(pt) Rudolf Rocker: "Anarquismo e Organização". Contexto histórico-s ocial e formação da corrente libertária do socialismo

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Sexta-Feira, 21 de Outubro de 2011 - 18:02:55 CEST


[O ensaio de Rudolf Rocker "Anarquismo e Organização" é uma importante obra para o
contato do público com a formação histórico-social do anarquismo. Muita confusão,
engano e caricatura tem sido plantada nesse terreno. Rocker põe seu trabalho dentro
do critério que consideramos mais rigoroso. Senta suas raízes socialistas e tudo o
que implica filosofica e politicamente dentro do contexto das lutas operárias
revolucionárias contra o capitalismo.
Desde o berço o anarquismo participa de elaborações teóricas que eram patrimônio de
todo o campo socialista, mas faz avançar sua crítica à relações de poder e
estruturas dominantes que lhe deram identidade própria. Como prática política
radicada em um setor do movimento operário internacional imprimiu uma orientação
militante que procurava guardar relação com vias antiburocráticas e antiautoritárias
de chegada ao socialismo. Atravessou distintas e cambiantes conjunturas históricas
que lhe condicionaram variantes no tático-estratégico. Também sofreu a deriva
dogmática de quem elevou a princípio o que só era uma tática que respondia a uma
contingência da luta.

Os méritos da obra de Rocker que selecionamos e traduzimos aqui é que dissipa a
poeira e deixa patente que a formação ideológica anarquista esta vinculada histórica
e socialmente ao mundo dos de baixo, os oprimidos, explorados, seus dramas,
experiências e projetos de emancipação. Desde esse lugar concebia a organização: das
massas em luta de classe contra o sistema capitalista; e dos anarquistas, como um
grupo de ação finalista revolucionária, vinculado aos conflitos específicos
concretos do movimento operário e ao projeto socialista de federalismo e autogestão.

Evandro Couto
Federação Anarquista Gaúcha]


O que se entende por anarquismo

(...) O homem é acima de tudo uma criação social na qual a espécie inteira trabalha,
pausadamente, mas sem interrupção, e da que sempre vai tomando novas energias,
celebrando a cada segundo sua ressurreição. O homem não é o descobridor da
convivência social mas seu herdeiro. Recebeu o instinto social de seus antepassados
animais ao transpassar o umbral da humanidade. Sem sociedade o homem é inconcebível.
Sempre viveu e lutou dentro da sociedade. A convivência social é a pré-condição e a
parte mais essencial de sua existência individual, mas também é a pré-forma de toda
organização.

(...) Proudhon já o havia concebido exatamente e em sua Confession d'un
Révolutionnaire faz a seguinte observação:

Consideradas desde o ponto de vista social, liberdade e solidariedade são dois
conceitos idênticos. Encontrando a liberdade de cada um, não um impedimento na
liberdade dos demais, como diz a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de
1793, mas um apoio, o homem mais livre é o que maiores relações tem com seus
semelhantes.

O anarquismo, o eterno contrário de todos os monopólios, científicos, políticos e
sociais, combate o Estado como protetor de monopólios e inimigo feroz de todas as
relações diretas e indiretas dos homens entre si, mas nunca foi inimigo da
organização.

(...) A obra de Stirner "O único e sua propriedade" apareceu em 1845 e ficou
completamente relegada ao esquecimento. Noventa e nove por cento dos anarquistas não
tiveram a menor idéia desse filósofo alemão e de sua obra, até que por volta de 1890
o livro foi desenterrado na Alemanha e desde então foi vertido em diversas línguas.
E ainda desde então a influência das ideias de Stirner sobre o movimento anarquista
nos países latinos, onde as teorias de Proudhon, Bakunin e Kropotkin durante dezenas
de anos tiveram sua influência decisiva nos extensos círculos da classe operária,
foi bastante ínfima e nunca aumentou. Em certas esferas de intelectuais franceses,
que naquele momento flertavam com o anarquismo, e dos quais a maioria passaram já
faz tempo ao outro lado das barricadas, a obra de Stirner fez um efeito fascinador,
mas a imensa maioria dos anarquistas de lá nunca tiveram contato com ela.


Corrente libertária do socialismo

A nenhum dos primeiros teorizadores do anarquismo teria ocorrido sequer, que
chegaria um dia em que os apelidariam de a-socialistas. Todos eles se sentiam
socialistas, porque estavam profundamente compenetrados do caráter social de sua
teoria. Por esta razão se chamavam com mais frequência revolucionários ou em
contraposição aos socialistas estatais, socialistas anti-autoritários; recém mais
tarde o nome de anarquistas se fez natural entre eles.

