(pt) Anarkismo.net: Os protestos no Brasil e a representação coletiva by Bruno Lima Rocha (en)

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Terça-Feira, 2 de Julho de 2013 - 09:32:41 CEST


Ao mobilizar a população contra uma perda de direitos, o anarquismo se prova em prática 
como forma de acumulação de força social. Eis o exemplo. ---- Síndrome da profecia 
anunciada, os episódios da noite de segunda, 17 de junho, deveriam ter ocorrido no ano de 
2005, no auge do desencanto com o escândalo do Mensalão. No ano seguinte, pouco antes da 
Copa de 2006, tivemos um drops do evento, quando o MLST entrou de forma abrupta no “mui 
nobre e valoroso” Congresso Nacional cujo atual presidente da Câmara Baixa, “não sabe a 
motivação destas pessoas”. Semana passada, quando os protestos pelo direito à mobilidade 
urbana se nacionalizaram após a vitória parcial em Porto Alegre, afirmei nesta publicação 
que tais lutas ultrapassavam o Consenso de Brasília e que materializavam anos de trabalho 
acumulado por agrupações políticas mais à esquerda, catapultadas pelas redes sociais. Não 
deu outra.

A representação coletiva tem duas grandes motivações. A primeira destas é o peso da 
ideologia anarquista. Ao contrário do que se afirma em rede nacional, apesar do silêncio 
de boa parte da grande mídia, o conjunto de idéias que orienta estes atos é de base 
libertária e tem a incidência direta do anarquismo, tanto em sua forma mais difusa como na 
ala orgânica vinculada a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB). É a presença deste 
conjunto de idéias e formas de ação que alimenta o repúdio a presença de bandeiras 
político-eleitorais, mesmo sendo partidos mais à esquerda, como PSTU e PSOL. A tese 
anarquista é simples: fortalecer as entidades de base e as redes de movimentos populares. 
A partir da força destas coletividades, vir a conquistar direitos diminuindo a margem de 
atuação de empresários e governos.

Outra motivação para o repúdio da presença de bandeiras político-eleitorais é a relação 
direta destes com o chamado oportunismo. A paranóia está solta e basta ler a mídia de 
internet mais vinculada ao governo Dilma para ver que circula um discurso de “golpe 
eleitoral” no ar. Uma preocupação mais provável, é que no pleito de 2014, legitimamente, 
surjam candidatos de esquerda tomando como bandeira a participação destes atos. O problema 
– para quem escolhe a via eleitoral - é que a maior parte dos ativistas ocupando as ruas 
de capitais e cidades médias do país repudiam esta forma de capital político. Logo, levar 
bandeiras vermelhas ou amarelas, se associadas a uma sigla eleitoral, é atividade mal 
vista hoje.

Diante deste universo de atitudes políticas, é quase inevitável o ataque a símbolos dos 
poderes constituídos, sejam estatais ou privados. O avanço movimento pode vir a 
solidificar outra forma de fazer política no país.

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A noite da covardia que Porto Alegre jamais esquecerá

Na tarde da 5ª feira 20 de junho combinei de ir com minha namorada, que é fotógrafa e 
jornalista embora trabalhe em área afim da comunicação, ao ato pela redução do Aumento das 
Passagens. Esta concentração e marcha, assim como as anteriores, foi convocada pelo Bloco 
de Luta pelo Transporte Público. Vale observar que embora tenha trajetória militante, nos 
últimos anos dedico-me apenas a chamada militância jornalística, escrevendo para o blog de 
política mais lido do país e sendo colunista dos jornais estaduais de rádios comunitárias 
do Rio Grande do Sul e de São Paulo. Recentemente, escrevo uma coluna fixa de política 
internacional em um respeitado impresso alternativo quinzenal porto-alegrense. Este é o 
primeiro ato que vou, isto porque dou aulas de noite e na tarde de 5ª (20/06/13), uma das 
instituições de nível superior onde trabalho suspendeu as aulas. A intenção era registrar 
a concentração e a marcha com fotos.

Encontramo-nos ao final do dia em frente à Prefeitura de Porto Alegre, em local conhecido 
como Paço Municipal. Lá, sob chuva, vento e frio, já havia cerca de 2000 pessoas, faltando 
mais de uma hora e meia para o início da marcha. O clima era muito, mas muito tranqüilo. A 
multidão, composta em sua maioria de jovens, cantava debaixo de chuva, alternando palavras 
de ordem, cânticos e um bom senso de humor. Até a repressão começar, em função do cerco e 
defesa do perímetro da sede principal do Grupo RBS (na esquina das avenidas Ipiranga com 
Érico Veríssimo), o ambiente lembrava o movimento Fora Collor, ocorrido há 21 anos. Na 
ocasião, em 1992, havia mais festa que luta política, sendo embalada a juventude com a 
cara-pintada de verde e amarelo. Hoje, enquanto o cordão não saía, observei bandeiras do 
Brasil e do Rio Grande do Sul, algumas bandeiras negras e vermelhas, e só. A maioria 
estava em pequenos grupos, com cartazes pintados a mão e escondendo-se debaixo de 
guarda-chuvas.

