(pt) Estamos escrevendo a História! by Khaled - Coletivo Anarquista Bandeira Negra (en)

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Terça-Feira, 18 de Junho de 2013 - 14:13:58 CEST


Carregamos um mundo novo em nossos corações, que cresce a cada momento. Ele está crescendo 
neste instante [...]. Buenaventura Durruti ---- Depois de passar os últimos dias em São 
Paulo, volto a Florianópolis com todos os pensamentos tomados pelo tema que tem 
monopolizado as conversas na cidade: as manifestações do Movimento Passe Livre. Não sei 
exatamente se foi por escolha ou por imposição da vida (talvez um misto dos dois) que 
deixei São Paulo para morar na capital catarinense, mas a verdade é que apesar dos mais de 
5 anos e meio que se passaram, nunca rompi os laços políticos e afetivos que me ligam a 
SP, que se encontram mais fortes do que nunca por conta do momento político que atravessa 
a cidade. ---- Perdoem-me os mais frios e impessoais, mas nunca tive talento para esconder 
as emoções. A verdade é que hoje eu não consigo mais pensar sem usar o coração. Até a 
citação aí acima deve ter soado meio “brega”. Mas aposto que muitos mais além de mim 
também carregam essa mesma emoção.

Na volta para casa fui tomado por um turbilhão de lembranças que me obrigou a escrever 
(sabem como é?). Foi aí que eu comecei a lembrar da primeira reunião em que participei do 
“Passe Livre São Paulo”, na sede da JOC (Juventude Operária Católica), em março de 2005, 
antes mesmo daquele grupo aderir formalmente ao Movimento Passe Livre, o que veio a 
ocorrer entre Junho e Julho daquele mesmo ano, pouco antes do II ENMPL (Encontro Nacional 
do Movimento Passe Livre). Lembrei também daquele tumultuado e fatídico encontro em 
Campinas; em seguida do Seminário “Transporte Público e Passe Livre – pela 
desmercantilização do transporte público”, ainda em outubro daquele ano, quando pela 
primeira vez tivemos contato com o cara que veio pra “mudar tudo”, Lúcio Gregori, que nos 
trouxe a discussão da Tarifa Zero. Depois veio a Semana Nacional de Luta pelo Passe Livre, 
no final do mesmo mês, com atos onde o movimento tinha seus comitês locais e que pra mim 
foi marcado pelas primeiras aparições da Bateria do MPL e pelo lançamento do primeiro e 
único número do Jornal do MPL.

(Um parêntese, vale aqui registrar um e-mail enviado por um dos integrantes da Bateria do 
MPL-SP após aquela primeira jornada de lutas, intitulado “Endemoniados”:
Galera,
O que foi aquilo??? Faíscas saiam dos instrumentos no dia do último ato no centro!!! Nunca 
tocamos tão bem em toda a História!!! A bateria deu um show à parte e as pessoas saiam na 
janela e ficavam sambando ao som dos tambores pegando fogo!!! Tudo deu certo! Foi lindo… 
Parabéns pra nós!!!

(Pedro)

Daí para frente é impossível enumerar tudo o que veio em seguida: a luta contra o aumento 
em 2006, quando pela primeira vez ultrapassamos as centenas e conseguimos reunir os 
primeiros milhares de pessoas nas manifestações que chamamos, e mais muitas e muitas 
atividades. Lembro de como era difícil falar em Tarifa Zero naquela época, éramos 
simplesmente taxados de loucos por todos e foi preciso um grande trabalho de formação, 
elaboração e discussão, com seminários, palestras, e uma infinidade de atividades até que 
a proposta começasse a ser compreendida e minimamente aceita por diferentes setores da 
sociedade, inclusive dentro da própria esquerda.
Nesses mais de 8 anos de movimento, seja em São Paulo ou em Floripa, foram inúmeros os 
momentos decisivos na formação daquele que sou hoje, assim como das pessoas inesquecíveis 
e das grandes amizades que fiz. Foram muitos e muitas as pessoas que passaram pelo 
movimento, as discussões, as polêmicas, as tensões, as crises… Sei que dediquei, junto a 
muitos outros companheiros e companheiras, horas e mais horas de trabalho, atividades e 
reuniões do movimento. Fomos muitos os que dispenderam parte considerável dos seus 
“melhores anos” da juventude nesse movimento, perderam cabelos, ganharam fios brancos e 
alguns quilos a mais. E não foi sempre fácil, pelo contrário, os momentos de “baixa” 
talvez tenham superado os de ascenso do MPL, não foram poucas as dúvidas, nem aqueles 
momentos de descrédito em que sempre ponderamos: “será que vale mesmo a pena?”.

Todo esse esforço coletivo para ampliar não só a organização mas também o aspecto 
ideológico da luta, de convencimento da população sobre a justeza dessa pauta, veio agora 
a se somar à espontaneidade dos milhares que saem hoje às ruas – em São Paulo mas também 
em todo Brasil e em muitas cidades do mundo. E a partir da fusão entre organização e 
espontaneidade, vivemos esse momento riquíssimo de mobilização, de desenvolvimento de 
práticas de ação direta, horizontalidade e autonomia, princípios caros ao movimento. À 
organização do MPL se juntou a coragem e força das milhares de pessoas, das mais diversas, 
que mesmo com toda violência e truculência do Estado têm enfrentado a repressão, os 
processos e toda manipulação da grande mídia, conseguindo balançar São Paulo e ameaçando 
mexer com todo país em um processo de difícil análise e previsão.

***

Se vocês ficassem isolados, se cada um de vocês fosse obrigado a agir por
conta própria, seriam sem dúvida impotentes; mas ao ficarem unidos e
organizarem suas próprias forças – por mais escassas que elas possam ser
no começo – exclusivamente para a ação conjunta, orientados por um
pensamento e uma atitude comum, e pelo esforço para um objetivo comum,
vocês se tornarão invencíveis.
Mikhail Bakunin
Assim chegamos ao momento atual, ápice de toda nossa história, sem dúvida surpreendendo 
todas as expectativas. Chegamos ao centro do cenário da política nacional, ganhando 
destaque e reconhecimento sem precedentes.

Não sei qual será o futuro disso tudo – além de ter certeza de que a revogação do aumento 
em São Paulo virá. De qualquer forma, sei que eu e muitos outros além de mim carregamos 
hoje um orgulho enorme de ter contribuído de alguma forma a escrever essa história. Com 
muita convicção, mesmo nos piores momentos de dúvidas e aflição, carreguei a certeza de 
que nunca me arrependeria disso tudo. Certeza baseada numa aposta, pois quando lutamos 
nunca temos garantia de nada.

A única coisa que consigo pensar agora é: valeu a pena. Estamos escrevendo a História, 
amigos, amigas, companheiros, companheiras, camaradas de luta e de classe.

O que vem daqui pra frente é imprevisível. Mas aprendi que tudo o que fazemos hoje, por 
menor que possa parecer, pode repercutir amanhã, retomando o voluntarismo de Errico Malatesta:

Acreditamos que a revolução é um ato de vontade, vontade dos indivíduos, das massas, 
pensamos que ela exige para ter sucesso certas condições objetivas, mas que não acontece 
fatalmente por fatores econômicos e políticos.
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