(...)A influência de Proudhon sobre as associações operárias francesas é geralmente
conhecida. Não é aqui o lugar de ocupar-se detalhadamente na história desse
movimento sumamente interessante, que sem dúvida representa um dos mais admiráveis
capítulos da grande luta do Trabalho contra a força exploradora do regime
capitalista.

(...) Os inumeráveis admiradores que Proudhon captou entre a classe trabalhadora,
foram todos partidários convencidos da organização. Foram o elemento mais importante
que originou a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores e as primeiras
fases evolutivas da grande união operária estiveram completamente sob sua influência
espiritual.


Formação histórico-social do anarquismo

Mas todos estes esforços que acharam sua expressão nas organizações dos mutualistas,
como se chamavam os partidários de Proudhon, podem considerar-se como precursores e
o começo do movimento anarquista recém se inicia no período da Internacional, e
sobre tudo quando a influência de Bakunin e seus amigos é mais reconhecida nas
federações dos países latinos. O mesmo Bakunin foi em toda sua vida um fervente
defensor da ideia de organização e a parte mais importante de sua atividade na
Europa consistia em seu desejo inquebrantável de organizar os elementos
revolucionários e libertários e prepará-los para a ação. Sua atividade na Itália, a
fundação de sua Aliança, sua portentosa propaganda nas filas da Internacional teve
sempre como aspiração de seu pensamento aquela finalidade.

(...) Até seu último alento foi Bakunin um fervente defensor da organização, e
estava tão compenetrado de sua necessidade, que não esqueceu de recordá-lo uma vez
mais em sua sensível carta de despedida aos irmãos da Federação do Jura, pouco
depois do Congresso de Genebra em 1873, uma carta que pode considerar-se como
testamento a seus amigos e colaboradores:

"O tempo já não pertence as ideias mas as ações e execuções. Hoje, o essencial é a
organização das forças proletárias. Mas essa organização deve ser obra dos mesmos
proletários. Se eu ainda fosse jovem me instalaria em um bairro operário, onde,
participando na vida laboriosa de meus irmãos, os operários, teria ao mesmo tempo
participado com eles na grande obra da organização."

(...) Nesse sentido conceberam os anarquistas do período de Bakunin a organização e
trataram de verificar o que conceituaram prático. Neste sentido obraram nas
federações e seções da Internacional, frutificando-la com suas ideias. Organizaram
os trabalhadores em seções locais de propaganda e em grupos por ofício. As
sociedades e os grupos locais estavam aderidos as uniões regionais e estas as
organizações nacionais, as que por sua vez estavam ligadas umas as outras na grande
união da Internacional.


Conjuntura repressiva e variação tático-estratégica

(...) O mencionado caráter do movimento se transformou paulatinamente depois da
guerra franco-alemã e sobre tudo depois da espantosa caída da Comuna de Paris. O
triunfo da Alemanha e da política de Bismark originou na Europa um novo fato
histórico de que não pode se livrar mais. A aparição no centro da Europa de um
Estado militar-burocrático equipado com todos os meios de poder, teve que influir
inevitavelmente no desenvolvimento da reação geral que levantou então cabeça por
todas as partes. Em efeito, também isso foi a causa. O centro do movimento operário
europeu foi lançado da França para a Alemanha contribuindo ali ao desenvolvimento do
movimento social-democrata, o que no transcurso de sua atividade influiu
resolutamente, salvo poucas exceções, nos demais países. Dessa maneira, de um lado
nasceu o período infortunado, em que a Europa cada vez mais caía como vítima da
militarização geral que partia da Alemanha, enquanto que do outro lado do movimento
operário em geral, sobre a contínua influência da florescente social-democracia
alemã, se fundia cada vez mais num desesperado possibilismo.

Nos países latinos onde a ala libertária da Internacional tinha a mais forte
influência no princípio do sétimo decênio (do século XIX) se desencadeou uma reação
selvagem. Na França, onde os melhores e mais inteligentes elementos do movimento
operário encontraram a morte na horrenda caída da Comuna, ou foram desterrados a
Nova Caledônia, se não logravam fugir ao estrangeiro e levar lá a vida intranquila e
apenada do refugiado, foram reprimidas todas as organizações operárias pelo governo
e a imprensa revolucionária foi proibida. Outro tanto se repetia dois anos mais
tarde na Espanha depois da repressão sangrenta do movimento cantonalista e a
capitulação da Comuna de Cartagena. Instantaneamente foi suprimido todo o movimento
operário e toda notícia pública do movimento revolucionário durante anos foi
impossível. Na Itália se provocava aos membros da Internacional como se fossem
bestas selvagens, e a propaganda pública se fez tão difícil, obrigando assim a se
recorrer às organizações secretas pelas que estavam mais inclinados que os camaradas
de outros países devido a suas velhas tradições das sociedades secretas dos
Carbonários e os Mazzinianos.

