(pt) Acção Directa #7 - Boletim do Colectivo Libertário de Évora - P4/5 - Noam Chomsky

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Segunda-Feira, 8 de Julho de 2013 - 11:39:30 CEST


Noam Chomsky é um libertário norte-americano, reconhecido internacionalmente pelo seu 
trabalho como linguista e por ser uma voz muito crítica relativamente ao capitalismo e à 
estratégia dos Estados Unidos na sua relação com os países do terceiro mundo. -- Nesta 
entrevista (de que publicamos alguns excertos) à revista anarquista irlandesa “Red and 
Black Revolution”, em Maio de 1995, já depois da queda do muro de Berlim, Chomsky fala do 
anarquismo, do marxismo-leninismo e do capitalismo numa linguagem simples e clara. A 
conclusão a que chega é a de que Bakunine teve razão quando criticou o projecto de 
“socialismo” autoritário de Marx. E os tempos comprovam-no. ---- Sobre o anarquismo, o 
leninismo e o capitalismo.... ---- Noam Chomsky ---- 1.“Fui atraído pelo anarquismo logo a 
partir da adolescência, quando comecei a pensar o mundo para além das coisas pequeninas, e 
desde então não tive muitas razões para corrigir essa atitude inicial.

Penso que, de facto, o que faz sentido é investigar e iden-
tificar as estruturas de autoridade, hierarquia e
domínio, em todos os aspectos da vida, para
depois nos confrontarmos com elas. A menos
que tenham uma justificação são ilegítimas e
deveriam ser desmanteladas de forma a que a
liberdade humana pudesse ser ampliada. Isto
inclui o poder político, a propriedade e a ad-
ministração, as relações entre homens e mu-
lheres, pais e filhos, o nosso controlo sobre o
destino das gerações futuras (o imperativo
moral básico por trás do movimento para o
meio ambiente, segundo penso), e muito
mais. Naturalmente isto significa um desafio
às poderosas instituições de coerção e contro-
lo: o Estado, as inúmeras tiranias privadas
que dominam a maior parte da economia na-
cional e internacional, etc.. e mais do que isto.
Foi tudo isso que sempre entendi ser a essên-
cia do anarquismo: a convicção de que o ónus
da prova deve ser dado pela própria autorida-
de, e que ela deve ser desmantelada se não
conseguir dar uma resposta positiva. É que,
por vezes, essa prova existe. Se eu for dar um
passeio com os meus netos e eles se precipita-
rem para uma rua movimentada, eu usarei não
só da minha autoridade mas também da coer-
ção física para os impedir de atravessarem a
rua. É um exemplo típico. E existem outros
casos; a vida é uma coisa complexa, há mui-
tas coisas que não entendemos sobre o ser
humano e a sociedade, e grandes declarações
são frequentemente fonte de mais sofrimentos
do que de benefícios. Mas penso que a pers-
pectiva é válida e que nos pode levar longe.
(...)

2. A crítica à "democracia" entre os anar-
quistas tem sido frequentemente a crítica à
democracia parlamentar, porque ela surgiu
em sociedades com características profunda-
mente repressivas. Tomemos os EUA por
exemplo, que foram livres desde as suas ori-
gens. A democracia americana foi fundada no
princípio, sublinhado por James Madison na
Convenção Constitucional de 1787, de que a
primeira função do governo é "proteger a
minoria da maioria." Deste modo ele argu-
mentava que na Inglaterra, o único modelo
quase-democrático da época, se fosse dada
palavra à população em geral, nos destinos
públicos, ela implementaria uma reforma
agrária ou outras atrocidades, e que o sistema
americano devia ser cuidadosamente concebi-
do para evitar tais crimes contra "os direitos
da propriedade," os quais devem ser defendi-
dos (de facto, devem prevalecer). A democra-
cia parlamentar dentro deste quadro merece
uma crítica aguda pelos libertários genuínos,
e deixei de fora muitas outras características
que dificilmente se podem considerar subtis -
a escravatura, para mencionar apenas uma, ou
a escravatura do salário que foi amargamente
  condenada por gente trabalhadora que nunca
ouviu falar de anarquismo ou comunismo
durante o século XIX, e para além deste.

Marxismo- Leninismo

3. (...) Se por esquerda é suposto incluir o
"bolchevismo", então eu dissocio-me termi-
nantemente da esquerda. Lenine foi um dos
maiores inimigos do socialismo, na minha
opinião, pelas razões que temos discutido. Os
avisos de Bakunine sobre a "Burocracia Ver-
melha" que instituiria "o pior de todos os
governos despóticos" foram feitos muito an-
tes de Lenine, e eram dirigidos contra os se-
guidores de Marx. Existiam, de facto, segui-
dores de muitos tipos diferentes: Pannekoek,
Luxembourg, Mattick e outros estão muito
distantes de Lenine, e as suas posições con-
vergem frequentemente com elementos do
anarco-sindicalismo. Korsch e outros mani-
festaram simpatia pela revolução em Espa-
nha..Existe uma relação de continuidade entre
Marx e Lenine, mas também existe uma con-
tinuidade mesmo até aos marxistas que eram
severos críticos de Lenine e do bolchevismo.
O trabalho de Teodor Shanin nos últimos
anos sobre as atitudes tardias de Marx em
relação à revolução camponesa também é
relevante. Eu não sou propriamente um estu-
dioso de Marx, e não arriscaria nenhum julga-
mento sério sobre qual destas continuidades
reflecte o "verdadeiro Marx", mesmo que
exista uma resposta a essa questão.(...)

