(pt) Dossiê Antiglobalização/EUA (parte do livroInsurgência das Ruas, por Ned Ludd) Black Block: No singular ou no plural... mas do que se trata então?

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Sábado, 17 de Agosto de 2013 - 14:35:14 CEST


Há alguns meses que se houve falar de Black Block(s), principalmente nos meios de 
extrema-esquerda. ---- Entretanto, quer entre os militantes anticapitalistas com o resto 
das pessoas, o Black Block assusta e fascina, desencadeando muito frequentemente um ódio 
bastante selvagem, ou, ao contrário, brados de aprovação, sem que grande parte 
necessariamente saiba do que se trata na verdade. ---- A aura de mistério que envolve o 
fenômeno contribui para construir uma lenda e alimentar os mitos quanto a sua existência, 
sua razão de ser, os motivos e a natureza das suas ações. ---- Por este sujeito valer mais 
do que as aproximações duvidosas às quais ele é frenquentemente reduzido, e pelo atual 
momento nos fornecer cada vez mais ocasiões para conhece-lo, falar com ele e explicar de 
forma sintética questões concernentes ao Black Block, e propor uma análise positiva (não 
escondemos!) do valor político que ele representa, de modo a - talvez - suscitar reações e 
debates sobre este sujeito.
(...)
Nos dias 16 e 17 de Abril de 2000, em Washington, aconteceria uma reunião
do FMI e do Banco Mundial. Uma mobilização igualmente forte teve lugar,
reunindo todos os integrantes da oposição à globalização e/ou capitalismo. Um
Black Block (Bloco Revolucionário Anticapitalista, RACB) de aproximadamente
mil pessoas teve presença marcante, optanto entretanto por uma tática
resolutamente diferente daquela posta em prática em Seattle. O Black Block
concentrou todos os seus esforços sobre a polícia, conseguindo fazer recuar as
linhas policiais em várias oportunidades, forçar as barreiras policiais, libertar
pessoas presas, arrastar a polícia além de seu próprio perímetro e enfraquece-la,
defender os praticantes de desobediência civil contra as agressões policiais e lhes
permitir que conseguissem ir mais adiante. Nessa oportunidade, o Black Block
foi manifestamente uma força incrível que possibilitou o seguimento do conjunto
da manifestação.
Os Black Blocks estiveram igualmente presentes durante as convenções
republicana e democrata, embora suas ações nessas ocasiões tenham sido menos
significativas que em Seattle ou Washington.
Durante a Convenção do Partido Republicano na Filadelfia nos dias 1o e 2
Agosto, o Black Block (Black Block Anti-Estatista, ASBB) tomou parte
ativamente das manifestações e publicou em seguida um comunicado
explicitando seus ataques contra a propriedade privada e contra a força policial
efetuados durante as manifestações. Também um Clown Block participou,
parodiando o mundo político institucional através de uma prática subversiva de
teatro de rua, reprimida pela polícia.
De 14 a 17 de Agosto, a Convenção do Partido Democrata em Los Angeles foi
igualmente o palco de manifestações e ações diversas. A policia dispersa
violentamente um concerto do Rage Against The Machine que ocorria ao lado do
prédio onde teria lugar a convenção. Os membros do Black Block foram
especialmente vítimas da brutalidade policial (um deles foi alvejado por balas de
borracha e spray de pimenta enquanto agitava uma bandeira negra em cima de
uma grade), e responderam repelindo os policiais atirando projeteis diversos.

O que trazem os black blocks

“Como Seattle, os Black Blocks trouxeram às ações a energia estratégica, da
criatividade e da coragem, mas têm além disso manifestado uma grande vontade
de respeitar as aspirações de outros participantes e não cessam de defender
ativamente as pessoas menos preparadas” (Michael Albert, Znet Commentary,
Assesing A16, Abril 2000).
É fácil reduzir o “fenômeno” Black Block a algumas práticas que parecem
tanto mais ridículas e limitadas quanto a frequência em que são caricaturadas.
As ações dos Black Blocks não se limitam a uma destruição sistemática e sem
objetivo. Olhando mais de perto ele parecerá, ao contrário, como um modo de
organização e de ação política que encontra seus fundamentos numa análise
crítica da militância de extrema-esquerda, e que pode lhe acrescentar bastante.

