(pt) Uma organização nacional de anarquistas revolucionários nos Estados Unidos? (ca, en)

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Sexta-Feira, 11 de Janeiro de 2013 - 16:32:36 CET


Artigo do membro da ‘Rochester Red & Black and Common Struggle’ evidenciando a importância 
de uma organização anarquista, unitária e classista, a ser proposta numa conferência em 
fevereiro de 2013, com foco na potencial formação de tal grupo. ---- Já se passaram mais 
de 150 anos de tradição teórica e organizativa do anarquismo; porém, é quase inexistente a 
influência anarquista nos Estados Unidos da América (EUA). Em alguns contextos locais, até 
podemos ver uma influência ocasional. Mas a presença anarquista no quadro nacional é 
praticamente irrelevante. ---- Há alguns anos, vem acontecendo uma conversa de preparação 
entre alguns anarquistas. Uma discussão que avançou especificamente num grupo de 
organizações que se uniram, em anos recentes, durante as conferências ‘Luta de Classes 
Anarquista’ [‘Class Struggle Anarchist Conferences’].

Desde a primeira delas, realizada na cidade de Nova Iorque, em 2008, está cada vez mais 
claro que estas diferentes organizações apresentam um alto grau de concordância, podendo 
se fortalecer com uma unificação por meio de uma organização anarquista nacional.

Antecipando-se a uma futura conferência dos agrupamentos que desejam fundar esta 
organização nacional unitária, este artigo é um esforço para reunir os muitos argumentos 
para explicar por que esta organização é desejável. Além disso, espero mostrar as 
inspiradoras possibilidades de tal organização para o movimento anarquista mais amplo.
Por que uma organização anarquista em primeiro lugar?

Já existe uma extensa literatura sobre a questão dos grupos anarquistas específicos e seu 
papel como organizações revolucionárias. Para aqueles não familiarizados com o tema, a 
maioria das organizações já envolvidas neste processo são explicitamente influenciadas por 
tradições plataformistas, sindicalistas, especifistas e de organizacionismo dual. Tais 
referências reforçam a importância de os anarquistas se organizarem especificamente como 
anarquistas, a fim de propagar a influência e o entendimento de nossas ideias 
revolucionárias em movimentos com ampla base social.

Visto que muitos anarquistas nos EUA estão cada vez mais influenciados por estas 
tradições, gostaria de focar especificamente no valor de uma organização anarquista – 
unificada, nacional e revolucionária.

Propaganda de massa

Uma organização com centenas de membros espalhados pelo país é capaz de difundir as ideias 
libertárias numa escala maior do que temos visto há décadas no movimento anarquista. 
Poderíamos administrar e manter jornais radicais, em escala nacional ou regional (tais 
como ‘Freedom/Libertad’ e ‘Four Star Digest’); além de uma produção teórica mais intensiva 
(como de ‘Ideas & Action’ e ‘Northeastern Anarchist’). E o mais importante: com os 
conhecimentos dos anarquistas que trabalham com mídia, poderíamos certamente investir na 
criação de conteúdo audiovisual de alta qualidade, direcionando-os a um amplo quadro de 
organizações radicais já em atividade.

E, além de simplesmente produzir material de mídia em maior escala e com maior 
intensidade, também podemos criar espaços para debate de ideias, táticas e estratégias 
dentro do movimento anarquista. Algo que nos ajude a unificar e coordenar nossos esforços.
Solidariedade em escala

Quando anarquistas organizados do país se deparam com a repressão do Estado ou das chefias 
(ou estão engajados em campanhas importantes ou particularmente difíceis), a habilidade de 
coordenar a solidariedade nacional de modo unificado pode ser estratégica. Auxílios 
financeiros ou fundos legais podem ser imediatamente repassados pela tesouraria de uma 
organização nacional, composta por centenas de membros que contribuam regularmente. Ou, 
quando ocorresse uma luta de alcance nacional ou internacional, os integrantes da 
organização poderiam coordenar os esforços de solidariedade por todo o país. E naqueles 
momentos de efervescência da luta social, anarquistas organizados de todos os cantos do 
território poderiam ser enviados a participar da organização junto às bases.

