(pt) Brazil, São Paulo, Rizoma: apresentação (en)

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Sábado, 26 de Janeiro de 2013 - 16:18:37 CET


Na botânica, o termo Rizoma se refere ao caule polimorfo capaz de dar origem a diferentes 
ramos – floríferos, folíferos ou raízes –, normalmente situado abaixo da terra e dotado de 
crescimento horizontal. Em 1980, no livro Mil Platôs, Giles Deleuze e Félix Guattari se 
apropriaram do rizoma botânico para corporificar um sistema filosófico desprovido de 
raízes fundamentais, que se articula como rede integrada em que todos os elos ao mesmo 
tempo sustentam e derivam dos demais. Abordagem complexa e inovadora, o rizoma preocupa-se 
em delinear multiplicidades no nosso mundo, em mensurar as linhas subterrâneas que as 
perpassam, defini-las por estratos e segmentaridades, por associações e por conflitos. 
Abre, o rizoma, a possibilidade de se perseguir o traço que necessariamente se conecta a 
outros traços – o lócus onde tudo está em relação com tudo: “um rizoma não cessaria de 
conectar cadeias semióticas, organizações de poder, ocorrências que remetem às artes, às 
ciências, às lutas sociais.”.

Outros pensadores endossam a inteligibilidade do rizoma. E dentre esses o mais conhecido é 
Michel Foucault.

Igualmente atento as multiplicidades, Foucault estudará os conflitos e associações entre 
as forças sociais, as assimetrias de potência e de estratégias entre elas, os embates 
históricos e espaciais pelo exercício do poder. No livro Vigiar e Punir, de 1975, Foucault 
demonstrará como o poder nunca é exercido por uma força única e estritamente repressora. O 
poder envereda-se por vários grupos distintos, mediante uma série de diferentes 
dispositivos e mecanismos, ordenando os corpos, criando prazeres, exorcizando as almas, 
produzindo riquezas.

Caso articulemos o rizoma de Deleuze e Guatari ao poder de Foucault numa análise de nosso 
próprio tempo e espaço, a apreensão de traços ocultos (ou melhor, ocultados) de nossa 
sociedade torna-se possível.
Em São Paulo atual, a partir desse prisma, nota-se de imediato que existe um estrato 
social bastante discernível e seleto que exerce e legitima o poder. São alguns grupos 
especializados e dinâmicos, e que existem em recíproca associação: os governantes 
executivos do estado, as chefias legislativas e burocráticas, grupos de juízes, 
desembargadores e promotores do judiciário, investidores e especuladores de grandes 
fundações e empresas, pesquisadores e cientistas alinhados aos interesses da acumulação, 
setores midiáticos conservadores, as altas patentes militares – o exercício do poder fia o 
tecido subterrâneo que os associa.

Efetivamente, poucos lugares reproduzem de maneira tão completa essa associação como a 
Universidade de São Paulo: os altos cargos burocráticos da reitoria são nominados pelo 
governo do estado do PSDB; juntos, ambos advogam a submissão do amparo à pesquisa a 
critérios mercadológicos, ao mesmo tempo em que impõem padrões empresarias de produção e 
convívio acadêmico; professores titulares tecnicistas garantem a perpetuação desse projeto 
nos seletos conselhos universitários; o desenvolvimento dessa universidade – empresarial e 
capitalizada – induz a presença de muros, fardas e armas, sempre legítimas para algum juiz 
da ordem e do patrimônio; setores conservadores da mídia veiculam esse projeto como 
“inovador” e “modernizador”; empresas prestadoras de serviços terceirizados à universidade 
(como a União e a BKM), fundações privadas com sedes no campus (como a FIA e a FIP), e 
grandes empresas beneficiadas com a pesquisa mercadológica (como a Volkswagen e a Bayern) 
apóiam institucional e financeiramente a perpetuação da reitoria e dos gestores do estado, 
terminando o circuito.

Embora a USP seja talvez o mais perfeito exemplo de oligopolio empresarial e 
institucional, tal padrão de associação existe em todo tecido social na contemporaniedade, 
percorrendo outras universidades, juízes, burocratas, empresas, bancos, polícias, governantes…

A mobilização estudantil nos últimos anos, realizada tanto na USP como em várias outras 
universidades brasileiras, desafia concretamente esses circuitos oligárquicos, uma vez que 
os exclui do espaço universitário, opondo a seus padrões empresariais e a seus saberes de 
mercado a solidariedade da auto-gestão e a liberdade de criação que só o convívio 
horizontal pode possibilitar.