A ação dos Black Blocks se inscrevem de fato na superação dos modos de
manifestação política tradicionais caracterizados pelos lobby e reformismo. Os
Black Blocks praticam uma desobediência civil ativa e a ação direta, afastando
assim a política do teatro virtual perfeitamente domesticado, dentro do qual ela
permanece muitas vezes encerrada (quando a contestação dos sistema se torna
um elemento entre outros no tabuleiro de xadrez político, previsível e integrado
nos cálculos políticos). Os Black Blocks reinserem a ação no seio da contestação e
possibilitam um assalto direto sobre os elementos do sistema que eles rejeitam.
Concretamente, os Black Blocks não se contentam com simples desfiles
contestatários, certamente importantes pela sua carga simbólica mas incapazes
de verdadeiramente sacudir a ordem das coisas. A ação dos Black Blocks
contribui para realizar a política ao invés de somente expressa-la em palavras.
Neste sentido, a ação política, passiva e/ou simbólica, torna-se ativa e até
ofensiva. É claramente o que afirma o comunicado de um Black Block de Seattle,
que recusa ser considerado uma simples força de reativa que dependeria assim
unicamente das atitudes e caprichos do poder.
Os Black Blocks se declaram portanto inteiramente a favor da ação ofensiva
contra as estruturas de poder, tomando ao pé da letra o famoso slogan: “O
capitalismo não se desmorona sozinho. Ajudemo-lo!”
Essa atitude se caracteriza por várias ações controversas, em especial por
danos causados à propriedade privada de multinacionais e outras empresas.

A “violência contra a propriedade”

“Em um sistema baseado na busca do lucro, a ação é mais eficaz quando
ataca o bolso dos opressores. A destruição da propriedade, como forma estratégica
de ação direta, é uma estratégica eficaz para atingir esse objetivo. Isso não é uma
teoria... é um fato” (Comunicado do Black Block Anti-Estatista, Filadélfia, 9 de
Outubro de 2000).
Atacar a propriedade de empresas é, antes de mais nada, romper com as
clássicas manifestações-desfile que “o poder” assimila perfeitamente. É dar um
passo, e atacar frontalmente as multinacionais e outras industrias movidas a
lucro num terreno que as afetam diretamente, aquele dos interesses econômicos.
Causar danos materiais que se contabilizam em dólares é dizer claramente ás
pessoas que falam apenas a língua do dinheiro que ele não são intocáveis, é
sabotar um centésimo de seus lucros e lhes retribuir um milésimo da violência
que suas atividades geram.
Atacar a propriedade é certamente atacar (simbolicamente) o bolso dos
proprietários, mas é também e sobretudo atacar sua imagem. Através de ações a
alvos definidos, acompanhadas de comunicados explicativos, os Black Blocks que
agiram em Seattle forma em certa medida bem-sucedidos em impor uma
interpretação política de seus atos de destruição, publicizando assim as questões
relativas às atividades e práticas das empresas alvos.

Mesmo as mídias institucionais não puderam facilmente se livrar desse
sujeito atribuindo os atos a “vândalos”, e tiveram de reconhecer o caráter político
de certas ações (apesar disso não houve nenhuma mudança, a mídia institucional
permanece aquilo que é - uma servidora do poder, bem entendido). Resumindo, é
possível suscitar a atenção sobre a correção das atividades das empresas e até
mesmo sobre a “natureza” do comércio ao se praticar essas ações diretas de
sabotagem.
Se essas ações permitem afetar a imagem das companhias que são alvo, elas
permitem também transformar as percepções, modificando o valor concebido aos
diversos bibelôs e símbolos do capitalismo. Através de seus comunicados, os Black
Blocks legitimam e dão uma positividade a suas ações.
Uma vitrine quebrada torna-se um novo lugar, liberado de todos esses
símbolos agressivos que testemunham a onipresença arrogante do capitalismo e
das várias formas de opressão que ele mantém e gera.
Uma loja pilhada é uma coletividade que toma aquilo de que necessita, seja
lá onde encontrem, curto-circuintando o processo mercantil, negando o valor de
troca dos objetos e lhes reconhecendo o valor de uso. É afirmação da gratuidade
contra o comércio, do roubo como forma de protesto político e meio de viver
decentemente em um mundo onde nada é acessível sem dinheiro, nem mesmo a
satisfação de suas necessidades vitais.
Um muro pichado é visto como um pequeno pedaço de espaço urbano
reapropriado, como uma abertura em uma cidade uniforme, branca e imaculada.
É um ataque contra as superfícies cinzentas, melancólicas e assépticas. Uma
fachada tornar-se então um lugar de expressão vivo e colorido, que dá a palavra
às pessoas comuns e desprovidas. O impacto visual de um slogan escrito em um
muro às pandegas rivaliza com a dos painéis publicitários, do cartaz oficial ou da
tela da televisão que se impõem como os únicos meios de informação e de
expressão, reservado àqueles e àquelas que podem ter acesso a eles - devido a sua
posição social ou pela falta de questionamento dos fundamentos de um sistema
alienante.
Esses diferentes procedimentos, simples de serem realizados são a
manifestação de um poder emanando da base, de um poder que não passa pelas
estruturas oficiais para se exprimir, mas que escolhe um forma de expressão
dissidente e mais direta. Estes meios simples, diretos e ao alcance de todos são
portanto logicamente mais capazes de atingir os grupos mais desfavorecidos, os
grupos mais marcados pela exclusão, aqueles e aquelas que sempre foram
abandonados pela política e que acabaram por abandonar a política. Ao agirem
concretamente sobre os objetos de sua revolta, os Black Blocks são mais capazes
do que qualquer outro de se sensibilizar estes excluídos que comem o pão que o
diabo amassou cotidianamente, mas que no entanto estão frequentemente
condenados à resignação.

