas e bandeiras defendidas pelos setores conservadores 
(Contra a corrupção, etc.) para se apropriar das demandas. Segundo, na tentativa de 
“caricaturar” (“vândalos”, “baderneiros”) e criar bodes expiatórios no interior dos 
protestos para dividir a esquerda, já bastante fragmentada. A direita representa e 
sintetiza interesses de uma classe social dominante (burguesia industrial, agronegócio, 
etc.) e que um movimento de massas, seja ele qual for, vai sofrer interferências políticas 
desses setores na medida em que se capilariza ou contraria seus interesses. Reafirmamos 
que o crescimento da pauta conservadora no rumo das manifestações deve ser explicada, 
principalmente, pela estrutura de classes da atual sociedade brasileira e o jogo de forças 
presentes no país.

A direita e o antipartidarismo

No meio dos atos, setores de direita e também de ultra-direita, esses últimos ainda que 
minoritários, começaram a se infiltrar nas manifestações e surfar na onda ufanista 
defendida pela mídia monopolista (Rede Globo, etc.) agredindo companheiros de luta e 
causando confusão em nossas fileiras. Setores reacionários compostos por partidos 
institucionais legalizados (PSDB, DEM, PP), agrupamentos nacionalistas autoritários 
(Frente Integralista Brasileira, Pátria Minha, MV-BRASIL) e gangues (skinheads 
nacionalistas, carecas do Brasil). O ataque violento e fascista aos movimentos sociais, 
partidos políticos e entidades sindicais minimizava a força da esquerda classista nos 
atos, enquanto canalizava a insatisfação popular para ideologias reacionárias. Cabe 
sublinhar que rejeitamos totalmente quaisquer atitudes fascistóides nas manifestações de 
rua! Rejeitamos o fascismo dos ultras e repudiamos as agressões aos militantes de 
esquerda, partidos políticos e movimentos populares! Prestamos nossa solidariedade a 
todo/a companheiro/a agredido/a!

Se nem todo manifestante que carrega uma bandeira do Brasil para um ato é de direita ou 
ufanista, está claro que os reacionários estão disputando as pautas populares e os setores 
da juventude que participam dos atos. É uma disputa ideológica. Não podemos, no entanto, 
supervalorizar sua presença, cuja força e tamanho se mostrarão decisivos no rumo das 
próximas mobilizações. Isso desviaria o foco da ação, que deve ser o de ter uma linha 
política clara protagonizada pelos movimentos sociais e entidades de classe, com demandas 
e reivindicações efetivamente classistas para “virar a mesa do jogo”.

As responsabilidades esquecidas da esquerda

A autocrítica pode ser uma ferramenta para um diagnóstico mais preciso de parte deste 
movimento, já que este, com suas fraquezas e forças expôs também os limites de algumas das 
práticas históricas da esquerda que se viram questionadas. Limites como a prioridade da 
esquerda institucional em disputar aparatos sindicais e estudantis em detrimento do 
fortalecimento das bases. Limites de uma prática aparelhista e instrumental com os 
movimentos sociais (que só servem na maior parte dos casos para endossar a voz do 
partido). O movimento expôs também a falta de inserção social de grande parte da esquerda 
com os desempregados/as, na favela, na juventude pobre e precarizada (que poderiam ser 
fundamentais no processo de aprofundamento das demandas populares). Expôs políticas 
equivocadas que centram esforços na conquista do aparato estatal, nas eleições burguesas 
ou no fortalecimento de mandatos parlamentares “combativos” por alguns setores, estes, 
marcados pelo personalismo e o legalismo burguês no rito do voto. Expôs os limites da 
defesa da polícia “cidadã” (quando até a ONU recomendou a extinção da Polícia Militar no 
Brasil) e do apoio de certas legendas políticas num passado recente às greves dessas 
corporações, enquanto, ao contrário do idealismo desta postura, a PM mostrava sua 
“consciência de classe” massacrando os manifestantes nas ruas (e o faz de modo muito mais 
violento e corriqueiro nas favelas, diga-se de passagem com balas de “verdade”).
Ainda que não sejam determinantes para explicar o ascenso da direita, que hoje surfa na 
onda dos protestos populares, essas práticas hegemônicas no interior da esquerda durante 
décadas (e não o minoritário setor libertário com sua defesa da autonomia e independência 
do campo popular), contribuíram com a parte que lhe cabe no “apoliticismo” e 
antipartidarismo que hoje emerge como um verdadeiro efeito colateral aproveitado pela 
direita reacionária.

