(pt) História do anarquismo, Élisée Reclus e a concepção de Estado: elementos de uma crítica multideterminante by João Gabriel da Fonseca Mateus - Movimento Autogestionário

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Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2013 - 16:03:16 CET


Estado, Élisée Reclus, anarquismo, multideterminações ---- Este breve texto visa analisar, 
principalmente, a concepção de Estado para Élisée Reclus. Seu pensamento não é fragmentado 
e determinista; ele analisa o Estado através da compreensão da sociedade enquanto uma 
totalidade, ou seja, liga o Estado ao capitalismo e todas suas instituições. O militante 
anarquista foi espectro de estudos de diversas áreas do conhecimento, sobretudo da 
Geografia. Sendo assim, é considerado como um dos principais teóricos do anarquismo ao 
lado de Mikhail Bakunin, Pierre Joseph-Proudhon, Louise Michel, Piotr Kropotkin, Errico 
Malatesta, Cafiero, entre outros. O anarquista francês foi militante na AIT de 1864 e na 
Comuna de Paris de 1871 e influenciou além dos movimentos operários, o ambiente 
escolar-acadêmico através de sua metodologia, a educação para o ensino de geografia, além 
de dar um enfoque finalista: a destruição do capitalismo e do Estado.

Analisar o Estado para um anarquista nada mais é do que exercitar duas faculdades 
preciosas do ser humano: “a faculdade de pensar e a necessidade de se revoltar” (BAKUNIN, 
2011, p. 38). É caminhando nesse âmago, conforme apontou Mikhail Bakunin, através dessas 
duas necessidades que buscarei objetivar a necessidade deste texto. Torna-se importante 
salientar que ao longo das páginas abaixo que constituem este texto, procuro buscar um 
referencial eminentemente anarquista e revolucionário, com a preocupação de propor (além 
do que poderia trazer academicamente) uma militância libertária.

A preocupação com o Estado é algo recorrente no anarquismo e constitui um dos pilares da 
luta contra a sociedade de classes e o capitalismo. Nesse texto, proponho através de uma 
investigação na obra de Élisée Reclus, expor a sua concepção de Estado trazendo a 
necessidade do leitor fazer reflexões, (re) significações da atual crítica do Estado 
através de múltiplas perspectivas e contribuir com um objetivo final e comum: a dissolução 
das atuais relações sociais marcadas pela existência de classes sociais e do capital.

Por diversos momentos as obras de Élisée Reclus foram relegadas apenas aos cantos de 
prateleiras da ciência da Geografia. Tal pertencimento se deve menos à sua profundidade 
intelectual que desenvolveu no campo dessa ciência do que as intenções dos próprios 
geógrafos e seus intérpretes na tentativa de colocá-lo como um intelectual apolítico ou 
ainda, esconder a forma como Reclus pensava e interpretava o mundo. Fato não consumado. O 
reconhecimento científico que Reclus obteve foi muito bom para sua saída da prisão e para 
cessar temporariamente suas perseguições políticas, conforme nos aponta Paul Boino (2010c, 
p. 10). Reclus foi convidado para ser professor na Bélgica, no entanto, sofreu resistência 
por parte da instituição que o proibiu de lecionar, o que fez com que vários outros 
professores deixassem essa Universidade, fundando a Universidade Livre de Bruxelas, no 
qual Reclus será professor apenas em 1905.

Obviamente que tal prerrogativa não conseguiu um pertencimento unitário pelo simples 
motivo que a “militância” ou o “pertencimento ideológico” do autor com sua “profissão” 
estão indissociáveis. O que faz avançar, em realidade, o debate sobre essa indissociável 
relação entre a teoria e a realidade é a própria história concreta. Isso é uma questão de 
classe e, dessa forma, as ideias (ou como alguns gostam, a teoria) não estão desvinculadas 
de interesses de classe.

Nesse sentido, o objetivo desse texto é, além de resgatar sua concepção de Estado, trazer 
a tona um geógrafo que deixou uma vasta produção intelectual, e, sobretudo, um 
geógrafo-anarquista que proferiu duras críticas à sociedade capitalista e as suas formas 
de organização social, política e econômica (BOINO, 2010c, p. 9).

A obra do francês Jean Jacques Élisée Reclus é um campo fértil ao se pensar o que é o 
Estado, como este se organiza e quais seus interesses. Porém, suas contribuições se 
encontram esquecidos e por vezes relegados a um ostracismo na Geografia – conforme 
apontamos acima – por diversos motivos dos quais destaco dois fundamentais: primeiro, 
reside pela sua descrição da produção social do espaço que considera as relações entre as 
sociedades enquanto a junção da vida e da natureza no qual fora criticado e perseguido na 
época de sua produção ; outra reside no histórico de sua militância anarquista .

Desses motivos relacionados com sua concepção de Estado podemos identificar uma 
centralidade: a radicalidade de seu pensamento comparado com os grandes geógrafos de sua 
época, por exemplo, o francês Paul Vidal de La Blache e o alemão Friedrich Ratzel. A 
preponderância de autores como La Blache e Ratzel, mostra ainda quanto é hegemônico o 
caráter conservador no campo da Ciência da Geografia. A noção de uma geografia libertária 
para Reclus está expressa em diversas questões se distanciando das proposições desses 
geógrafos conservadores. Até mesmo os leitores de Vidal só reproduzem suas obras (de 
Reclus) mais descritivas, apagando o caráter político e revolucionário do francês (BOINO, 
2010c, p. 14).

Analisando Reclus, Ramos (2012) aponta algumas especificidades da geografia de Reclus que 
são elementares. Vejamos:

Para ele, as condições naturais poderiam ser (relativamente) determinantes quanto menos 
avançada fosse a organização social. A influência das condições naturais variava de lugar 
para lugar e de época em época. Portanto, era essencialmente antideterminista. Era ainda 
anticlerical, sempre procurando criticar as ações das instituições religiosas, do presente 
e do passado. Como grande parte dos anarquistas, suas posições eram favoráveis à igualdade 
de gêneros (RAMOS, 2012, p. 4).

Essas questões são importantes para entendermos a concepção libertária de Reclus, já que 
suas elaborações científicas nunca deixaram de ser libertárias. Porém, o objetivo deste 
texto não é de analisar o conhecimento estritamente geográfico de Élisée Reclus, mas sim, 
suas contribuições para o anarquismo social (claro que é indissociável um do outro) com 
enfoque na sua concepção de Estado.

