(pt) Libera #158 - periódico da Federação Anarquista do Rio de Janeiro - Da periferia aos centros e de volta à periferia: chacina na Maré (en)

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Domingo, 4 de Agosto de 2013 - 11:16:31 CEST


O fim da ditadura militar no Brasil não acabou com as práticas repressivas da Polícia 
Militar sobre as classes populares. O papel e função desta instituição mantém-se o mesmo 
desde então: fazer valer e garantir os interesses das classes dominantes e do capital, 
levando adiante o rolo compressor das imposições de governantes e de suas políticas 
públicas em prejuízo do povo. ---- Desde a "democratização" do país, temos testemunhado 
cada vez mais a territorialização das ações violentas da PM nas periferias, favelas e 
subúrbios das cidades, mantendo-se as práticas mortais e repressivas dos "anos de chumbo" 
contra os pobres (jovens negros principalmente) e os "subversivos". Para isso, as forças 
repressoras e o capital contam com a cumplicidade de empresas e corporações que 
monopolizam os meios de comunicação.

Estas, que sempre fizeram o jogo do poder, lucram com notícias mentirosas e tendenciosas e 
colaboram bastante para estigmatizar as favelas como espaços de violência e de desordem, 
construindo o discurso de que estas comunidades seriam um "caso de polícia" que somente a 
violência do Estado pode conter.

Nas fronteiras dos estados e municípios, armas e drogas passam pelas barbas das 
"autoridades", que muitas vezes são cúmplices do tráfico. Nas favelas, policiais apreendem 
drogas e armas para revendê-las aos próprios traficantes e, depois de matá-los, as vendem 
novamente. Nenhum governo (mesmo um de "esquerda"), desde a ditadura, tem se preocupado 
com este processo, ao contrário, tem o levado cada vez mais ao extremo. E muitos partidos 
de esquerda defendem a ideia absurda da possibilidade de uma polícia militar cidadã! Uma 
polícia que não reprima os pobres é um sonho absurdo dentro do capitalismo. O aparato 
repressivo do Estado é um de seus pilares de dominação; é uma das condições estruturais 
deste sistema. Esse Estado criou uma unidade policial que tem como símbolo uma caveira com 
uma adaga enterrada e duas pistolas cruzadas, e que nasceu com o lema: "Homem de preto, 
qual é sua missão? Entrar na favela e deixar corpos no chão!" E tem tido muito sucesso 
referente a esta missão: milhares de corpos sobretudo de jovens, no chão das favelas 
marcam a história da violência policial das últimas décadas.
Ao eclodirem, de um dia para o outro, mobilizações históricas por todo o Brasil, a PM 
viu-se forçada a atuar no asfalto, disparando bombas e balas de borracha contra distintos 
segmentos sociais. Teve que enfrentar milhares de celulares e máquinas fotográficas que 
registraram seus atos de violência.

Naquele momento, amplos segmentos puderam sentir na pele o quanto a violência estatal é 
desumana e a que grau pode atingir. Uma prática brutal que, na verdade, é regra, e não 
exceção. De repente, nas ruas, moradores de bairros (reconhecidos enquanto tal pelo poder 
público) puderam sentir junto com moradores de favelas a violência sistemática do Estado.

Na quinta-feira, 20 de junho, a violência policial foi das periferias até o Centro do Rio 
de Janeiro para caçar milhares de manifestantes, deixá-los em pânico, botá-los para 
correr, machucá-los e prendê-los. Fazendo o que sempre fazia nas periferias e favelas, a 
PM de repente viu-se alvo de críticas, teve suas ações registradas e publicadas por 
diversos  meios de comunicação livres e não dominados pela mídia corporativa.

