(pt) Portugal, Acção Directa #6 - P. 4-5 - Wilhelm Reich

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Segunda-Feira, 29 de Abril de 2013 - 14:24:52 CEST


Wilhelm Reich, hoje de alguma forma esquecido pelas novas gerações, foi um psiquiatra e 
psicanalista austríaco, nascido numa família abastada de proprietários judeus 
germanizados, especializado sobretudo em temas relacionados com a sexualidade . Em 1933 é 
forçado pelo nazismo a sair da Alemanha, mudando-se para Oslo, na Noruega, onde trabalhou 
no Instituto de Psicologia da universidade local. Ali vive até 1939, altura em que se muda 
para Nova Iorque. Publicou diversos livros defendendo a força libertadora do orgasmo e da 
sexualidade livre tendo sido investigado e preso pelas autoridades norteamericanos. Morreu 
na prisão em Novembro de 1957, 12 anos depois de ter escrito “Escuta Zé Ninguém” um 
verdadeiro manifesto libertário, num tempo dominado pelos totalitarismos de raiz 
capitalista ou marxista. A seguir ao 25 de Abril foram impressos várias centenas de 
exemplares deste livro pelo movimento anarquista em Portugal (na tipografia de “A Rabeca,” 
em Portalegre, onde pontificava Nicolau Saião) e vendidos em bancas quase diárias nas 
universidades e na zona lisboeta do Rossio e Santa Apolónia.
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Escuta Zé Ninguém
Wilhelm Reich

Chamam-te “Zé Ninguém!” “Homem Comum”
  e, ao que dizem, começou a tua era, a
  “Era do Homem Comum”. Mas não és tu que
  o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vicepresidentes
  das grandes nações, os importantes
  dirigentes do proletariado, os filhos da
  burguesia arrependidos, os homens de Estado
  e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te
  perguntam pelo passado.

  Tu és herdeiro de um passado terrível. A
  tua herança queima-te as mãos, e sou eu que
  to digo. A verdade é que todo o médico,
  sapateiro, mecânico ou educador que queira
  trabalhar e ganhar o seu pão deve conhecer as
  suas limitações. Há algumas décadas, tu, Zé
  Ninguém, começaste a penetrar no governo
  da Terra. O futuro da raça humana depende, a
  partir de agora, da maneira como pensas e
  ages. Porém, nem os teus mestres nem os
  teus senhores te dizem como realmente pensas
  e és, ninguém ousa dirigir-te a única crítica
  que te podia tornar apto a ser inabalável
  senhor dos teus destinos.

  És “livre” apenas num sentido: livre da
  educação que te permitiria conduzires a tua
  vida como te aprouvesse, acima da autocrítica.
  Nunca te ouvi queixar: “Vocês promovemme
  a futuro senhor de mim próprio e do meu
  mundo, mas não me dizem como fazê-lo e
  não me apontam erros no que penso e faço”.
  Deixas que os homens no poder o assumam
  em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes.
  Conferes aos homens que detêm o poder,
  quando não o conferes a importantes mal
  intencionados, mais poder ainda para te
  representarem. E só demasiado tarde reconheces
  que te enganaram uma vez mais.

  Mas eu entendo-te. Vezes sem conta te vi
  nu, psíquica e fisicamente nu, sem máscara,
  sem opção, sem voto, sem aquilo que faz de
  ti “membro do povo”. Nu como um recémnascido
  ou um general em cuecas. Ouvi então os teus
  prantos e lamúrias, ouvi-te os
  apelos e esperanças, os teus amores e desditas.
  Conheço-te e entendo-te. E vou dizer-te
  quem és, Zé Ninguém, porque acredito na
  grandeza do teu futuro, que sem dúvida te
  pertencerá. Por isso mesmo, antes de tudo o
  mais, olha para ti. Vê-te como realmente és.

  Ouve o que nenhum dos teus chefes ou
  representantes se atreve a dizer-te:

  És o “homem médio”, o “homem comum”.
  Repara bem no significado destas palavras:
“médio” e “comum”.

  Não fujas. Tem ânimo e contempla-te.
“Que direito tem este tipo de dizer-me o que
quer que seja?” Leio esta pergunta nos teus
olhos-amedrontados. Ouço-a na sua impertinência,
  Zé Ninguém.

