(pt) Nota Nacional da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) - desmistificando estereótipos e esclarecendo equívocos (en)

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Sábado, 2 de Fevereiro de 2013 - 08:41:58 CET


Um pouco de nossa concepção de anarquismo: desmistificando estereótipos e esclarecendo 
equívocos ---- Em Julho do presente ano foi realizado o 1º Congresso da Coordenação 
Anarquista Brasileira (ConCAB), no marco de 10 anos de construção de um Anarquismo 
organizado especificamente e inserido nas lutas de nosso povo. O Fórum do Anarquismo 
Organizado (FAO), instância que ao longo dessa década reuniu diversas Organizações 
Anarquistas Especifistas de todo o Brasil para discutir temas que permitissem o necessário 
acúmulo e os indispensáveis acordos para que pudéssemos avançar na tarefa de construção de 
uma Organização Anarquista a nível Nacional, cumpriu sua função inicial e, desde o 1º 
CONCAB, deixou de ser um Fórum para se tornar uma Coordenação.

Uma nova etapa foi, portanto, aberta para a militância especifista brasileira: constituir 
um espaço de coordenação em que participam 9 Organizações Anarquistas de diferentes 
Estados, de base Federalista e que vá construindo – a partir de práticas concretas e na 
medida em que vai ampliando sua base de acordos – unidade estratégica e maior organicidade 
para intensificar a inserção social no seio de nosso povo. Nesse sentido, são mais de 10 
anos de resgate do Anarquismo enquanto corrente libertária do Socialismo, organizada 
politicamente e inserida socialmente.

É o resgate da já antiga mas atualíssima máxima que diz que a “emancipação dos 
trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, porém aliada também a histórica 
prática da organização do anarquismo enquanto partido, como foi a Aliança da Democracia 
Socialista de parte da Ala Federalista e Anti-autoritária da 1ª Internacional (Bakunin, 
Guillaume, Malatesta, Cafiero e outros) e também da nossa irmã Federação Anarquista 
Uruguaia, que se manteve atuante no período da ditadura militar uruguaia, mantendo 
inserção social operária, estudantil e organizando um aparato armado que combateu o regime 
sanguinário que manchou de sangue nossa América Latina.

No entanto, nossa rica história que se confunde com a história da classe trabalhadora é 
muitas vezes atacada ou desmerecida: muitas vezes trata-se do simples desconhecimento ou a 
reprodução de discursos simplificadores e reducionistas, porém, muitas vezes se trata da 
má fé, do preconceito e da necessidade de construção política na base da calúnia, 
auto-promoção e mentiras. Recentemente, o último texto que tivemos contato e que faz 
referência aos “anarquistas” nestes moldes é uma nota lançada pelo PSTU de Curitiba, 
intitulada “Nossas diferenças com a corrente Luta Socialista (LS)/Outros Outubros Virão”, 
na qual é analisado a postura desse grupo citado no título da nota nas eleições ao DCE da 
UFPR e junto a eles o Coletivo Quebrando Muros (que possui militância anarquista do 
Coletivo Anarquista Luta de Classes – CALC, organização integrante da CAB). Independente 
do que motiva este e outros discursos, julgamos conveniente vir a público para dar nossa 
posição sobre o estereótipo do “anarquista” mais uma vez reproduzido à custa da verdade. 
Assim, nos posicionamos nacionalmente não para entrarmos na briga de quem é mais 
revolucionário ou possui a verdadeira interpretação do período em que vivemos, mas sim 
porque julgamos necessário esclarecer o que consideramos equívocos, desconhecimentos e 
incoerências.

Nossa implicação enquanto CAB se dá por um conjunto de motivos que normalmente são 
veiculados em materiais como o que nos referimos acima: generalização e estereotipação do 
anarquismo; acusação de que somos uma seita esquerdista e que não teríamos nenhuma 
responsabilidade; de que somos anti-partidários; de que seriamos sectários e 
intransigentes, possuidores, portanto, da difamação e do ataque como única forma de 
construção militante possível; que fazemos alianças somente com quem pensa da mesma forma 
que nós; que possuimos em nossa história apenas o anarco-sindicalismo como expressão 
política e organizativa e, ainda mais, que atacamos toda e qualquer entidade sindical, 
estudantil e popular como sendo burocrática e desnecessária à luta. Também assinalam 
normalmente que hoje nós, “seita anarquista”, estaríamos limitados em geral a seitas 
estudantis mais ou menos marginais e sem inserção real na classe trabalhadora. Daremos 
nossa posição sobre tudo que até agora reproduzimos.

