(pt) [CAB] – A Luta contra o aumento das passagens e o Anarquismo by rusgalibertaria (en)

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Quarta-Feira, 19 de Junho de 2013 - 08:56:25 CEST


O contexto da nossa luta ---- Nesse primeiro semestre houve diversas mobilizações de norte 
a sul do Brasil que enfrentaram a reação conservadora dos governos, do aparelho repressivo 
e da mídia. Desde as lutas em defesa do transporte público nas capitais, passando pelas 
greves nos canteiros de obras do PAC, até a resistência indígena dos povos originários, 
todas essa lutas foram alvos da criminalização do protesto que segue em curso no país sede 
da Copa do Mundo. Vivemos um dos momentos mais agudos da luta de classes no Brasil. O 
capital internacional avança diariamente a passos largos, explorando os trabalhadores e as 
trabalhadoras na busca do lucro. ---- Resistência dos/as oprimido/as x Violência do 
Opressores ---- Uma consequência dessa lógica do capitalismo se expressa no transporte. 
Somos diariamente violentados.

Esperamos em intermináveis filas, viajamos horas em transportes superlotados e sem 
manutenção, correndo risco de vida. Sofremos com o a violência da ganância, do descaso, da 
roubalheira, das máfias das empresas de transporte público, ajudadas pelos governantes a 
lucrarem cada vez mais. Mas quando o povo vai para as ruas reclamar contra esta injustiça 
o que acontece? É violentado! Tropas de choque, gás lacrimogêneo, spray de pimenta, 
bombas, balas de borracha à queima roupa que podem cegar ou até matar. Todo um aparato de 
guerra é usado contra o povo, e dezenas de manifestantes são presos e feridos pela 
polícia. Tanto a truculência da polícia e o descaso do poder público para o social, quanto 
o desrespeito que os empresários do transporte público nos fazem passar diariamente, todas 
estas são formas de violência contra o povo. E todas as formas que o povo usa para se 
defender contra esta violência são legítimas. Toda forma de resistência, ainda que com 
táticas distintas é legítima. A violência em todos os atos SEMPRE começou com a polícia, a 
fiel defensora das elites e da burguesia. Polícia, que curiosamente foi apoiada em sua 
última greve por legendas políticas de esquerda que hoje caluniam o anarquismo para 
“encontrar” um bode expiatório que divida a nossa luta.

Lutar não é crime

O povo, organizado nos movimentos sociais, manifestando-se por justiça, não pode ser 
criminalizado, agredido ou preso. Devemos ter cuidado com a estratégia dos poderes 
dominantes de criminalizarem “individualmente” militantes e ativistas que lutam contra o 
aumento da passagem.  Muitos já estão com processos nas costas por lutarem. Lutar não é 
crime! Não podemos deixar que nossos companheiros/as sejam criminalizados/as! Essa 
criminalização deve ser denunciada! Essa é a verdadeira face da democracia burguesa, 
escondida de dois em dois anos nas urnas e propagandas eleitorais mas que mostra suas 
garras quando surge a resistência! Não podemos reforçar dentro das nossas fileiras o 
discurso de criminalização daqueles que lutam tentando encontrar bodes expiatórios no 
nosso movimento. Todos/as aqueles/as que saem às ruas para se opor a máfia dos transportes 
são ilegais por natureza, pois enfrentam a burguesia e o Estado de “direito/a”.

