(pt) O Mundo árabe está em chamas: entrevista com um anarquista sírio

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Sábado, 5 de Fevereiro de 2011 - 21:27:21 CET


As revoltas que explodiram no mundo árabe no Iêmen, Tunísia e agora no
Egito apanharam todos de surpresa. Constituem, sem sombra de dúvida, um
dos acontecimentos mais relevantes do nosso tempo e são um sinal claro de
que já não é possível, em lugar nenhum, continuar-se a ser um joguete de
ditador com o apoio imperialista. Os regimes extraordinariamente
autoritários como os de Ben Ali revelaram-se completamente impotentes
perante um povo com grande determinação, unido na luta. São jovens,
trabalhadores, desempregados, pobres, os que levam a cabo esta tarefa de
mudar o rosto da região provocando calafrios aos mandantes de Washington e
de Tel Aviv. Nem todas as armas do regime de Mubarak, nem toda a ajuda
militar dos EUA, conseguiram controlar a extensão do protesto. Os rebeldes
revelam o poder do povo e da classe trabalhadora quando se unem, a
capacidade política dos homens e mulheres comuns para formar organismos de
poder dual, com um  claro instinto libertário para além de demonstrarem ao
mundo que nos encontramos já numa era de mudanças revolucionárias.
Estabelecemos um breve diálogo com o nosso companheiro e amigo Mazen
Kamalmaz, da Síria - editor do blog anarquista árabe
http://www.ahewar.org/m.asp?i=1385 - que nos falou da importância deste
esplêndido acontecimento político.
Pergunta > Parece que toda uma repentina onda de protestos massivos está a
sacudir as fundações dos velhos regimes opressivos no mundo árabe
 havia
indícios de que isto poderia suceder?
Mazen Kamalmaz < Este é um dos aspectos mais interessantes da onda
revolucionária que se está a expandir por todo o mundo árabe que chega
quando nada o fazia prever.
Ainda alguns dias antes das manifestações massivas e sucessivas no Egito a
Secretaria de Estado dos EUA, Hillary Clinton, declarava que o governo
egípcio era estável e neste momento nada é estável na região: a
insurreição mantém-se de pé e para todos os regimes repressivos espera-se
o pior. Há aspectos que se reportam a todas estas sublevações tais como a
raiva e ressentimento que estavam escondidos, silenciados pela repressão
dos Estados, a pobreza e o desemprego crescentes - a que os regimes,
estadistas e até intelectuais não prestaram a devida atenção - em
relação aos quais os governos, locais ou ocidentais, pensaram que poderiam
manter a revolta sob controle
 agora sabemos como se enganaram.
Pergunta > Qual a importância da saída de Ben Ali do governo da Tunísia?
Mazen < Este é apenas o primeiro passo do que está para vir. Supõe que o
povo, o povo em luta, consegue desafiar a repressão e vencer. É muito cedo
para falar sobre o desenlace final, é tudo demasiado complexo ainda, mas o
povo já conseguiu ter consciência do seu poder real e apesar disso
mantém-se na rua, de modo que a luta ainda se encontra aberta a muitas
possibilidades.
Pergunta > Para aonde se está a expandir a revolta? Que países podem
experimentar rebeliões massivas?
Mazen < Hoje pode-se afirmar seguramente que qualquer um poderia ser o
próximo. Talvez a Argélia, Iêmen ou Jordânia sejam candidatos fortes, mas
temos de ter em conta que uma revolução no Egito teria um grande impacto
na região, impacto esse que superaria os piores pesadelos dos ditadores e
dos seus partidários na região.
Pergunta > Qual seria a relevância de uma revolução no Egito, o segundo
maior receptor de ajuda militar estadunidense em todo o mundo?
Mazen < O Egito é o país com as maiores dimensões do Oriente Médio e o seu
papel estratégico é muito importante. É um dos principais pilares da
política estadunidense nessa região. A pressão das massas é um fator a ter