Antes de tudo precisamos definir o que entendemos por anarquismo. De acordo com Corrêa 
(2011) apud Schmidt e van der Walt (2009), existe um anarquismo situado historicamente, 
definido pelos seus princípios e existem diferentes estratégias assumidas ao longo do seu 
desenvolvimento. Vejamos como ele conceitua o anarquismo:

o anarquismo é uma ideologia, um tipo de socialismo revolucionário, que surge no século 
XIX colocando-se no campo social (...). O anarquismo não pode ser considerado uma ciência, 
apesar de utilizar métodos racionais para a leitura da realidade – posicionando-se contra 
a exploração e a dominação – para a criação de uma perspectiva de sociedade futura e 
também para o estabelecimento de estratégias e táticas. (...) Como objetivo, o anarquismo 
propõe a criação de um socialismo autogestionário e federalista, sem capitalismo e sem 
Estado, que concilie a liberdade individual, a liberdade coletiva e a igualdade (CORRÊA, 
2011, p. 47).

Devemos fazer algumas ressalvas e esclarecimentos sobre o conceito de “ideologia” 
utilizado tanto pelos sul-africanos Michael Schmidt e Lucien van der Walt como por Felipe 
Corrêa e que fora adotado nesse texto. Primeiro: ideologia historicamente tem outros 
significados em outras concepções. Por exemplo, na teoria marxista, ideologia corresponde 
à “falsa consciência sistematizada da realidade”. Se pensarmos assim, o anarquismo se 
situaria como falsa consciência dos trabalhadores – o que não concordamos que seja; 
segundo, o termo ideologia para definir o anarquismo, para não ser compreendido como falsa 
consciência sistematizada da realidade, pode ser substituído por “política” ou como 
“desenvolvimento de uma práxis” – que une teoria e ação, sendo, portanto indissociável a 
relação meios e fins. Assim, seria mais claro definir o anarquismo como o desenvolvimento 
de uma práxis libertária, ou, como uma ideologia, entendida como um conjunto de teorias 
orientado por suas ações práticas se autodeterminando com o objetivo da transformação 
social para edificar uma sociedade anárquica.

Recorrendo a essa leitura contemporânea, o anarquismo, como corrente do socialismo – 
definida acima – não é sinônimo de antiestatismo ou meramente uma corrente libertária e 
antiautoritária. Pensar o anarquismo de forma reducionista causa uma visão também 
reducionista da realidade; nem generalizações são cabíveis, pois, não se pode falar de 
anarquismo antes do capitalismo e nem em anarquismo fora do campo socialista (CORRÊA, 
2011, p. 36). Nesse sentido, a concepção de Estado para Reclus não passa fundamentalmente 
por uma crítica ao Estado em si mesmo, e sim, por vários outros fatores e determinantes, 
conforme colocaremos abaixo.

Conforme nos referenciamos acima, o anarquismo é uma corrente do socialismo que surge no 
século XIX, tem profundos desenvolvimentos na teoria de Proudhon e com o russo Mikhail 
Bakunin onde irá se consolidar com a ADS (Aliança Internacional da Democracia Socialista) 
na Associação Internacional dos Trabalhadores. Sendo assim, nesse contexto “(...) o 
anarquismo tornar-se-á um corpo teórico que organiza, sistematiza, representa e justifica 
a luta, e os métodos de luta, para chegar a uma transformação profunda da sociedade” 
(COLOMBO, 2011, p. 127).

Pensando nesse sentido, a discussão acerca da concepção de Estado em Reclus tem uma 
pertinência analítica sobre o fato de que o Estado instaura em sua base a distinção 
burocrática de organização (a distinção entre governantes e governados) trazendo 
consecutivamente em seu seio, uma hierarquia para toda a sociedade, já que é “a existência 
do Estado enquanto princípio de toda forma social que introduz e reproduz, inclusive no 
seio da revolução, a heterogestão da vida” (COLOMBO, 2001, p.30).

Ao lado de Mikhail Bakunin, Piotr Kropotkin, Louise Michel, Élié Reclus, e tantos outros 
contemporâneos a si, o francês Jean Jacques Élisée Reclus permanece como referência 
libertária nos círculos anarquistas com suas obras ainda pouco conhecidas e difundidas. 
Porém, o resgate de suas contribuições torna essencial para pensar a transformação radical 
de nossa sociedade de forma libertária. Portanto, é no surgimento do novo, através de uma 
diferenciação radical com a sociedade capitalista que Élisée Reclus apresenta uma proposta 
de uma sociedade libertária, conforme ele aponta em A evolução, a revolução e o ideal 
anarquista .

Se para os autores clássicos do anarquismo, por exemplo, o russo Mikhail Bakunin, para a 
organização de uma nova sociedade se torna “necesario abolir completamente, tanto em el 
plano de los principios como em el de lós hechos, el llamado poder politico, pues en tanto 
existi este, exitirán gobernantes y gobernados, amos y esclavos, explotadores y 
explotados” (BAKUNIN, 1973, p. 78). Para o anarquismo então, apenas uma revolução social 
poderá elencar a “emancipação dos indivíduos”.

Bakunin demonstrou que o Estado, consequência “de la violência y la religión” é também 
“una estúpida bravuconada por la violencia” e que, com o desenvolvimento da humanidade 
desaparecerá, conforme a luta das classes historicamente oprimidas (idem, p. 158). Nesse 
sentido, a sociedade se reorganizará através da igualdade política, econômica e social, 
interesses estes distintos do Estado. Vejamos o que Bakunin diz em Deus e o Estado.

hay en la naturaleza misma del Estado algo que provoca la rebelión. El Estado es la 
autoridad, es la fuerza, es la ostentación y la infatuación de la fuerza. No se insinúa, 
no procura convertir: y siempre que interviene lo hace de muy mala gana; porque su 
naturaleza no es persuadir, sino imponer, obligar. Por mucho que se esfuerce por 
enmascarar esa naturaleza como violador legal de la voluntad de los hombres, como negación 
permanente de su libertad (BAKUNIN, 1973, p. 96).

