(pt) Brazil, Federation Anarchist Gauche FAG - As Origens Trágicas e Esquecidas do Primeiro de Maio (en)

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Quarta-Feira, 24 de Abril de 2013 - 17:14:25 CEST


Maio já foi um mês diferente de qualquer outro. No primeiro dia desse mês as tropas e as 
polícias ficavam de prontidão, os patrões se preparavam para enfrentar problemas e os 
trabalhadores não sabiam se no dia 2 teriam emprego, liberdade ou até a vida. ---- Hoje, 
tudo isso foi esquecido. A memória histórica dos povos é pior do que a de um octogenário 
esclerosado, com raros momentos de lucidez, intercalados por longos períodos de amnésia. 
Poucos são os trabalhadores, ou até os sindicalistas, que conhecem a origem do 1° de maio. 
Muitos pensam que é um feriado decretado pelo governo, outros imaginam que é um dia santo 
em homenagem a S. José; existem até aqueles que pensam que foi o seu patrão que inventou 
um dia especial para a empresa oferecer um churrasco aos "seus" trabalhadores. Também 
existem - ou existiam - aqueles, que nos países ditos socialistas, pensavam que o 1° de 
maio era o dia do exército, já que sempre viam as tropas desfilar nesse dia seus aparatos 
militares para provar o poder do Estado e das burocracias vermelhas.

As origens do 1° de maio prendem-se com a proposta dos trabalhadores organizados na 
Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) declarar um dia de luta pelas oito horas 
de trabalho. Mas foram os acontecimentos de Chicago, de 1886, que vieram a dar-lhe o seu 
definitivo significado de dia internacional de luta dos trabalhadores.

No século XIX era comum (situação que se manteve até aos começos do século XX) o trabalho 
de crianças, grávidas e trabalhadores ao longo de extenuantes jornadas de trabalho que 
reproduziam a tradicional jornada de sol-a-sol dos agricultores. Vários reformadores 
sociais já tinham proposto em várias épocas a idéia de dividir o dia em três períodos: 
oito horas de trabalho, oito horas de sono e oito horas de lazer e estudo, proposta que, 
como sempre, era vista como utópica, pelos realistas no poder.

Com o desenvolvimento do associativismo operário, e particularmente do sindicalismo 
autônomo, a proposta das 8 horas de jornada máxima, tornou-se um dos objetivos centrais 
das lutas operárias, marcando o imaginário e a cultura operária durante décadas em que foi 
importante fator de mobilização, mas, ao mesmo tempo, causa da violenta repressão e das 
inúmeras prisões e mortes de trabalhadores.
Desde a década de 20 do século passado, irromperam em várias locais greves pelas oitos 
horas, sendo os operários ingleses dos primeiros a declarar greve com esse objetivo. Aos 
poucos em França e por toda a Europa continental, depois nos EUA e na Austrália, a luta 
pelas oitos horas tornou-se uma das reivindicações mais freqüentes que os operários 
colocavam ao Capital e ao Estado.

Quando milhares de trabalhadores de Chicago, tal como de muitas outras cidades americanas, 
foram para as ruas no 1° de maio de 1886, seguindo os apelos dos sindicatos, não esperavam 
a tragédia que marcaria para sempre esta data. No dia 4 de maio, durante novas 
manifestações na Praça Haymarket, uma explosão no meio da manifestação serviu como 
justificativa para a repressão brutal que seguiu, que provocou mais de 100 mortos e a 
prisão de dezenas de militantes operários e anarquistas.

Alberto Parsons um dos oradores do comício de Haymarket, conhecido militante anarquista, 
tipógrafo de 39 anos, que não tinha sido preso durante os acontecimentos, apresentou-se 
voluntariamente à polícia tendo declarado: "Se é necessário subir também ao cadafalso 
pelos direitos dos trabalhadores, pela causa da liberdade e para melhorar a sorte dos 
oprimidos, aqui estou". Junto com August Spies, tipógrafo de 32 anos, Adolf Fischer 
tipógrafo de 31 anos, George Engel tipógrafo de 51 anos, Ludwig Lingg, carpinteiro de 23 
anos, Michael Schwab, encadernador de 34 anos, Samuel Fielden, operário têxtil de 39 anos 
e Oscar Neeb seriam julgados e condenados. Tendo os quatro primeiros sido condenados à 
forca, Parsons, Fischer, Spies e Engel executados em 11 de novembro de 1887, enquanto 
Lingg se suicidou na cela. Augusto Spies declarou profeticamente, antes de morrer: "Virá o 
dia em que o nosso silêncio será mais poderoso que as vozes que nos estrangulais hoje".