O exemplo de Seattle é flagrante com respeito a isso: enquanto o conjunto do
movimento de luta contra a OMC lastimava a pouca participação de pessoas de
cor e/ou das classes sociais mais “baixas” nos eventos, as iniciativas dos Black
Blocks atraíram (e foram as únicas a faze-lo) uma quantidade de jovens dos
bairros negros e pobres.
Do mesmo modo os Black Blocks podem assustar e desencadear a hostilidade
de alguns, eles podem tornar a política e sua realização mais acessíveis, e agir
como fator politizante e dinamizante dentro da luta contra o capitalismo.
Estes momentos de ação contribuem à criação momentânea de situações
onde tudo parece possível, onde a ordem balança, onde cidades parece
reapropriada, “liberada” em alguns pontos. Estas Zonas Autônomas Temporárias
são muito importantes: trata-se de toda uma ação sobre o ambiente, sobre as
possibilidades que ela deixa entrever às pessoas - o fato de que outra coisa é
possível, de que a merda cotidiana não é uma fatalidade. Estes instantes de
exaltação - onde o mundo todo parece desmoronar - estão certamente deslocados
em relação a realidade, que em geral restabelece logo a ordem, mas são benéficos
e indispensáveis. São apenas ocasiões que dinamizam, dando esta impressão de
que nada será mais como antes, podendo ser catalisadores de energias, pontos de
partida de iniciativas, de criações e de ações. Nos muros de Seattle lia-se “We are
winning!” (”Estamos ganhando!”).

Para muitos, parecia que isto não erra completamente falso.

A experiência de Seattle, e do Black Block em particular, foi um impulso
considerável ao movimento anarquista norte-americano. Não só por causa da
multiplicação das ações e da quantidade de participantes...
Entretanto, a importância dos Black Blocks não se resume a estes poucos
exemplos. Seus modos de organização e estruturas, assim como sua evolução no
decorrer das manifestações, explicam para muitos este sucesso e resultado.

Organização horizontal, fluida e evolutiva

“A polícia não gosta da guerrilha urbana que não se encaixe bem com as suas
táticas militares: ela quer eventos lentos, monolíticos, imóveis e previsíveis, para
poder empregar sua força de controle paquidérmico e sua ordem hierárquica
planificada” (Dan Je sait tout, Genebra, 3 de Junho de 2000).
Uma das caracteristicas dos Black Blocks é sua forma horizontal, não-
hierarquica, própria para evitar a lentidão de uma gestão centralizada. Não
existe chefe nem verdadeiro plano unitário, mas sim indivíduos que constituem
pequenos grupos de afinidades independentes uns dos outros. Esse modo de
funcionamento permite uma relativa autonomia, no lugar de uma organização
global muitas vezes sufocante (e mais propícia a expressar relações de poder).
A organização em grupos de afinidade permite tomadas de decisão bem mais
rápidas e igualitárias (os grupos são constituídos de uma pequena quantidade de
pessoas que se conhecem), e deste modo facilmente as mudanças e evoluções
instantâneas desorientam a polícia.

