(pt) Portugal, Acção Directa #3 - p4-5 - Textos - Fragmentos de uma Antropologia Anarquista

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Sexta-Feira, 15 de Fevereiro de 2013 - 19:00:12 CET


David Graeber nasceu em 1961 em Nova Iorque. É antropólogo e professor de antropologia 
social no Colégio Goldsmith da Universidade de Londres. Antes foi professor associado na 
Universidade de Yale, instituição que se negou a recontratá-lo em 2007 devido às suas 
posições políticas. Anarquista, com diversos livros publicados, Graeber participa 
activamente em movimentos sociais, protestando contra o Fórum Económico Mundial de 2002 e 
participando no movimento Occupy Wall Street - é-lhe mesmo atribuída a criação da frase 
“We are 99%”. É membro do sindicato anarco-sindicalista IWW( International Workers of the 
World). Devido à sua actividade enquanto investigador, mas também como militante social, 
tem chamado a atenção dos meios de comunicação (alternativos e de massas) sendo um dos 
intelectuais anarquistas da actualidade mais referenciados. De entre os seus livros 
destacam-se: “Direct action: an ethnography” (2009), “Debt: the first 5,000 years” (2011) 
e “Fragments of an anarchist anthropology” (2004).

David Graeber

Fragmentos de uma Antropologia Anarquista

Porque é que há tão poucos
anarquistas na Academia?

Esta é uma questão pertinente, na
medida em que hoje o anarquismo,
enquanto filosofia política, está
num apogeu. Os movimentos anar-
quistas ou inspirados no anarquis-
mo crescem por todo o lado; os
princípios anarquistas tradicionais
– autonomia, associação voluntá-
ria, auto-organização, ajuda mútua,
democracia directa – podem-se
encontrar tantos nas bases organi-
zativas do movimento antiglobali-
zação como numa grande varieda-
de de movimentos radicais em
qualquer parte do mundo. Os revo-
lucionários do México, Argentina,
India e outros lugares têm ido
abandonando, cada vez mais, os discursos que
advogavam a tomada do poder e começaram a
formular ideias diferentes em torno do que
poderá ser o significado de uma revolução. É
verdade que a maioria utiliza ainda com timi-
dez a palavra “anarquista”, mas como assina-
lou recentemente Barbara Epstein, o anarquis-
mo já ocupa largamente o lugar que o marxis-
mo tinha nos movimentos sociais dos anos
sessenta. Inclusive aqueles que não se consi-
deram a si mesmos anarquistas vêem-se obri-
gados a definirem-se em relação a ele e a ins-
pirarem-se nas suas ideias.

E, sem dúvida, às universidades apenas chega
um reflexo de tudo isto. A maioria dos acadé-
micos tem uma ideia muito vaga sobre o que é
o anarquismo ou recusam-no, servindo-se dos
estereótipos mais toscos. (“Organização anar-
quista! Não é isso um contra-senso??) Nos
Estados Unidos há milhares de académicos
marxistas de uma escola ou de outra, mas
apenas uma dezena de professores dispostos a
autodenominarem-se como anarquistas.