(...) Dessa maneira, devido as atrozes perseguições que devia suportar o movimento
anarquista, durante longos anos, desapareceu da vida pública nos países latinos,
vendo-se obrigado a criar um refúgio nas sociedades secretas. Como o período de
reação durou mais do que achava a maioria, o movimento adquiriu lentamente uma nova
psicologia, que foi fundamentalmente distinta de seu anterior caráter. Os movimentos
secretos são certamente capazes de desenvolver, em seu círculo limitado, um grau
superior de disposição ao sacrifício e ao sofrimento físico nos indivíduos a favor
da revolução, mas lhes falta o contato amplo com as massas populares, o único que é
capaz de frutificar sua eficácia e de conservá-los durante longo tempo, frescos e
com animação.

(...) Em tal período de reação e de relações secretas, entrou o movimento anarquista
no último decênio do século passado (XIX) e é natural que não haja logrado se livrar
da influência da nova atmosfera. Durante o transcurso de vários anos, nas filas
anarquistas se acostumou considerar a atividade clandestina como um estado normal.
Os novos elementos que se agregaram ao movimento, no período conspirativo, tinham
uma inclinação especial a considerar a organização secreta e sua atividade como
consequência lógica do movimento anarquista, a que devia antepor-se a toda atividade
pública. Um conceito nesse sentido defendeu o Comitê Italiano para a Revolução
Social em uma extensa carta ao 7° Congresso da Internacional, que se verificou em
novembro de 1874, em Bruxelas. No mencionado manifesto se rechaça toda atividade
pública dos revolucionários por perigosa. Dizem:

"As repressões em massa implantadas pelos governos, nos obrigaram a uma conspiração
totalmente secreta. Como essa forma de organização é muito superior, nos
congratulamos porque as perseguições concluíram com a Internacional pública.
Continuaremos o caminho secreto; o temos escolhido como o único que pode
conduzir-nos a nossa meta: a Revolução Social."


Deriva dogmática

(...) Assim como os anarquistas daquele período exageraram o significado das
organizações conspiradoras, da mesma maneira sublimaram, ao correr do tempo, a
importância dos atos individuais alcançando este último proporções distantes,
chegando muitos deles até ver na chamada propaganda pelo fato o ponto essencial do
movimento. Os atos terroristas individuais de caracteres apaixonados são concebíveis
e explicáveis em períodos de reação desenfreada e de perseguições atrozes. Estes
meios não foram somente empregados pelos anarquistas. (...) Somente, devido as
espantosas perseguições de que são objeto os anarquistas nos diversos países, pode
explicar-se o por que a importância desses atos foi exagerada nos setores
anarquistas daquele período.

(...) Essas coisas em geral as sente o trabalhador simples mais tênue e intensamente
que o intelectual, ainda que nem sempre possua as facilidades de dar uma expressão a
esses sentimentos. A maioria dos camaradas alemães aspiravam a um movimento operário
anarquista e sentiam instintivamente que uma acentuação demasiado unilateral de
teorias puramente abstratas sobre a soberania ilimitada do indivíduo e outras coisas
análogas por meio das quais pode supor-se todo o possível e impossível, despejaria
as massas do campo do movimento convertendo-lo em uma seita petrificada.


Sindicalismo revolucionário e reorganização

(...) O bom sentido induziu a muitos operários anarquistas a desejar uma raiz de
união mais potente do anarquismo com o movimento operário. Para muitos foi talvez
mais instintivamente que com conhecimento de causa. Se sentia a necessidade interna,
mas não se tinha a certeza do caminho conveniente. (...) O jovem movimento
sindicalista na França se desenvolveu com uma rapidez espantosa, e muitos
anarquistas ativos empenharam toda sua energia no novo movimento, participando em
suas inumeráveis lutas. A razão de ser de um movimento de massas se levantou
poderosamente depois de um adormecimento tão longo durante o tempo das leis de
exceção. A ideia de Greve Geral começou a abarcar a multidão dos países latinos e,
sob a direta influência de grandes lutas operárias as que, durante os primeiros anos
do presente século, comoveram Espanha, França, Itália, a Suíça francesa, Holanda,
Hungria e outros países, também entrou o movimento anarquista em uma nova fase de
sua evolução, que voltou a acercá-lo a seus precursores.

(...) Mas, no momento de colocar-se no terreno do movimento revolucionário das
masas, o ponto Organização voltou ao tapete (...)