O anarquismo combativo e a luta das passagens: unidade contra a direita e poder popular 
contra o governismo

O antídoto a esta situação só pode ser a organização popular de base e a os instrumentos 
de luta nos bairros, nas periferias, nos territórios de resistência e lutas camponesas, 
nos espaços estudantis e sindicais, que correspondam e canalizem os anseios dessa 
juventude que hoje vai às ruas. Precisamos resgatar a credibilidade de um projeto 
revolucionário neste cenário, e nós, anarquistas, entre outros militantes, temos um papel 
fundamental, enquanto a ala libertária do socialismo. Primeiramente, devemos ter claro que 
derrotar a direita é um trabalho que só pode ser realizado numa aliança de classe. Mas o 
governismo não pode usar o ascenso da direita reacionária para se eximir de suas 
responsabilidades. Pois as pautas da direita e do capital estão sendo contempladas nas 
políticas do PT.

Por isso, o trabalho é de fortalecer a resistência popular. Esta baseia-se em pautas 
concretas que visam à melhoria das condições de vida das classes populares. Ao construir 
poder popular a partir das bases, lutamos por estas melhorias sem nos focar em questões 
eleitoreiras. O poder popular é construído a longo prazo e não são as eleições que definem 
seu ritmo. A cooptação de movimentos sociais os torna dependentes do governo eleito e é 
essa situação que os leva a defender o “mau menor”. Em vez de voltar atrás e recuar das 
ruas vemos neste momento histórico a possibilidade de avançar, ou onde necessário, 
resgatar autonomia e fortalecer e ampliar as bases dos movimentos sociais para dar um 
salto qualitativo.

Os reacionários precisam ser derrotados e a unidade da esquerda é fundamental neste 
momento, mas deve ter critérios classistas para não se converter num recuo. O movimento 
também caminha para o conservadorismo quando aceita em seu interior grupos sociais ligados 
estritamente aos interesses burguesia, que tem como função, reprimir o povo. Da mesma 
forma, a ação direta e popular das ruas precisa estar lastreada por um trabalho de base 
nos locais de trabalho, moradia e estudo. Um trabalho que dê protagonismo aos movimentos 
populares e insira aqueles que hoje vão para as ruas em espaços de organização das classes 
exploradas e oprimidas!

Neste sentido, nós da FARJ há quase dez anos e, em maior grau, a Coordenação Anarquista 
Brasileira (composta de 9 organizações em diversos estados do Brasil), modestamente 
continuamos a construir uma alternativa de luta juntos com outros/as companheiros/as, 
movimentos populares no campo e na cidade. Indo às ruas e organizando o trabalho de base 
sempre com a certeza do desafio que temos pela frente. Trabalhar para derrotar direita nos 
bairros, no campo, nos sindicatos e nas ruas! Imprimir ao governismo as demandas populares 
reprimidas pelos limites da democracia burguesa!
Pela tarifa zero no transporte! Transporte 100% público sem subsídios aos empresários!
Contra as remoções de comunidades e ocupações!
Pelo fim da polícia militar!
Por uma reforma agrária com controle da terra por quem nela trabalha!
Vencer com a força popular classista! Construir o poder popular! O anarquismo combativo e 
o poder popular construindo um caminho!


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