(pt) Aurora Obreir #28 - Carta de Marques da Costa para a AIT

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Terça-Feira, 13 de Agosto de 2013 - 21:10:02 CEST


Prezado Camarada D. Abad de Santillán: ---- O fato de o nosso camarada Domingos Passos 
(secretário adjunto da Federação Operária do Rio de Janeiro) me mostrar hoje vossa última 
carta, na qual referis ao Segundo Congresso da AIT e nos concitais a tomar parte nesse 
importante certame internacional, fez com que eu me decidisse a escrever-vos estas linhas, 
que eu desejo marquem o início duma troca de correspondência tão constante quanto 
espontânea e, por isso mesmo, útil à nossa obra de relações e propaganda revolucionária. 
-- Conheço-vos desde há muito, através das crônicas e dos brilhantes artigos que enviais a 
La Protesta, de que sou leitor constante há mais de três anos; e quando soube que havias 
sido eleito membro do Secretariado da AIT folguei imenso e esperei desde logo poder entrar 
em relações diretas com o Secretariado, para apressar a conclusão da obra que havíamos 
iniciado contra os poucos elementos bolchevistas que desde 1922 começaram a minar a velha 
Federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro. Os meus afazeres, porém, não me deram nunca 
- e isto desde há oito longos anos! - travar e manter relações com todos aqueles de cujo 
contato eu desejaria não me afastar jamais! Tenho feito, não obstante, o que hei podido 
realizar.

A FORJ é hoje a mais categórica afirmação do espírito revolucionário - e das
tendências caracteristicamente libertárias - dos trabalhadores do Brasil! De
nada valeu a campanha divisionista dos falsos comunistas. A atitude decisiva da
União dos Operários em Construção Civil, corajosamente segundada pela Aliança
dos Operários em Calçados , União Geral dos Trabalhadores em Hotéis
Restaurantes e Similares, U G dos Metalúrgicos e outros sindicatos foi o tiro de
morte nas pretensões centralizadoras e ditatoriais dos moscovizados.
Mantendo a integridade revolucionária do sindicalismo, que desde o primeiro
ao terceiro Congresso Operário (1906-1913-1920) foi interpretado e praticado, no
Brasil, segundo a concepção que dele têm os anarquistas, a FORJ estava
naturalmente destinada a constituir o expoente que hoje é da organização
revolucionária dos trabalhadores daqui.

Desenha-se agora, no horizonte sindicalista que vinha sendo turvado de
nuvens pesadas como chumbo, como que uma nova aurora. E se conseguirmos
realizar, como desejamos, as duas coisas a que vamos nos votar de corpo e alma,
breve poderemos assinalar a completa vitória dos nossos ideais, que esperamos
ver triunfar por sobre todas as campanhas do derrotismo e da desmoralização dos
estipendiados por Moscóvia. Essas iniciativas, de cujo êxito depende por assim
dizer o imediato renascimento da nossa hoje desfalecida CGT, são:
1o) uma conferência intersindical - ou talvez regional - com representação
dos sindicatos revolucionários do Rio de Janeiro (Distrito Federal), e do Estado do
Rio, Estado de São Paulo, Estado de Minas Gerais e Estado do Espírito Santo;
2o) a representação dos sindicatos revolucionários do Brasil (e contamos como
vós mesmos contais, com os do Estado do Rio Grande do Sul e outros, como Pará,
Amazonas, etc.) no segundo Congresso da Associação Internacional dos
Trabalhadores; e como complemento dessas iniciativas: a realização do nosso
quarto congresso nacional.

Tudo depende da vontade e da energia dos elementos anarquistas que, apesar
da indiferença das massas e do crapulismo dos trânsfugas, não deixaram o seu
lugar às "moscas" do capitalismo e do oportunismo. E eu tenho as mais seguras
esperanças havemos de triunfar. Veremos...
Ia terminar já esta carta (?) quando me ocorreu à idéia de vos remeter alguns
exemplares de "A Pátria", onde trabalho como redator-operário. E vou mandar-vos
esses exemplares.

