(pt) [Reino Unido] Sobre a polícia infiltrada em Cardiff

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Quarta-Feira, 9 de Fevereiro de 2011 - 20:16:18 CET


[Esta é a nossa resposta à descoberta de que Mark Jacobs havia se
infiltrado em nosso grupo, durante quatro anos.]
Por quatro anos, um policial à paisana que conhecíamos como "Marco" se
infiltrou na Rede Anarquista Cardiff (Cardiff Anarchist Network - CAN).
Durante esse tempo, acreditamos que tinha uma série de objetivos: coleta
de informações e interrupção das atividades da CAN; a utilização da
reputação e da confiança adquirida com a CAN para infiltrar-se em outros
grupos, incluindo uma rede européia de ativistas e parar o funcionamento
coerente da CAN. Para 2009, as suspeitas haviam acumulado, mas Marco tinha
cuidado de forma tão eficaz as relações e a confiança dentro do grupo, que
nossas suspeitas não foram devidamente compartilhadas e expressas. No
Outono de 2009, ele organizou um jantar de "despedida" para o grupo, e
anunciou que estava indo para um trabalho em Corfu, na Grécia. Depois de
sua saída, chegaram suas mensagens e postais por algumas semanas, mas logo
cessaram, sem explicação alguma. Seu número de telefone móvel britânico
não foi mais localizado e o número do telefone grego que estava utilizando
foi restringido; as chamadas e mensagens nunca foram entregues. Suas
páginas em redes sociais pararam de ser atualizadas. As suspeitas
cristalizaram-se, mas ele já havia desaparecido.

As pessoas associadas com a CAN e outros grupos que fizeram parte em
Cardiff, como “No Borders” e “Gwent Anarchists”, tentaram divulgar nos
círculos de ativistas que o homem que era conhecido como “Marco” era um
policial disfarçado. Porém, sem uma prova definitiva, advertiram-nos a não
fazer acusações infundadas.

Foi quando surgiram notícias sobre Mark Kennedy e Watson Lynn (outros dois
policiais infiltrados descobertos no mês passado), parecendo uma
oportunidade para estabelecer a verdade. Seguindo o nosso exemplo, em 14
de janeiro de 2011, o The Guardian obteve a confirmação de que ele era um
policial na ativa. Não sabemos exatamente como isso foi feito, mas
acreditamos que a confirmação veio diretamente da ACPO, a Associação dos
Delegados de Polícia. Não estávamos confortáveis confiando nos meios de
comunicação desta forma, mas todas as nossas tentativas anteriores de
estabelecer com sucesso quem ele era havia terminado em nada.

Marco trabalhou em nós (não conosco) por quatro anos. Desenvolveu fortes
relações pessoais e alguns de nós sentimos uma enorme traição pessoal. Mas
também se propôs, deliberada e sistematicamente, a prejudicar o movimento,
e acreditamos que é importante o que saiba do que fez e como fez isso seja
compartilhado e discutido o mais amplamente possível.

Possivelmente, uma das coisas mais prejudiciais que fez foi usar as
credenciais da CAN para se infiltrar na Rede de Dissidência contra o G8 na
Europa. A CAN tem participado ativamente da Rede e no planejamento de
bloqueios em massa no G8 em Stirling, em 2005, e alguns membros da CAN
estavam dispostos a contribuir para uma rede européia mais ampla. No
entanto, CAN era um grupo pequeno, e muito poucos de nós têm tempo e
dinheiro para viajar para as reuniões internacionais. Marco, é claro, o
tinha, então foi fácil para ele dar um passo adiante e participar. Pelo
menos em uma ocasião, ele participou das reuniões européias de
planejamento, junto a Mark Kennedy. É provável que suas atividades
prejudicaram seriamente a organização do protesto contra o G8 na Alemanha,
em 2007.

Cabe destacar que nenhum dos três policiais à paisana foi ao G-8 na
Rússia. Marco estava prestes a assistir, mas desistiu na última hora -
presumivelmente incapaz de obter o acordo do governo russo ou autorização
para agir sem seu conhecimento.

Como Mark Kennedy, Marco também sabotou a ação direta ambientalista. Em
2007, após conseguir ser incluído no processo de planejamento de uma ação
contra o terminal de oleoduto LNG (Gás Natural Liquefeito), em Milford
Haven, a oeste no País de Gales, teve a oportunidade de passar informações
para a polícia local, que resultou na detenção de vários ativistas. Todos
os processos penais caíram na última instância, mas não antes que a
polícia houvesse invadido as casas, até mesmo a de Marcos, onde obtiveram
os computadores, no que parece ter sido uma entrega de "pesca massiva".

