(pt) [Espanha] Entrevista a Abdennur Prado , autor de "Anarquismo e Islão"

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Segunda-Feira, 6 de Junho de 2011 - 09:50:08 CEST


[Durante anos, Abdennur Prado trabalhou e refletiu sobre o Islã, que não
se costuma falar ou conhecer. Nesta ocasião, reflete sobre anarquismo e
islamismo. Presidente da Junta Islâmica Catalã, diretor do Congresso
Internacional sobre Feminismo Islâmico e editor do Webislam, Abdennur tem
escrito livros e artigos sobre o feminismo, os direitos civis, a
perseguição de minorias... Em seu último livro - O Islã e o Anarquismo
místico (Vírus editorial) - Abdennur oferece uma perspectiva diferente do
que observar da realidade e trabalhar com ela: oposições falsas geradas e
mantidas pelo poder (amigos/inimigos, próprio/estrangeiro, o ocidental/o
islâmico, etc.) oferecem uma visão de conflito e, portanto, não fechada.]

Diagonal > O livro relaciona termos como “entrega”, "servo", "submissão",
com "ajuda mútua", "resistência", "coletivismo", "oposição às estruturas
de poder", etc. Como você captura a relação entre o Islã, o anarquismo, e
o misticismo?

Abdennur Prado < A relação entre o Islã, o místico e o anarquismo vem a
mim naturalmente, é algo que eu compartilho com muitos muçulmanos. Ao
afirmar que o Islã é uma relação direta entre Deus e cada uma das
criaturas, estamos propondo uma forma mística, que ignora qualquer
mediação instituída. Para acessar o "poder matriz” que move o universo não
precisamos de igrejas, conselhos ou sacerdotes... Não aceitamos que nenhum
poder humano que seja, nenhum conhecimento humano, nenhuma lei humana...
Podemos aceitá-las por necessidade, mas sabendo que estas são meras
convenções. Eu me entrego a Deus e nessa entrega me liberto, na medida em
que a faço na minha própria capacidade e compreensão. Esse é o radicalismo
ao qual o Islã nos convida: assumir a liberdade do homem do deserto. E
conviver com o resto das criaturas desde essa entrega, a partir da
consciência, da liberdade. Não falo de grandes teorias, mas uma expressão
diária.

Diagonal > De acordo com a crítica de Bakunin à religião, diz que é uma
crítica de sua ordem hierárquica, de inspiração eminentemente cristã. Você
não vê essa relação entre religião e Estado nos países de maioria
religiosa muçulmana?

Abdennur < Claro que há! O conluio de religiosos com o poder mundial é um
arquétipo universal, do qual não escapa qualquer tradição. Nem mesmo o
Islã que, em teoria, surgiu para lidar com essa trama... Conselhos Ulemás,
os clérigos a serviço com o poder, e suas conseqüências: a violência
religiosa, sexismo, o patriarcado, a homofobia, a discriminação das
minorias... Tudo isso acontece hoje em nome do Islã. O Islã foi
gradualmente transformado em uma religião ao serviço do poder. Portanto,
considero como urgente voltar ao básico, realizando a experiência da
revelação, aqui e agora, e recuperar a natureza anarquista e libertária do
Islã. E, principalmente, do discurso de igualdade social e da luta contra
a opressão, que está na sua origem. Por isso, creio que é muito saudável
para o Islã contemporâneo a crítica atéia à religião. Apesar de nada
servir o materialismo grosseiro que reduz o ser humano a um
consumidor-produtor, e que hoje é o melhor aliado da globalização
corporativa.

Diagonal > O capítulo "A revelação como revolução" considera que a
revelação é uma revolução individual e coletiva. Esta tensão entre o
individual e o coletivo que há no anarquismo, também está presente no
islamismo?

