(pt) Anarkismo.net: Venezuela à beira de um ataque de nervos by Bruno Lima Rocha (en)

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Sexta-Feira, 11 de Janeiro de 2013 - 15:48:57 CET


Hugo Chávez em delicado estado de saúde condiciona toda a sociedade venezuelana ---- Em 
janeiro de 2009 publiquei aqui mesmo dois textos a respeito da experiência venezuelana, 
obtida estando naquele país e percorrendo o processo social intenso de Caracas e sua 
região metropolitana. As transformações recentes são visíveis. Até o final da década de 
1990, a juventude do país se auto-denominava “masca chicle”, sendo sua matriz cultural 
Miami (Florida). Na virada do século XXI, a liturgia política passava pelo libertador 
Simon Bolívar e seus contemporâneos, como Sucre e Boves. Ou seja, milhões de pessoas 
começavam a sentir-se cidadãs enquanto fundiam simbolicamente o movimento bolivariano com 
o chavismo. E aí reside o problema de longo prazo.

No curto prazo, não havia sintoma de “problemas”, já que Chávez aparentava saúde forte e 
com popularidade crescente, ganhando eleições e referendos consecutivos (à exceção de um). 
Na ocasião, me impressionaram as estatísticas favoráveis ao governo de Hugo Chávez na 
promoção dos benefícios da modernidade tardia, tais como missões de saúde, educação 
(básica, de adultos, técnica e superior), moradia e transporte público (implantando 
teleféricos em áreas de favela). Já na questão de ingresso e renda, o processo (como 
também são chamados os quase quinze anos de chavismo) ainda patina. O mesmo ocorre na 
produção primária e em setores sensíveis como medicamentos e química fina para além da 
indústria petrolífera, especialidade deles.

A impressão positiva em proporcionar uma real melhoria na qualidade de vida de gente 
“acostumada” a naturalizar a desigualdade e a corrupção estrutural, vinha na contramão de 
novas práticas políticas organizadas. Como vemos no Brasil, é menos improvável promover 
ingresso e condições sociais do que transformar uma cultura política. Hoje, os 
venezuelanos pagam o preço por haverem sido mais chavistas do que bolivarianos, por não 
estruturarem um sólido partido político e por entreverar o movimento popular com alguma 
subordinação para as hierarquias transitórias de governo.

O impasse é visível. Qualquer conhecedor da Venezuela sabe que as maiorias não vão aceitar 
retroceder às condições anteriores, quando o pacto oligárquico concentrava mais de 80% do 
PIB em menos de 20% da população. Ao mesmo tempo, é impossível supor um processo de 
transformação social no longo prazo dependendo de uma liderança carismática e seus 
seguidores, aliás, rivais entre si. Ainda que venham a ocorrer novas eleições 
presidenciais, é possível que o vencedor na urna não ratifique institucionalmente a vitória.
Bruno Lima Rocha

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