Será uma questão de tempo? É possível. Tal-
vez que dentro de uns anos as universidades
estejam a rebentar de anarquistas, mas não
tenho grandes esperanças. Parece-me que o
marxismo tem uma afinidade com a universi-
dade que o anarquismo nunca terá. Para além
do mais, trata-se do único grande movimento
social inventado por um académico, ainda que
desde o início se tenha convertido num movi-
mento que tinha como objectivo a união da
classe operária. A maioria dos ensaios sobre a
história do anarquismo afirmam que as suas
origens foram similares às do marxismo: o
anarquismo apresenta-se como uma criação de
certos pensadores do século XIX – Proudhon,
Bakunin, Kropotkin, etc., - sendo fonte de
inspiração de organizações operárias, que
depois se teria envolvido em lutas políticas,
dividido em correntes...O anarquismo, nos
relatos mais comuns, costuma ser apresentado
como o parente pobre do marxismo, um pouco
coxo teoricamente, que se vê compensado, no
entanto, no plano ideológico pela sua paixão e
sinceridade. Mas, na verdade, esta analogia é,
no melhor dos casos, forçada. Os “pais funda-
dores” do século XIX nunca pensaram ter
inventado qualquer coisa particularmente
nova. Os princípios básicos do anarquismo –
auto-organização, associação voluntária, apoio
mútuo – referem-se a formas de comporta-
mento humano que se considerava que tinham
feito parte da humanidade desde sempre. O
mesmo se pode dizer da recusa do Estado e de
todas as formas de violência estrutural, desi-
gualdade ou domínio (anarquismo
quer dizer, literalmente, “sem go-
vernantes”), e também o reconhe-
cimento de que todas estas formas
se relacionam e reforçam, até certo
ponto, entre si. Estas ideias nunca
foram apresentadas como o gér-
men duma nova doutrina. E, de
facto, não o eram: pode-se encon-
trar um fio constante de pessoas
que defenderam semelhantes argu-
mentos ao longo da história, apesar
de que tudo aponte para que, em
quase todos os momentos e luga-
res, estas opiniões raramente se
expressavam por escrito. Referimo
-nos, portanto, menos a um corpo
teórico do que a uma atitude ou
inclusive, poderíamos dizer, a uma
fé: a recusa de certo tipo de relações sociais, a
certeza de que outras serão muito melhores
para construir uma sociedade habitável, a crença de
que tal sociedade poderá realmente existir.

Se, para além disto, se compararem as escolas
históricas do marxismo e do anarquismo vê-se
que se tratam de projectos fundamentalmente
diferentes. As escolas marxistas possuem
autores. Da mesma maneira que o marxismo
surgiu da mente de Marx, temos também leni-
nistas, maoistas, trotskistas, gramscianos,
althusserianos... (Note-se que esta lista está
encabeçada por homens que foram chefes de
Estado e vai descendo gradualmente até se
chegar aos professores franceses). Numa oca-
sião, Pierre Bordieu assinalou que se o mundo
académico fosse como um jogo em que vários
especialistas lutam pelo poder, qualquer um
saberia que teria vencido quando os outros
começassem a perguntar-se como criar um
adjectivo a partir do seu nome. É precisamente
para preservar a possibilidade de ganhar este
jogo que os intelectuais insistem em continuar
a usar nas suas discussões teoria da história do
tipo “Grande Homem”, de que, sem dúvida, se
ririam em qualquer outro contexto. As ideias
de Foucault, como as de Trotsky, nunca são
tratadas como um produto directo de um certo
meio intelectual, resultado de conversas inter-
mináveis e de discussões em que participam
centenas de pessoas, mas sim como o produto
do génio de um só homem ou, muito ocasional-
mente, de uma mulher. Tão pouco se trata de
que a política marxista se tenha organizado co-
mo uma disciplina académica ou que se tenha
convertido num modelo para medir, cada vez
mais, o grau de radicalidade dos intelectuais. Na
realidade, ambos os processos desenvolveram-se
em paralelo. Na perspectiva da academia, isto
produziu resultados satisfatórios – o sentimento
de que deve existir algum princípio moral, de
que as preocupações académicas devem ser
relevantes para a vida das pessoas -, mas tam-
bém desastrosos: converteram grande parte do
debate intelectual numa paródia da política sec-
tária, em que todos se esforçam por caricaturar
os argumentos do outro, não só para mostrar
como são erróneos, mas sobretudo quão malévo-
los e perigosos podem chegar a ser. E tudo isso
quando nas discussões que têm se servem de
uma linguagem tão hermética que só quem te-
nha podido permitir-se sete anos de estudos
superiores pode ter acesso a elas.

