(pt) zabalaza.net: África do Sul: a "Marca Mandela" marcha a todo o vapor (ca, en)
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Domingo, 8 de Dezembro de 2013 - 08:47:57 CET
(Nota do Colectivo Libertário de Évora: Este artigo foi originalmente publicado no site
anarco-comunista sul-africano zabalaza.net, a 6 de Junho de 2013, seis meses antes da
morte de Nelson Mandela e refere-se à mitificação e aproveitamento da figura deste
resistente e combatente de longa data contra o regime de apartheid sul-africano. Com a sua
morte esta mitificação e aproveitamento tomaram dimensões enormes. Não há hoje cão nem
gato, da esquerda à direita, do capitalismo mais abjecto ao marxismo mais fora de moda,
que não elogie Nelson Mandela e a sua luta. Este artigo assinado por Tina Sizovuka, que
integra o Tokologo African Anarchist Collective, aproxima-nos do olhar dos anarquistas
sul-africanos face a Nelson Mandela, mas sobretudo aos aproveitamentos políticos e
comerciais que dele têm sido feitos, mesmo antes da sua morte).
Tina Sizovuka
Nelson Mandela converteu-se numa marca: a "Marca Mandela". A sua imagem, nome, biografia e
outros dados conexos são utilizados para gerar lucros e promover a lenda do personagem. Em
Julho de 2012, por exemplo, foi lançada no mercado a linha de roupa 46664 (o seu número de
prisioneiro nas prisões do apartheid); claro "made in China".
Mas a "Marca Mandela" é algo mais do que uma oportunidade para vender bugigangas estúpidas
a turistas e celebridades. Também é um mito perigoso, um culto promovido diariamente na
imaginação do público e que está ao serviço de interesses muito mais sinistros. O mito de
Mandela é utilizado para dar, por associação, credibilidade à viciosa classe dominante
sul-africana e para legitimar o partido dominante Congresso Nacional Africano (ANC). Não é
de estranhar que o lançamento em 2012 dos novos "randelas" - uma nova série de notas da
África do Sul, com a imagem de Mandela - coincidiu com a conferência nacional do ANC em
Mangaung. (aqui)
E este "dinheiro Madiba" (Madiba é o nome popular de Nelson Mandela) chegou juntamente com
uma série de outros dispositivos de glorificação a Mandela. Estes incluem a apresentação
em Bloemfontein, onde o ANC foi fundado em 1912, de uma nova estátua de Mandela. Segundo o
Presidente do país e actual chefe do ANC Jacob Zuma, trata-se de um símbolo "da
reconciliação e a da tolerância", e uma forma de recordar que devemos "continuar a falar"
sobre o herói nacional e a sua "verdadeira história"
O facto de criticarmos a "Marca Mandela" de maneira nenhuma significa que menosprezemos os
sacrifícios pessoais que Mandela fez durante a luta contra o apartheid, o seu papel que
foi visível na transição de 1994, quando se conseguiram avanços significativos nos
direitos colectivos. Mas suscitar a emoção popular com a iconografia da libertação e com o
uso da imagem de Mandela como se fosse a de um santo vivo, foi uma forma de ocultar a
história muito menos heróica do ANC no poder e as realidades desagradáveis da conferência
de Mangaung.
Tal como qualquer outra propaganda nacionalista a "Marca Mandela" tem sido usada pelos
ricos e poderosos para perpetuarem um sistema de classes putrefacto, um sistema que o ANC
ajuda a manter através das suas políticas neo-liberais, as suas ofertas de "empoderamento"
para as novas elites e os massacres policiais. Um sistema que tem causado a miséria para
os milhões de pobres sul-africanos a quem se diz que teriam sido "libertados" por Mandela.
Na África do Sul este sistema de classes está dirigido por uma aliança de capitalistas
privados (na sua maioria brancos) e administradores estatais (na sua maioria negros) que
actuam em conivência, dado os seus interesses de classe serem comuns. Depois de uma
história sangrenta que assegurou a existência de muito pouco espaço para as aspirações de
outros no sector privado dominado pelos brancos, o Estado converteu-se no principal meio
para que a elite negra alcançasse dinheiro e poder.
É por esta razão que o ANC, como guardião do acesso aos recursos do Estado, converteu-se
num espaço tão disputado. O caminho para Manguang esteve marcado não pela "reconciliação e
a tolerância", nem por "continuar a falar sobre o herói", ma sim pela rivalidade entre
facções corruptas, acusações de fraude eleitoral e inclusivamente pela tomada de reféns e
pelo assassinato... Isto é o ANC na realidade, pese embora os esforços desesperados
levados a cabo pela facção dominante de Zuma tentando promover um alegado sonho
nacionalista herdeiro da "magia de Madiba".
E, por último, para deixar as coisas claras, Mandela não foi o autor heróico e individual
da libertação do país. Mesmo se teve um papel importante, o próprio nunca se proclamou
indispensável para esse processo. A quem, fundamentalmente, devemos agradecer os avanços
conseguidos em 1994 é à maioria trabalhadora negra e aos seus aliados de todas as raças,
aso seus esforços colectivos e à solidariedade uq fortaleceu as suas lutas.
Se Jacob Zuma quer uma "história verdadeira", ela aqui está.
(tradução do CLE a partir da versão espanhola)
Aqui: http://zabalaza.net/2013/06/06/the-brand-mandela-steamtrain-rolls-on/
E aqui:
http://periodicoellibertario.blogspot.pt/2013/12/surafrica-la-marca-mandela-marcha-todo.html
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