(pt) Entrevista com a Organização Anarquista Socialismo Libertário - OASL sobre as mobilizações no Brasil (en)[machine translation]

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Terça-Feira, 25 de Junho de 2013 - 21:51:20 CEST


A militância da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) tem participado das 
lutas contra o aumento das tarifas em São Paulo, tanto na capital, como em cidades como 
Mogi das Cruzes, Marília e Franca, no crescente movimento que tomou conta do país. A 
militância de outras organizações ligadas à Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) tem, 
em outros estados, também ajudado a construir as lutas. Abaixo, dois militantes da OASL, 
Pablo Pamplona e Thiago Calixto*, que vêm participando das lutas, respondem algumas 
questões sobre o recente processo de mobilização no país. A OASL é membro do 
Anarkismo.net. ---- Jonathan Bane (JB): Como as mobilizações começaram e ganharam força? 
Como elas estão sendo organizadas e por quem?

OASL: Nos últimos meses, aconteceram muitas lutas significativas, como a greve dos 
professores do Estado de São Paulo, que ocorreu poucas semanas antes e também mobilizou 
milhares de pessoas em várias manifestações, mas que foi cooptada pela direção do 
sindicato. Outra luta relevante tem sido a dos estudantes e funcionários da Universidade 
Estadual Paulista (UNESP) que está há mais de dois meses em greve, em algumas unidades com 
ocupação e com um corte de estradas em Marília, e tem lutado por bandeiras importantes 
como permanência estudantil, isonomia em relação às outras universidades públicas, por uma 
política de cotas sociais e raciais e contra o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino 
Superior Paulista (PIMESP). A militância da OASL tem ajudado a construir essas lutas.

Por outro lado vemos outras mobilizações relevantes, em nível comunitário, sindical, 
agrário e estudantil, que têm ajudado a influenciar o estado de ânimo da população, como o 
apoio a trabalhadores despejados de suas casas em decorrência da especulação imobiliária e 
da preparação para os mega eventos, como no caso de Pinheirinho e Favela do Moinho, entre 
muitos outros. Os movimentos populares que estão articulando esses movimentos certamente 
têm ajudado a impulsionar a população às ruas.

As lutas contra o aumento da passagem vêm sendo organizadas majoritariamente pelo 
Movimento Passe Livre (MPL), que organiza e convoca lutas em torno da questão do 
transporte desde 2006. O movimento – com o qual temos grande afinidade e proximidade – 
conserva um caráter autônomo e combativo. Constrói suas lutas com independência e prima 
pela participação generalizada e horizontal. Não leva carros de som às ruas, os 
pronunciamentos são sempre passados em forma de jogral (alguém grita os informes e as 
pessoas ao redor repetem as mesmas palavras, para que um número maior de pessoas possa 
ouvir) e a passividade dos manifestantes nunca é estimulada; ao contrário, a participação 
e ação amplas são sempre incentivadas. Esse caráter, bastante característico nas lutas 
contra o aumento, tem conquistado um forte respaldo da população, que, ao nosso ver, está 
cansada das mobilizações no modelo tradicional da esquerda, em torno de palanques e 
discursos desgastados. A desobediência civil e ação direta, assim como o trabalho de base, 
têm sido constantemente praticados pelo movimento. Ao mesmo tempo, deve ser motivo de 
preocupação o fato de a oposição aos partidos ter sido, em grande medida, apropriada por 
um setor conservador e nacionalista, algumas vezes estimulada pela extrema-direita e ter 
se estendido à esquerda como um todo, incluindo os movimentos sociais e sindicatos. A 
grande mídia também tem contribuído para esse avanço das forças conservadoras e para o 
enfraquecimento das pautas relacionadas ao transporte.

JB: Protestos contra aumentos nas tarifas são bastante comuns no Brasil. Como é que o que 
está acontecendo em São Paulo difere de protestos passados?