No entanto, Marco passou a maior parte do seu tempo infiltrando-se em
todas as atividades normais de um grupo político (reuniões, exibições de
filmes, encontros e eventos destinados a provocar discussão e o debate
sobre a política radical). Acreditamos que pelo menos em um caso (a
projeção de um filme dos direitos dos animais com uma conversa de
acompanhamento) organizou um evento apenas para coletar informações sobre
as pessoas que assistiriam. Ele também estava interessado em participar de
projetos em que havia cooperação de outros grupos, como a campanha contra
a privatização da formação militar e na construção de uma nova academia de
defesa da RAF em St Athan. Olhando para trás agora podemos ver que ele foi
cuidadoso, mas sempre prejudicial. Apesar de sua clara capacidade, sempre
que algo - contatos de construção, promoção, transporte - dependiam
inteiramente dele, acabava em nada.

Danificar a estrutura da CAN foi sem dúvida um objetivo fundamental. Ele
mudou a cultura da organização, promovendo uma grande quantidade de
bebida, fofocas e traições, e banalizado e criticando qualquer tentativa
por parte de qualquer pessoa do grupo para atingir os objetivos. Era
evidente seu objetivo de separar e isolar certas pessoas no grupo e de
outros, e sutilmente exagerava as diferenças políticas e pessoais,
contando mentiras para os dois "lados", para criar desconfiança e
animosidade. Nos quatro anos que esteve em Cardiff, um grupo forte, coeso
e ativo quase se desintegrou. Marco se foi, após as reuniões anarquistas
na cidade pararem de acontecer.

Lendo isso, você saberá por que diabo demorou tanto tempo para pegá-lo, e
porque não fomos mais céticos e menos confiantes. Marco obviamente não
tinha a vida exposta fora do ativismo. Nunca conhecemos sua família ou
colegas que supostamente compartilham sua paixão pela música rock, embora
às vezes dissesse ir a shows fora da cidade. Disse-nos que não tinha
mulher nem filhos. Sua casa era bastante espartana e seu trabalho como
motorista de caminhão também permitiu uma desculpa para se ausentar-se por
longos períodos, sem levantar suspeitas. Além disso, apesar do desejo
expresso de estar "onde estava a ação", foi muito relutante em sujar as
mãos, sendo uma parte ativa na ação direta ou no confronto com a polícia.
Todas essas coisas juntas deveriam ter sido suficiente para pelo menos
fazermos perguntas.

Talvez tenhamos sido um pouco ingênuos, especialmente considerando que não
éramos suficientemente importantes para sermos infiltrados. E o homem que
conhecíamos como Marco foi muito bom em desviar suspeitas. Era agradável,
um apoio pessoal, divertido e muito útil para ter por perto. Foi, como
Mark Kennedy, um condutor. Levou algum tempo escrevendo, editando e
distribuindo boletins informativos, fez banners e foi às reuniões chatas
para não incomodar ninguém a ir. Foi capaz de explorar as vulnerabilidades
das pessoas se aproximando delas, para não fazê-las se sentirem isoladas e
excluídas. Foi um grande manipulador.

Todos que se relacionaram com Mark Jacobs estão sofrendo com
ressentimento, raiva e culpa. Nossa incapacidade de ver através de sua
farsa tem causado grandes danos às pessoas, tanto aqui em Cardiff como em
toda a Europa. Estamos conscientes de que Marco não foi o único policial
atuando, e que a culpa, especialmente a nível europeu, não é toda nossa.
Mas, ainda assim, por nossa parte, sentimos uma responsabilidade coletiva
e um sensação de fracasso.

Dito tudo isso, temos de olhar em frente e é importante aprender as lições
certas do que aconteceu. Acreditamos que é importante que o movimento não
sucumba à paranóia e desconfiança. Marco tem trabalhado duro para semear a
desconfiança, desgostos e suspeitas entre nós e deixá-lo fazer isso talvez
tenha sido o nosso maior erro.

Acreditamos também que é errado nos pintar como impotentes em uma situação
como esta, ou procurar a simpatia da mídia como vítimas de um Estado
injusto e poderoso. Nós vemos como isso pode ser tentador, por razões de
propaganda, ou para ganhar o apoio de líderes políticos e da imprensa
liberal, mas é basicamente um ato de desempoderamento. As ações da polícia
e do Estado do Reino Unido, neste caso, são nojentas, mas não
surpreendentes. Nós, como grupo e como um movimento, fomos infiltrados e
atacados porque temos, e incentivamos os outros a ter, a ação militante
contra uma série de injustiças colossais. Em suma, adotamos uma postura
decidida contra o que consideramos errado, e a cada vez, mostrou-se
correta. Na guerra abominável no Iraque, o corrupto e imoral comércio de
armas, as injustiças impostas em nosso nome pelo G8 e os escândalos de
mudanças climáticas antrópicas, mantivemos a retidão de nossas ações.
Rejeitamos a autoridade do Estado para nos dizer como, quando e onde fazer
a nossa resistência, e incentivamos a ampliar a luta e a dissidência.
Vieram até nós porque somos fortes, não porque somos fracos.

Rede Anarquista de Cardiff

http://southwalesanarchists.wordpress.com/

agência de notícias anarquistas-ana





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