O pensamento de Bakunin conflui com o pensamento de Reclus em diversos pontos. Em alguns 
se distancia, como aconteceu dos intensos debates após a dissolução da I Internacional (e 
a expulsão de Bakunin e seus próximos no Congresso de Haia da AIT em 1872 e da posterior 
morte do russo em 1876) e da estruturação do chamado “anarco-comunismo” de Reclus, 
Malatesta, Carlo Cafiero e Kropotkin.

Como era natural que acontecesse, devido aos intensos debates, ainda no mesmo ano da morte 
de Bakunin uma nova interpretação do anarquismo vinha se somar ao núcleo relativamente 
consolidado por ele na Internacional. Em Lausanne, em março, em reunião de 
internacionalistas e comunalistas, Elisée Reclus reconhecia a novidade do “anarquismo 
comunista”. (...) Kropotkin, que aparecia nesse momento, juntamente com os trabalhadores 
do Jura, na Suíça, revelar-se-ia um entusiasta das alterações no pensamento libertário. A 
nova leitura do anarquismo implicava, em certo sentido, o rearranjo de determinados 
aspectos da organização da sociedade futura. Como afirmou Nettlau, a antiga concepção de 
Bakunin, na qual o indivíduo receberia benefícios de acordo com seu trabalho — diferente 
do comunismo, para o qual tudo deve ser socializado independente do produtor —, seria 
mantida para os produtos em escassez (SAMIS, 2009, p.7).

Em outros momentos, o essencial do pensamento bakuninista e reclusiano são os mesmos. 
Podemos ver claramente isso nas suas críticas ao Estado através de suas determinantes 
fundamentais: exploração e manutenção de um status quo contrário à liberdade. De outro 
lado, podemos encontrar nos escritos de Reclus exemplos associados aos princípios de 
Bakunin sobre o Estado, quando o geógrafo anarquista aponta que “a presente função do 
Estado consiste, em primeiro lugar, em defender os interesses dos proprietários, os 
‘direitos do capital’” (...) (RECLUS, 2002, p. 96). Este é um dos parâmetros fundamentais 
da obra de Reclus e Bakunin. O Estado para ambos, como produto coletivo da classe 
dominante, se organiza e se fortalece na sociedade capitalista para assegurar a reprodução 
das relações sociais capitalistas . Dessa maneira, as forças materiais e morais quando à 
disposição do governo, só uma parcela mínima, por sua condição de classe, recebe as 
condições úteis à sua manutenção de existência. A imensa maioria se apresenta consumida 
pela atividade repressiva estatal e ou, desviada de suas utilidades gerais em prejuízo de 
sua própria classe constituindo seus objetivos em proveito de poucos e em prejuízo da 
maioria dos seres humanos.

Devemos nesse momento apontar que a perspectiva de Reclus sobre o Estado não é unitária e 
determinista; ela está relacionada com classes sociais, poder, burocracia, educação, 
“evolução”, revolução, anarquia, patriotismo, nacionalismo, ciência. O próprio autor 
aponta que a luta contra o Estado é uma luta contra todas as instituições sociais. Aponta 
ele que “L’œuvre de critique frondeuse à laquelle est soumis l’État s’exerce également 
contre toutes les institutions sociales” (RECLUS, s/p, 1894) e sobretudo, contra o 
capital. Seus disparates contra o capital são fervorosos e diretos. Em A Evolução, a 
Revolução e o Ideal Anarquista lança duras críticas quando afirma:

Sim, se o capital, sustentado por toda a liga dos privilegiados, conserva imutavelmente a 
força, seremos todos escravos de suas máquinas, simples cartilagens unindo os dentes de 
ferro às árvores de bronze ou de aço; se às poupanças reunidas nos cofres dos banqueiros 
acrescentam-se incessantemente novos despojos, administrados por associados responsáveis 
somente diante de seus livros contábeis, então, seria em vão que apelaríeis à piedade, 
pois ninguém ouviria vossas lamentações. O tigre pode desviar-se de sua vítima, mas os 
livros de banco pronunciam sentenças sem apelação; os homens, os povos são esmagados sob 
esses pesados arquivos, cujas páginas silenciosas contam, em números, a impiedosa obra 
(RECLUS, 2002, p. 80).

Quando Reclus apresenta a indissociável relação da educação para com a Revolução ele está 
deixando claro que a formação humana passa por momentos de desenvolvimento do pensamento 
humano e este deve caminhar para a destruição do capitalismo. Nesse momento, devemos nos 
atentar ao contexto em que ele escreve para não cairmos em generalizações e estabelecer 
algumas ressalvas na relação anarquismo e educação.

O anarquismo ainda que tenha diversas estratégias ao longo do seu desenvolvimento, não 
defendeu apenas o chamado “educacionismo”, mas, “no geral, sempre consideraram a educação 
e o convencimento estrategicamente fundamentais” (CORRÊA, 2011, p. 45); outras estratégias 
utilizavam da violência revolucionária. Fundamental é entender o contexto e a maneira 
segundo a qual os anarquistas pensaram a transformação social. No caso de Élisée Reclus, 
ele mesmo aponta a necessidade intrínseca ao proletariado de fazer um trabalho de educação 
que auxiliaria no processo revolucionário, mas nunca descartou a necessidade e a 
possibilidade do uso de violência como meio estratégico para a revolução social.

Voltando sobre a questão da educação e sua relação com as instituições, Reclus ao criticar 
a instituição escolar deixa evidente o objetivo desta: a “fundação de uma instituição, 
ainda que fosse para combater abusos gritantes, implica necessariamente a criação de novos 
abusos” (RECLUS, 2002, p. 83). Por isso que se torna necessário, o indivíduo como 
protagonista de sua luta em coletivo, desenvolver sua consciência de classe para superar a 
burocracia .

Assim, o homem que quer desenvolver-se como ser moral deve defender exatamente o contrario 
do que lhe recomendam a Igreja e o Estado: ele deve pensar, falar, agir livremente. Estas 
são as condições indispensáveis de todo o progresso (...) a plena e absoluta liberdade de 
exprimir seu pensamento em todas as coisas, ciência, política, moral, sem outra reserva 
alem daquela de seu respeito por outrem (RECLUS, 2002, p. 74-75).

