(pt) Portugal, Colectivo Libertario Evora (debate) - Leninismo, Ideologia Fascista (en)

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Terça-Feira, 19 de Fevereiro de 2013 - 18:55:28 CET


Porque o verdadeiro sujeito histórico para os leninistas não é a classe, mas o partido. 
Esse vanguardismo alucinado é a marca mais antiproletária do leninismo, uma vez que a 
ideia de partido único messiânico é alheia a Marx; provém da burguesia maçónica e 
carbonária. Marx chamava partido ao conjunto de forças que lutavam pela auto organização 
da classe operária, não a uma organização autoritária, iluminada, exclusiva e 
hierarquizada. ----  “Libertar a Humanidade do jugo benfeitor do Estado! É extraordinário 
até que ponto os instintos criminosos se aninham no homem. Digo-o claramente: criminosos. 
A liberdade e o crime vão tão intimamente ligados, se prefere, como o movimento de um 
avião e a sua velocidade. Se a velocidade do avião é nula, permanece imóvel, e se a 
liberdade do homem é nula, não comete crimes. Está claro.O único meio de livrar o homem do 
crime é livrá-lo da liberdade”-  Evgeni Zamiatin, “Nós”, 1920.

A existência de seitas imobilistas, mais ou menos virtuais, que se reclamam de Lenin é um 
assunto hoje mais relacionado com as neuroses que assaltam os indivíduos imersos nas 
condições modernas do capitalismo do que com a luta de ideias que os rebeldes mantêm 
contra os ideólogos da classe dominante. O tempo não perdoa e o fracasso final do 
leninismo ocorrido entre 1976 e 1980 levou os crentes que sobreviveram a uma sobrevivência 
esquizofrénica. Como já estudou Gabel, o preço a pagar pela sua fé foi uma consciência 
dividida, uma espécie de dupla personalidade. Por um lado, a realidade desmente o dogma 
até ao menor detalhe e, por outro, a interpretação militante vai torcê-la, guardá-la e 
manipulá-la para moldá-la ao dogma e fabricar uma narrativa maniqueísta sem contradições. 
Como se de uma Biblia se tratasse, nessa narrativa estão todas as respostas. A ficção 
leninista suprime a angústia que as contradições da prática engendram no crente, o que 
constitui uma arma poderosa para fugir à realidade. O resultado seria patético para o 
resto dos seres vivos se os debates abundassem no seio de um proletariado combativo, como 
o dos anos setenta, mas dado o actual estado da consciência de classe, ou o que é o mesmo, 
dada a inversão espectacular da realidade, onde “o verdadeiro é só um momento do falso”, a 
presença de sectários do leninismo nas escassas discussões feitas na base apenas contribui 
para a confusão reinante.

O papel objectivo das seitas consiste em falsificar a história, ocultar a realidade, 
desviar a atenção dos verdadeiros problemas, sabotar a reflexão sobre as causas do triunfo 
do capitalismo, bloquear a formulação de tácticas de luta adequadas, impedir, por fim, o 
rearmamento teórico dos oprimidos. Os leninistas fossilizados de hoje já não são (porque 
não podem) a vanguarda da contra revolução de há 30 anos ou de há 60, mas a sua função 
continua a ser a mesma: trabalhar para os que mandam como agentes provocadores.

(…)

No universo leninista Lenin é a Virgem Maria; a classe operária de que falam é como a 
cristandade. Um chiita do leninismo, ou seja, um bordiguista, lamentava-se na web: “Se nos 
tiram a classe operária com o que é que ficamos?” De facto, para os leninistas a classe 
operária tem uma função ritual, terapêutica se se quiser, psicológica. É um ente ideal, 
uma abstracção, em nome da qual é preciso tomar o poder. Inventada por Lenin, a partir do 
modelo russo de 1917, uma classe operária minoritária num país feudal de população 
eminentemente camponesa acessível a uma direcção exterior composta por intelectuais 
organizados como partido, não é algo que vejamos todos os dias. Pertence a um passado caduco.

(…)

Como não há história para o leninismo depois da tomada do Palácio de Inverno, a partir da 
Revolução Russa parece que não existiram nem derrotas nem vitórias significativas, talvez 
alguns tropeções numa linha evolutiva invariável que conduz a uma classe operária 
impoluta, esperando os padres da igreja, os seus líderes, membros por direito do 
“partido”. Porque o verdadeiro sujeito histórico para os leninistas não é a classe, mas o 
partido. Esse vanguardismo alucinado é a marca mais antiproletária do leninismo, uma vez 
que a ideia de partido único messiânico é alheia a Marx; provém da burguesia maçónica e 
carbonária. Marx chamava partido ao conjunto de forças que lutavam pela auto organização 
da classe operária, não a uma organização autoritária, iluminada, exclusiva e hierarquizada.