Consideremos agora as diferentes escolas do
anarquismo. Há anarcosindicalistas, anarcoco-
munistas, insurrecionalistas, cooperativistas,
individualistas, palataformistas... Nenhuma
deve o nome a um Grande Pensador; pelo con-
trário, todas recebem o seu nome por algum tipo
de prática ou, é mais comum, de um princípio
organizativo. (Significativamente, as correntes
marxistas que não recebem o nome de pensado-
res, como a autonomia ou o comunismo conse-
lhista, são as mais próximas do anarquismo). Os
anarquistas gostam de se destacar pela sua práti-
ca e pela forma como se organizam para levá-la
a cabo e, de facto, consagram a maior parte do
tempo a pensar e a discutir precisamente isso.
Os anarquistas nunca se interessaram muito
pelas questões estratégicas e filosóficas que
historicamente preocuparam os marxistas. Os
anarquistas consideram que questões como
“serão os camponeses uma classe potencialmen-
te revolucionária?” é algo que deve ser decidido
pelos próprios camponeses. Qual é a natureza da
mercadoria? Em vez disso discutem sobre qual a
forma verdadeiramente democrática de organi-
zar uma assembleia e em que momento a organi-
zação deixa de ser enriquecedora e coarta a li-
berdade individual. Ou sobre que ética deverá
prevalecer na oposição ao poder. O que é a ac-
ção directa? É necessário (ou correcto) condenar
publicamente alguém que assassina um chefe de
Estado? Ou pode o assassinato ser considerado
um acto moral, especialmente quando evita algo
terrível, como uma guerra? Quando é correcto
apedrejar uma janela?

Em resumo:

1. O marxismo tende a ser um discurso teórico
ou analítico sobre a estratégia revolucionária.

2. O anarquismo tende a ser um discurso ético
sobre a prática revolucionária.

Obviamente que tudo o que disse até agora não
deixa de ser um pouco caricatural (houve grupos
anarquistas muito sectários e muitos marxistas
libertários partidários da prática, incluindo-me
possivelmente a mim). De todas as maneiras, tal
como assinalei, isto implica uma grande com-
plementaridade potencial entre ambos. E, de
facto, houve-a: Mikail Bakunin, para além de
discutir com Marx sobre questões de índole
prática em inúmeras ocasiões, também traduziu
pessoalmente O Capital para russo. Isso, facilita
também a compreensão do porquê de haver tão
poucos anarquistas na academia. Não tem a ver
simplesmente com o facto do anarquismo não
utilizar uma teoria tão elaborada, mas sim pelo
facto das suas preocupações terem a ver sobretu-
do com questões práticas; insiste, antes do mais,
em que os meios devem estar de acordo com os
fins e que não se pode gerar a liberdade através
de meios autoritários. De facto, e dentro do
possível, deve-se antecipar a sociedade que
desejamos criar nas nossas relações com os
amigos e companheiros. Isto não encaixa muito
bem com o trabalho na universidade, talvez a
única instituição ocidental, para além da igreja
católica e da monarquia britânica, que permane-
ceu inalterável desde a Idade Média, promoven-
do debates em hotéis de luxo e pretendendo que
isso, inclusive, fomenta a revolução. Pelo me-
nos, é de esperar que um professor abertamente
anarquista questione como funcionam as univer-
sidades – não me refiro a solicitar um departa-
mento de estudos anarquistas – e isso, com cer-
teza, lhe traria muito mais complicações do que
qualquer coisa que alguma vez pudesse escrever.

Excerto do 1o Capítulo de “Fragmentos de antropologia
anarquista”, traduzido da edição em castelhano da editorial
Virus ( download aqui: http://ebookbrowse.com/graeber-
david-fragmentos-de-antropologia-anarquista-pdf-)

Anarquismo

Nome dado ao princípio ou teo-
ria de vida e de conduta que
concebe uma sociedade sem
governo; uma sociedade em que
a harmonia se obtém não pela
submissão à lei nem pela obedi-
ência à autoridade, mas sim
mediante acordos livres entre os
diferentes grupos, territoriais e
profissionais, constituídos livre-
mente para a produção e o con-
sumo, assim como para a satis-
fação da infinita variedade de
necessidades e aspirações de
um ser civilizado.
Pier Kropotkin
(Encyclopedia Britannica)

Utopia

Em poucas palavras, se não és
utópico é porque és imbecil.
Jonothon Feldman
(Indigenous Planning Times)

Política

A noção de “política” pressu-
põe um Estado ou aparelho de
governo que impõe a sua vonta-
de a todos os outros. A
“política” é a negação do polí-
tico; a política está, de alguma
forma, ao serviço da elite, que
diz conhecer melhor que os de-
mais como se devem tratar os
assuntos públicos. A participa-
ção nos debates políticos o úni-
co que pode conseguir é diminu-
ir os danos (por ela) causados,
dado que a política é contrária
à ideia de que as pessoas admi-
nistrem os seus próprios assun-
tos.
David Graeber
(Fragmentos de antropologia anarquista)


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