Acontecimentos iguais ocorreram também, em uma mais ou menos idêntica forma, quase
em todas partes, ou seja, se tratavam de assuntos que deviam fazer em todas partes,
o mesmo efeito. O conhecido anarquista holandês Christian Cornelissen, relatou bem
detalhadamente esse estado em seu interessante estudo sobre A Evolução do Anarquismo
onde emite sua opinião da seguinte maneira:

Em diversos países modernos o anarquismo recém se fez caminho prático como oposição
a centralização e disciplina da social-democracia. Mas dita oposição, como ocorre
geralmente em movimentos opositores, se foi bem pronto ao outro extremo. Junto a
influência dos elementos libertários e artísticos contribuiu muito a prestar certo
apoio ao individualismo como teoria e até introduzir em todas partes a
desorganização no movimento. Sobre tudo a princípios dos anos noventa do século
passado (XIX), durante a época em que a chamada ação individual incitou diversos
atentados com bombas, a crítica individualista dali, assim como também da Itália,
Alemanha, Holanda, Boêmia, etc., atacava primeiro a forma de organização e mais
tarde a organização mesma. Nos sindicatos apareceu o espírito individualista de
desorganização e em muitas sociedades de recente fundação, se pôs como questão
preliminar na ordem do dia, que estatutos e presidentes levam em si o germe de um
novo domínio. Não contentes com criticar o abuso da organização e o emprego de todos
os meios para evitar que os membros diretores dos sindicatos possuíssem demasiado
poder em suas mãos, pois são simplesmente os mandatários dos associados, começaram
logo os individualistas a combater a organização mesma, sonhando ver sempre novos
tiranos até ali onde se tratava tão só de regular os assuntos sindicais mais
simples. Também nestes casos foram erroneamente empregadas palavras como tiranização
da minoria pela maioria e repressão da liberdade individual. Mas, a crítica
individualista, não notou aqui o perigo de que quando em uma organização operária
não existe uma regulamentação se faz valer com mais facilidade a autoridade pessoal
e até a ditadura de indivíduos de ação, igual que na velha sociedade combatida. Mais
ainda que nos sindicatos, no período transitório de que falamos aqui, o
individualismo achou ressonância nos grupos e nos centros de estudo e agitação que
se colocaram diretamente frente as sociedades dos social-democratas. Recém, não faz
muito, em diversos países se discutiram problemas como os seguintes: Se não é um
repúdio contra a liberdade do indivíduo votar e conceber resoluções em grupos
revolucionários? Se é permitido apelar aos membros de tais grupos, para que abonem
com regularidade suas contribuições ao caixa do grupo? Se se está autorizado para
nomear um presidente de mesa nos grupos para que anote os que pedem a palavra ou um
secretário e especialmente um tesoureiro, pois são todos responsáveis ante os
membros e isto estabelece uma nova dominação como ocorre nos social-democratas? Além
do mais, relativo a responsabilidade, o indivíduo soberano é devedor ante si mesmo
da responsabilidade. Que não se ache que é exagerado. Todavia, no Congreso
Internacional revolucionário de Londres em 1896, entre os presentes se encontrava um
stirneriano empedernido que protestava cada vez que havia que aprovar alguma
resolução: O que, uma resolução? Não quero resoluções! Não vim para pactar com os
outros! Eu quero ser EU MESMO! Mas então a tendência comunista anarquista já tinha a
supremacia e disse ao opositor: Isso poderias haver feito em casa! Não deves vir
para incomodar-nos.

(...) No momento em que o movimento anarquista voltou a colocar-se sobre o terreno
da ação das massas, como o fizeram seus grandes precursores na época da
Internacional, o problema da organização devia naturalmente voltar de novo à ordem
do dia e foi principalmente esse problema o que originou a convocação do Congresso
Anarquista Internacional de Amsterdã (1907) e da criação da Internacional
Anarquista. O companheiro francês Dunois iniciou o ponto Anarquismo e organização,
com uma pequena relação, em que pontuou o caráter social da ideia anarquista e
declarou que o anarquismo não é individualista mas federalista e que pode definir-se
como federalista em todos os terrenos. Na discussão todos os camaradas, excetuando o
individualista holandês Croiset, se expressaram pela necessidade da organização. Com
especial acentuação o fez nosso velho camarada Errico Malatesta, quem sempre foi um
campeão incansável das ideias organizadoras.

(...) Nesse sentido o Congresso adotou diversas decisões criando um Bureau
Internacional para que facilite as relações entre as diferentes organizações
nacionais. O segundo congresso da Internacional Anarquista que devia efetuar-se no
verão de 1914 em Londres e para o que já estavam notificados delegados de 21 países
da Europa e América, foi interrompido pela guerra mundial que estalou justamente
quando o congresso tinha que realizar-se e os cinco membros que compunham o Bureau
foram mais tarde dispersados por diversos países.

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