Construir seções locais

O mais difícil para uma organização é a tarefa real de criar um grupo de baixo para cima, 
desenvolvendo as habilidades de seus membros, definindo o trabalho efetivo que cada grupo 
deve fazer (sendo bem sucedido) e batalhando para que todo o esforço seja sustentável o 
bastante para que não se dissolva em poucos anos. Muitas organizações anarquistas do país 
começaram justamente a partir de membros de outras organizações que se mudaram para uma 
nova cidade a fim de iniciar grupos semelhantes aos quais eles pertenciam.

Por que não desenvolver a capacidade de ajudar as pessoas a fundarem seções locais; 
treinar algumas delas em ferramentas básicas de organização; fornecer-lhes uma literatura 
radical para ser usada em suas próprias cidades; e apoiá-las diante dos desafios que 
inevitavelmente surgirão? Por que não considerar estrategicamente onde poderíamos 
concentrar nossos meios e energias, a fim de criar seções locais, ao invés de ter um 
movimento anarquista crescendo mais ou menos por acaso?

Muitos militantes libertários têm escrito livros ou desenvolvido apresentações 
inspiradoras, além de realizar palestras itinerantes. Vamos potencializar essas turnês, 
fornecendo ferramentas aos seus promotores para que eles possam recrutar pessoas dispostas 
a se organizar em seus locais (mesmo depois de o palestrante ter ido embora). Por que não 
ter ferramentas de alcance nacional para nos ajudar a manter o contato com simpatizantes 
em cidades onde talvez não estejamos, no momento, aptos a fundar seções locais – mas que 
possamos fazê-lo futuramente?

Abrir-se a vários níveis de participação

Um dos motivos que mantém o movimento anarquista tão pequeno e bastante homogêneo é o fato 
de que nós exigimos que todos os participantes se tornem imediatamente pensadores e 
organizadores de alto nível. Para a maioria das pessoas – particularmente as mais afetadas 
pelas desastrosas consequências do Estado e do capitalismo – a organização constante é 
simplesmente impossível. Já uma organização eficaz seria capaz de acomodar vários níveis 
de envolvimento, tornando fácil para seus membros se moverem organicamente por eles. Uma 
organização nacional unitária permitiria que integrantes se juntassem sem exigir que se 
tornassem organizadores tão eficazes e comprometidos, ou que tivessem de formar seções 
imediatamente. Por outro lado, uma entidade desse tipo pode garantir que qualquer nível de 
compromisso tenha um impacto positivo. Isto é particularmente importante para os 
anarquistas em pequenas cidades ou áreas rurais, que não estão tão próximos de outros 
revolucionários.

Estabelecendo pontes entre o campo e a cidade

Uma revolução de fato pode acontecer apenas com a organização nas cidades? O movimento 
anarquista pode realmente ter impacto sobre as questões rurais se formos incapazes de 
apoiar os anarquistas mais isolados do campo? Se falamos em organizar o não-organizado e 
construir movimentos de trabalhadores militantes, como nossos movimentos podem continuar 
perdendo diversas oportunidades de atuar junto a militantes já organizados em comunidades 
de imigrantes e de trabalhadores rurais?

Quando há uma opção para anarquistas, isolados em comunidades rurais, de se juntarem a uma 
organização nacional, não devem apenas se conectar a organizadores anarquistas das cidades 
próximas, mas também com outros anarquistas trabalhando em comunidades rurais por todo o país.

Política e organização de impacto em escala nacional

Muitas questões com as quais lidamos são nacionais. Embora não sejamos nacionalistas, 
vivemos numa realidade política em que muitas políticas são decididas em nível nacional. 
As manifestações contra as invasões dos EUA, por exemplo, requerem uma oposição organizada 
nacionalmente. Para que os anarquistas tenham um impacto sobre as estratégias e táticas de 
amplas organizações antiguerra – que trabalham em escala nacional – eles devem também 
estar coordenados nacionalmente. Ao invés de ver isso acontecer acidentalmente, por meio 
de redes de amigos, por que não fazer isso propositivamente sobre uma base ideológica e 
estratégica?

