(pt) Apoio Mútuo - Revista anarco­sindicalista #2 - Sobre uma visita

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Sábado, 23 de Fevereiro de 2013 - 14:27:56 CET


No próprio dia em que Merkel vi­sitava Portugal, Álvaro Santos Pereira, ministro da 
Economia, foi peremptório: tudo o que a burguesia portuguesa faz, fá­lo para o seu próprio 
bem, não por desejar ser a «boa aluna» das burguesias estrangeiras. Não deve­mos esquecer 
que foi a pressão da Ban­ca portuguesa que levou à vinda da Troika, que uma parte muito 
considerá­vel do empréstimo destina­se a recapi­talizá­la e que uma bancarrota do Esta­do 
atirá­la­ia imediatamente para a in­solvência. A Alemanha insere­se nesta lógica na medida 
em que os bancos ale­mães emprestaram muito dinheiro aos da Europa do Sul, traduzindo­se este
último em crédito barato para financiar bolhas imobiliárias e um endividamento crescente 
nestes países. A haver fa­lências, os seus congéneres alemães, já de si fragilizados pelo 
crash financeiro de 2008, seriam afectados de uma for­ma muito dura.

De igual modo, a maior
parte da dívida pública portuguesa e
grega encontra­se nas mãos de fundos
estrangeiros e estima­se que um default
(incumprimento) grego seja quanto
baste para levar os mercados financei­-
ros europeus ao colapso. Merkel sabe
que tem de ser cautelosa com o uso que
dá aos seus superavits (excedentes) or-­
çamentais. Ainda pode carecer deles
para socorrer a sua própria banca.

Apesar de aludir frequentemente a
um «descontrolo orçamental» que pode
parecer desconcertante aos olhos de
pessoas como nós, que viram os orça­-
mentos de austeridade a sucederem­se
uns aos outros desde há anos a esta
parte, a classe política alemã compreen­-
de muito bem que, se a única forma de
obter orçamentos equilibrados consiste
em impor aos Estados grego e portu­-
guês uma dieta que raia a greve de fo­-
me, os défices voltarão a crescer assim
que esses Estados regressarem a um
funcionamento normal. Por isso Frau
Merkel, Herr Schäube, o seu colega das
finanças e Herr Weidemannn, do Bun­-
desbank, personagem que só parece
sair da obscuridade e abrir a boca para
cravar mais um prego no caixão dos
gregos, resistem tanto a perdões parci­-
ais da dívida grega e insistem em medi­-
das estruturais que significam na práti­-
ca pelo menos o fim do Estado Social
nesses países.

Existe consonância entre Passos e
Merkel porque a forma como a última
espera conseguir combater a crise da
dívida que ameaça o Euro, é idêntica ao
que o primeiro planeou para combater a
crise que ameaça a burguesia portugue­-
sa desde a entrada no Euro e, ainda que
tudo isto possa ser contraproducente do
ponto de vista restrito do défice, é ne­-
cessário para relançar a acumulação ca­-
pitalista em Portugal, mesmo que, como
em qualquer outra crise, muitos capita­-
listas tenham que ficar pelo caminho.
Quanto ao défice, e ainda que o «Pe­-
dro», o Gaspar e os seus amigos nunca
nos venham interromper o jantar para o
dizer, tudo o que resta aos decisores
políticos é aguardar que a austeridade
continue a falhar e a burguesia alemã
aceda finalmente a fazer a sua parte e
partilhar a factura dos «choques assi­-
métricos» da globalização com os seus
depauperados vizinhos do Sul, mas
Merkel está tão determinada a empur-­
rar os problemas com a barriga quanto
os nossos amáveis governantes e, ape­-
sar dos malabarismos numéricos de
Gaspar, das datas salvíficas sucessiva­-
mente adiadas e das «visitas que valem
mais do que qualquer manifestação», é
líquido e certo que o Estado português,
a braços com um serviço da dívida de
nove mil milhões de Euros por ano, só
vai escapar da bancarrota à custa de
declarar uma série de bancarrotazinhas.
JT
12 de Novembro

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