OASL: Quando terminaram as mobilizações contra o último aumento da tarifa, em 2011, o MPL 
discutiu a ampliação de sua discussão. Fez uma avaliação de que se deveria seguir com a 
luta em outro nível de discussão e levantou uma campanha pela Tarifa Zero. O movimento 
levou a discussão do transporte público a uma questão política, de gestão pública de 
recursos e direito à cidade, defendendo que um transporte público de verdade, assim como 
outros direitos como saúde e educação, não deveria ser tarifado, mas garantido pelo poder 
público e pago com impostos graduais: quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos, 
que não tem não paga. Com essa nova campanha, o movimento pôde sustentar, por dois anos, a 
discussão política interna e um trabalho externo de base em escolas e comunidades que, a 
nosso ver, foi muito positivo. Acreditamos que esse isso contribuiu para qualificar os 
militantes para a construção de uma nova jornada de lutas, maior e mais ousada, como ela 
de fato foi, desde antes mesmo do primeiro grande ato. Só não era esperado que a 
mobilização fosse crescer tanto e, em grande medida, escapar completamente àquilo que 
havia sido planejado.

Outro fator que pode ter contribuído é que, depois de oito anos e pela primeira vez nas 
lutas contra o aumento em São Paulo, temos um prefeito do Partido dos Trabalhadores (PT). 
A luta também interessou a fortes setores conservadores mais à direita, que vêm tentando 
desgastar a imagem do novo prefeito e, com isso, a do governo federal. Um elemento 
fundamental foi a posição da imprensa que, no início, colocou-se contra o movimento. 
Conforme as mobilizações cresciam, assim como o apoio popular – somados à enorme repressão 
que atingiu parte significativa dos repórteres dos grandes veículos – a imprensa foi 
mudando sua posição e passando a defender o movimento. Preferiu, entretanto, promover suas 
próprias pautas e incentivar o pacifismo, o civismo, o nacionalismo, criminalizando 
setores mais radicalizados. Finalmente, podemos identificar que a tecnologia em geral 
(câmeras em celulares, por exemplo), com destaque para a internet, permitiram a divulgação 
do que se passava nos protestos e que isso fosse potencializado pelas redes sociais. Essa 
variável também possui relevância.

JB: Qual tem sido o papel das redes sociais nas mobilizações?

OASL: Nada disso seria possível sem a construção de anos de luta do movimento, ou sem esse 
sentimento de revolta contra a repressão do Estado. No entanto, as redes sociais também 
têm um papel fundamental, como colocamos. O Facebook é uma ferramenta importante para o 
MPL, e seu principal ponto de referência. A convocação dos atos foi feita por “eventos”, 
notas públicas têm sido lançadas dando esclarecimentos sobre a luta e, principalmente, é 
por ele que os veículos de comunicação de massa são desmentidos.

A primeira manifestação teve cerca de 5 mil pessoas, e já teve acompanhamento ao vivo do 
Jornal Nacional, o principal jornal televisivo do país. O mesmo se seguiu pelos atos 
seguintes: a grande mídia continuou falando da luta (antes mesmo da redução da tarifa, ela 
já era capa de muitos dos principais jornais e revistas do país). Inicialmente, os 
manifestantes foram taxados de vândalos, jovens sem causa e outras posições que tentavam 
deslegitimar o movimento. Então todo o país falava das manifestações, o que foi 
fundamental, e pelas redes sociais compartilhava vídeos e informações que mostram outra 
versão da história.

A repressão, ao contrário de levar ao medo, incentivou a revolta da população, e, em São 
Paulo, o governo suspendeu as repressões mais massivas com a Tropa de Choque. Os 
manifestantes, muito influenciados pela grande mídia, passaram a condenar quaisquer atos 
de violência e o “pacifismo” se converteu em um dos grandes sensos comuns dos protestos.

