(pt) [Entrevista] Os comitês populares líbios devem ser à base de uma nov a vida , não uma mera medida transitória

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Quarta-Feira, 16 de Março de 2011 - 14:33:10 CET


A luta do povo líbio, que é parte da onda de rebeliões populares que se
espalha como fogo em todo o mundo árabe, está adquirindo um caráter
verdadeiramente dramático, com o povo que segue avançando sua luta contra
um regime decidido a permanecer no poder por todos os meios. Gadaffi, pese
o seu passado como uma dor de cabeça para os Estados Unidos, se converteu
em um aliado chave para a Guerra contra o Terrorismo, a qual foi
corroborada pela torpe e tardia reação dos Estados Unidos ante os eventos
na Líbia, assim como pela igualmente tardia suspensão da União Européia de
seu considerável comércio de armas com o regime líbio. Ainda que os
Estados Unidos e as potências ocidentais pareçam re-descobrir que, depois
de tudo, não lhes agradava tanto Gadaffi (depois de uma década de relações
amistosas), começaram a falar de uma possível intervenção e porta aviões
dos Estados Unidos tem se aproximado das costas líbias. Os resultados que
poderiam ter semelhante aventura seriam horrendos. Entretanto, os Estados
Unidos e seus aliados do Ocidente exploram as formas para assegurar que
esta rebelião, tanto na Líbia quanto no resto do mundo árabe, não se
comporte de forma revolucionaria e assegurar que seus interesses
econômicos e estratégicos sejam servidos da melhor maneira possível em um
cenário pós-Gadaffi. Para entender melhor o que ali ocorre, mantivemos
outra conversa com nosso amigo e camarada, o anarquista sírio Mazen
Kamalmaz, que edita o blog revolucionário:
http://www.ahewar.org/m.asp?i=1385

José Antonio Gutiérrez D.

3 de Março, 2011

Pergunta > O que é que está realmente ocorrendo na Líbia e no resto do
mundo árabe?

Mazen Kamalmaz < É uma revolução. Depois de 42 anos sendo governadas pelo
regime de Gadaffi, as massas tem saído às ruas. O mal, é que pela brutal
repressão do regime, esta revolução só pode ser exitosa na parte Leste do
país, a qual também possui diferentes tribos do Oeste e do Centro da
Líbia. Rapidamente, as forças leais ao regime se repuseram da surpresa e
sufocaram a rebelião em Trípoli, a capital, assim como no resto da Líbia,
utilizando uma força extremadamente brutal. As massas tentaram sair
novamente na quarta-feira passada, que foi um dia de furiosos protestos em
todos os países árabes, mas não foram capazes de fazer frente às forças do
regime. Agora existe uma situação de estabilidade entre dois poderes, o do
povo e o do regime, ainda que ambas estejam tratando novamente de
capitalizar esta situação a seu favor.

Independente dos protestos na Líbia, Iêmen esta ardendo durante semanas.
Neste país existem várias tribos e minorias religiosas, a parte dos
conflitos entre um norte dominante e um sul marginalizado que demanda
autonomia. Os estudantes universitários e secundaristas têm conseguido,
graças a sua devoção pela liberdade plena e sua vontade para sacrificar-se
por esta causa, converterem-se em um fator de convergência para todas as
facções da nação em torno ao objetivo de derrubar a ditadura.

A quarta-feira passada também foi bastante agitada no Iraque, onde
milhares de jovens iraquianos, tanto sunitas como xiitas, os quais
estiveram a pouco tempo as bordas de uma guerra civil, saíram as ruas para
protestar contra o corrupto governo pró-yanque. A polícia respondeu com a
mesma repressão que em outras partes, o que ocasionou algumas mortes entre
os manifestantes.

O Sultanato de Oman também se uniu aos países em rebelião, quando os
jovens saíram às ruas a gritar, como em outras partes, por mais liberdade
e melhores condições de vida.

Pergunta > Ainda há aqueles que olham Gadaffi como um socialista e um
anti-imperialista
 isto está certo?

Mazen < Este é um mito bastante enganador e ilusório, e é produto da
antiga esquerda autoritária, que ainda persiste. Isto, devido em parte, ao
renascimento da esquerda autoritária com figuras como Chávez.

