(pt) Anarkismo.net: Mandela e a lição para o Brasil by Bruno Lima Rocha

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Domingo, 15 de Dezembro de 2013 - 11:35:07 CET


Ao superar o Apartheid, necessariamente o símbolo do território tinha de refletir a nova 
unidade pluriétnica ---- O funeral de Nelson Mandela é o termômetro de seu peso político 
para o mundo. Cabe uma reflexão deste legado em comparação com a matriz africana que o 
Brasil ainda renega. Interessante observar que o mito não chegou a contaminar-se com o 
governante. A sabedoria política o faz assumir o Poder Executivo apenas por um mandato 
(1994-1999), o primeiro após a transição seguida das eleições gerais, de modo que o herói 
não se desgastou tanto como gestor. ---- Em seu governo, a África do Sul conseguiu duas 
proezas antagônicas. No aspecto negativo, seu mandato foi marcado por uma agenda social 
tímida seguida de reestruturação econômica sob tutela do FMI e campanha de privatizações. 
No intuito de pacificar o país, a distribuição de renda foi adiada, fazendo parte das 
promessas não cumpridas pelo Congresso Nacional Africano (CNA). Apesar da fuga de capitais 
bôeres, a estrutura produtiva ainda é muito vinculada aos colonizadores de origem 
holandesa, concentrando cerca de 80% do PIB do país.

No aspecto positivo, unificou o país, assumindo o conceito de Estado Plural, com um 
conjunto de etnias e multiplicidade de idiomas. Neste caldeirão cultural, a herança dos 
bôeres foi reconhecida, sendo o africâner - o holandês falado no período colonial - tido 
como mais uma língua africana. A mudança da bandeira da República da África do Sul, 
adotada em 26/04/1994, materializa o reconhecimento das múltiplas raízes, mas não do 
modelo segregacionista e tampouco uma história linear. Ao mesclar as cores holandesas e 
inglesas com a bandeira universalista do CNA, a república foi reinaugurada com outra 
identidade.

Quanta diferença para o Brasil! No país sede do mito da "democracia racial" os 
afro-descendentes equivalem a 53% da população; logo não poderia haver qualquer tolerância 
com a herança colonial e escravagista. Infelizmente, até a bandeira reflete o oposto. As 
cores nacionais representam a tentativa da formação do Império Luso-Brasileiro, onde a 
unidade nacional fora vergonhosamente mantida através do pacto pela escravidão. Neste 
reino, o amarelo-ouro da bandeira representaria a Casa da Áustria (Habsburgos) e o verde a 
Casa dos Bragança. Ao centro do losango amarelo, a coroa imperial, mais tarde substituída 
pelo logo positivista após o golpe de Estado republicano. No país cuja presidenta e quatro 
ex-mandatários fazem a rota inversa do Atlântico para render homenagens ao líder 
anti-racista, sequer a bandeira representa a herança histórica da maioria.

Que a África do Sul sirva de lição.
Bruno Lima Rocha

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