Na nossa avaliação, os recentes fatos confirmam o que os anarquistas defendem desde 
sempre: não basta levar o povo às ruas; é preciso que o povo conquiste o poder, de baixo 
para cima, pelo seu próprio ritmo e organização, não por meio da tomada do Estado, mas 
pela construção de organismos participativos e populares. Para isso, o trabalho de base é 
imprescindível. Se não há uma preparação prévia, a discussão política é abstraída e 
cooptada pelos setores da sociedade que estiverem mais organizados. No caso atual, os 
grandes capitalistas e o Estado. Grande parte da população que está nas ruas não tem 
acúmulo em discussões políticas e apenas reproduz o que vê há muito tempo através das 
lentes da ideologia dominante. Foi condicionada a converter a pauta a temas que interessam 
à direita, como o “orgulho de ser brasileiro”, “menos impostos”, “menos impunidade” etc.

As redes sociais não são boas por si só e não substituem, de forma alguma, a importância e 
necessidade da organização popular e trabalho de base permanente. Isso deveria ser 
lembrado por toda a esquerda. No entanto, como forma de propaganda, elas têm sido 
fundamentais para que muitas pessoas soubessem da luta e dos agendamentos das manifestações.

JB: As mobilizações são apenas pelo aumento da tarifa de ônibus ou existem questões 
sociais mais profundas que estão sendo levantadas? Se sim, quais são elas e por quê?

OASL: O MPL defende que qualquer tarifa de ônibus é um roubo, já que é um serviço público 
e, como tal, deve ser gratuito. O movimento entende que a questão da mobilidade urbana 
está diretamente relacionada a outros direitos básicos, como por exemplo, saúde, educação 
e cultura. Além de defender que o direito de ir e vir não se restringe a ir e voltar do 
trabalho. O direito à cidade, de qualquer cidadão poder usufruir das coisas que a cidade 
oferece, é então uma pauta central e muito profunda. A descriminalização dos movimentos 
sociais também é uma pauta importante que deve ganhar força com a chegada da Copa do Mundo.

Mas de qualquer forma o MPL sustentava, antes da revogação dos aumentos, e nós 
compartilhamos dessa análise, que a pauta da luta deveria continuar sendo a redução 
imediata da tarifa. Tínhamos receio de que uma luta por tudo terminasse como conquista de 
nada. Por isso apoiamos o foco na redução da tarifa. A partir do momento que a redução 
fosse conquistada, a luta poderia avançar para os próximos passos e, pelo acúmulo de 
conquistas de curto e médio prazo, o movimento poderia se fortalecer cada vez mais. Esse 
ponto de vista era compartilhado por praticamente toda a esquerda.

Entretanto, com a conquista da redução, outras pautas vêm sendo colocadas. Algumas pela 
esquerda, como a necessidade da tarifa zero, o fim da repressão aos movimentos sociais, o 
avanço nas lutas por direitos etc. Outras pela direita mais conservadora, ou mesmo por 
grande parte do senso comum que permeia muitas pessoas que estão nas ruas. O tamanho das 
mobilizações levou a população ao otimismo de pensar que “o Brasil está mudando” e à 
vontade de exigir tudo que lhe vem à mente. A nosso ver, é importante que nosso setor, que 
busca construir lutas populares autônomas e combativas, retome essa continuidade das pautas.

JB: Que tipo de dados demográficos estão envolvidos nos protestos? Eles são em sua maioria 
jovens e ativistas ou os protestos têm assumido um caráter mais popular?