Devemos ter em mente que o regime de Gadaffi tem gozado de uma melhoria
significativa em suas relações com as principais potências ocidentais
desde 2003, depois de que o ditador líbio abandonou seu programa nuclear.
Então, a ex-secretaria de Estado dos Estados Unidos, Condolezza Rice,
proclamou este gesto como um modelo para restaurar as relações normais
entre os Estados Unidos e os países do terceiro mundo, inclusive aqueles
que os Estados Unidos tem qualificado como regimes “canalhas”. Isto abriu
as portas a Berlusconi, Blair e Sarkozy para que visitassem a Líbia e
assinassem multibilionários contratos com empresas ocidentais, incluindo
venda de armamento. Assim, Gadaffi acabou aparecendo inclusive em uma
reunião do G8 para conversar com Obama. Igualmente com Ben Ali e Mubarak,
as grandes potências capitalistas, sinceramente ignoraram as violações aos
direitos humanos do regime de Gadaffi, cometidas contra seu próprio povo.
Ainda quando Gadaffi se declarava um antiimperialista, faz muito tempo,
não era outra cosa mais que lábia que utilizava enquanto se envolvia, como
autoritário que é, em atos terroristas triviais, os quais não foram feitos
para apoiar os objetivos libertários das vítimas do imperialismo.

Devemos distinguir entre ser anti-yanque, anti-capitalista e ser um
genuíno socialista, já que não são poucos os anti-yanques que são tão
autoritários e repressores como o sistema global do fascismo corporativo
ou como os regimes pró-yanques. Não nos esqueçamos do estalinismo. Gadaffi
mesmo chegou ao poder quando o nacionalismo árabe estava em seu clímax, o
qual era anti-imperialista em um sentido retórico, ainda que tenha
conduzido aos países árabes de derrota em derrota em todas suas
confrontações com o imperialismo e sua agente local mais importante,
Israel. A última destas derrotas foi o Iraque no ano de 2003. Depois da
derrota de 1967 do Egito, Síria e Jordânia, por parte de Israel, muitos
esquerdistas terminaram por chegar à conclusão de que a natureza
exploradora e repressiva destes regimes era a verdadeira responsável por
estas derrotas. No ano seguinte, jovens e estudantes egípcios começaram a
protestar contra o regime de Nasser, protestos que tiveram conotações
libertarias. O fato é que o Egito sob Nasser, Iraque sob Saddam ou Síria
sob Assad, todos tem sido meros exemplos de capitalismo de Estado
burocrático, ou seja, regimes que tem reprimido e explorado seu próprio
povo.

Pergunta > Qual foi o papel dos Estados Unidos na crise? Sabendo-se que
Gadaffi esteve em bons termos com eles durante bastante tempo


Mazen < Durante a Guerra Fria, ambas potências repressoras como foram os
Estados Unidos e a URSS, praticaram um jogo dúbio: por um lado, reprimiam
a seus próprios povos em sua esfera de influência e “apoiavam” as lutas de
liberação nas esferas de influência de seu rival. Assim, a União Soviética
apoiou a luta popular vietnamita contra a intervenção yanque e a Revolução
Cubana, assim como outras rebeliões na América do Sul e outros lugares
infestados de ditadores pró-Estados Unidos. Por outro lado, os Estados
Unidos e o bloco capitalista apoiaram a onda de protestos na Europa do
Leste, etc. Este jogo hipócrita ainda é jogado hoje. Os Estados Unidos
estão ansiosos em apoiar rebeliões no Irã, por exemplo, mas jamais na
Arábia Saudita. No Iraque, o governo de Bush ajudou a Saddam a retomar o
poder mesmo após sua derrota na primeira Guerra do Golfo em 1991, em
momentos em que este enfrentava uma enorme revolução popular e apenas uma
pequena parte do Iraque estava sob seu governo. Sua intenção era
derrotá-lo quando fosse mais fácil e quando fazê-lo não significaria um
risco para seu domínio regional.