Lutar contra o capital é lutar contra a burocracia. Porém, o Estado se compõe da 
burocracia e esta reproduz o poder. Para entendermos sua concepção de Estado, devemos 
saber como se dá o processo de reprodução de poder para o autor. Pensado enquanto 
“corporativismo” (e isto relacionado na concepção da burocracia, ou seja, na construção 
dos órgãos do Estado, já que estes sempre foram em detrimento da população) o poder pode 
vir tanto de um nobre, burguês ou operário, que ambos serão naturalmente perigosos. A 
burocracia e o poder só podem ser combatidos com a revolução que deve ser entendida como 
quebra de paradigmas, regulamentos rígidos e na construção de uma sociedade autogerida. 
Vejamos o que ele disse.

o espírito corporativista entre pessoas que saem diplomadas de uma mesma escola transforma 
todos os “camaradas”, por mais gentis que sejam, em conspiradores inconsistentes, unidos 
por seu bem-estar particular e contra o bem público, em predadores que assaltarão os 
passantes e partilharão o butim (RECLUS, 2002. p. 63).

Ainda,
Em nossas sociedades autoritárias onde as instituições políticas amiúde deram à vontade de 
um único uma influência preponderante, aconteceu que o capricho de um soberano instalasse 
cidades em locais onde elas não teriam absolutamente nascido espontaneamente (RECLUS, 
2010d, p. 58).

Sendo assim, não basta tomar o poder, e sim, destruí-lo. Por isso que se torna importante 
pensar que em uma revolução que almeja a tomada do Estado só constituirá uma nova 
dominação já que, historicamente, “a conquista do poder foi quase sempre a grande 
preocupação dos revolucionários, até mesmo dos mais bem-intencionados. (...) e, tão logo 
haviam derrubado senhores odiados, apressavam-se em substituí-los por outros senhores, 
destinado, segundo a fórmula sagrada, a “fazer a felicidade de seu povo” (RECLUS, 2011a, 
p. 23). Vejamos o que o anarquista francês aponta na palestra Anarquia proferida em 18 
junho de 1894 em Bruxelas, capital da Bélgica.

C’est là ce que nous répétons sans cesse à nos frères, - parfois des frères ennemis - les 
socialistes d’État : "Prenez garde à vos chefs et mandataires ! Comme vous, certainement, 
ils sont animés des plus nobles intentions ; ils veulent ardemment la suppression de la 
propriété privée et de l’État tyrannique ; mais les relations, les conditions nouvelles 
les modifient peu à peu ; leur morale change avec leurs intérêts, et, se croyant toujours 
fidèles à la cause de leurs mandants, ils deviennent forcément infidèles. Eux aussi, 
détenteurs du pouvoir, devront se servir des instruments du pouvoir : armée, moralistes, 
magistrats, policiers et mouchards. Depuis plus de trois mille ans, le poète hindou du 
Mahâ Bhârata a formulé sur ce sujet l’expérience des siècles : "L’homme qui roule dans un 
char ne sera jamais l’ami de l’homme qui marche à pied !" (RECLUS, 1894, s/p).

Assim, outro elemento importante quando se diz de uma sociedade radicalmente diferente 
condiz em pensar no patriotismo. A conjuntura social no qual viveu Reclus (o século XIX e 
o princípio do século XX) é bastante fértil na força do nacionalismo e do patriotismo. Mas 
de toda forma, esse elemento se relaciona com a manutenção da sociedade de classes, pois 
todo patriotismo está a favor da classe dirigente no momento em que eleva disparidades mal 
intencionadas entre indivíduos da mesma classe social potencializando a diversidade entre 
nacionalidades diferentes.

(...) o que foi convencionado chamar de patriotismo não é senão uma regressão sob todos os 
pontos de vista. É preciso ser ingênuo entre os ingênuos para ignorar que os “catecismo do 
cidadão” pregam o amor pela pátria para servir o conjunto dos interesses e dos privilégios 
da classe dirigente, e que eles procuram manter, em proveito dessa classe, o ódio, de 
fronteira a fronteira, entre os fracos e deserdados. Sob a palavra patriotismo e sob os 
comentários modernos com que a cercam, disfarçam as velhas práticas de obediência servil à 
vontade de um chefe, a completa abdicação do indivíduo diante das pessoas que detêm o 
poder e querem servir-se de toda a nação como de uma força cega (RECLUS, 2002, p. 65).

A superação de tais noções (patriotismo e nacionalismo) deve ser combatida e um desses 
elementos de ruptura é a educação. Porém, não é toda ou qualquer perspectiva de educação. 
O desenvolvimento do pensamento humano que se realizou, conforme Reclus (2002), de forma 
mais ou menos rapidamente, segundo os indivíduos, as classes e as nações, trouxe a 
situação falsa e contraditória do ensino educacional. Edificou-se no capitalismo uma 
educação moralista e metafísica que só colabora com a manutenção do status quo. A educação 
ou “instrução” não se dá apenas na escola. Se fosse assim, “Os governos e as igrejas 
poderiam esperar manter ainda os espíritos na servidão, mas é fora da escola que mais se 
instrui, na rua, na oficina, diante das barracas de feira, no teatro, nos vagões dos 
trens, nos barcos a vapor (...)” (RECLUS, 2002, p. 107).

No âmbito educacional também se torna importante discutir a questão das classes sociais. A 
relação entre as classes sociais e a diferente instrução que cada classe recebe é ponto 
determinante para se pensar em que forma a educação na sociedade regida pelo capitalismo 
está formada: ela está fundamentada nos interesses de classes . A instrução passada por 
classes sociais é fragmentada e restringida.

Assim, sem nenhum paradoxo, o povo – ou pelo menos a parcela do povo que tem a 
possibilidade de pensar – sabe, normalmente muito mais do que a maioria dos doutos, e isso 
sem ter passado pelas universidades; ele não conhece os detalhes ao infinito, nas é 
iniciado nas mil fórmulas do alfarrábio; não tem a cabeça repleta de nomes em todas as 
línguas, como um catálogo de biblioteca, mas seu horizonte é mais amplo, ele vê mais 
longe, de um lado, nas origens bárbaras, do outro, no futuro transformado;(idem, p. 110).

