(pt) Brazil, Alt. media, Anarquistas expõem sua visão sobre protestos pela redução da passagem em POA

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Quarta-Feira, 24 de Abril de 2013 - 09:45:04 CEST


Militantes anarquistas se organizam em torno da Frente Autônoma, que também conta com 
integrantes de coletivos não anarquistas ou de ativistas não organizados ---- Integrantes 
ativos do Bloco de Luta pelo Transporte Público e presença garantida nas manifestações 
pela redução da passagem de ônibus em Porto Alegre, os militantes anarquistas da cidade 
costumam ser associados pela mídia somente a atos de vandalismo e depredação durante as 
caminhadas. Nesta reportagem, o Sul21 expõe a visão e avaliação de dois integrantes da 
Frente Autônoma do Bloco sobre o movimento que vem realizando atos e debates sobre o 
transporte público na Capital gaúcha. ---- Os militantes, que preferiram não se 
identificar, ressaltam que uma grande conquista do movimento neste ano foi a unidade entre 
diferentes setores da esquerda, organizados ou não em coletivos e entidades políticas ou 
partidárias – eleitoreiras ou não.

E acreditam que conseguiram estabelecer uma forma de organização que não torna o Bloco 
propriedade de algum grupo específico.

“Há um sentimento muito forte em torno de uma maior autonomia do movimento, então vimos 
espaço para criar a Frente Autônoma e lutar contra o aparelhamento do Bloco por partidos 
políticos. É uma experiência muito positiva, pois o Bloco não está aparelhado por nenhuma 
força, é uma composição muito saudável”, comenta um militante de uma organização que 
compõe a Frente Autônoma.

Para uma integrante da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), que também compõe a Frente, a 
união entre distintas forças políticas da esquerda não foi fácil de ser conquistada e deve 
ser mantida. “O esforço não foi pequeno, houve acordos que precisaram ser costurados mais 
de uma vez. Acreditamos na necessidade de nos organizarmos politicamente, mas não 
comungamos da disputa eleitoral da democracia burguesa. Nossa unidade no Bloco se dá em 
torno de uma pauta bem específica, sabemos dos limites que ela tem, mas esperamos 
reforçá-la nessa situação e em outros momentos de defesa de demandas de setores 
populares”, defende.

Momento é de ganhar qualitativamente o debate, avaliam

Na avaliação dos anarquistas que conversaram com a reportagem do Sul21, o atual momento da 
luta pelo transporte público em Porto Alegre passa pelo aprofundamento do debate. Eles 
entendem que poderá ser difícil reunir novamente milhares de pessoas nas ruas, a não ser 
que aconteça algum fato que catalise ainda mais a indignação das pessoas.

Proposta de transporte público está sendo discutida entre os militantes da Frente Autônoma 
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

“O momento agora é de ganharmos qualitativamente o debate. Estamos formando grupos de 
estudos e organizando aulas públicas para nos apropriarmos das questões que envolvem o 
transporte público. A partir daí, vamos gerando novas pautas e nos aprofundando nas 
causas”, explica um militante da Frente Autônoma.

Para a ativista da FAG, a existência de uma decisão da Justiça que suspende o reajuste da 
tarifa em caráter liminar não pode servir como motivo para desmobilizar o movimento. “Não 
podemos nos desmobilizar por causa de uma liminar que pode cair a qualquer momento. O 
movimento daquela grande marcha surpreendeu a todos, pela conjuntura dada, e acumulou um 
caldo que estava sendo constituído através de um importante trabalho de base”, comemora.
Ela observa que as redes sociais ajudam na convocação dos protestos, mas “não tornam as 
pessoas orgânicas em nada”. Ainda assim, a ativista libertária entende que as 
manifestações em Porto Alegre chacoalharam a cena política da esquerda, que está, na sua 
opinião, acomodada e cooptada.

“Mostramos que é possível fazer política de outra forma, sem encerrar as atividades nas 
urnas, e que ainda há setores de esquerda mobilizados, mesmo em um momento de grande 
conciliações de classe promovidas pelos governos federal e estadual. O movimento marca 
algo fora desse marasmo político que a esquerda vinha vivendo”, aponta.

Grupos discutem projeto para o transporte público

Na medida em que os protestos foram ganhando força, os diversos movimentos que compõem o 
Bloco de Luta pelo Transporte Público começaram a intensificar suas pautas internas para o 
setor. No último ato, uma faixa da Frente Revolucionária defendia a estatização imediata 
do sistema sem pagamento de indenização às empresas – bandeira que também é defendida pelo 
PSTU.

Máscaras com Lazier Martins foram confeccionadas em alusão ao seu comentário sobre os 
“mascarados anarquistas” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Para os militantes anarquistas que conversaram com o Sul21, uma empresa pública de 
transporte não pode repetir os mesmos mecanismos de atuação de uma empresa privada. 
“Queremos fazer uma proposta para um transporte que seja 100% público. A estatização é um 
caminho, mas não adianta nada estatizar para deixar o transporte na mão de CCs ou de uma 
empresa pública que em nada é diferente de empresas capitalistas orientadas pelo lucro”, 
defende um integrante da Frente Autônoma.

A militante da FAG afirma que esse é um debate que ainda está conquistando espaço dentro 
do Bloco. “Não vemos a estatização como uma pauta que desejamos aprovar, não achamos que 
ela deve ser um ponto de polêmica para fragilizar nossa unidade no Bloco. Acreditamos em 
uma socialização do transporte, não nesse conceito que demarca o Estado. Queremos um 
transporte 100% público, é essa chamada que nos dá unidade dentro do Bloco”, observa.