Mas o mundo está girando a todo tempo, às vezes contra a vontade dos
Estados Unidos, como ocorreu no Egito e na Tunísia. Apesar de todos seus
esforços para manter a Ben Ali e a Mubarak no poder, as massas criaram uma
nova realidade, a qual os Estados Unidos estão tratando de adaptar-se. Na
Líbia, as coisas são um pouco diferentes. Os Estados Unidos são como um
animal predador, que têm em sua frente a um regime de Gadaffi debilitado e
detestado por seu povo e sobre tudo com um território líbio cheio de
petróleo. O qual lhes aparece como uma vítima fácil e de grande porte. A
parte disto pode ter a vantagem adicional de fazer aparecer o principal
apoio das ditaduras em nossa região, os Estados Unidos, como se fosse um
lutador pela liberdade, ajudando a liberar de seu sanguinário ditador, ao
qual consideravam até há pouco tempo um amigo, a uma nação desamparada. O
mal de ser um predador é que não consegue resistir à tentação de uma presa
fácil, pese a suas experiências dolorosas passadas. É muito importante
levar em consideração quando se fala deste possível plano de intervenção
dos Estados Unidos que ninguém na Líbia, nem as massas rebeldes, nem
sequer a oposição líbia no Ocidente, está a favor de uma intervenção
militar estrangeira.

Desde sempre, tal coisa seria um golpe contra a luta de toda nação líbia,
um golpe contra sua luta independente pela libertação e também
representaria uma ameaça contra seu futuro. Os líbios estão a ponto de
derrubar o regime e conquistar a posse de seu petróleo e de sua vida. Eu
não creio que, ao menos a maioria deles, estejam dispostos a sacrificar o
que tem conquistado até agora em troca de uma vitória fácil, mas que não
seria sua própria vitória.

Pergunta > Qual é a natureza do governo civil-militar declarado hoje (27
de fevereiro) em Benghazi?

Mazen < Ainda não existem instituições estatais propriamente ditas nas
áreas liberadas. Há aqueles que estão tentado consolidar sua liderança
elitista, mas sem êxito até o momento.

Faz pouco tempo a imprensa yanque e a imprensa árabe pró-yanque, começaram
a falar de um conselho interino em Benghazi, o qual estaria liderado por
um ex-ministro do governo de Gadaffi, somente para ressaltar sua posição
favorável a uma possível intervenção dos Estados Unidos. A parte deste
suposto conselho interino, nenhuma outra força ou grupo das zonas
liberadas, aceita tal intervenção.

Pergunta > Qual é o papel dos Comitês Populares líbios? Estão criando, o
povo, mecanismos para sua própria democracia direta?

Mazen < Na prática, estes comitês, se converteram em parte integral de
todas as revoluções no mundo árabe. Considero que sim, são bons exemplos
de democracia direta. Todas as zonas libertadas são controladas por eles,
tal qual ocorreu depois da queda de Ben Ali na Tunísia e depois de que
Mubarak ordenara as suas forças de segurança abrir o caminho aos bandidos
para que saqueassem por todas partes a fim de amedrontar as massas
rebeldes. O que necessitamos agora é que se convertam em uma nova forma de
vida, e não sinceramente em uma medida provisória: tal deve ser nossa
mensagem as massas.

Pergunta > Há aqueles que têm levantado as bandeiras da monarquia

acreditas que o fantasma de um retorno ao velho regime de Idris esteja em
vista?

Mazen < Para dizer a verdade, qualquer coisa pode suceder. Creio que nem
sequer os líbios rebeldes sabem muito bem quem ou como governará o país
quando consigam derrubar a Gadaffi. Devem descobrir eles mesmos sua
própria maneira de fazê-lo. Mas creio que é difícil que isto ocorra, pois
já não se submeterão facilmente a um novo governo. Tiveram conhecimento de
seu poder e não será fácil lhes expropriarem isso novamente.

Pergunta > Qual é a perspectiva no imediato para esta rebelião?

Mazen < Depende. Ainda não foi finalizada a luta contra a ditadura, nem
ela foi ganha. Mas devemos perceber o enorme potencial que existe. A
vitória da revolução significará uma grande mudança na região. Devemos ter
em mente que a Nova Ordem Mundial foi declarada e implementada aqui pela
primeira vez, em função da crise do Golfo, em 1990 e 1991. Desde então,
esta região tem substituído a América do Sul como o pátio traseiro de
Washington. Somado ao que já vimos na Tunísia ou no Egito, as mudanças
serão duradouras e profundas. Como sempre, há duas opções: ou se instaura
um novo regime das elites, ou as massas conseguem construir uma sociedade
verdadeiramente livre, organizada segundo o modelo destes comitês
populares que o mesmo povo criou no calor de sua luta.

Tradução > Juvei

agência de notícias anarquistas-ana





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