OASL: Nos últimos dias as lutas conquistaram um público mais plural. Nas regiões centrais 
da cidade temos notado um conjunto de forças composto mais ou menos da seguinte maneira. 
Um setor mais autônomo e combativo, ligado ao MPL, que tem força e encabeçou o início das 
mobilizações. Um setor mais tradicional da esquerda, com partidos e movimentos, que 
tiveram participação significativa desde o início dos protestos. Um setor majoritário de 
novas pessoas que têm saído às ruas (pesquisas tem mostrado que a maioria das pessoas 
nunca havia ido às ruas), e que reproduz muito do senso comum; são em grande parte 
conservadores e sustentam pautas ligadas à agenda conservadora. Dessa ala vem o repúdio 
aos partidos políticos que acabou se convertendo em repúdio a toda a esquerda. Finalmente, 
há um setor, certamente o minoritário, que reúne a extrema-direita, em alguns casos 
articuladas a setores militares, do grande capital e latifundiários. A questão que ainda 
não está clara é qual a capacidade dessas novas pessoas que são majoritárias aderirem às 
propostas de luta classistas e combativas, ainda que independente de partidos políticos e 
do Estado.

Em termos de classe, as mobilizações da região central da cidade são compostas, na 
maioria, por quem está ou esteve no ensino superior. Entretanto, é possível notar uma 
participação de trabalhadores e moradores da periferia; a maioria fora da esquerda 
organizada. Nas periferias, os movimentos sociais têm realizado mobilizações muito 
importantes, de caráter marcadamente popular e com posições mais à esquerda. Talvez a 
continuidade dos protestos deva ser procurada nessas iniciativas, para aqueles que de fato 
desejam construir alternativas de poder popular.

Em termos de números, o país chegou a mobilizar mais de um milhão de pessoas (0,5% da 
população); em São Paulo, chegamos a algumas centenas de milhares em alguns dias.

JB: Como é que a população em geral reagiu aos protestos? Tanto para o uso excessivo da 
força pela polícia e as acusações de vandalismo?

OASL: Há uma divisão muito grande na reação geral. Nas primeiras manifestações tínhamos o 
seguinte quadro: havia aqueles que denunciavam os manifestantes como vândalos 
aproveitadores, mas até então não era uma posição majoritária. Havia aqueles que defendiam 
que as manifestações fossem pacíficas, e aqueles que acusavam a violência do Estado. 
Porém, dada a generalizada manipulação da mídia e a falta de preparo da esquerda em 
responder às acusações, temos hoje um grande número de pessoas que acusam qualquer ação 
direta mais radical de vandalismo. Está se tentando separar os manifestantes pacíficos dos 
violentos e, infelizmente, em alguns casos, o governo tem tentado colocar a conta dos atos 
de violência na conta dos anarquistas. Esse foi o caso no Rio Grande do Sul, com a invasão 
da sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) pela polícia e a tentativa de 
responsabilizá-la não só pelos atos de vandalismo, mas pelo cúmulo de apoio às iniciativas 
da direita. Isso é realmente um absurdo.

Antes de tudo, a violência é propagada diariamente pelo sistema em que vivemos. Violência 
é utilizar diariamente o sistema de transporte precário que temos, violência é morrer nas 
filas de hospitais públicos, violência é a educação de nossas escolas públicas, violência 
é a exploração que sofremos diariamente quando trabalhamos. Isso tem que ficar claro. O 
capitalismo é um sistema pautado na violência. Somos violentados todos os dias. E quando o 
povo reclama, se mobiliza, é novamente violentado pelo Estado, como têm sido os casos de 
repressão em todo o país. A violência das manifestações são respostas para essa situação a 
que a população é submetida todos os dias.

Ainda assim, devemos lembrar que as últimas manifestações em São Paulo mostraram casos de 
violência entre os próprios manifestantes, estimulado por setores da extrema-direita e 
protagonizado pelos novos e conservadores que estão nas ruas. Violência contra militantes 
de partidos, movimentos sociais e toda a esquerda organizada. E não se tratava de um 
rechaço pela esquerda, mas pela direita, em discursos e atitudes fascistóides. Muitos dos 
defensores da não-violência aderiram a isso, fato que a mídia praticamente não abordou.