É revelador que os leninistas vejam hoje os interesses económicos particulares como 
interesses de classe, quando já não o são, e que nos anos setenta, quando o eram, os 
tratavam como assuntos sindicais. A diferença está em que, nessa altura, o proletariado 
lutava a seu modo, com as suas próprias armas, as assembleias. Isso era o que transformava 
as reivindicações parciais em exigências de classe. Mas os leninistas desprezam as formas 
realmente proletárias de organização e de luta: as assembleias, os comités eleitos e 
revogáveis, o mandato imperativo, a autodefesa, as coordenadoras, os conselhos… E 
desprezam-nas porque, enquanto formas de poder operário, ignoram os partidos e aniquilam o 
Estado, incluindo o Estado “proletário”.

Por isso ocultaram, tanto como os meios de comunicação, a existência do Movimento 
Assembleario durante os anos 70, porque são inimigos de uma classe operária real que não 
se parece em nada com a sua e odeiam, por razões evidentes, as suas formas organizativas 
específicas. Ao contrário de Marx, para  os leninistas o ser não determina a consciência, 
pelo que há que inculcá-la mediante o apostolado dos líderes. Os operários não podem 
alcançar, segundo Lenine, mais do que uma consciência sindicaleira e devem submeter-se ao 
papel de simples executantes; por tanto, os sindicatos que os enquadram e controlam são a 
correia de transmissão do partido. Isso não constitui óbice para que os leninistas 
elogiem as assembleias e os conselhos se isso lhes permitir exercer alguma influência e 
recrutarem adeptos. Durante os anos 70 chegaram a apoiá-las, mas logo que se sentiram 
fortes atraiçoaram-nas como, tirando as diferenças, fez Lenin com os Sovietes.

A revista “Living Marxism”, animada por Paul Mattick,  lançava a frase de que “a luta 
contra o fascismo começa pela luta contra o bolchevismo”. Durante a década de cinquenta o 
capitalismo evoluía para os modelos totalitários do capitalismo de Estado soviético. Hoje, 
quando a classe burocrática comunista se converteu ao capitalismo e o mundo é arrastado 
para a dominação fascista através da via tecnológica, a ideologia leninista é residual, 
poeirenta e museográfica. Não estuda o capitalismo porque este não é o seu inimigo e, por 
isso, não quer lutar contra ele. Faz simplesmente como o alho, repete-se. A principal 
actividade das suas seitas consiste em competirem umas com as outras assinalando “um ponto 
particular que as distinga do movimento da classe” (Marx).

(…)

Na Rússia de 1905 não existia uma burguesia, como futura classe dominante, capaz de se 
lançar na luta contra o czarismo e a igreja. Esta missão correspondeu aos intelectuais 
russos, que procuraram apoio para os seus impulsos nacionalistas no marxismo e encontraram 
os seu melhores aliados no campo operário. O marxismo russo tomou um rumo completamente 
diferente do marxismo ortodoxo, pois na Rússia o trabalho histórico que fazia falta 
cumprir era o de uma burguesia demasiado débil: a abolição do absolutismo e a construção 
de um capitalismo nacional. A teoria de Marx, adoptada por Kautsky e Bernstein, 
identificava a revolução com o desenvolvimento das forças produtivas e do Estado 
Democrático correspondente, o que favorecia uma práxis reformista, que embora pudesse 
funcionar na Alemanha, não podia na Rússia.

Ainda que Lenin aceitasse integralmente o revisionismo socialdemocrata de Marx, sabia que 
a tarefa dos socialdemocratas bolcheviques de derrubar o czarismo não podia levar-se a 
cabo sem uma revolução, para a qual se necessitavam melhores forças do que as dos liberais 
russos. Uma revolução burguesa sem burgueses e, ainda para mais, contra eles. A revolta 
operária de 1905 deixou o regime absoluto ferido e a revolução de 1917 acabou com ele. 
Ainda que tenha sido uma revolução operária e camponesa não tinha programa revolucionário 
nem reivindicações particulares, pelo que os representantes da burguesia ocuparam o seu 
lugar. A burguesia não soube estar à altura, ao mesmo tempo que o proletariado se instruía 
politicamente e tomava consciência dos seus objectivos; em pouco tempo a revolução perdia 
o seu carácter burguês e adoptava um perfil decididamente proletário.

