(pt) Chomsky: “Estou com os manifestantes do Brasil”

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Terça-Feira, 9 de Julho de 2013 - 12:06:25 CEST


Cercado de jornalistas e curiosos de pelo menos 30 países, na noite desta segunda-feira 
(17/6), o linguista e crítico político de renome mundial Avram Noam Chomsky, de 84 anos, 
caminhava lentamente para se retirar da plenária após sua palestra no Forum Global de 
Midia, em Bonn (Alemanha). Estava acompanhado de seguranças e assessores que tentavam 
manter todos afastados e não parecia disposto a responder mais indagações. Em uma fileira 
formada ao lado dele, consegui gritar uma pergunta. Ao ouvir as palavras “Turquia” e 
“Brasil”, Chomsky virou-se para mim, respondendo-a: ---- - Embora sejam protestos 
diferentes e com suas peculiaridades, as manifestações nos dois países são tentativas de o 
povo recuperar a participação nas decisões. É uma forma de ir contra o domínio dos 
interesses de grupos econômicos.

Acho ambos muito importantes e posso dizer que estou com os manifestantes – disse o 
linguista, entusiasta do movimento “Occuppy”, declarando apoio ao movimento que toma as 
ruas de cidades brasileiras e também aos manifestantes turcos.

Ele tem razão ao tentar separar os dois movimentos. Embora semelhanças pareçam gritar 
neste momento, devido ao cunho popular de ambos os protestos, são países de contextos 
socioeconômicos e culturais muito diferentes. Qualquer tentativa de relacioná-los pode ser 
leviana, se nao forem tomadas as devidas ressalvas.

Mas, há, no entanto, uma característica que une brasileiros e turcos neste momento: a 
tentativa de recuperar diferentes formas de liberdade e mostrar que a sociedade civil está 
acordada. Durante seu discurso para cerca de duas mil pessoas, entre jornalistas, 
autoridades europeias e pesquisadores do mundo inteiro reunidos para o fórum que ocorre 
até esta quarta-feira, na pequena cidade de Bonn, Chomsky afirmou que a ocupação da praca 
Taksim é um microcosmo da defesa dos bens comuns.

- Trata-se de um movimento global contra a violêcia que ameaça a liberdade em diferentes 
países. As pessoas estão indo as ruas para defender bens comuns, aqueles que são 
compartilhados dentro das sociedades. O capitalismo baseado na massificação de 
privatizações não compreende a gestão coletiva, aí esta o problema. Os movimentos que 
ocorrem neste momento são legítimos, na tentativa de recuperar a participação popular na 
gestão destes bens.

Para além da dominação econômica

Chomsky discursa para mais de duas mil pessoas. Foto: Camila Nobrega
O discurso de Chomsky esteve centrado principalmente em uma crítica às estratégias de 
desenvolvimento norte-americanas e ao poder das grandes corporações multinacionais 
atualmente. Para o pensador, as privatizações de recursos básicos, alicerces dos regimes 
neoliberais, alteram a relação dos cidadãos com o mundo a sua volta e reduzem também a 
noção de bens comuns.

- Para muitas sociedades, a propriedade privada se tornou aparentemente a única 
possibilidade de divisão de territórios e recursos. Isso está acabando com essa noção do 
que é comum – disse, ampliando a análise para a participação social: – Existe um 
pensamento muito difundido em sistemas politicos e econômicos pautados em ideais liberais 
que defende a manutenção do poder de decisão nas mãos de poucas pessoas, que seriam o 
grupo mais “bem preparado” da sociedade. Os demais seriam apenas espectadores. É contra 
isso que alguns grupos estão lutando.

A base desse pensamento parte de um dado bastante claro que Chomsky trouxe à tona: segundo 
ele, 70% da população norte-americana, por exemplo, não tem qualquer influência sobre a 
política nacional. Ou seja, a maioria da população não tem poder, por exemplo, sobre 
políticas públicas que afetam suas vidas diariamente.

Autor de mais de 70 livros e considerado um dos principais intelectuais vivos atualmente 
(a quantidade de vezes que ele aparece em citacoes bibliograficas nos dias de hoje se 
assemelha a de grandes filósofos, como Platão), Noam Chomsky é, na verdade, um grande 
defensor da capacidade humana de criar e de se libertar de estruturas de dominação. Seus 
pensamentos vieram a público no início da decada de 1960, quando ele fez uma crítica 
aberta a outros linguistas, atacando a noção de behaviorismo, segundo a qual o ser humano 
aprende apenas por imitação. Chomsky defendia, já àquela época, a existência de uma 
capacidade inata do ser humano de se expressar, de diferentes formas.

Ao longo dos anos, ele foi adaptando este pensamento a um contexto político e se tornou um 
dos mais vorazes criticos do sistema politico-econômico e também cultural dos Estados 
Unidos. Nascido na Filadélfia, ele se tornou uma voz dissonante dentro do território 
norte-americano.

Frente a uma plateia composta de pessoas vindas de todo o mundo para a conferência em 
Bonn, mas majoritariamente de europeus, o discurso de Chomsky pareceu soar um pouco 
anacrônico. Foi o que se ouviu nos corredores. Não foi essa a interpretação, porém, de 
participantes vindos de países africanos em desenvolvimento. Não houve também anacronismo 
para os representantes turcos que estão por aqui, ou de outras pessoas vindas da região 
que vive hoje a Primavera Árabe. Para estes grupos, nos quais o Brasil parece se incluir, 
uma fala de Chomsky ecoou:

- O termo democracia pode parecer óbvio para alguns, e aí está a ameaça. Há vários tipos 
de democracia, várias formas de aplicação deste conceito. O que podemos pensar é: este 
tipo de democracia onde a esmagadora maioria da população não tem participação alguma é a 
que queremos?

Não é preciso muito mais para explicar o porquê de os representantes brasileiros, após o 
discurso de Chomsky, terem se sentado à mesa com turcos, sulafricanos e outros 
representantes de países cujos projetos de democracia e desenvolvimento estão sendo 
contestados neste momento. Observando de outro continente as manifestações que estão 
parando cidades brasileiras nos últimos dias, o discurso do linguista não parece nem um 
pouco anacrônico.


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