  "O Fuzil AR-15 deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e 
favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana". (Ro drigo Pimentel, Comentarista 
de "Segu rança" da Rede Globo). Supostamente criticando a atuação da PM durante a passeata 
dos 100 mil, essa "avaliação" do "especialista" em (des)segurança pública, Rodrigo 
Pimentel (proferida em 18 de junho no RJ-TV da Rede Globo), ecoou pelas favelas: mais 
mortes estariam por vir.
   -----------------------------------
   "O Fuzil AR-15 deve ser  utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e 
favelas. Não é uma arma para se utilizar em área  urbana". (Rodrigo Pimentel, Comentarista 
de "Segurança"  da Rede Globo)
  -------------------------------------

A raiva de terem que usar balas de borracha nas manifestações. A vontade de darem o 
exemplo e cala- rem de imediato a  voz do povo. Impedir que cada vez mais a onda de 
revolta nas ruas se espalhasse pela cidade. Todos estes elementos tiveram seu papel 
quando, no dia 24 de junho, a PM entrou na favela da Maré para matar. Tudo isso, 
catalisado ainda mais pela vontade de vingarem a morte de um policial, o terrorismo de 
Estado resultou em uma noite de terror e morte para os moradores das favelas Nova Holanda 
e Rubens Vaz. Nesta chacina, que aconteceu do dia 24 para o 25, os fatos nunca serão todos 
revelados. Corpos somem, mortes a facadas sem deixar provas da arma utilizada, sangue nas 
camas e nos pisos das casas dos moradores deixam inúmeras evidências do ocorrido. Mas já 
era esperado que alguém fosse sentir as consequências dessa atuação mortal. E depois, vem 
cinicamente todo aquele papo de perícia, de "os excessos serão apurados" e o discurso 
padrão para produzir o consenso, e blá, blá, blá!

  "Com esta polícia não tem diálogo, somente resistência!"

  "Não vem dizer agora, com UPP melhora. Até a ONU veio avisar, a PM tem que acabar!"


A resistência popular na Maré

Os moradores, junto a instituições não governamentais que atuam há anos nas favelas da 
Maré, não iriam aceitar uma segunda noite de terror.  Chega!

A pressão des tas entidades e a força popular nas ruas juntaram-se para proteger a vida 
dos morado res da Maré. Em uma passeata na tarde de terçafeira, 25 de junho, que foi 
crescendo à medida que buscava seu caminho pelas vias da favela, os moradores pararam em 
frente ao Caveirão (carro blindado da polícia militar para ações nas favelas), que ainda 
estava posicionado no meio da Rua Principal. E então, os moradores gritaram: "Não, não, 
não, não queremos Caveirão!" e "Não somos os culpados pela morte do policial, somos 
trabalhadores,  queremos viver!". Imagine o grito de alí vio quando o blindado partiu e, 
de fato, deixou a favela: "Expulsamos o Caveirão!"

A passeata terminou na Passarela 9, de onde tinha saído, encontrando a frente um segundo 
Caveirão, que ainda estava estacionado na beira da Avenida Brasil. Chegando a noite, a Rua 
Principal es tava sem luz, e com mais pressão das entidades comunitárias e o apoio de 
diversas entidades de direitos humanos, que vieram até o local, conseguiram tirar, pelo 
menos por esta noite também, este segundo tanque de guerra.

Um grupo dos manifestantes ficou para fazer vigília na entrada da favela Nova Holanda, 
reforçado por um grupo que veio depois de participar da Plenária do Fórum Contra o Aumento 
da Passagem: "PM, FORA DA MARÉ!".

No Fórum, foi combinado um ato em frente à Secretaria de Segurança Pública, às 9h do dia 
seguinte, que infelizmente (mas talvez não de surpresa) não contou com o número de pessoas 
que se empolgaram na noite anterior para abraçar esta causa, que é a causa de tod  s nós. 
Chega de violência sistemática da Polícia! O corte de classe ainda está profundo. Ter 
notícias da violência que ocorre é uma coisa, senti-la é outra. O querer é uma coisa, o 
necessitar é outra. Mas entende-se que além de toda solidariedade e da necessidade de 
estarmos juntos, a construção do poder popular para acabar com a violência sofrida pelas 
classes populares continuará ocorrendo nas periferias, e a partir das periferias. O 
trabalho do policial não é apertar parafusos, nem dar aula, tampouco rejuntar um piso, o 
trabalho da polícia é prender e matar pobres. A favela já sabe disso há muito tempo, parte 
da esquerda precisa aprender. E neste momento histórico, no qual o povo está tomando as 
ruas, é também nas ruas que os moradores das favelas estão, para exigirmos todas e todos 
juntos: "Fim da Polícia Militar, já!"


More information about the A-infos-pt mailing list