(pt) [Espanha] "O espírito de resistência contra os ataques do capi tal é hoje tão necessário quanto em 36"

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Terça-Feira, 29 de Novembro de 2011 - 12:25:47 CET


[Antonio Altarriba (Zaragoza, 1952) dedicou uma vida inteira a escrever. Em um
gênero normalmente associado aos super-heróis, sua novela gráfica El Arte de Volar
(A Arte de Voar), feita junto com o cartunista Kim, é uma história emocionante,
melancólica e muito real, da guerra civil.]
M. Cobo / Jornal CNT
Pergunta > Por que decidiu escrever a história em primeira pessoa?
Resposta < Comecei referindo-me a meu pai em terceira pessoa. Mas não me senti bem e
a história não fluía. Sentia uma grande separação entre meu pai e eu. Arroguei o
papel de narrador e ele se converteu em personagem, de alguma forma em um objeto
diferente e distante de mim. Então tive a ideia de me tornar em meu pai, de formar
com ele uma só pessoa. Quando eu não havia nascido, estava nele como potencial
genético. Agora que ele morreu, seu sangue corre em minhas veias. Além disso, assim
a história me parecia mais autêntica. A voz que conta a história não fala como meu
pai. Mas tão pouco como eu.

É uma entidade mista, inserida entre a atualidade dos fatos descritos, os
percentuais de ficção que dão realismo e, sem dúvida, a identificação do leitor.

Pergunta > Como tem sido a recepção de "A arte de Voar" na França?

Resposta < O livro foi lançado na França em abril. E está funcionando muito bem. Se
não me engano, já vai para a quarta edição. Para mim era muito importante que o
livro fosse publicado na França. Uma parte da história acontece lá. E lá vivem
muitos dos descendentes daqueles que, como meu pai, abandonaram a Espanha pela
guerra civil ou pela repressão franquista. Além disso, queria que os franceses se
confrontassem com aquele episódio vergonhoso de sua história, que foi o acolhimento
dado a exilados, amontoando-os e deixando-os morrer em verdadeiros campos de
concentração. O objetivo parece cumprido.

Pergunta > Outros autores fizeram comics com a guerra civil como protagonista ou
pano de fundo: Carlos Giménez e sua saga "Paracuellos", Jorge García com "Cuerda de
presas", Ángel de la Calle e sua biografia de Tina Modotti... Tem surgido, depois de
fazer "A arte de Voar", mais histórias para contar semelhantes ou paralelas as que
seu pai viveu, enquadradas na Guerra Civil ou no pós-guerra?

Resposta < O livro provoca muitas memórias. E uma grande quantidade de leitores me
escreve ou vem para as apresentações e me contam sua história ou de sua família.
Estou me tornando um repositório de uma memória histórica especialmente esquecida e
profundamente dilacerada. É uma autêntica mina de relatos. Não descarto, portanto,
voltar ao tema ou período. Mas a escrita deste roteiro era tão absorvente e tão
dolorosa que agora quero mudar. Na verdade estou preparando um roteiro fantasioso,
colorido e bem-humorado. Veremos mais adiante.

Pergunta > Você vê correlação entre a situação política em que viveu seu pai em 36 e
a atual?

Resposta < Bem, tal como vemos, cada vez se assemelham mais. De qualquer forma,
passamos por um momento que exige uma visão crítica, fornecendo evidências
ostensivas sobre a correlação entre poder e corrupção, que incentiva ataques
sistemáticos contra as posições dos trabalhadores e setores desfavorecidos... São
outros tempos, outras circunstâncias e outras mentalidades, diferentes da guerra
civil. Mas o espírito de resistência, o desmascaramento dos mecanismos de opressão,
a solidariedade contra os ataques do capital são tão necessários hoje como então. Há
tempos que não deixavam tão expostos os mecanismos injustos em que nossa sociedade
se baseia.

Pergunta > Recentemente foi apresentado no Festival de Cinema de São Sebastião o
filme de animação Arrugas, baseado no comic homônimo de Paco Roca e que recebeu o
Prêmio Nacional de Comic em 2008. Kim e você receberam o prêmio em 2010. Fizeram
ofertas para adaptar "A arte de Voar" para outro formato?

Resposta < Sim, estamos recebendo algumas propostas. E uma delas, que seria para
fazer um filme de animação, é uma opção muito tentadora. Estamos esperando que se
definam mais projetos para tomar uma decisão.

Jornal "CNT" Nº 383 - novembro de 2011


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