Abdennur < Antes do ovo e da galinha, há Deus. Ou seja, a “realidade” é
uma, mas a nossa percepção linear e fragmentada não consegue captar todos
os processos. Estamos separados por nosso ego limitado, por nosso egoísmo,
e não somos capazes de nos reconhecermos no outro. Por isso, precisamos da
revelação: entrar em comunicação com a "realidade" diretamente. Nesse
sentido, a revelação é a única força capaz de romper com o nosso
solipsismo das criaturas, e tornar-nos disponíveis uns para outros. A
tensão entre o indivíduo e a coletividade se resolve na comunidade, como
espaço em que cada um ocupa o seu lugar naturalmente. Isso é a prova de
que temos realmente deixado o nosso egoísmo, sem renunciar àquilo que
somos. Por isso é tão importante opor a idéia de comunidade à idéia do
Estado, ou de macro estruturas de poder, em que somos engolidos pela
massa.

Diagonal > Para além do interesse e desejo de discutir que desperta sua
leitura, o que você pensa que o Islã como anarquismo místico pode trazer
ao debate sobre as lutas antiautoritárias?

Abdennur < Seria pretensioso para eu destacar algo... Em qualquer caso, a
partir de uma perspectiva libertária, há sempre um prazer em dinamitar
tópicos, em explodir em pedaços barreiras mentais herdadas, e trazer novas
possibilidades. De minha parte, tenho cada vez mais claro que o que
distingue os seres humanos não é se consideram crentes ou descrentes, nem
os rótulos que nos "identificam". Tenho claro que diferentes anarquistas
são mais dignos representantes dos valores do Islã que muitos supostos
muçulmanos. E eu vi uma verdadeira consciência libertária em comunidades
muçulmanas sem sequer saberem que eram anarquistas...

Diagonal > Qual é o estado de saúde do movimento feminista islâmico? Que
tarefas desempenha como co-diretor do Congresso Internacional de Feminismo
Islâmico?

Abdennur < O feminismo islâmico é uma realidade emergente. Agora ele
funciona de várias formas: re-leitura do Alcorão, com uma perspectiva de
gênero, sensibilização e divulgação para as bases, a reforma dos códigos
de família patriarcal, o reforço das redes transnacionais, a colaboração
entre crentes e descrentes feministas, e assim por diante. Esta é uma
tarefa gigantesca, impossível de resumir aqui. Como co-diretor do
Congresso, me limito a atuar como um facilitador. Não tentamos apresentar
o feminismo islâmico como um movimento monolítico, nem confirmar o nosso
ponto de vista anterior, mediante a seleção de oradores, mas para reunir
diferentes perspectivas e contextos.

Diagonal > O que diz o Alcorão sobre a homossexualidade?

Abdennur < Apesar do que se pretende, insisto que o Alcorão não diz nada
sobre a homossexualidade... É verdade que, tradicionalmente, têm-se
interpretado as passagens sobre o povo de Lot como uma condenação da
homossexualidade, mas isso não resiste à mais mínima análise. Primeiro,
porque o Alcorão não menciona o amor entre dois homens, mas a
promiscuidade desenfreada e ao estupro. Há alguns que confundem um com o
outro, mas isso só mostra até que ponto os preconceitos herdados se
projetam sobre a leitura do Alcorão. Por outro lado, existem alguns
versículos que sugerem uma aceitação da homossexualidade.

“Atração e raiva”

"Webislam é um exemplo de muitas das coisas que eu tentei mostrar neste
livro. Esta não é uma militância anarquista, mas uma comunidade
interpretativa, baseada na fraternidade e ajuda mútua em que não há
hierarquias artificiais. Desta plataforma, fomos capazes de desenvolver um
discurso islâmico contemporâneo, crítico e criativo, tanto sobre o poder
constituído como com as estruturas religiosas conservadoras. Daí a atração
e raiva que gera... Webislam é o marco no qual desenvolvo a minha visão do
Islã como o anarquismo místico".

Fonte: Diagonal

agência de notícias anarquistas-ana




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