(pt) [Espanha] "Viver a anarquia, não só meditar sobre ela"

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Sábado, 27 de Novembro de 2010 - 13:00:43 CET


A cada outono ocorrem numerosas jornadas culturais libertárias por todo o
território espanhol. Este ano, em particular, já aconteceram jornadas em
Fraga, Huesca, Zaragoza, Santa Cruz de Tenerife, Compostela, Ferrol, o
Outono Libertário de Madri, ou as jornadas relacionadas com o centenário e
o congresso da CNT, de Barcelona, Cáceres e Córdoba.--- As diferentes
jornadas culturais libertárias em cada cidade são um sinal do interesse
formador e capacitador que tem o movimento libertário. Em alguns lugares
elas são organizadas pela CNT e em outros por diferentes grupos do
movimento libertário, mas sempre com a importância de difundir as idéias
anarquistas.

Como exemplo desta vitalidade, na semana passada aconteceu em Zaragoza as
Jornadas Libertárias 2010, onde aproveitamos para entrevistar alguns dos
organizadores do evento, que dão um breve panorama do Movimento Libertário
nesta cidade e como se desenvolveu este exitoso evento. No caso de
Zaragoza as jornadas foram organizadas por vários grupos do movimento
libertário local, em um esforço para reunir as várias tendências e grupos
do movimento.

Pergunta > As jornadas são anuais, que resultados vocês vêem a partir das
anteriores e como vocês avaliam esta?

Resposta <Realmente havia três anos que a CNT não fazia umas jornadas e,
se falamos de jornadas unitárias do Movimento Libertário de Zaragoza
teríamos ir para trás 10 anos.

Geralmente as jornadas libertárias têm servido como uma vitrine de nossas
idéias, porque elas têm uma assistência substancial, e pelo interesse e
atualidade de alguns temas, as pessoas de fora do movimento libertário em
si se aproximam. De fato, o número de pessoas diferentes geralmente é
considerável.

Esperávamos repetir, pelo menos, os resultados da assistência das
anteriores, com uma diferença, que tudo fosse feito em nossos próprios
espaços, ou seja, não levar as atividades a nenhum espaço institucional,
como uma forma de mostrar que somos uma coisa viva e constante, não um
gueto autocomplacente. Para dar mais vida e abrir os nossos próprios
espaços seriam suficientes, mas também procurar afinidades e formação
entre os compas.

Finalmente, levando em conta a realidade em que nos movemos, aonde parece
que pensar dói, a assistência aconteceu, especialmente a algumas
palestras, com um nível de debate considerável e, o que vemos mais
importante, com uma diferença de pontos de vista muito enriquecedores.

Pergunta > Dizes eriquecedora... Por que os temas foram dos mais variados,
certo?

Resposta <Na verdade sim. Nós temos confrontado desde as questões mais
pessoais, como a sexualidade, ao puramente político, como o
anti-militarismo, claro, não esquecendo o cultural ou ético, tocando em
temas como ateísmo.

Temos também optado por alterar o formato e não nos limitarmos apenas numa
apresentação magistral de uma pessoa. Embora tenhamos tido alguns
palestrantes altamente qualificados, como Miguel Amorós. Mas também
levamos ao debate pessoas de base que fazem coisas nos bairros ou montando
workshops destinados a refletir sobre questões espinhosas, como o modo que
conduzimos nossa militância libertária e as nossas misérias diárias, onde
todos e todas interviram e contribuíram. Tampouco não faltaram questões
meramente práticas, como a centrada na vida profissional.

Pergunta > Que pessoas/grupos estiveram envolvidos? Vocês acham que existe
um ambiente mais propenso para a colaboração agora?

Resposta <Estas jornadas foram convocadas sem assinaturas, sem nomes nem
apelidos, embora nelas estivessem envolvidas pessoas da CNT, CSA La
Revuelta, Assembléia de Desempregado/as e Assembléia de Okupas, mas também
pessoas que não fazem parte de nenhum grupo ou que esteja envolvida em
movimentos tão diversos como o vicinal. Na verdade o único grupo
especificamente anarquista era a Revuelta.

As jornadas foram o resultado de reuniões informais de dezenas de pessoas
que participam de mil e uma coisas, ou que deixou de fazê-las por
"queimação”, discussões pessoais e diferenças entre grupos.

Devemos entendê-las como um ponto de partida para o debate libertário,
como um espaço de convergência e discussão. Nós não esperávamos nenhum
milagre, apenas mostrar do que somos capazes todas as individualidades que
pululam na heterodoxa realidade libertária.

Pergunta > O que significou a expulsão do CSO La Vieja Escuela? Tem que
ver com as atividades planejadas (Hackmeeting)? Vocês podem acrescentar
alguns dados atuais sobre okupas em Zaragoza?

Resposta <Como já foi postado no site, apenas três dias após o despejo já
havia um novo espaço social okupado em Zaragoza, com um valor simbólico
enorme.

É a antiga prisão de Torrero, que agora se chama CSO Kike Mur, em
homenagem a um insubmisso que morreu em 1997 naquele lugar. No momento
permanece com as expectativas de futuro e atividades permanentes.