Vereis por eles, na "Seção Trabalhista", o que vai por estas terras
brasilienses...
A organização operária não tem, infelizmente, podido manter o seu jornal A
Voz do Povo, que não sei se chegastes a ler alguma vez; era um diário que
prestava ótimos serviços à propaganda e organização revolucionária, mas morreu,
caiu desastradamente nas mãos daqueles tipos que mais tarde haviam de fugir
miseravelmente para as fileiras do comunismo russo, provocando o divisionismo
no seio da aludida Federação dos Trabalhadores.
Ao abandonar este organismo, nas condições que também já referi em linhas
acima, a União dos Operários em Construção Civil - à qual pertenço - fundou um
semanário - O Trabalho -, que foi proibido de circular depois de apreendido pela
polícia, em pleno estado de sitio (que durou 18 longos meses de terríveis
perseguições!), - o fecho de ouro do governo Epitácio Pessoa, contra quem se deu a
insurreição militar de julho de 22. [sic].
Fundada a FORJ, quando tudo parecia demonstrar que o país caminhava para
um período de paz, de política e de governo menos reacionário, foi ainda a
Construção Civil que sugeriu a idéia de fazer circular O Trabalho, sob os
auspícios e como órgão da Federação Operária do Rio de Janeiro. Não tínhamos,
porém, o que mais precisávamos: oficinas. Recorremos por isso aos prelos
burgueses.
Estava tudo pronto para que o nosso jornal circulasse aos ventos da
propaganda, quando novo obstáculo surgiu. Havia sido arrancada dos arquivos do
Senado Federal um dos mais monstruosos projetos de lei contra a liberdade de
pensamento: a lei de imprensa. E foi discutida e votada rapidamente, só nos
sendo possível publicar o quinto número - primeiro da nova fase -, que foi por
assim dizer o último lampejo duma esperança que iluminava o grande esforço que
se esvaiu.
Mandar-vos-ei também uma coleção de O Trabalho.
Agora, felizmente, a nossa teimosia, a nossa intransigência, a nossa
tenacidade, para não dizer a nossa vontade e atividade invencíveis, parece terem
criado um novo ambiente, novas esperanças...
Tem sido na "Seção Trabalhista" de A Pátria que a nossa obra tem se
realizado. Nela eu tenho publicado, desde há dezesseis meses que aqui estou (sem
deixar minha profissão, que é de carpinteiro), tenho feito todas as nossas
publicações, realizando todas as nossas campanhas.
É na A Pátria que eu tenho - que nós temos os anarquistas do Rio de Janeiro -
feito toda a propaganda da AIT . E por isso eu peço-vos que mandeis, dirigida ao
meu nome do Serviço de Imprensa da AIT circulares, boletins, etc., etc., de tudo
vos peço a remessas de um exemplar.
E basta por agora.
Crede-me camarada e amigo certo.
Marques da Costa
O meu endereço:
Marques da Costa
31 - Rua Chile - 31
(Redação de A Pátria)
Rio de Janeiro - Brasil
Carta manuscrita de Marques da Costa a Abad de Santillan. Brasil, 1924. Rio
de Janeiro, 8 de maio, 9 p. Arquivo Abad de Santillan, Korrespondenz,
1924.(IISG).

Adolfo Marques da Costa
"....era um dos dirigentes da União dos Operários em Construção Civil, no Rio de
Janeiro. Colaborou no jornal A Plebe, foi editor de O Trabalho e de outros jornais.
De naturalidade portuguesa, foi preso, com outros militantes, em 7 de julho de
1924 e deportado para Lisboa".
in
Pinheiro, Paulo Sérgio.
Michael M. Hall
A Classe Operária no Brasil
1889 - 1930 documentos
Volume 1 - O Movimento Operário
São Paulo: Editora Alfa - Omega, 1981.


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