JB: Há também protestos contra o aumento das tarifas no Rio de Janeiro, Porto Alegre e 
outras cidades. Qual é o caráter social desses protestos? Eles são semelhantes a São Paulo?

OASL: Não é possível dizer que o caráter social é o mesmo. Pelo menos em nossa impressão, 
esse setor conservador é maior em São Paulo do que no resto do país. Entretanto, outras 
cidades têm estado amplamente mobilizadas e nisso há similaridade. O país está bastante 
mobilizado de maneira geral.

Sobre o MPL, o que podemos dizer é que um de seus princípios é o federalismo, e que há 
cidades e estados onde o movimento existe organicamente. Sua articulação em diversos 
estados e mesmo a construção de blocos de luta contra o aumento tem contribuído com essa 
construção à esquerda, independente e combativa do movimento.

Acreditamos que as conquistas anteriores, que incluem Porto Alegre, e as conquistas de São 
Paulo e Rio de Janeiro – para não falar de outras regiões – têm contribuído com o aumento 
das mobilizações.

JB: O Brasil está atualmente sediando a Copa das Confederações. No ano que vem ele vai 
sediar a Copa do Mundo da FIFA e em 2016 o Rio de Janeiro vai sediar os Jogos Olímpicos. 
Qual tem sido o impacto social por sediar esses mega eventos?

OASL: Em depoimento nas redes de televisão pública, a presidente Dilma Rousseff garantiu 
que “o Brasil merece e vai fazer uma grande Copa”, e que apóia manifestações pacíficas, 
mas não vai “transigir com a violência e a arruaça”. Também surgem novas leis contra o 
“terrorismo”, facilitando a criminalização de movimentos sociais e da ação direta, e 
garantindo a proteção dos capitalistas e seus crimes.

É evidente que esses megaeventos têm trazido impactos sociais no sentido contrário a tudo 
o que poderia ser popular. Politicamente, fortalece figuras do poder e suas imagens e, 
deliberativamente, sua união ocorre com grandes empresários e especuladores. Após a 
confirmação absoluta desses eventos, a sistematização nos processos de higienização social 
ganhou força de vários setores conservadores e reacionários. Construtoras têm lucrado como 
nunca devido à intensa especulação no setor imobiliário, e essas mesmas construtoras foram 
responsáveis por financiamentos de partidos das alas liberais. Sabemos que favelas têm 
sido incendiadas de forma criminosa, com o claro objetivo de limpar a imagem das cidades 
para os turistas.

Em São Paulo, usuários de drogas têm sofrido repressão da polícia a mando do governo, que 
inclusive vem internando essas pessoas de forma compulsória. No Rio de Janeiro, um 
processo que a polícia, com apoio da mídia, tem chamado de “pacificação”. Ela serve de 
argumento para a instalação da polícia nas favelas e para prosseguir com a higienização e 
os assassinatos. Toda a mídia, juntamente com a burguesia e inclusive os militares, usa 
desses subterfúgios para retomar e propagar um sentimento ultranacionalista perdido depois 
dos períodos de ditadura militar.

JB: Os protestos atuais são de alguma forma relacionados a estes megaeventos?

OASL: O estopim foram os aumentos das tarifas de ônibus, metrô e trens. No entanto, junto 
às muitas pautas que surgiram, à esquerda e à direita, a questão da Copa tem sido 
relevante. As pessoas têm questionado o investimento público nesses megaeventos enquanto o 
país precisa de investimentos em muitas outras áreas como educação, saúde, transporte etc. 
Isso certamente tem contribuído com as manifestações.

O MPL tem apoiado desde o início o movimento Copa Para Quem?, que levanta essas questões, 
e está junto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que também pauta os 
reflexos que a Copa tem ocasionado na periferia pelas questões de moradia e especulação 
imobiliária.

JB: A revolta popular na Turquia teve alguma influência sobre o que está acontecendo 
atualmente em São Paulo e em outras cidades? E a Primavera Árabe?