Primeiramente, nós Coordenação Anarquista Brasileira fazemos parte de uma tradição 
político-organizativa chamada de Especifismo. Especifismo porque fazemos a defesa enquanto 
Anarquistas da necessidade de nos organizarmos politicamente enquanto tais. Essa 
necessidade se expressa por meio de uma Organização Política Anarquista, Federalista e de 
Quadros, com critérios de ingresso, formação militante, dotada de um Programa Mínimo, 
Estratégia de Curto e Longo Prazo e Objetivo Finalista. Não somos, portanto, uma seita. 
Somos sim, no interior da história do Socialismo, um Partido, tal como dizia o italiano 
Errico Malatesta: “Nós, os socialistas-anarquistas, existimos como partido separado, como 
programa substancialmente constante, desde 1867, quando Bakunin fundou a Aliança; e fomos 
nós os fundadores e a alma do rumo antiautoritário da ‘Associação Internacional dos 
Trabalhadores.”

O Especifismo tem sua expressão “inicial” na América Latina com a FAU (Federação 
Anarquista Uruguaia), fundada em 1956 e que reuniu em sua formação velhos militantes 
anarco-sindicalistas que se organizavam na FORU (Federación Obrera Regional Uruguaia); 
velhos combatentes da Revolução Espanhola; jovens militantes sindicais e estudantis do 
país e alguns remanescentes que conviveram com o grupo de anarquistas expropriadores que 
realizaram diversas ações na região do Rio da Prata. A FAU era defensora da organização 
especifica do Anarquismo, por meio de uma Estrutura Organizacional que vinculasse 
organicamente seus militantes sob uma Declaração de Princípios e Elementos de Estratégia e 
que pudesse desenvolver em seu interior tarefas correspondentes a análises de conjuntura, 
capacitação político-militar (projetando ai o desenvolvimento de um aparato armado que se 
concretizou e foi chamado de OPR-33 – Organización Popular Revolucionária 33 Orientales) e 
é claro, inserção social no movimento de massas.

A FAU ao longo de sua existência (se mantém atuante ainda hoje) cumpriu importante papel 
na construção da CNT (Convención Nacional de Trabajadores), participando através de 
sindicatos de base ou da própria direção da entidade; na construção da ROE (Resistência 
Obreiro Estudiantil), agrupação de Tendência que reuniu boa parte da militância de base 
classista e combativa (anarquistas, marxistas, leninistas, etc.) que se opunham a direção 
do PCU que era majoritário no movimento popular; e desenvolveu, num primeiro momento junto 
ao MLN-T (através da Coordinadora) e depois por um trabalho próprio, ações de expropriação 
de bancos, seqüestros de patrões e figuras ligadas à ditadura e apoios às mobilizações 
populares. Nós da CAB compartilhamos dessa tradição porque foi através dela que no início 
dos anos 90, quando do debate de reorganização do anarquismo, se iniciou a construção de 
Organizações Específicas Anarquistas que até hoje trabalham para seu crescimento e maior 
inserção.

Portanto, não somos Anarco-Sindicalistas ou Anarco-Estudantis, porque não fazemos a defesa 
de sindicatos ou entidades estudantis anarquistas, mas sim da necessidade de nos 
organizarmos politicamente para intervirmos no Movimento Sindical e Estudantil. Dessa 
forma, não somos contrários à existência de entidades “representativas”, sejam elas 
locais, estaduais ou nacionais, assim como não somos, por princípios, contrários à disputa 
das direções. No entanto, não temos como calculo político apenas a suposta exigibilidade 
da luta de classes da disputa das direções dos Movimentos para que eles sejam de fato 
revolucionárias, porque não apostamos nossas fichas de que a direção (o sentido) de um 
determinado movimento social seja resultado direto do grupo político que o dirige. Não 
negamos a influência que este grupo possa exercer, mas não fazemos dela a condição para o 
sucesso das lutas.

Se somos partidários de uma proposta combativa, achamos sim necessário uma Organização 
Política preparada para intervir e dar conta de certas tarefas que os Movimentos Populares 
não poderiam dar conta, não achamos, porém, que esta Organização seja uma Vanguarda ou 
Direção Revolucionária porque mais capacitada para sintetizar os desejos da classe num 
socialismo pretensamente “científico”. Por isso, em nossa percepção, a disputa de 
entidades está condicionada a capacidade que possuímos de intervenção e de fomento da 
organização das Classes Oprimidas, papel que estas entidades devem cumprir, assim como a 
própria análise do cenário vivido em cada Frente Social. Caso contrário, a ocupação de uma 
entidade torna-se apenas um rito burocrático que não dá protagonismo a nossa classe e 
tampouco acumula força social para um projeto radical.