É assim que os privilégios que a burguesia detém se tornam passíveis de crítica e de 
destruição. Os progressos da ciência ao longo do tempo apontam para as principais 
necessidades de conhecimento que um revolucionário deve ter, superando-as, e assim 
constituindo o “ideal da sociedade futura” (Reclus, 2002) de agir e pensar livremente. 
Pensar e agir livremente em sociedade seriam então, a forma de edificação de uma sociedade 
radicalmente diferente. Vejamos duas citações de Reclus:

Queremos saber. Não admitimos que a ciência seja um privilégio, e que homens situados no 
cume de uma montanha, como Moisés, num trono, como o estoico Marco Aurélio, num Olimpo ou 
num Parnaso de papelão, ou simplesmente numa cadeira acadêmica, ditem-nos leis, 
vangloriando-se de um conhecimento superior das leis eternas. (...) Não aceitamos verdade 
promulgada: fazemo-la nossa, antes de mais nada, pelo estudo e pela discussão, e 
aprendemos a rejeitar o erro, tivesse ele mil selos de garantia e certificados (RECLUS, 
2002, p. 51).

Ainda em La Société Nouvelle, de 31 de outubro de 1889:

Mais, si nous sommes anarchistes, les ennemis de tout maître, nous sommes aussi 
communistes internationaux, car nous comprenons que la vie est impossible sans groupement 
social. Isolés, nous ne pouvons rien, tandis que par l’union intime nous pouvons 
transformer le monde (RECLUS, 1889, s/p).

Para Reclus a relação entre ciência e privilégio é bastante nítida, sendo que tais 
privilégios são de uma determinada classe social que detém meios de expropriação, sendo 
aqui, a burguesia na apropriação do saber. Por isso que toda a ciência desenvolvida vai 
estar a serviço do capital e do Estado, isto é, da exploração e da dominação. Torna-se 
necessário ir ao cerne da dominação, ou seja, no capital, no Estado e na sociedade de classes.

Outro elemento fundamental a ser discutido é a ciência e seus progressos. A ciência, 
através de um conjunto de ideias, práticas e instituições indica os caminhos mais 
prósperos para a classe dominante. O conhecimento produzido pelo julgo da exploração é 
expropriado das classes exploradas e é organizado em sistemas fundamentados em métodos e 
técnicas que asseguram o seu controle, por exemplo, a escola. Assim, essa instituição, com 
seus objetivos, apresentam os resultados dos processos de conhecimento efetuados e 
beneficiam fundamentalmente as classes dominantes.

Ainda sobre o papel da ciência e de seus ideólogos, Reclus traz críticas aos teóricos do 
Estado.

Assim, o que quer que digam os teóricos que veem no Estado uma espécie de entidade 
independente dos homens, a história mostra-nos da maneira mais evidente que o governo 
apresenta-se ainda para muitos sob sua forma mais primitiva da violência, aquela do 
açambarcamento, do capricho, e que o representante por excelência do Estado, isto é, o 
soberano, dá-lhe forçosamente a direção que provém da resultante de suas paixões e de seus 
interesses (RECLUS, 2010e, p. 25).

Assim, a ciência e seus progressos não é necessariamente uma evolução. A noção de 
“evolução humana” para ele passava fundamentalmente por grandes momentos de rupturas e 
transformações (RECLUS, 2002, p. 114). A confusão entre o termo evolução para os 
positivistas e para Reclus merece um retorno para um esclarecimento, já que a concepção de 
Reclus é revolucionária e a dos positivistas está no campo do conservadorismo da lógica 
opressora. Para desmistificarmos tal relação devemos dizer que o conceito de evolução é 
intrínseco ao conceito de revolução.

Tentando deixar claro essa concepção, Reclus aponta que “evolução” é,

(...) sinônimo de desenvolvimento gradual, contínuo, nas idéias e nos costumes, é 
apresentada como se fosse o contrário dessa assustadora, a Revolução, que implica mudanças 
mais ou menos bruscas na realidade. É com um entusiasmo aparente, ou mesmo sincero, que 
discorrem sobre a evolução, sobre os progressos lentos que se realizam nas células 
cerebrais, no segredo das inteligências e dos corações; mas que não lhes falem da 
abominável revolução, que escapa repentinamente dos espíritos para eclodir nas ruas, 
acompanhada, às vezes, por gritos da multidão e pelo estrépito das armas (RECLUS, 2002, p.29).

A questão da anarquia para Reclus vem imbuída de um olhar cientificista em que o mundo 
aparece de acordo com a necessidade de uma lei universal de evolução. Sendo assim, para o 
próprio anarquista francês, o anarquismo é parte fundamental da própria evolução natural 
do mundo como finalidade do progresso humano. Sendo assim, o ideal de “evolução” do qual 
fala Reclus não deve ser confundido com a evolução dos positivistas e hegelianos. Para 
Reclus, a “evolução é o movimento infinito de tudo o que existe, a transformação 
incessante do Universo e de todas as suas partes desde as origens eternas e durante o 
infinito dos tempos” (RECLUS, 2002, p.21).

A evolução não assume a forma de um ciclo, conquanto Reclus também admita a existência 
deste; ele não é unilinear, pois também há retrocessos, todavia, no total, assume a forma 
de um espiral em consequência dessa complexidade (CREAGH, 2010b, p. 19).

Porém, o caráter revolucionário dessa evolução reside quando notamos que, a “evolução” 
toma um caráter de contraditoriedade (relação própria da necessidade revolucionária da 
concepção dialética da história), já que,

cada uma de suas evoluções realiza-se por um deslocamento de forças para um novo ponto. O 
movimento geral da vida de cada ser, em particular, e em cada série de seres não nos 
mostra em lugar nenhum uma continuidade direta, mas sempre uma sucessão indireta, 
revolucionária, por assim dizer. Um ramo não se acrescenta ao comprimento de outro ramo. A 
flor não é o prolongamento da folha, nem o pistilo do estame, e o ovário diferem dos 
órgãos que lhe deram origem (RECLUS, 2002, p. 27).
Estes evolucionistas acima criticados como positivistas só querem conservar a sociedade 
privilegiada já que “é uma quimera esperar que a Anarquia, ideal humano, possa emanar da 
República” (RECLUS, 2002, p. 83). Para tal efeito de conservação ligam-se aos dogmas sendo 
estes a peça fundamental de organização e princípios, por exemplo, o Estado e a Igreja. 
Devemos ver o que Reclus entende por Igreja para que possamos apontar mais um elemento da 
sua concepção multideterminante de Estado através do seu entendimento de Revolução 
(perspectiva que é indissociável para a destruição do Estado).