4. O Marx inicial aproxima-se consideravel-
mente do meio em que viveu, e encontram-se
muitas semelhanças com o pensamento que
animou o liberalismo clássico, aspectos do
Iluminismo, e do Romantismo francês e ger-
mânico. Uma vez mais, não sou um grande
estudioso de Marx para pretender dar um
julgamento com opinião autorizada. A minha
impressão, sem qualquer garantia, é que o
Marx inicial era uma figura do Iluminismo
tardio, e o Marx posterior era um activista
altamente autoritário, e um analista crítico do
capitalismo, que tinha pouco a dizer sobre
alternativas socialistas. Mas isto são impres-
sões. (...)

5. A minha reacção ao fim da tirania soviéti-
ca foi semelhante à minha reacção à derrota
de Hitler e Mussolini. Em qualquer dos casos
foi uma vitória do espírito humano. Devia ter
sido particularmente festejada pelos socialis-
tas, uma vez que um grande inimigo do socia-
lismo tinha por fim caído. Tal como você,
fiquei admirado ao ver como as pessoas --
incluindo gente que se tinha considerado anti-
estalinista e anti-leninista -- estavam desmo-
ralizadas pelo colapso da tirania. O que revela
que elas estavam mais profundamente com-
prometidas com o leninismo do que acredita-
vam.

6. Existem, contudo, outras razões a considerar acer-
ca da eliminação deste sistema brutal e tirânico que
tinha tanto de "socialista" como de
"democrático" (lembre-se que ele se reclamava de
ambos, e a última pretensão era ridicularizada no
Ocidente, enquanto a primeira era ansiosamente acei-
te, como uma arma contra o socialismo -- um dos
muitos exemplos do serviço prestado pelos intelectu-
ais do ocidente ao poder). Uma das razões tem a ver
com a natureza da Guerra Fria. Do meu ponto de
vista, isto deveu-se, sobretudo ao caso especial do
"conflito Norte-Sul," para usar um eufemismo que
descreve a conquista europeia da maior parte do
mundo. A Europa Oriental tinha sido o "terceiro
mundo" original e a Guerra Fria desde 1917 não tinha
a mais ligeira semelhança com a resposta às tentati-
vas de prosseguir um caminho independente desenca-
deado por outros países do terceiro mundo, embora,
neste caso, as diferenças de escala tenham dado ao
conflito leste-oeste uma vida própria. Por esta razão,
era razoável esperar que a região voltasse ao seu
estatuto anterior: para algumas zonas do Ocidente,
como a República Checa ou a Polónia Ocidental,
existia a expectativa que se voltasse ao espaço euro-
peu,, enquanto outras reverteriam ao tradicional pa-
pel de prestadora de serviços, com a ex-
Nomenklatura a tornar-se na habitual elite terceiro-
mundista (com a aprovação do poder corporativo-
estatal do Ocidente, que normalmente os prefere às
alternativas). Isto não era uma perspectiva agradável
e levou a muito sofrimento.

Outro motivo de preocupação tem a ver com a intimi-
dação e o não-alinhamento. Apesar de grotesco, o
império soviético pela sua existência oferecia um
certo espaço para o não-alinhamento e, por razões
absolutamente cínicas, por vezes oferecia assistência
às vítimas dos ataques ocidentais. Essas opções aca-
baram, e o Sul sofre agora as consequências.

Uma terceira razão tem a ver com aquilo a que a
imprensa económica denomina de "trabalhadores
ocidentais mal-habituados" com o seu "estilo de vida
luxuoso." Com a maior parte da Europa Oriental a
voltar ao rebanho, o patronato e os gestores têm ar-
mas novas e poderosas contra as classes trabalhado-
ras e os pobres dos seus próprios países. A GM e a
VW podem não só transferir a sua produção para o
México ou para o Brasil (ou pelo menos ameaçar
fazê-lo, o que geralmente vai dar no mesmo), mas
também para a Polónia e Hungria, onde podem en-
contrar trabalhadores experientes e qualificados por
uma fracção do custo. E, compreensivelmente, estão
a regozijar-se com isso, dados os valores vigentes.