Dessa forma, não somos espontaneístas, achando que a organização popular virá por ela 
mesma. Ao contrário do que alguns dizem, seguimos contribuindo com o fortalecimento dessa 
organização, com esforços modestos mas firmes, no movimento popular, sindical, estudantil 
e rural em diversos estados deste país. Apostamos na necessidade de uma Organização 
Política trabalhar consciente e intencionalmente no desenvolvimento da participação e 
organização popular, seja ela sindical, estudantil, comunitária etc., mas sempre 
considerando que o decisivo para as lutas, para o acúmulo necessário a um sentido 
revolucionário que realmente coloque em xeque o sistema de dominação capitalista —  e o 
Estado enquanto peça fundamental desse sistema de dominação  —  é a Força Social expressa 
na Organização das Classes Oprimidas através de seus próprios instrumentos de organização, 
de defesa e de ataque dos nossos inimigos de classe. Nossa concepção, historicamente tem 
se confrontado com a ideologia do Socialismo Estatista, justamente por acreditar que a 
destruição do Estado depende do avanço da organização das classes oprimidas e da forja de 
um sujeito revolucionário que aponte nesse sentido.

“Os velhos socialistas falavam de construir uma nova civilização. Durruti disse que 
levamos um mundo novo em nossos corações. Fazem alusão a valores, a uma nova forma de 
vida, de novas relações sociais. Se algo ensina a história é que isto não se produz de 
cima, requer construir um novo sujeito social. E para esta construção é fundamental a 
participação ativa, transformadora desse sujeito. Se não tem tomado contato com novas, 
ainda que sejam incipientes relações sociais, esse sujeito social não pode ter outros 
referentes que os conhecidos e os que tende a reproduzir. É construindo força social e 
tomando ativa participação nela que se podem formar embriões da nova civilização ou do 
“homem novo”, de outro sujeito. Digamos que este é o tema de como se transforma a 
consciência, para usar a linguagem clássica. Pelo que tem se visto a economia por si não 
transforma a consciência. O que o sujeito vive e como vive cotidianamente, historicamente, 
no marco de determinados dispositivos, seria o elemento principal de mudança de sua 
consciência.”

“Outro sujeito histórico não virá do nada, não aparecerá como arte de magia, deve ser o 
fruto de práticas que internalizem outras questões que chocam com o dominante. A 
participação efetiva, a autogestão, a ação direta, a forma federal de funcionamento 
realmente democrático, a solidariedade e apoio mútuo, necessitam de mecanismos, 
organizações, práticas regulares para seu desenvolvimento.”(Documento Teórico Wellington 
Gallarza e Malvina Tavares – acordo teórico FAU-FAG)

             Esse é o nosso objetivo finalista: a construção de uma nova sociedade a 
partir de um processo revolucionário que destrua o sistema de dominação ao passo que 
constrói os mecanismos de gestão e de condução política e econômica dessa nova sociedade. 
Resulta disso nossa defesa do Poder Popular, enquanto um período de transição em meio a um 
processo revolucionário que consolide novas relações, instituições e mecanismos do próprio 
povo. Para isso precisamos, hoje, de um Programa Mínimo que faça a mediação entre a 
realidade vivida tal qual ela é e o nosso Objetivo Finalista. Nas palavras do também 
italiano Camilo Berneri “A política é cálculo e criação de forças que realizam a 
aproximação da realidade ao sistema ideal mediante fórmulas de agitação, de polarização e 
de sistematização que sejam agitadoras, atraentes e lógicas num dado momento social e 
político. Um anarquismo atualizado, consciente das suas próprias forças de combatividade e 
de construção, e das forças adversas, romântico no coração e realista no cérebro, pleno de 
entusiasmo e capaz de contemporizar, generoso e hábil em condicionar o seu apoio, capaz, 
em suma, de economizar as suas forças[...]”. Isso é o Anarquismo para nós da CAB e, por 
isso escrevemos esse texto de esclarecimento, debate franco e posicionamento político.

Temos consciência, enquanto minoria ativa, das inúmeras deficiências e obstáculo que 
precisamos enfrentar e que enfrentaremos. No entanto, também temos consciência de nossa 
sinceridade, modéstia e firmeza naquilo que nos propomos. Ao longo desses mais de 10 anos 
de idas e vindas e de passos dados para amadurecer nosso projeto, temos participado em 
maior ou menor grau de diversas lutas, construções, embates na América Latina e no Mundo 
e, independente das divergências com outras tradições do Socialismo exigimos respeito. 
Estamos juntos e lado a lado na luta pelo Socialismo e pela Liberdade e daí não nos 
retiraremos.

Saudações Anarquistas e Revolucionárias!

Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)


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