O movimento okupa em Zaragoza vem experimentando um fortalecimento
substancial
nos últimos dois anos, retomando uma dinâmica de resposta às expulsões,
tomando
a iniciativa e, o que é muito importante, recebendo um apoio considerável das
pessoas comuns e do movimento de bairros. De ser um movimento praticamente
morto
passou a ser uma referência para muitos outros movimentos sociais.

Todas as atividades das Jornadas Libertárias prevista no CSO Vieja Escuela
mudaram, naturalmente, para o CSO Kike Mur, e esperamos seguir em frente
com uma
atividade contínua.

Pergunta > Como vêem o panorama em Zaragoza após a greve geral?
Resposta <Se há algo que podemos tirar de positivo desta greve a meio
prazo é um
fortalecimento dos diferentes movimentos anticapitalistas e certamente do
anarcosindicalismo nas ruas.

A presença de piquetes e gente mobilizada a margem da dinâmica dos
[sindicatos]
majoritários foi realmente considerável, assim como nas manifestações
alternativas.

Foi demonstrado que nesta cidade, aparentemente adormecida, há toda uma
dinâmica
que não mereceu mais que umas linhas na imprensa, mas que possui uma
capacidade
de mobilização considerável com iniciativas totalmente autônomas como o
bici-piquete ou experiências contra-informativas como a emissão conjunta das
rádios livres, que contou com centenas de colaboradores espontâneos.

Por outro lado, esta análise não tem que distrair-nos da triste realidade
após a
greve, como não poderia ser os EREs, os fechamentos de empresas e a
precarização, que continuam avançando num ritmo preocupante.

Zaragoza, outrora cidade industrial e sempre de espaço logístico, segue um
ritmo
imparável de perda de postos de trabalho e tecido produtivo, fato onde se
coloca
em falta uma resposta contundente e organizada.

Pergunta > Além de Zaragoza, o que você pode nos contar do Movimento
Libertário
no resto de Aragão?

Resposta <Para nós este é um tema fundamental. Temos que ter em conta que
mais
da metade da população aragonesa está em sua capital e que o abandono do
resta
da região é preocupante.

Ainda assim segue havendo presença libertária em várias localidades,
especialmente nas capitais de províncias, Huesca e Teruel, com uma CNT
bastante
ativa, mas também com projetos como rádios livres (Rádio Chicharra em
Teruel e
Rádio Espiritrompa em Sabiñánigo) e coletivos funcionando em localidades como
Andorra e, mais recentemente, com o Grupo autogestionado de Valderrobes, que
estão organizando umas jornadas.

Especialmente interessante é o projeto de escola livre A Cigarra que está
começando em Huesca, assim como pessoas que estão se juntando no âmbito da
educação alternativa em Zaragoza.

Há assim mesmo experiências de coletividade rural como Sieso de Jaca e
núcleos
da CNT em Fraga ou Monzón.

Não devemos esquecer projetos telemáticos como noblezabaturra.org, que são
projetos a nível aragonês, não somente zaragozano.

Pergunta > Você poderia falar um pouco da Expo institucional Terra e
Liberdade?
Resposta <Bom, esta exposição, de nome “Terra e Liberdade: 100 anos de
Anarquismo na Espanha”, é majoritariamente uma peculiar repetição da obra do
historiados Julián Casanova.

É uma mostra totalmente institucional, que se centra por um lado nos aspectos
mais chamativos do anarquismo ibérico, mas adotados desde uma perspectiva
quase
folclórica e que deixa de lado aspectos importantes como a herança
cultural ou
artística do anarquismo. De fato quase uma quarta parte da exposição se
concentra exclusivamente na ação armada, se desviando de muitas outras
realidades libertárias.

Se bem que há na exposição documentos muito importantes, assim como
materiais de
certo valor histórico. Mas a exposição parte de uma falácia, como dar como
sepultado o anarquismo em 1968, ignorando deliberadamente a presença de
grupos
anarquistas e experiências anarcosindicalistas na atualidade.

A exposição tem sido contestada por diferentes setores do Movimento
Libertário,
incluindo pessoas muito formadas em história, com distribuição de panfletos e
presença nos atos institucionais.

Pergunta > E o futuro? Outras jornadas... algo mais?
Resposta <O futuro é agora. Estas jornadas não são um ponto de partida para
retomar todas as caras de prisma libertário: desde a perspectiva mais
teórica ou
filosófica à expressão artística, que pode passar desde um concerto punk a
uma
audição de marimba.

E o futuro é já porque as pessoas de Fendo Fuina, que estão no âmbito da
educação alternativa já convocaram umas jornadas de 27 a 30 de novembro sobre
criança e educação.

Pensamos editar um pequeno dossiê com o que fizemos (e estaremos fazendo),
subir
todos os áudios das palestras na internet. Mas antes de tudo queremos, como
dizemos em nosso manifesto, repensar muitas coisas e repensarmos como
anarquistas para seguir trabalhando, unidos mas diferentes. E viver a
anarquia,
claro, não só meditar sobre ela.

Nosso blog, jornadaslibertarias.noblezabaturra.org seguirá ativo e nele
iremos
completando com o trabalho realizado nestas jornadas.

Saúde e Anarquia!
agência de notícias anarquistas-ana





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