Além de grupos de afinidade permitirem uma gestão fluida da ação, eles
também são de grande valor estratégico frente à repressão policial. Uma massa
de pessoas interdependentes são mais facilmente controláveis pela polícia do que
um conjunto de pessoas organizadas em pequenos grupos autônomos e móveis,
suscetíveis de tomar decisões rápidas e de surpreender. Apesar das suas táticas
de controle de manifestações, a policia pode se encontrar completamente
desarmada face a uma imensidão de grupos que agem simultaneamente. No
lugar de enfrentar uma organização rígida a qual pessoas seguem (exemplo típico:
a cabeça de uma manifestação e o resto do cortejo), ela deve enfrentar vários
grupos que agem de maneira independente e simultânea.
Para o ou a manifestante, trata-se portanto de se tornar atriz ou ator de
seus movimentos ao se organizar, ao invés de seguir desastrosamente ou
cegamente e ser encurralado.
Um outra característica dos Black Blocks é a evolução de suas estratégias.
Em Washington, sua presença era impressionante. Embora todos esperassem que
os Black Blocks atacassem a propriedade, eles, ao contrário, dirigiram todos os
seus esforços aos meios de resistência à polícia e a debilita-la de modo permitir ao
conjunto da manifestação ganhar terreno. Essa evolução é significativa.
Ela prova que sem organização centralizada e hierárquica, os Black Blocks
são capazes de tomadas de decisão coletivas a grande escala, sem comprometer a
autonomia e independência dos grupos de afinidade que os constituem. Além
disso, uma tal decisão supõe um distanciamento e uma visão crítica em face das
ações precedentes, importantes faculdades de autocrítica e de tomada de decisões
táticas, que até aqui estiveram ausentes em muitos outros que compõem o
movimento anticapitalista. a DAN (Direct Action Network, rede de desobediência
civil não-violenta muito ativa durante as manifestações contra globalização) por
exemplo aplicou as mesmas técnicas que aplicara em Seattle, sobre as quais a
polícia estava amplamente avisada, e portanto, preparada para combate-las. Por
ter previsto esta situação, o Black Block mostra que não é somente capaz de
antecipar e agir em consequência, mas que ele não se detém a um meio de ação
particular, que a destruição de propriedades não é um fim em si, mas um meio
entre outros, propício em certas ocasiões mas podendo dar lugar a outras técnicas
por vezes mais adequadas a uma determinada situação.

Contra os Black Blocks

“Estamos aqui para proteger a Nike, o Mc Donald’s, a Gap e todo o resto.
Onde está a polícia? Estes anarquistas deveriam ser presos” (Medea Benjamin,
líder da Global Exchange, uma ONG, no New York Times, 2 de Dezembro de
1999).

Essas ações não-violentas foram interrompidas e desviadas do objetivo pelos
pequenos bandos de vândalos que derrubaram máquinas de vender jornal e
claramente quebraram algumas vitrines no centro da cidade. A polícia foi incapaz
de identificar e de prender esses poucos indivíduos associais. Por que a polícia
não identificou e prendeu esses vândalos mais depressa? Se ela o fizesse, teria me
evitado esta tarde desagradável e este constrangimento. Não viemos para
destruir Seattle, estamos aqui para esclarecer o efeito destrutivo da OMC (Mike
Dolan, da ONG Public Citizen, no World Trade Observer, 1o de Dezembro de
1999).
A semelhança entre as declarações de certos manifestantes e o discurso
oficial é bastante evidente, e dá contra da hostilidade de uma parte da
“contestação de esquerda” frente às atividades mais radicais dos Black Blocks, e
por outro lado da participação ativa destas mesmas pessoas no sistema
repressivo.
Já que, para lá de simples divergências de opinião, é também nos
acontecimentos que é manifestada esta hostilidade.
(...)
Agindo sem desconsiderar essas ações “não-violentas” e nem contra elas, os
Black Blocks tem muito frequentemente participado ativamente, afirmando-se
como força política essencial ao movimento de luta anticapitalista e não como
fenômeno marginal.