Durante os meses de julho-agosto Lenin ainda defendia um regime burguês com presença 
operária, mas vendo o avanço dos Sovietes ou conselhos operários mudou de orientação e 
lançou a palavra de ordem do poder aos sovietes e, incluso, chegou a teorizar sobre a 
extinção do Estado. Mas a ideia de poder horizontal era estranha a Lenin, que tinha 
organizado um partido assente no modelo militar burguês, vertical, centralizado, decidindo 
sempre a partir de cima, com a direcção e a base fortemente separadas.

Se estava a favor dos sovietes era para instrumentalizá-los e tomar o poder. A sua 
principal função não foi o desenvolvimento dos sovietes, que não tinham lugar no seu 
sistema; foi a conversão do partido bolchevique num aparelho burocrático estatal, a 
introdução do autoritarismo burguês no exercício e na representação do poder. Aos 
sovietes, os protagonistas da revolução de Outubro, em pouco tempos lhes foi retirado o 
poder por um Estado “proletário” que não souberam destruir.

Os bolcheviques combateram, em nome da “ditadura do proletariado”, o controlo operário e a 
implantação da revolução nas oficinas e nas fábricas e, em geral, a manifestação soberana 
da vontade operária nos organismos de democracia directa. Em 1920 tinham acabado com a 
revolução proletária e os sovietes já não eram mais que organismos castrados, decorativos. 
Os últimos bastiões da revolução, os marinheiros de Kronstadt e o exército makhnovista 
foram aniquilados mais tarde.

Lenin, poder, vanguarda e partido

Ao mesmo tempo que destruíam os sovietes, os emissários bolcheviques desembarcavam na 
Alemanha, onde o conselhismo tinha despertado nas massas operárias e os conselhos estavam 
a ponto de se converterem em órgãos efectivos de poder proletário, para darem-lhe uma 
punhalada nas costas à revolução. Por todo o lado desacreditaram os Conselhos Operários e 
propuseram o regresso aos sindicatos corruptos e ao partido socialdemocrata. A revolução 
conselhista alemã caiu debaixo do peso da calúnia, da intriga e do isolamento provocado 
pelos bolcheviques Sobre as suas cinzas pode reconstituir-se, com a bendição de Lenin, a 
velha socialdemocracia e o Estado alemão do pós-guerra. Lenin não deixou de combater os 
defensores do sistema de conselhos cobrindo-os de impropérios no folheto preferido de 
todos os seus seguidores. “O esquerdismo, doença infantil do comunismo”. Aí caiu-lhe a 
máscara. Sufocando com falsidades os comunistas de esquerda e os Conselhos, Lenin defendia 
o seu pseudosocialsimo panrusso que, levado à prática por Stalin revelar-se-ia um novo 
tipo de fascismo. Nem de longe concebia que a libertação ds oprimidos só se poderia 
efectuar mediante a destruição seja do poder, seja do terror, do medo, das ameaças, dos 
constrangimentos.

Todo aquele que desejar entronizar a ordem burguesa encontrará as melhores condições de 
fazê-lo na separação absoluta entre massas e dirigentes, vanguarda e classe, partido e 
sindicatos. Lenin queria uma revolução burguesa na Rússia e formou um partido 
perfeitamente adaptado a essa tarefa, mas a revolução russa adquiriu um carácter operário 
e deu cabo dos seus planos. Lenin teve que vencer com os sovietes para depois vencer 
contra eles. O comunismo mais a electrificação cederam o passo à NEP e aos planos 
quinquenais de Stalin, dando lugar a uma nova forma de capitalismo, em que uma nova 
classe, a burocracia, desempenhava o papel da burguesia. Era o capitalismo de Estado. Na 
Europa, as massas operárias foram travadas, desanimadas e empurradas para a derrota até 
desmoralizarem e perderem a confiança em si próprias, caminho este que conduziu à 
submissão e ao nazismo. Hitler chegou facilmente ao poder porque os dirigentes 
socialdemocratas e estalinistas tinham corrompido tanto o proletariado alemão que este não 
teve dúvidas em entregar-se com facilidade. “Fascismo cinzento, fascismo vermelho” foi o 
título de um memorável folheto em que Otto Rülhe mostrava que o fascismo estalinista de 
ontem era simplesmente o leninismo de anteontem. Inspirámo-nos nele para o título deste 
artigo.

(…)

Escrito por Miguel Amorós (historiador e militante anarquista valenciano)

Fonte: http://metiendoruido.com/2013/02/leninismo-ideologia-fascista/


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