em conta daqui pra frente, inclusive em relação à sobrevivência do velho
regime resistir durante algum tempo mais ou não, ou se o novo regime será
pró estadunidense. Resumindo, os EUA, o principal apoio do regime atual,
irá sofrer o efeito da rebelião das massas egípcias.
Pergunta > Qual o papel dos Irmãos Muçulmanos nestes protestos? E da
“velha guarda” da esquerda?
Mazen < Um aspecto muito importante destas manifestações e revoltas é que
tiveram uma origem totalmente espontânea e iniciada pelas massas. É
verdade que os diferentes partidos políticos juntaram-se a elas mais
tarde, mas todo o processo foi, em grande medida, uma manifestação de ação
autônoma por parte das massas. Isto é também válido para os grupos
políticos islamitas. Embora estes ditos grupos pensem que as futuras
eleições os poderiam levar agora ao poder, com as massas em rebelião
nas ruas isso será difícil, dado que se negaram ativamente a submeter-se
de novo a outro poder repressivo, mas mesmo no caso que isso sucedesse, o
povo não aceitaria ser submetido nesta ocasião, enquanto se mantém fresca
para a maioria a memória eufórica das parcelas de liberdade que alcançaram
através da sua própria luta.
Nenhum poder os poderia forçar facilmente a submeter-se de novo a algum
regime repressivo.
Outro aspecto a ter em conta é que durante as revoluções o povo é mais
receptivo às idéias libertárias e anarquistas, e que é a liberdade a idéia
hegemônica do momento não o autoritarismo. Alguns dos grupos estalinistas
só representam o rosto mais feio do socialismo autoritário... Por exemplo,
o antigo Partido Comunista da Tunísia participou com o partido dominante
de Ben Ali no governo formado após a expulsão do próprio Ben Ali. Outro
grupo autoritário, o Partido Comunista dos Trabalhadores da Tunísia,
participou ativamente nos protestos, mas depressa manifestaram as suas
contradições: quando Bem Ali escapou tratou de criar conselhos ou comitês
locais para defender o processo e logo de seguida retratou-se e apelou
para se criar um novo parlamento e governo. No Egito passa-se praticamente
o mesmo, há grupos reformistas de esquerda, como o Partido da Unidade
Progressista e alguns revolucionários da esquerda autoritária.
Não posso dizer com exatidão qual o papel dos anarquistas ou de outros
libertários - há uma crescente tendência comunista conselhista junto a
eles - devido à falta de comunicação com os nossos companheiros de lá, mas
não posso deixar de ressaltar o que disse anteriormente: que estas
revoluções foram feitas principalmente pelas próprias massas. Na Tunísia,
os sindicatos mais fortes tiverem um grande papel nas últimas fases da
revolta.
Quero referir um pouco mais aos comitês locais criados pelas massas, uma
das manifestações mais interessantes da sua ação revolucionária. Perante a
pilhagem, iniciada sobretudo pela polícia secreta, o povo criou os ditos
comitês como instituições realmente democráticas, como uma competência
real de oposição às instituições autoritárias
 No Egito até ao dia de hoje
os governos, os comitês locais e o governo de Mubarak escondiam-se atrás
dos tanques e das espingardas dos seus soldados. Isto está a suceder numa
região assolada por ditaduras e pelo autoritarismo... Isso é o grandioso
das revoluções que transformam o mundo rapidamente. Isto não significa que
a luta esteja ganha, pelo contrário, isto significa que a luta real acaba
de começar.
Pergunta > Para resumir, qual o seu ponto de vista sobre os
acontecimentos? O que pensa que simbolizam?
Mazen < É o começo de uma nova era, as massas estão se sublevando e a sua
liberdade está em jogo, as tiranias tombam... Sem dúvida estamos a
assistir ao nascimento de um mundo novo.
Tradução > Liberdade à Solta
agência de notícias anarquistas-ana




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