Quando em carta para sua mãe escrita em Berlim no ano de 1851, o francês havia declarado 
sua vontade e algumas de suas discordâncias em relação ao sacerdócio, por exemplo, quando 
afirmara que acreditava que um dia “entre os homens não haverá nada além de influências 
recíprocas” (RECLUS, 2002, p. 11). Porém, posteriormente, ele aponta com mais ênfase e 
profundidade, em "L’Anarchie et l’Église" , com seu irmão Paul Reclus algumas questões 
mais importantes para livrar os indivíduos das “loucuras da cruz”.

Nous repoussons absolument la doctrine catholique, de même que celle de toutes les 
religions connexes, amies ou ennemies ; nous combattons leurs institutions et leurs 
oeuvres ; nous travaillons à détruire les effets de tous leurs actes. Mais cela sans haine 
de leurs personnes, car nous n’ignorons point que tous les hommes sont déterminés par le 
milieu dans lequel leurs mères les ont bercés et la société les a nourris ; nous savons 
qu’une autre éducation, des circonstances moins favorables auraient pu nous abêtir aussi, 
et ce que nous cherchons par dessus tout, c’est précisément de faire naître pour eux, - 
s’il en est encore temps - et pour toutes les générations à venir, des conditions 
nouvelles qui guériront enfin les hommes de la " folie de la croix " et autres 
hallucinations religieuses (RECLUS; RECLUS, 1900, p. 159).

Além dos pretextos de manutenção do status quo, o Estado também é o responsável pelos 
males, massacres históricos, já que, financiando guerras realça seu poder econômico, 
político e social. Seu real objetivo é realçar as diferenças entre nações para 
potencializar as relações conflituosas entre os indivíduos e não entre as classes.

(...) o apelo à vingança ainda ressoa, e, quando a nova guerra tiver passado como um 
incêndio, devorando tudo com sua terrível chama, ela deixará servir de fermento para 
futuros conflitos. Quantos exemplos poderíamos citar de tais derivativos! Ás dificuldades 
internas do governo, os detentores do poder respondem por guerras externas. Se essas 
guerras forem triunfantes, os senhores não deixarão de aproveitar-se delas para a 
consolidação de seu regime: eles terão aviltado seu povo pela loucura da vaidade 
denominada glória; (...) (RECLUS, 2010e, p. 38).

Entretanto, “além da guerra, os governantes têm à sua disposição poderosos meios de 
afastar deles todo perigo (do povo)” (RECLUS, 2010e, p. 40). Historicamente, em diversos 
momentos, podemos perceber isso. Vejamos duas. A primeira é a corrupção. Essa relação 
social é marcada pela competição do poder dentro do Estado fazendo a aceitação do 
indivíduo que está submetida a ela para a manutenção de “almas de serviçais” que 
“recompensam-se aceitando a opressão” (RECLUS, 2010e, p. 40). A corrupção deve ser 
compreendida historicamente e socialmente pelo motivo fundamental de que ela tem raízes 
sociais mais profundas do que meramente os indivíduos de forma isolada que a compõe. A 
corrupção é algo intrínseco à sociedade capitalista e está generalizada em todos os 
governos. A segunda e não menos importante, são as leis. A lei tem por efeito imediato o 
amortecimento da luta de classes. Nesse sentido,

Adormecer em seu triunfo momentâneo aqueles que a editaram, retirar dos indivíduos zelosos 
a energia pessoal que os havia animado em sua obra vitoriosa de transferi-la a outros, aos 
legisladores de ofício, aos conservadores, isto é, aos próprios inimigos de toda mudança 
progressiva (RECLUS, 2010e, p. 43).

A criação de uma lei é a criação de novos privilégios, por mais que superficialmente ela 
possa estar a favor de classes exploradas, porém, ela é fundamentada na concepção de uma 
instituição. Na maneira em que “uma instituição é fundada”, também é fundada a maneira 
pela qual o indivíduo “deve adaptar-se aos meio perniciosos e, para funcionar, necessita 
agir de modo patológico” (RECLUS, 2010e, p. 44). Nada mais claro quando o autor diz que 
“(...) as leis, representam sempre os interesses exclusivos da classe dirigente” (RECLUS, 
2010e, p. 28).

A lei se torna então a materialização da iniquidade. Vejamos a seguinte exposição de 
Reclus no prefácio de A Conquista do Pão de Piotr Kropotkin:

Bem sabem eles que a lei é iníqua e mentirosa, que os magistrados são defensores dos 
fortes e tiranos dos fracos, que a conduta regular da vida e a probidade do trabalho nem 
sempre são recompensadas pela certeza de ter um bocado de pão garantido, e que a 
imprudência cínica do agiota e a crueldade insensível do penhorista são melhores armas e 
de resultados mais eficazes para a “conquista do pão” do que todas as virtudes e a 
honestidade de carácter (RECLUS, apud KROPOTKINE, 1975, p. 15).

A luta contra o Estado nada mais é que a uma luta ampla com demais setores da sociedade 
propondo a abolição de outras relações sociais, já que a autoridade (na família, no 
Estado, na Educação, na Igreja, na Ciência, no trabalho, etc.) está presente de forma 
central e contraditória: “O fato brutal da autoridade persiste contra o direito, 
simultaneamente na família, na sociedade, no Estado; ele persiste, mas admitindo seu 
contrário, mesclando-se com ele em mil combinações ilógicas e bizarras” (RECLUS, 2010e, p. 
16).

Além da autoridade, existe o papel do indivíduo e sua prática para a ação revolucionária. 
No texto Èlisée Reclus Fala aos Jovens publicado após sua morte no periódico anarquista 
Ação Direta do Rio de Janeiro , ele diz:

Que devemos fazer então para mantermo-nos em estado de vigor intelectual, de atividade 
moral e de fé no bom combate? Dirigi-vos a mim, porque supondes que tenho experiência dos 
homens e das coisas. Pois bem, em minha qualidade de ancião, me dirijo aos jovens para 
dizer-lhes: Fora as querelas e personalismos. Escutai os argumentos contrários depois de 
haver expostos os vossos; sabei calar e refletir; não procureis ter razão em detrimento da 
vossa sinceridade. Estudai com discernimento e perseverança. O entusiasmo e a abnegação, 
ainda que até a morte, não são o único meio de servir a causa. É fácil dar a vida; nem 
sempre fácil conduzirmo-nos de modo que nossa vida sirva de exemplo. O revolucionário 
consciente não é somente homem de sentimento, é também homem de raciocínio, cujos esforços 
totais em procura de maior justiça e solidariedade se apóiam sobre conhecimentos exatos e 
sintéticos de história, sociologia, biologia. É o que pode, por assim dizer, incorporar 
suas ideias pessoais ao conjunto genérico das ciências humanas e enfrentar a luta 
sustentada pela imensa força que esgotará em seus conhecimentos.