   Tens medo de olhar para ti próprio, tens
  medo da crítica, tal como tens medo do poder
  que te prometem e que não saberias usar.
  Nem te atreves a pensar que poderias ser
  diferente: livre em vez de deprimido, directo
  em vez de cauteloso, amando às claras e não
  mais como um ladrão na noite. Tu mesmo te
  desprezas, Zé Ninguém,

   Dizes: “Quem sou eu para ter opinião própria,
  para decidir da minha própria vida e
  ter o mundo por meu?” E tens razão: Quem
  és tu para reclamar direitos sobre a tua vida?
  Deixa-me dizer-te.

   Diferes dos grandes homens que verdadeiramente
o são apenas num ponto: todo o
  grande homem foi outrora um Zé Ninguém
  que desenvolveu apenas uma outra qualidade:
  a de reconhecer as áreas em que havia limitações
e estreiteza no seu modo de pensar e
  agir.

   Através de qualquer tarefa que o apaixonasse,
aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo
  em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam
a sua felicidade. O grande homem é,
  pois, aquele que reconhece quando e em que
  é pequeno. O homem pequeno é aquele que
  não reconhece a sua pequenez e teme
reconhecê-la; que procura mascarar a sua
tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de
  força e grandeza, força e grandeza alheias.
  Que se orgulha dos seus grandes generais,
  mas não de si próprio. Que admira as ideias
  que não teve, mas nunca as que teve. Que
   acredita mais arraigadamente nas coisas que
  menos entende, e que não acredita no que
  quer que lhe pareça fácil de assimilar.

  Comecemos pelo Zé Ninguém que habita
  em mim: Durante vinte e cinco anos tomei a
  defesa, em palavras e por escrito, do direito
  do homem comum à felicidade neste mundo;
  acusei-te pois da incapacidade de agarrar o
  que te pertence, de preservar o que conquistaste
nas sangrentas barricadas de Paris e
  Viena, na luta pela Independência americana
  ou na revolução russa. Paris foi dar a Pétain e
  Laval, Viena a Hitler, a tua Rússia a Stalin, e
  a tua América bem poderia conduzir a um
  regime KKK – Ku-Klux-Klan.

  Sabes melhor lutar pela tua liberdade que
  preservá-la para ti e para os outros. Isto eu
  sempre soube. O que não entendia, porém,
  era porque de cada vez que tentavas penosamente
arrastar-te para fora de um lameiro
  acabavas por cair noutra ainda pior. Depois,
  pouco a pouco, às apalpadelas e olhando
  prudentemente em torno, entendi o que te
  escraviza: ÉS TU O TEU PRÓPRIO NEGREIRO. A verdade diz que mais ninguém
  senão tu é culpado da tua escravatura. Mais
  ninguém, sou eu que te digo!

  Esta é nova, hein? Os teus libertadores
garantem-te que os teus opressores se chamam
  Guilherme, Nicolau, papa Gregório XXVIII,
  Morgan, Krupp e Ford. E que os teus libertadores
se chamam Mussolini, Napoleão, Hitler
  e Stalin.

  Mas eu afirmo: Só tu podes libertar-te.

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Sobre o totalitarismo soviético
Apenas guardaste no ouvido uma palavra: ditadura

Sentes-te infeliz e medíocre, repulsivo,
impotente, sem vida, vazio.

Não tens mulher e, se a tens, vais com
ela para a cama só para provar que és
“homem”. Nem sabes o que é o amor.
Tens prisão de ventre e tomas laxantes.
Cheiras mal e a tua pele é pegajosa,
desagradável. Não sabes envolver o teu
filho nos braços, de modo que o tratas
como um cachorro em quem se pode
bater à vontade. A tua vida vai andando
sob o signo da impotência, no que
pensas, no teu trabalho. A tua mulher
abandona-te porque és incapaz de lhe dar
amor. Sofres de fobias, nervosismo,
palpitações. O teu pensamento dispersa-se
em ruminações sexuais.

Falam-te de economia sexual. Algo que
te entende e poderia ajudar-te. Que te
permitiria viveres à noite a tua sexualidade
e que te deixaria livre durante o dia
para pensar e trabalhar. Que te faria ter
nos braços uma mulher sorridente em
vez de desesperada, ver os teus filhos
sãos em vez de pálidos, amorosos em
vez de cruéis. Mas quando ouves falar de
economia sexual dizes: “O sexo não é
tudo. Há outras coisas importantes na
vida”. És assim, Zé Ninguém.