É essa oposição concreta que motiva as prisões e os processos criminais, as expulsões, as 
demissões, as difamações difundidas pelos latifundiários da informação, as agressões nos 
nossos espaços de convívio.
É, todavia, também por causa dessa oposição que um outro circuito de associação entre 
gurpos se ramifica subterrâneamente, em oposição ao estrato social oligárquico por se 
realizar no exercício e na reflexão de práticas de resistência – e não na reafirmação das 
relações de dominação.

Em outras palavras, se há ramos que percorrem o gabinete do governador, passam pela mesa 
do reitor e alcançam a salinha do delegado, existem também ramos que podem vir a integrar 
os alvos dessa dominação nas práticas de resistência, renovando-lhes as possibilidades de 
um modo de vida mais autônomo e mais justo. Os estudantes mobilizados das mais diversas 
universidades, os funcionários e os operários combativos, os intelectuais realmente 
críticos, grupos de juízes democráticos, entidades sindicais e estudantis não aparelhadas, 
grupos partidários externos ao Estado e ao teatro democrático, meios de comunicação 
livres, movimentos sociais que reivindicam moradia, terra ou trabalho – esses grupos 
dividem o peso das opressões impostas pelas elites, ao mesmo tempo em que se unem nas 
perspectivas de um futuro melhor.

Analisando o exercício do poder em nossa sociedade atual pela ótica do rizoma, assim, 
percebe-se que múltiplas forças sociais compõem dois conjuntos maiores que existem em 
conflito: de um lado, o circuito oligopolista que elabora os critérios para se discernir o 
que se pode e o que não se pode fazer, que possui a legitimidade para internar e 
encarcerar, que se apropria dos espaços e do trabalho coletivo em nome de valores como 
“democracia” e “ordem”; e do outro lado o círculo da resistência, mais volátil e 
constantemente ameaçado, que se expressa de diferentes formas para garantir autonomias 
básicas, para assegurar seus espaços de convívio e confraternização, para dar sobrevida a 
suas tradições de arte, de produção, de conduta.

É evidente que a relação entre esses dois pólos maiores é complexa e multiforme, e em 
ultima instância depende das associações e dos conflitos menores que cada multiplicidade 
social desenvolve com as demais. É evidente também que esses dois conjuntos não 
correspondem a totalidade da sociedade: entre eles se situam outras diversas 
multiplicidades sociais, que oscilam entre os dois pólos e jamais podem julgar-se neutras.

Todavia, parece inegável também que nos últimos anos essa polarização só se fez aumentar, 
e conflitos como em Pinheirinho são exemplos reais das novas tendências de radicalização 
que se abrem.

Nesse processo de radicalização que prenuncia mudanças sociais, os estudantes libertários 
podem e devem aparecer como agentes sociais relevantes. Podem porque detém o privilégio de 
desfrutar de uma formação com potencial de crítica a nossa sociedade, além de estarem 
livres de parte das coações que inibem e domesticam a maior parte do povo. E devem porque 
é fundamental para o tempo de hoje que grupos pensem e experimentem novos modos de vida 
coletiva, tornando assim mais aguda a oposição aos modelos consumistas e artificiais que 
ainda nos dominam. Em suma, os estudantes autônomos e libertários podem contribuir 
socialmente criando possibilidades – mesmo que encerradas numa curta duração – de ruptura 
com as tradicionais cadeias de hierarquia, de superação dos espetáculos e das simulações 
do capitalismo, estimulando a autogestão e a cooperação, valorizando concepções não 
mercadológicas da arte, do espaço, da vida.

É diante dessas perspectivas que nos organizamos na USP: para solidificar uma tendência 
libertária e horizontal entre os estudantes, que transcenda as tradicionais expressões 
partidárias da esquerda e sugira novas possibilidades de criação e reflexão frente a um 
conflito cada vez mais tenso. Um coletivo estudantil que rompa com as noções de vanguarda 
para erigir as bandeiras de autogestão, de democracia direta, de formação coletiva 
teórica, de emancipação dos espaços públicos. Um grupo ativo, um grupo libertário, um 
grupo de estudantes.


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