Anarquistas rejeitam reunião com a Brigada Militar

Um fato recente que causou revolta entre os anarquistas integrantes do Bloco de Luta pelo 
Transporte Público foi a reunião convocada pela Brigada Militar para se debater a conduta 
dos manifestantes durante os atos. Na ocasião, representantes do DCE da UFRGS, do PSOL e 
do PSTU, que integram o Bloco, foram convidados, mas optaram por não comparecer ao encontro.

Após a reunião, a Brigada afirmou que intensificaria o policiamento durante os protestos e 
exigirá a obtenção prévia do itinerário das marchas. A corporação disse que recolheria 
materiais como taquaras, pedras e sprays de pichação que encontrasse com os ativistas, 
além de aumentar o número de agentes filmando e fotografando os manifestantes.
“A Frente Autônoma não acredita em diálogo com a Brigada. Eles respondem a um comando, não 
vai ser um acordo com estudantes e trabalhadores que mudará isso”, entende um integrante 
da Frente.

Demanda por passe livre nacional é uma das reivindicações dos anarquistas | Foto: Ramiro 
Furquim/Sul21

A militante da FAG afirma que a polícia não pode intervir no modo de ação do movimento. 
“Desautorizamos qualquer pessoa do Bloco que venha a se reunir com a polícia. São os 
manifestantes que têm controle do ato, não precisamos pedir bexiga para patrão, milico ou 
governo para dizer onde vamos marchar”, pontua.

Ela acredita que o policiamento de protestos no governo Tarso Genro (PT) se tornou mais 
“sutil” em relação ao que ocorria no governo de Yeda Crusius (PSDB). “O governo Tarso 
investe muito mais na polícia de inteligência do que o governo Yeda, que era mais 
truculento. O atual governo tem sutilezas na criminalização dos manifestantes, vai 
identificando e obtendo informações. E agora vem esse movimento inadmissível de 
conciliação e negociação que a Brigada e o governo do estado tentam colocar para dentro do 
movimento”, condena.

“Nossa ação não se mede pela capacidade de alcance de uma pedra”

Frequentemente retratados por setores da mídia como vândalos, os militantes libertários 
envolvidos nos protestos pela redução da passagem de ônibus em Porto Alegre rejeitam essas 
desqualificações e explicam que os escrachos – termos adotados em referência a protestos 
em outros lugares, como na Argentina – representam a insatisfação diante de um Estado 
opressor.

Existe, entre as diversas correntes anarquistas, um debate entre métodos de ação mais 
radicais numa manifestação ou a prática da não violência, que alguns setores entendem que 
beneficia e protege o Estado e seus parceiros privados.

Ativistas questionam valor conferido a janelas quebradas da ATP | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Quanto aos rostos encobertos por panos, muitos anarquistas adotam essa atitude em 
referência ao movimento zapatista, que se tornou público em 1994, quando indígenas 
mexicanos do Exército Zapatista de Libertação Nacional deflagraram uma série de ações no 
país. Em suas ações, eles apareciam com os rostos cobertos para preservar a identidade dos 
guerrilheiros e simbolizar a descentralização de um movimento que entendiam abranger todas 
as populações oprimidas.

“Tem manifestante que não é anarquista e cobre o rosto porque não quer ser identificado e 
tem todo o direito de não querer. Isso não quer dizer que ele esteja carregando pedras. E 
há uma alusão muito forte ao zapatismo, no sentido de dizer que quem não tem rosto se 
torna igual, é um estilo que cresce e não é patrimônio de um ou outro movimento”, explica 
a militante da FAG.
Para o integrante da Frente Autônoma, confere-se “um peso muito estranho à integridade 
física de janelas de prédios patronais”. Ele ressalta que não há acordo dentro da Frente 
sobre a quebra de vidros ter sido “producente”. “Não tem acordo quanto a ter sido 
producente esses atos, mas acho muito exagerado toda essa histeria de colocar ataques 
contra objetos inanimados como uma violência. Violência é o que se faz contra as pessoas. 
O que aconteceu no último protesto foram cinco janelas quebradas por no máximo onze 
indivíduos. Na manifestação da PUCRS uma companheira teve uma costela quebrada pela 
polícia e outra teve seu piercing no lábio quase arrancado por uma cassetada”, recorda.
Para a militante da FAG, as ações nas ruas são uma resposta à violência do Estado. 
“Acreditamos que a luta direta contra nossos opressores é a saída, mas isso não significa 
que as mobilizações sociais devam manter formas descoordenadas de ação violenta. A 
violência para nós tem outro significado: violento é o Estado que nos oprime. A luta nas 
ruas é uma resposta à ação violenta do sistema”, qualifica.

“Acho muito exagerado toda essa histeria de colocar ataques contra objetos inanimados como 
uma violência”, diz militante da Frente Autônoma | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
A ativista explica que o escracho à sede da ATP não foi feito somente por anarquistas. 
“Não queremos tomar autoria sozinhos, porque o escracho foi feito por mais pessoas, 
inclusive gente que não vizualizei como integrando qualquer ideologia”, comenta.
Ela recorda que “o anarquismo enquanto ideologia fez parte da formação da classe 
trabalhadora brasileira” e representou os grupos de esquerda mais combativos na década de 
1930, influenciados por imigrantes europeus que chegavam ao país. “Nossa ideologia ajudou 
a construir o patrimônio combativo do país. Exigimos mais respeito e que ela não seja 
jogada na vala comum do vandalismo. Nossa ação não se mede pela força dos músculos ou pela 
capacidade de alcance de uma pedra. Temos um projeto político de sociedade”, defende.

By Samir Oliveira

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  Fotos: Ramiro Furquim/Sul21 
http://www.sul21.com.br/jornal/2013/04/anarquistas-expoem-sua-visao-sobre-protestos-pela-reducao-da-passagem-em-porto-alegre/


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