Nossa concepção de anarquismo

Nós anarquistas organizados politicamente na Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) 
participamos modestamente de diversas mobilizações e cerramos fileiras com trabalhadores e 
militantes em diversos estados do país. A CAB é uma instância que reuniu diversas 
Organizações Anarquistas Especifistas de todo o Brasil para articular a luta e construir 
no futuro uma Organização Anarquista em nível Nacional. É constituída por 9 Organizações 
de diferentes Estados, de base Federalista que constrói – a partir de práticas concretas – 
unidade estratégica e maior organicidade para intensificar a inserção social no seio de 
nosso povo. Nesse sentido, são mais de 10 anos de resgate do Anarquismo enquanto corrente 
libertária do Socialismo, organizada politicamente e inserida socialmente. A CAB é formada 
por uma diversidade de sujeitos sociais que acreditam na já antiga mas atualíssima máxima 
que diz que a “emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, porém 
aliada também a histórica prática da organização do anarquismo enquanto partido, como foi 
a Aliança da Democracia Socialista de parte da Ala Federalista e Anti-autoritária da 1ª 
Internacional (Bakunin, Guillaume, Malatesta, Cafiero e outros) e também da nossa irmã 
Federação Anarquista Uruguaia, que se manteve atuante durante a ditadura militar uruguaia 
enfrentando esta com inserção popular/estudantil e com um aparato armado.
No entanto, nossa rica história que se confunde com a história da classe trabalhadora é 
muitas vezes atacada, desmerecida ou deturpada: muitas vezes trata-se do simples 
desconhecimento ou a reprodução de discursos simplificadores e reducionistas, porém, 
muitas vezes se trata da má fé, do preconceito e da necessidade de construção política na 
base da calúnia, auto-promoção e mentiras. Não nos surpreendemos quando estes ataques 
partem da mídia corporativa/burguesa, que tenta sempre criminalizar e estereotipar aqueles 
que lutam. Mas quando vem das fileiras de nós trabalhadores, devemos nos posicionar de 
maneira firme para combater o sectarismo que sempre divide a luta popular. Recentemente, o 
  último texto que tivemos contato e que faz referência aos “anarquistas” nestes moldes é 
uma nota lançada pelo setor de juventude do PSTU em meio a luta contra o aumento das 
passagens. Assim, nos posicionamos nacionalmente não para entrarmos na briga de quem é 
mais revolucionário ou possui a verdadeira interpretação do período em que vivemos, mas 
sim porque julgamos necessário combater as calúnias e evitar a confusão em nossas fileiras.
Nossa implicação enquanto CAB se dá por um conjunto de motivos que normalmente são 
veiculados em materiais como o que nos referimos acima: generalização e estereotipação do 
anarquismo; acusação de que somos uma seita esquerdista e que não teríamos nenhuma 
responsabilidade; de que somos anti-partidários; de que seriamos sectários e 
intransigentes, que fazemos alianças somente com quem pensa da mesma forma que nós; que 
atacamos toda e qualquer entidade sindical, estudantil e popular como sendo burocrática e 
desnecessária à luta e o pior, dizer que nós anarquistas classistas e revolucionários 
somos apenas liberais/pequeno-burgueses que defendem a luta “individual” como estratégia 
de luta.
Nós da CAB fazemos parte de uma tradição político-organizativa (anarquismo “especifista”) 
que nasceu no seio dos trabalhadores. Tem esse nome porque retoma princípios básicos do 
anarquismo e reafirma a necessidade de nos organizarmos politicamente enquanto militantes 
anarquistas e socialmente nos movimentos populares. Essa necessidade política se expressa 
por meio de uma Organização Política Anarquista, Federalista e de Quadros, com critérios 
de ingresso, formação militante, dotada de um Programa Mínimo, Estratégia de Curto e Longo 
Prazo e Objetivo Finalista. Não apostamos portanto, na luta “individual” e desorganizada 
como estratégia de vitória mas sim no acúmulo de força social nos movimentos populares. 
Dessa forma, não somos espontaneístas, achando que a organização popular virá por ela 
mesma. Ao contrário do que alguns dizem, seguimos contribuindo com o fortalecimento dessa 
organização, com esforços modestos mas firmes, no movimento popular, sindical, estudantil 
e camponês em diversos estados deste país.
  Cabe também sublinhar que não temos a pretensão de como organização política anarquista 
e classista “representar” a totalidade dos anarquistas fora da nossa coordenação, assim 
como não exigimos a determinados partidos marxistas que respondam pela totalidade dos 
marxistas. Somos parte de uma organização política anarquista classista que trabalha com 
princípios em comum, critérios de ingresso, estratégia militante e unidade 
teórica/ideológica. Neste sentido, rejeitamos a associação preconceituosa de qualquer um 
que vincule de modo quase que automático o anarquismo a desorganização, sendo que não há 
nenhum elemento histórico que embase esta afirmação. Respeitamos, ainda que com 
diferenças, as distintas formas de associação, sejam elas partidárias, independentes ou de 
outras bandeiras políticas que venham se somar a luta. Mas rejeitamos quaisquer tentativas 
de dividir o movimento internamente. O sectarismo venha de onde vier é danoso e divide a 
classe.
Mesmo com as diferenças de prática política e ideológicas, acreditamos que o respeito 
mútuo entre os setores da esquerda é algo que fortalece a luta. Devemos saber o momento de 
fechar o punho contra o capital. Por isso exigimos o respeito pelas contribuições 
históricas do anarquismo, enquanto corrente libertária do socialismo, na luta junto ao 
movimentos dos trabalhadores, como no campo do sindicalismo revolucionário e camponês, e 
atualmente com nossa modesta e consequente atuação e contribuição em diferentes campos de 
luta social (agrária, sindical, estudantil, comunitária).
A unidade da luta
Consideramos que a unidade na luta e a organização pela base são os principais caminhos 
para derrotar a máfia dos transportes, construído com a unidade de diversos setores da 
esquerda numa bandeira em comum: a derrota da máfia dos transportes e a luta contra o 
reajuste pela força das ruas. Tendo isso em vista, nós da CAB integramos, construímos e 
respeitamos todos os espaços de deliberação coletiva que organizaram as lutas contra o 
aumento da passagem em diversos estados. Ao contrário da calúnia circulada pelo PSTU sobre 
o anarquismo não somos espontaneístas e tampouco desrespeitamos a disciplina coletiva.
Cabe ressaltar que a luta não pode ser capturada por um partido, domesticada por uma 
legenda, por que a luta é uma tarefa da classe. A luta também não é “apolítica” e 
desorganizada. Porque nela nos formamos, aprendemos com os erros, crescemos e acumulamos 
força para o dia seguinte. Defendemos uma unidade construída sem sectarismos e com 
respeito às diferentes forças da esquerda. Fazer uma luta apartidária é diferente de fazer 
luta anti-partido. Isso significa respeitar as legendas/bandeiras que atuam no interior da 
mobilização popular, unindo as diferentes forças políticas por pautas em comum.