Seu conceito de “autoridade” pode ser identificado quando ele compara a propriedade e a 
autoridade. Vejamos o que ele diz:

Assim como a propriedade é o direito de usar e abusar, do mesmo modo a autoridade é o 
direito de comandar a torto e a direito. É assim que entendem os senhores, e é igualmente 
assim que compreendem os governados, seja porque obedecem servilmente, seja porque sentem 
o espírito de revolta despertar neles (RECLUS, 2010e, p.19 - 20).

Pensando nessa múltiplas facetas do Estado, o geógrafo anarquista em suas obras também 
analisa a forma que a sociedade se organiza onde os conflitos urbanos e a forma 
organizacional da cidade é também um do foco de manifestação da arbitrariedade da 
sociedade capitalista. Em busca de uma “solução para a cidade”, ressalta Pelletier, que 
somente uma revolução social poderá marcar o fim da desigualdade citadina :

Qual é a solução? A resposta de Élisée Reclus é implícita: a supressão da desigualdade, da 
hostilidade que separa em dois o corpo social, supressão realizável, diz-nos Reclus em 
seus textos mais expressamente políticos, pela Revolução Social que tem por finalidade o 
comunismo libertário, proposição que ele elaborou com os anarquistas Cafiero, Kropotkin e 
outros mais (PELLETIER, 2010d, p. 27).

Pensando assim, na sociedade capitalista a cidade só tende a reproduzir suas bases 
pilares, já que o “espaço era simultaneamente um reflexo da sociedade, uma aposta social, 
um quadro de realização das relações sociais e um fator influindo na sociedade” (BOINO, 
2010c, p. 16).

Não é sem sentido que, em confluência geral com Reclus, Jacinto Cinazo escreveu que o 
Estado é “guardião feroz, insaciável, violento, implacável, de todos os privilégios e 
monopólio que impedem os trabalhadores de terem livre acesso aos meios de produção e ao 
gôzo dos benefícios da riqueza social (...)” .

Para finalizar, entendemos que ao pensar o Estado criticando-o e propondo o seu fim, vem à 
tona a dura realidade que Orwell apontou em 1984: a crítica ao Estado em nossa sociedade, 
marcada pela naturalização das relações sociais, é algo marginal e pouco difundido, mas 
acredito que “o curioso é que, na ocasião, no sonho, as palavras não o haviam 
impressionado, maiormente. Somente mais tarde, e aos poucos, é que tinham ganhado em 
significação”.

Reclus não conheceu o tamanho desenvolvimento do capitalismo e do Estado como nos chega 
aos dias atuais; mas como próprio militante e da rica atualidade de sua análise, 
reconheceu o fundamental da instituição inimiga voraz da liberdade. Não menos libertário e 
anarquista, o francês aponta, com claras intenções e significações contrárias à lógica 
hegemônica que, se o capital “vencesse, (...) a humanidade teria deixado de viver” 
(RECLUS, 2002, p. 80).


Referências Bibliográficas

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BOINO, Paul. O pensamento geográfico de Élisée Reclus. In: RECLUS, Élisée. Da Ação Humana 
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COLOMBO, Eduardo. Análise do Estado: o Estado como paradigma de poder. São Paulo, Rio de 
Janeiro: Imaginário; Soma, Nu-Sol, 2001.
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MATEUS, J. G. F. Educação e Anarquismo: uma perspectiva libertária. Rio de Janeiro: Rizoma 
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SAMIS, Alexandre. O anarquismo de Proudhon a Malatesta. (Online), 2009. Disponível em: 
http://bpi.socialismolibertario.com.br/biblioteca/samis...i.pdf. Acesso em agosto de 2012.
VIANA, Nildo. Capitalismo, Burocracia e Autogestão. BMC - Boletim do Movimento 
Conselhista. Ano 01, num. 04. Goiânia: maio de 1995.


Notas:

1 - De acordo com Max Nettlau em La Anarquia Através de los Tiempos, a vida de Élisée 
Reclus pode ser conhecida íntimamente por sus recuerdos sobre su hermano, Elías Reclus, 
(1827 - 1904 París, 32 págs.; 1905) y por su Correspondance (3 v. París, 1911 - 1925). He 
relatado su vida en Elisée Reclus. Anarchist und Gelehrter (1830 - 1905), Berlín, Der 
Syndikalist, 1928, 344 págs.; trad. española aumentada, Eliseo Reclus. La vida de un sabio 
justo y rebelde (Barcelona, 1928, Bca. de La Revista Blanca, 2 vol., 294, 312 págs.). Una 
hermosa colección de testimonios de muchos amigos de los hermanos Reclus fue publicada en 
1927 por Joseph Ishill - el libro Elisée and Elie Reclus - inmemoriam (Berkeley Heights. 
New Jersey). Outras obras em português também tratam de sua biografia. Em especial: 
ANDRADE, Manuel Correia de. (org.) Élisée Reclus. São Paulo: Editora Ática, 1985; 
GIL-JURADO, Carlos José. Reclus: un geógrafo incómodo, una geografía de compromiso. 
GeoTrópico, vol. 3, Pamplona, 2005. Disponível em: www.geotropico.org/3_1_Gil.html.

2 - Entendo que a construção da produção social do espaço que Reclus aponta é ofuscado por 
leituras apressadas do conceito de “evolução” desenvolvido pelo autor, porém, entendemos 
de forma contrária esse conceito que foi desenvolvido ao longo do texto cf. MATEUS, J.G.F. 
Élisée Reclus e o anarquismo: uma critica da educação no capitalismo. In: _______. 
Educação e Anarquismo: uma perspectiva libertária. Rio de Janeiro: Rizoma Editorial, 2012.

