(pt) Anarkismo.net: Egito: entre o demônio e o satã by Bruno Lima Rocha (en)

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Segunda-Feira, 29 de Julho de 2013 - 09:53:42 CEST


O Egito caminha a passos largos rumo a uma guerra civil a exemplo do conflito argelino da 
segunda metade dos anos '90. ---- Após o golpe de Estado do Egito de 3 de julho deste ano, 
operado a partir de uma grande insatisfação popular  ou ao menos de parte da população  o 
mundo árabe e islâmico está diante de uma situação limite. É possível a convivência e a 
disputa dentro das regras da democracia participativa por parte de organizações 
integristas? A pergunta é simples, as conseqüências não. Se a resposta for sim, então a 
derrubada do governo eleito, tendo Mohamed Morsi à frente da Irmandade Muçulmana pode ser 
compreendida como fruto da ira dos setores laicos - e dos cristãos coptas diante de 
medidas totalizantes e apressadas do Poder Executivo.

Já a resposta negativa, implica em admitir a impossibilidade de democracia de tipo 
indireto convivendo com legendas religiosas muçulmanas. Assim, o destino seria a 
permanente guerra civil em sociedades onde um partido de tipo integrista (também chamado 
de fundamentalista ou jihadista)  de qualquer versão do Islã  seja forte concorrente para 
ganhar nas urnas.

Nos EUA, a gíria da análise política chama esta situação de o vencedor leva tudo. No caso, 
os estadunidenses assim classificam uma vitória eleitoral. No Mundo Árabe, o levar tudo 
pode implicar fundir o grupo étnico-cultural-religioso com o desenho de Estado e a 
institucionalização possível. Era este o trajeto de Morsi como presidente do Egito, e foi 
esta a causa da revolta popular na Turquia contra Tayyip Erdogan e o governo do AKP 
(Partido da Justiça e Desenvolvimento). Ao imiscuir-se em temas da vida privada e da ordem 
pública mesclada com moralismo, massas de população urbana, com bom nível de estudo e 
valores parcialmente ocidentais se puseram em discórdia com os governos. O integrismo 
turco moderou-se para exercer o poder apesar do exército inspirado na elite kamalista e 
detentor de vastos recursos advindos dos EUA. Já os militares egípcios, cujo comandante em 
chefe, Abdel Fattah al-Sisi até tinha certa simpatia pela Irmandade Muçulmana, são 
dirigidos por veteranos generais dos Acordos de Camp David (portanto, ex-aliados de Anwar 
Sadat e Hosni Mubarak); e, não são e nem nunca foram para nada confiáveis diante de nenhum 
governo civil. A tendência da Irmandade Muçulmana era começar a legislar agressivamente 
contando com a maioria no Parlamento e uma relação orgânica com membros do Judiciário. Na 
medida em que a sharia (interpretação dos códigos de leis e costumes através do Al Corão) 
fosse implantada, o partido de Morsi iria fundindo-se com o novo modelo de Estado. Caso 
esta situação viesse a se consolidar, as forças armadas egípcias perderiam todo o apoio 
advindo dos EUA, e por tabela, os generais ficariam sem suas fontes de recursos 
totalizando USd 1,3 bilhão de dólares por ano.

As forças civis que ocuparam a Praça Tahrir, lideradas pela Tamaroud, puseram milhões nas 
ruas estiveram numa encruzilhada. Fizeram um pacto com o demônio para deter o satã. O 
Exército atual em nada se parece com a força terrestre nasserista de outrora.

Bruno Lima Rocha

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