A verdade que incomoda: um movimento que não foi capturado

O que mais incomoda algumas legendas políticas é o fato deste movimento social, que saiu 
as ruas para enfrentar o governo e os patrões, não ter sido capturado por nenhuma 
vanguarda “esclarecida” ou partido político. É propício lembrar que alguns desses partidos 
que hoje condenam do alto de sua arrogância as fraquezas desse movimento 
popular/estudantil diziam algum tempo atrás informalmente por seus militantes “que não 
haviam condições objetivas para se fazer essa luta”. Felizmente eles foram contrariados e 
até mesmo, arrastados pela vontade da luta popular que moveu milhares. Esse movimento, 
apesar de compartilhar muitos princípios comuns ao nosso setor libertário e também com 
táticas de luta da classe trabalhadora não pode ser claramente identificada a nenhuma 
ideologia política apesar de em seu interior conter diferentes ideologias da esquerda. O 
movimento também não surgiu de nenhum partido político, apesar de ter sido construído com 
esforço de muitos militantes de partidos, o que deve ser valorizado. Isso não significa 
que este movimento não tenha problemas. Mas como diria um histórico companheiro da 
esquerda é “melhor dar um passo com mil do que mil passos com um” e vamos seguir 
trabalhando para construir e organizar melhor a luta contra o aumento das passagens junto 
com outros setores políticos sem a pretensão de nos tornarmos “os donos do movimento”.
Temos consciência das inúmeras deficiências e obstáculos que precisamos enfrentar e que 
enfrentaremos dentro dessa luta. No entanto, também temos consciência de nossa 
sinceridade, modéstia e firmeza naquilo que nos propomos. Nos últimos 10 anos temos 
participado em maior ou menor grau de diversas lutas, construções, embates na América 
Latina e no Mundo e, independente das divergências com outras tradições do Socialismo 
exigimos respeito. Estamos juntos e lado a lado na luta pelo Socialismo e pela Liberdade e 
daqui não nos retiraremos. Seguiremos na luta contra o aumento do transporte em diferentes 
Estados à despeito da calúnia da mídia burguesa e de infelizmente, alguns setores políticos.
Derrotar o aumento pela organização popular coletiva/de base e pela força das ruas!!! 
Lutar, criar, poder popular!

Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)
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