3 - Podemos destacar as participações de Reclus na AIT de 1864, na Federação Jurassiana 
onde congregava todas as federações opositoras aos marxistas no qual, foi criada em 1871 
por anarquistas dissidentes da AIT. Fora militante durante a Comuna de Paris de 1871 
juntamente com seu irmão Éliée além ter ingressado em organizações como a Liga da Paz e da 
Liberdade além de ter colaborado com o jornal Le Révolté.

4 - A compreensão da geografia enquanto ciência pode ser compreendida na passagem que 
selecionamos abaixo. Porém, devemos situar Reclus no tempo e no espaço, sabendo que em seu 
período o olhar cientificista era predominante entre os intelectuais, por isso, devemos 
ler com atenção para não confundirmos Reclus com a perspectiva de La Blache ou Ratzel. “A 
ciência, ao estudo da qual vos convido, é bem diferente. Certamente alojareis em vossa 
memória milhares e talvez milhões de fatos, mas vós os classificarei, vós os unireis em um 
corpo de conhecimentos refletido e justificado por uma preocupação mais elevada do que 
aquela dos nomes e dos números. A geografia, que não é absolutamente uma ciência em su 
mesma, liga-se a todas as ciências e serve-lhes de sólido ponto de apoio, de reservatório 
infinito para a produção de fatos” (RECLUS, 2010c, p. 77).

5 - L'évolution, la révolution et l'ideal anarchique, publicada no ano de1897.

6 - NETTLAU, Max. História da anarquia: das origens ao anarco-comunismo. São Paulo: Hedra, 
2008.
Deixemos claro que a nossa percepção e concepção de Estado reside na sua relação com as 
classes e não com os indivíduos deslocados de suas condições de classe, sendo assim, o 
Estado não está como uma instituição privada, mas nele está expresso em suas ações, os 
interesses das classes dominantes.

7 - Tradução nossa: “O trabalho da rebelde crítica colocada sobre o estado também é contra 
todas as instituições sociais”.

8 - Para Reclus existe uma educação moral associada à luta do proletariado. Esta educação 
em seus escritos não deixou de conter uma crítica anarquista para o desenvolvimento de uma 
luta radical e revolucionária sobre a sociedade de classes e a vida sob a tutela 
anti-humana do Estado.

9 - Concordando com o sociólogo Nildo Viana, entendemos que a burocracia se compõe na 
relação de dirigentes e dirigidos. Diz o autor: “O capitalismo realiza uma expansão da 
divisão social do trabalho numa escala nunca vista antes na história da humanidade. Neste 
processo de expansão cria-se várias classes sociais, sendo a burguesia e o proletariado as 
duas classes fundamentais deste modo de produção. A burguesia, para combater as classes 
exploradas cria a sua principal classe auxiliar: a burocracia (também chamada de 
”tecnocracia” e de “classe dos gestores”). Portanto, o capitalismo cria como seu produto 
mais genuíno as seguintes classes: a burguesia, o proletariado e a burocracia” (VIANA, 
1995, p.1).
10 - Tradução nossa: “Isto é o que ficam dizendo aos nossos irmãos - irmãos às vezes 
inimigos - o estado socialista:! "Olhai para seus líderes e agentes mandatários! Como 
você, certamente, eles são animados por intenções nobres, eles querem ardentemente a 
supressão da propriedade privada e da tirania do estado, mas as relações, as novas 
condições de mudar gradualmente, suas mudanças morais com os seus interesses, e, 
acreditando sempre fiel à causa de seus eleitores, eles se tornam necessariamente infiéis. 
Eles também, que está no poder, vai usar os instrumentos de poder: Exército, moralistas, 
magistrados, polícias e espiões. Por mais de três mil anos, o Maha Bharata Hindu poeta fez 
esta experiência de séculos "O homem que dirige um carro nunca será um amigo do homem 
andando!".
11 - Para uma análise minuciosa e libertária das relações educacionais entre as classes, 
cf. TRAGTENBERG, Maurício. Sobre educação, política e sindicalismo. 3ª edição, São Paulo: 
Editora UNESP, 2004.

12 - Tradução nossa: “Mas se somos anarquistas, inimigos de qualquer mestre, também somos 
comunistas internacionais porque entendemos que a vida é impossível sem agrupamento 
social. Isolado, não podemos fazer nada, enquanto a íntima união que pode transformar o 
mundo”.
13 - Relatório do Congresso Revolucionário Internacional dos Trabalhadores em Paris no ano 
de 1900. Cf; RECLUS, Élisée; RECLUS, Paul. L’Anarchie et l’Église. Suplemento literário de 
"Novos Tempos", vol. III(no. 19-20), p. 158-161. Disponível em: 
http://raforum.info/reclus/spip.php?article19&lang=fr.

14 - Tradução nossa: “Nós rejeitamos absolutamente a doutrina católica, assim como todos a 
outras religiões amigas, relacionadas ou inimigos, combatemos suas instituições e seus 
trabalhos, e estamos trabalhando para destruir todos os efeitos de suas ações. Mas, sem o 
ódio do seu povo, porque não sabemos o ponto de que todos os homens são determinados pelo 
ambiente em que suas mães abalaram a sociedade e os alimentou, e nós sabemos que a 
educação, as circunstâncias menos favoráveis que temos também estultificar, e o que 
buscamos, acima de tudo, é precisamente para dar a luz a eles - se ainda houver tempo - e 
para todas as gerações que virão, novas condições finalmente curar homens a "loucura da 
cruz" e outras alucinações religiosas.”
15 - Periódico Ação Direta, Outubro e Novembro de 1952, nº83, ano 6, p. 3.
16 - Disparando duras críticas às grandes cidades de sua época, Reclus dirá: “Enfim, é nas 
cidades, sobretudo naquelas que são mais célebres por sua opulência e sua civilização, que 
decerto se encontram os mais degradados de todos os homens, pobres seres sem esperança que 
a sujidade, a fome, a ignorância brutal, o desprezo de todos, puseram bem abaixo do feliz 
selvagem percorrendo em liberdade as florestas e as montanhas” (RECLUS, 2010b, p. 83).

17 - Cf. CINAZO, Jacinto. Elementos Fundamentais da Sociedade Capitalista – O Estado. In: 
LEUENROTH, Edgard. Anarquismo: roteiro da libertação social. Antologia de doutrina 
crítica-histórica-informações. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1963.

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