O mesmo pode ser dito em relação à maioria de nossos sindicatos. Nós frequentemente 
reclamamos que as atividades de trabalhadores dentro dos maiores sindicatos do país não 
correspondem à nossa orientação política ou estratégica. Bem, por que eles o fariam? Temos 
capacidade zero para coordenar as atividades de revolucionários na base destas 
organizações. Não somos capazes de, estrategicamente, orientar nossos esforços a qualquer 
sindicato maior do que os IWW [Industrial Workers of the World] – e mesmo lá os 
anarquistas revolucionários podem não conseguir uma influência coordenada. Acreditar que 
teremos um impacto efetivo na direção do movimento sindical, sem ter uma organização 
nacional de anarquistas, é fantasiar sobre tal possibilidade – em vez de se organizar para 
conseguir isso.

Capacidade para uma efetiva mobilização de massas

No caso em que os anarquistas do todo o país buscam instigar uma luta mais do que 
influenciar a direção de uma organização maior, poderíamos de fato decidir juntos sobre 
estratégias e táticas, além da mobilização de massas, numa escala regional ou nacional. O 
fato de sermos capazes de transformar centenas, ou até milhares, sem ter que depender de 
organizações liberais ou progessistas, poderia permitir que os anarquistas influenciassem 
a narrativa político-econômica de um modo proposital e estratégico. Ter a capacidade de 
defender nossas questões como anarquistas iria nos poupar de continuar nas tentativas de 
radicalizar posições liberais.

Honestamente, em muitos aspectos nossa habilidade de mobilizar, sem apoio financeiro, é a 
chave para legitimar nossas perspectivas e táticas nas lutas por justiça social. Podemos 
estrategicamente decidir sobre as formas de empreender a ação direta como um método-chave 
de luta social local, regional e nacional.

Internacionalismo; não nacionalismo

Não acreditamos em nações. Então, por que uma organização nacional e não uma continental? 
A resposta imediata é: vivemos numa realidade política de nações. Política, economia e 
relações internacionais emergem eminentemente de um nível nacional. Reconhecer isso e se 
organizar por tais bases não significa que somos nacionalistas; significa que estamos nos 
organizando baseados numa realidade compartilhada. A Federação de Anarco-Comunistas da 
Argentina, a Federação Anarquista do Uruguai ou o Worker Solidarity da Irlanda não são 
organizações nacionalistas.

Devemos construir, daqui em diante, um movimento anarquista internacionalmente coordenado. 
Parte do que os anarquistas dos EUA podem fazer é erguer uma organização forte que possa 
se confederar com organizações aliadas ao redor do mundo.
Nosso momento é agora!

O contexto econômico dos EUA está mudando drasticamente, e isso tem um impacto político. 
Precisamos tirar vantagem desse atual contexto, pois não acontece com frequência. Perder 
essa oportunidade pode significar travar a evolução do movimento anarquista estadunidense. 
Com a economia do país implodindo lentamente, a concentração de riqueza tornando-se cada 
vez mais óbvia e a rede de segurança social sendo destruída, torna-se claro para milhões 
que o status quo não pode se manter, e que a mudança drástica é necessária. Seremos tolos 
se pensarmos que capitalistas, fascistas, comunistas autoritários e outros não se 
organizarão de forma maciça e coordenada para aproveitar o momento e manipular milhões de 
pessoas para lutar contra seus próprios interesses. Se não fizermos da organização 
anarquista em escala nacional uma prioridade, estaremos efetivamente entregando o jogo 
para outras forças.

Em vez disso, vamos encarar os desafios como uma oportunidade para construir e legitimar, 
para milhões de pessoas, nossas visões a respeito de uma sociedade anarquista 
revolucionária. Nos próximos meses, espero anunciar a criação de um programa nacional de 
uma organização anarquista revolucionária estadunidense. Vamos empreender essa tarefa 
rapidamente, e com força para mostrar que nossas ideias não são apenas ideias, mas um 
inspirado roteiro da luta de massas para um mundo verdadeiramente livre e igualitário.

Colin O

Tradução: JH Oliveira

Related Link: http://redandblack.rocus.org/


More information about the A-infos-pt mailing list