Por volta de 19 horas, a multidão se divide. A maior parte sai em um cordão subindo a 
Avenida Borges de Medeiros no sentido da Avenida Salgado Filho, enquanto outro menor, onde 
nos encontrávamos, segue pela Júlio de Castilhos, cruza o túnel da Conceição através do 
elevado e termina reencontrando a parcela maior no elevado da Salgado Filho. Já na João 
Pessoa, cruzamos diante de duas sedes municipais partidárias (PT e PMDB), além de um 
Hospital Militar. Vaias tímidas foram a maior “ofensa” a estas legendas. No trajeto, bares 
e mercadinhos abertos, e nada além de palavras de ordem genéricas. Até então não houve 
nenhuma, absolutamente nenhuma cena de violência.

Chegando à esquina da Avenida João Pessoa com a Avenida Ipiranga, no sentido 
bairro-Centro, o cordão parou e algumas pessoas começaram a retornar. A maior parte 
continuou caminhando e com esta seguimos. Ficamos em torno de 25 minutos nos deslocando 
entre a João Pessoa, a Ipiranga e a Rua Lima e Silva. Tentamos ver o que se passava e 
apenas escutávamos o arremesso de bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. 
Contabilizei 62 bombas atiradas pela Brigada Militar. No caminho do retorno, andando com 
calma, pude conversar com 12 pessoas que estavam na Ipiranga e puderam ao menos observar 
as linhas de defesa da BM. Todos respiravam mal, cheios de gás lacrimogêneo e spray de 
pimenta marcando seus rostos. O relato foi comum: “a gente estava lá, apenas caminhando, e 
de repente começou a chover bomba e mais bomba!” Foi exatamente isso o que ocorreu.

A partir deste momento, casais e grupos de amigos começavam a voltar enquanto alguns 
jovens se revoltavam e partiam no rumo da Avenida Ipiranga. Toda a violência dos 
manifestantes, todas as agências de banco quebradas e demais aparelhos urbanos danificados 
são conseqüência da ira popular após a covardia exercida pela BM, a mando do governo do 
estado e em defesa do capital simbólico do Grupo RBS. Toda a responsabilidade por esta 
revolta e violência deve ser atribuída ao governo estadual, sua polícia ostensiva e a 
empresa líder de comunicação no estado. Até o momento em que o cordão chegou a duas 
quadras de distância da RBS nada havia acontecido, e provavelmente nada aconteceria, além 
de uma bela marcha de protesto motivada pelo exercício direto dos direitos. O detalhe é 
que o trajeto da manifestação foi amplamente divulgada, informação esta transmitida em um 
debate na Rádio Guaíba no início da tarde desta 5ª.

Os atos da noite de 20 de junho ultrapassaram o total de 1 milhão e meio de pessoas, 
incluindo mais de 100 cidades brasileiras. Em Porto Alegre, o dispositivo de policiamento 
ostensivo da BM totalizou cerca de 850 homens, segundo a mídia comercial. Trata-se do 
maior contingente em cinco anos. Desde o auge da repressão durante o governo de Yeda 
Crusius (PSDB, 2007-2010) não havia tanta tropa na rua. Os alvos de então eram políticos 
assim como são hoje. A meta era reprimir o movimento popular e esta se mantém intacta. Na 
eleição de 2010, o advogado Tarso Genro ganhou no primeiro turno pela rejeição ao governo 
passado. Agora, o ex-militante do PRC opera por dentro do governo sub-nacional e joga para 
a torcida de dia, convocando um debate com movimentos sociais e blogueiros através do 
Gabinete Digital. De noite, subordina seu governo aos interesses e defesa “moral” do 
patrimônio do Grupo RBS.

Venho afirmando que o Poder Executivo do estado rio-grandense e do município de Porto 
Alegre comporta-se como refém e serviçal do grupo de comunicação que lidera o oligopólio 
estadual. Na noite desta 5ª feira, 20 de junho, todo o Rio Grande do Sul teve a prova 
cabal desta análise.
Bruno Lima Rocha

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