Essas criticas na prática

“A coordenação de organizações de participantes deve preparar futuramente
ainda mais os manifestantes para imobilizar e entregar à polícia qualquer
“hooligan” indesejável. Mesmo se um “hooligan” viesse sofrer algo, seria apenas
uma pequena perda ao lado das 20 mil crianças que morrem diariamente sob o
reinado das multinacionais” (Ole Fjord Larsen, membro da United Peoples, no
Future planning after Seattle, 12 de Dezembro de 1999).
É fácil responder a essas críticas muitas vezes grosseiras: elas são
manifestadas de maneira até mais problemática pelos gestos de violência que as
vezes põem em perigo membros dos Black Blocks. Com efeito, durante a “batalha
de Seattle” algumas pessoas foram atingidas por manifestantes que diziam se
opor à violência e que as acusava de sabotar a manifestação (que paradoxo!). Por
várias vezes algumas pessoas tentaram arrancar as máscaras do Black Block, ou
até mesmo entregar seus membros à polícia! Muitas vezes o Black Block teve de
lidar com estes pacifistas fundamentalistas que constituíam uma verdadeira
“polícia da paz” mais do que a polícia com uniformes. Esta atitude reativa contra
toda a críticaa que se exprima de outro modo que não através de desfiles bem-
educados, participa plenamente do sistema repressivo posto em prática pelas
autoridades. Qual é a revolta deste chamados “pacifistas” que comportam como
policiais quando não há policiais, que usam violência física (pondo de lado sua
própria coerência) contra aqueles que quebram a tranquilidade servil de seus
desfiles contempladores? Seus objetivos parecem os mesmo dos policiais:
preservar a paz social não importa a que preço. Exterminar a revolta, visto que
aqueles que ganham sentido e se engajam de maneira pouco mais concreta do que
apenas através de palavras esvaziadas do seus significado. Estes “pacifistas”
direcionam erradamente a sua raiva, e têm uma séria necessidade de tomar
consciência de sua própria participação nas estruturas repressivas que estão
supostamente a denunciar. Portanto, eles constituem um certo perigo para
aqueles que querem tomar seus desejos por realidade, e antecipar alguns tijolos
desta famosa “mudança global” que demora tanto a chegar...
Enfim, o fato destas poucas críticas serem tão grosseiras e ridículas, tão
violentas e perigosas, não significa no entanto que ele livra os Black Blocks de
qualquer crítica. Seria no entanto bom faze-la inteligentemente, começando por
reconhecer a utilidade que até agora eles têm provado possuir.

Conclusão

(...)
No curso das manifestações destes últimos meses, pode-se observar cada vez
mais o Black Block se formar. Esse movimento parece expressar uma certa
radicalização dos meios de extrema-esquerda e anarquista americanos, ao mesmo
tempo que talvez signifique um retorno do interesse pelas ideias e práticas
libertárias.
Mas o Black Block é mais do que um indicador de tendências. Parte
integrante deste processo é o afastamento dos protestos rotineiros do reformismo
e da contemplação, reinventando e popularizando um desobediência civil ofensiva.
O Black Block não é somente um avanço em relação aos meios de contestação
tradicionais, mas também um avanço em relação à ação ilegal isolada, que ganha
sentido no quadro de uma luta global e política.
O Black Block é também a desorganização organizada, a possibilidade de se
associar eficácia estratégica e prática igualitária, radicalidade e lucidez política.
Por todas essas razões, o Black Block me parece uma verdadeira força
política, portadora de numerosas dinâmicas e potencialidades quando ao futuro
das lutas anticapitalistas e anti-estatistas.

Penso que se a iniciativa do Black Block deve ser encorajada, ela deve
necessariamente ser acompanhada de discussões e análises críticas desse sujeito.

O Black Block deve evitar fixar-se em um modo de ação particular ou perder-se
na auto-satisfação, e assim evitar questionar-se mais adiante. Pelo contrário,
essas práticas “radicais” podem ser igualmente ocasiões de levantar questões
essenciais: questões relativas às discriminações (sexismo, racismo,
especialmente), ao caráter identitário e potencialmente excludente dos Blocks etc.
Uma vez que não se trata simplesmente de se unir contra o sistema, mas de
combater aqui e agora as discriminações que existem em nosso seio, e que
perpetramos no cotidiano pela falta de questionamento de nossos
comportamentos. As ações do Black Block podem em comparação com uma
verdadeira vontade igualitária e ofensiva em face, pela negligência e pelo
consentimento, fortalecer relações de dominação mascaradas por uma luta contra
o inimigo comum.

Eu espero, por minha parte, que a expansão dos Black Blocks se faça naquele
sentido, e que as recentes proposições visando uma maior coordenação dos grupos
permitam a expressão de posições políticas e debates construtivos a esse sujeito.

Darkveggy


More information about the A-infos-pt mailing list