Ou suponhamos que és um “marxista”,
um “revolucionário profissional”, um
futuro “dirigente dos Proletários do
Mundo”. Dizes querer libertar as massas
do seu sofrimento. As massas enganadas
fogem-te desiludidas e tu gritas enquanto
corres no seu encalço:
“Parai, massas proletárias! Sou o vosso
libertador! Abaixo o capitalismo!” Enquanto
eu falo às massas, pequeno revolucionário,
e lhes digo da miséria
das suas pequenas vidas. Ouvem-me,
com entusiasmo e esperança. Acorrem às
tuas organizações onde esperam
encontrar-me. É, então que dizes: “A sexualidade
é uma invenção pequeno-burguesa.
O que conta é o factor económico”. E lês
os livros de Van de Velde sobre técnicas
sexuais.
Quando um grande homem dedicou a
sua vida a tentar dar à tua emancipação
económica uma base científica, deixasteo
morrer de fome. Mataste a primeira via
de verdade que surgiu no teu desvio das
leis da vida. Quando a sua primeira
tentativa foi bem sucedida, tomaste-lhe as
rédeas da administração e cometeste
segundo crime.

Da primeira vez, o grande homem dissolveu
a organização.

Da segunda, estava já morto e nada
podia contra ti.

Não entendeste que ele havia descoberto
no teu trabalho o poder de vida que
cria os valores. Não entendeste que a sua
reflexão sociológica pretendias er a
salvaguarda da tua sociedade contra o teu
Estado. Não entendes nada! E mesmo
com os teus factores económicos não
vais longe.

Outro grande homem matou-se a trabalhar
para provar-te que terás de melhorar
as tuas condições económicas para que a
tua vida tenha sentido e gosto; que
indivíduos com fome jamais farão progredir
a cultura; que todas as condições de vida
terão de ter lugar aqui e agora, sem
excepção, que terás de emancipar-te, tu e a
tua sociedade, de todas as formas de
tirania. Este outro grande homem apenas
cometeu um erro ao tentar esclarecer-te:
acreditou deveras na tua capacidade de
emancipação. Acreditou que uma vez
conquistada a tua liberdade serias capaz
de a preservar. E cometeu ainda outro
erro: consentir que tu, proletário, te
tornasses “ditador”.

E sabes o que tu fizeste, Zé Ninguém,
do manancial de sabedoria e criação que
te legou este homem? Apenas guardaste
no ouvido uma palavra: ditadura. De
tudo o que te doara um grande espírito e
um grande coração apenas uma palavra
restou: ditadura! Tudo o mais deitaste
fora, a liberdade, a clareza e a verdade, a
solução dos problemas da servidão
económica, a metodologia da planificação
do futuro - tudo pela borda fora! E apenas
a escolha infeliz, embora bem
intencionada, de só uma palavra, te caiu em
graça: ditadura!

Sobre esta pequena negligência de um
grande homem construíste todo um sistema
gigantesco de mentiras, perseguição,
tortura, deportações, enforcamentos,
polícia secreta, espionagem e denúncia,
uniformes, marechais e medalhas - enquanto
deitavas fora tudo o mais. Começas
a perceber como funcionas, Zé Ninguém?
Ainda não?

Ora tentemos novamente: As “comdições
económicas” do teu bem-estar na
vida e no amor confundiste-as com
“mecanização”; a emancipação dos
homens, com “grandeza do Estado”; o
levantamento das massas, com o desfilar
da artilharia; a libertação do amor, com a
violação de todas as mulheres a que
pudeste deitar a mão ao chegar à Alemanha;
a eliminação da pobreza, com a
erradicação dos pobres, dos fracos e dos
desadaptados; a assistência à infância,
com a “formação de patriotas”; o controle
da natalidade, com medalhas às “mães
de dez filhos”. Não tinhas já sofrido
bastante, com esta tua ideia da “mãe de dez
filhos”?

Mas também noutros países o infeliz
vocábulo “ditadura” te ficou no ouvido.
Aí, vestiste-o de uniformes resplandecentes
e geraste no teu próprio seio o
funcionariozinho místico, sádico e
impotente que te levou ao Terceiro Reich e
enterrou sessenta milhões da tua espécie
enquanto ias gritando “Viva! Viva!”.
Wilhelm Reich


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