OASL: Essas revoltas sempre nos levantam ao espírito do possível. Ver outros povos se 
levantando faz com que trabalhadores e trabalhadoras questionem por que não estão indo às 
ruas e reivindicando seus direitos, os lembra de tudo o que é preciso conquistar.

Mas dois anos atrás, na última jornada de lutas contra o aumento da tarifa, nós já víamos 
outros países se levantando e não houve uma adesão que chegasse minimamente perto do que 
vemos hoje. Pode haver uma forte influência no campo do inconsciente ou simbólico, 
especialmente para os militantes e ativistas, mas muito pouco pode ser dito sobre a grande 
massa nas ruas.

JB: Há algo que as pessoas fora do Brasil podem fazer para apoiar a luta aí?

OASL: Pautar essas manifestações e demonstrar solidariedade pública em manifestações 
organizadas em seus países e declarações de apoio. Divulgar e propagar sempre é algo que 
contribui.

Outra coisa importante é dar apoio à luta contra a repressão que os anarquistas têm 
sofrido em outras partes do país, em especial ao caso da Federação Anarquista Gaúcha 
(FAG), e às outras lutas em curso como a dos estudantes e funcionários da UNESP, além de 
várias outras lutas dos movimentos populares brasileiros.

JB: Vocês gostariam de adicionar alguma coisa?

OASL: Achamos importante ressaltar a importância de um trabalho de base organizado e 
continuado. A imagem de centenas de milhares de pessoas ocupando as ruas espontaneamente 
levantaram novos ares otimistas, da possibilidade de mudança concreta fora das urnas. Pelo 
imaginário social, a ocupação das ruas tornou-se o novo campo do fazer político. Mas, 
graças à distorção dos fatos, tornou-se também o único campo. A direita tenta construir o 
imaginário de que toda organização política é inerentemente oportunista e corrupta, 
enquanto o trabalho de base é supostamente desnecessário, já que, como cantavam os 
manifestantes, “o povo acordou” (e quando é que esteve dormindo?).

As ruas são uma ferramenta fundamental para tornar a luta pública, mas não é nela que o 
debate público e a formação política serão completamente feitos. É pela luta diária, nos 
movimentos sociais, estudantis, sindicatos, comunidades, que o povo constrói o poder 
necessário para a conquista de sua emancipação. O que vemos hoje é que, se por um lado a 
esquerda tem potencial para mobilizar, algumas de suas formas estão muito desgastadas. É 
necessário, a nosso ver, dar ênfase no trabalho de base e adotar uma estratégia que 
contribua com esse projeto emancipador. A nosso ver, nas mobilizações, nos movimentos 
populares, estimulando o classismo, a combatividade, a independência, a participação 
democrática; em suma, tratando de construir poder popular. Não devemos deixar de lado a 
luta simbólica.

O ponto fundamental é que esse potencial deve ser convertido em força social que contribua 
com nosso projeto de uma nova sociedade; e isso não se dá por vias do Estado ou acordos 
com capitalistas. O povo precisa de uma alternativa própria. Se não houver organização 
popular, as lutas continuarão a ser perdidas. Como anarquistas, sustentamos que essa 
organização estará melhor preparada se for construída de baixo para cima, com uma base 
forte e capaz de levar a luta aos caminhos que interessa a ela como classe.

Vivemos um momento histórico, de uma reviravolta no estado de ânimo da população. Tivemos 
um imenso avanço quantitativo para a luta e, se desejamos avançar ainda mais, precisaremos 
focar no trabalho de base, por onde poderemos, com a luta diária, aprender com nossos 
erros e acertos.

Avante na construção do poder popular! Arriba los que luchan!


* Pablo Pamplona e Thiago Calixto são militantes da Organização Anarquista Socialismo 
Libertário (OASL), de São Paulo, e têm contribuído na luta contra o aumento ao lado do 
Movimento Passe Livre.
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