Este episódio marcante do sindicalismo, conhecido como os "Mártires de Chicago", tornou-se 
o símbolo e marco para uma luta que a partir daí se generalizaria por todo o mundo.

O crime do Estado americano, idêntico ao de muitos outros Estados, que continuaram durante 
muitas décadas a reprimir as lutas operárias, inclusive as manifestações de 1° de maio, 
era produto de sociedades onde os interesses dominantes não necessitavam sequer ser 
dissimulados. Na época, o Chicago Times afirmava: "A prisão e os trabalhos forçados são a 
única solução adequada para a questão social", mas outros jornais eram ainda mais 
explícitos como o New York Tribune: "Estes brutos [os operários] só compreendem a força, 
uma força que possam recordar durante várias gerações..."

Seis anos mais tarde, em 1893, a condenação seria anulada e reconhecido o caráter político 
e persecutório do julgamento, sendo então libertados os réus ainda presos, numa 
manifestação comum do reconhecimento tardio do terror de Estado, que se viria a repetir no 
também célebre episódio de Sacco e Vanzetti.

A partir da década de 90, com a decisão do Congresso de 1888 da Federação do Trabalho 
Americana e do Congresso Socialista de Paris, de 1889, declararem o primeiro de maio como 
dia internacional de luta dos trabalhadores, o sindicalismo em todo o mundo adotou essa 
data simbólica, mesmo se mantendo até ao nosso século como um feriado ilegal, que sempre 
gerava conflitos e repressão.

Segundo o historiador do movimento operário, Edgar Rodrigues, a primeira tentativa de 
comemorar o 1 de maio no Brasil foi em 1894, em São Paulo, por iniciativa do anarquista 
italiano Artur Campagnoli, iniciativa frustrada pelas prisões desencadeadas pela polícia. 
No entanto, na década seguinte, iniciaram-se as comemorações do 1 de maio em várias 
cidades, sendo publicados vários jornais especiais dedicados ao dia dos trabalhadores e 
números especiais da imprensa operária comemorando a data. São Paulo, Santos, Porto 
Alegre, Pelotas, Curitiba e Rio de Janeiro foram alguns dos centros urbanos onde o 
nascente sindicalismo brasileiro todos os anos comemorava esse dia à margem da legalidade 
dominante.

Foram décadas de luta dos trabalhadores para consolidar a liberdade de organização e 
expressão, que a Revolução Francesa havia prometido aos cidadãos, mas que só havia 
concedido na prática à burguesia, que pretendia guardar para si os privilégios do velho 
regime.

Um após outro, os países, tiveram de reconhecer aos novos descamisados seus direitos. O 1° 
de maio tornou-se então um dia a mais do calendário civil, sob o inócuo título de feriado 
nacional, como se décadas de lutas, prisões e mortes se tornassem então um detalhe 
secundário de uma data concedida de forma benevolente, pelo Capital e pelo Estado em nome 
de S. José ou do dia, não dos trabalhadores, mas numa curiosa contradição, como dia do 
trabalho. Hoje, olhando os manuais de história e os discursos políticos, parece que os 
direitos sociais dos trabalhadores foram uma concessão generosa do Estado do Bem-Estar 
Social ou, pior ainda, de autoritários "pais dos pobres" do tipo de Vargas ou Perón.

Quanto às oitos horas de trabalho, essa reivindicação que daria origem ao 1º de maio, 
adquiriu status de lei, oficializando o que o movimento social tinha já proclamado contra 
a lei. Mas passado mais de um século, num mundo totalmente diferente, com todos os 
progressos tecnológicos e da automação, que permitiram ampliar a produtividade do trabalho 
a níveis inimagináveis, as oitos horas persistem ainda como jornada de trabalho de largos 
setores de assalariados! Sem que o objetivo das seis ou quatro horas de trabalho se tornem 
um ponto central do sindicalismo, também ele vítima de uma decadência irrecuperável, numa 
sociedade onde cada vez menos trabalhadores terão trabalho e onde a mutação para uma 
sociedade pós-salarial se irá impor como dilema de futuro. Exigindo a distribuição do 
trabalho e da riqueza segundo critérios de eqüidade social que o movimento operário e 
social apontou ao longo de mais de um século de lutas.

Jorge E. Silva - Membro do Centro de Estudos Cultura e Cidadania - Florianópolis (CECCA)

Fonte: http://www.nodo50.org/insurgentes/textos/mundo/19origensprimeiromaio.htm


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