Podemos aprender muito sobre o que significou a
Guerra Fria (ou qualquer outro conflito) ao procurar
quem lucrou ou quem ficou prejudicado depois dela
acabar. Por esse critério, nos vencedores da Guerra
Fria incluem-se as elites ocidentais e a ex-
Nomenklatura, agora mais ricos do que alguma vez
sonharam, e nos derrotados inclui-se uma parte subs-
tancial da população do Leste, lado a lado com os
trabalhadores e os pobres do Ocidente, bem como
sectores populares do Sul que procuraram seguir um
caminho independente.

Capitalismo

RBR: Em muitos aspectos a esquerda de hoje encontra-se de regresso ao seu ponto
de partida no final do século XIX. Tal como então, enfrenta agora uma forma de
capitalismo que está em ascensão. Parece mesmo existir um maior "consenso" hoje,
mais do que em qualquer outra altura da História, que o capitalismo é a única forma
válida e possível de organização económica, apesar das desigualdades estarem a
aumentar. Sobre este cenário, pode-se argumentar que a esquerda não está segura
sobre como avançar para o futuro. Como é que vê este período actual? Será uma ques-
tão de "regressar aos princípios"? O esforço deverá concentrar-se hoje em fazer vir ao
de cima a tradição libertária do socialismo para sublinhar as ideias democráticas?

Chomsky: A maior parte disto é propaganda, na minha opinião. O que é designado de
"capitalismo" é basicamente um sistema de mercantilismo corporativo, com enormes
tiranias privadas sem rosto, que exercem um vasto controlo sobre a economia, os siste-
mas políticos, a vida cultural e social, operando em estreita colaboração com os estados
poderosos, que interferem maciçamente na economia nacional e na sociedade internaci-
onal. Isto é verdade também nos EUA, apesar da ilusão de parecer o contrário. Os ricos
e os privilegiados não estão dispostos a enfrentar a disciplina do mercado mais do que
estavam no passado, embora a considerem boa para a população em geral. Só para citar
alguns exemplos ilustrativos, a administração Reagan, que alardeava a retórica do mer-
cado livre, também se vangloriava na comunidade empresarial de ser a mais proteccio-
nista da História norte-americana do pós-guerra -- de facto, mais ainda do que todas as
outras juntas. Newt Gingrich, que lidera a cruzada actual, representa um distrito super-
rico que recebe mais subsídios federais do que qualquer outra região suburbana do país,
fora do próprio sistema federal. Os "conservadores" que, defendem o fim das cantinas
escolares para as crianças carenciadas, pedem também o aumento do orçamento do
Pentágono, que foi estabelecido nos finais dos 1940s na sua forma actual porque --
como a imprensa económica nos informa gentilmente -- a indústria de alta tecnologia
não consegue sobreviver numa "economia de livre iniciativa pura, competitiva e não
subsidiada" e o governo deve ser o seu "salvador." Sem o "salvador," os eleitores de
Gingrich seriam pobre gente trabalhadora (se tivessem sorte). Não existiriam computa-
dores, electrónicas, indústria aeronáutica, metalurgia, automatização, etc., etc., pela
lista abaixo. Entre todas as pessoas, pelo menos os anarquistas não se deviam deixar
levar por estas fraudes tradicionais.

Mais do que nunca, as ideias socialistas libertárias são relevantes, e a população está
muito aberta a elas. Apesar de uma enorme quantidade de propaganda corporativa, fora
dos círculos mais instruídos, as pessoas ainda mantêm muitas das suas atitudes tradicio-
nais. Nos EUA, por exemplo, mais de 80% da população vê o sistema económico como
"inerentemente injusto" e o sistema político como uma fraude, que apenas serve os
"interesses especiais," e não "o povo." Maiorias esmagadoras consideram que as pesso-
as têm muito pouca voz nos assuntos públicos (e o mesmo se passa em Inglaterra), que
o governo tem a responsabilidade de assistir às pessoas em dificuldades, que a despesa
em educação e saúde deveria ter prioridade sobre os cortes nos orçamentos ou nos im-
postos, que as actuais propostas Republicanas no Congresso benificiam os ricos e pre-
judicam a população em geral, e assim sucessivamente. Os intelectuais podem contar
uma história diferente, mas não é muito difícil descobrir os factos.

RBR: Até certo ponto as ideias anarquistas foram demonstradas pelo colapso da União
Soviética -- as previsões de Bakunine provaram estar correctas. Acha que os anarquis-
tas devem tomar a peito estes desenvolvimentos gerais e a perceptibilidade da análise
de Bakunine? Devem os anarquistas olhar para o futuro próximo com maior confiança
nas suas ideias e na sua história?

Chomsky: Eu penso -- pelo menos espero -- que a resposta esteja implícita no que foi
dito acima. Penso que a era actual tem presságios execráveis e , ao mesmo tempo, si-
nais de grande esperança. O que se seguirá depende do que fizermos com as oportuni-
dades que se nos deparam.


More information about the A-infos-pt mailing list