(pt) [Reino Unido] biblioteca Kate Sharpley: Uma entrevista com Barry Pateman

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Sexta-Feira, 19 de Novembro de 2010 - 08:49:30 CET


Pergunta > Olá Barry. Como e quando você se envolveu com a Biblioteca
Kate Sharpley?

Barry Pateman <A primeira vez que visitei a KSL foi em 1983/1984. Estava
envolvido, provavelmente até demais, em algumas discordâncias bastante
intensas
sobre anarquismo e prática anarquista. Dei-me conta de que no anarquismo
havia
inúmeras histórias e práticas e queria descobrir mais. Naquela época a
biblioteca ficava num squat na St Georges Residences, em Brixton. Col
Longmore e
Ineke Frencken fizeram um trabalho magnífico em resgatá-la e organizá-la.
Lembro-me muito bem de ter visto alguns pequenos folhetos anunciando
encontros
em apoio aos exilados espanhóis nos anos 40 e de ter lido cópias do
“Ação
Direta” do mesmo período. Alguma coisa mudou em mim. Tornei-me um
obcecado por
publicações anarquistas, livros, livretos, efêmeras etc. Eu queria, em
retrospectiva, mantê-los vivos de alguma maneira. Eu também visitei a
Livraria
Britânica, LSE, Warwick etc., li muitos arquivos nestes lugares, todo o
tempo,
embora estivesse incomodado pelo fato de grande parte de nossa história
estar
nas mãos do Estado e não em fácil acesso entre nós. Ainda não é tão
fácil ser um
especialista “independente” e ter acesso a estes materiais. Sobretudo
eu não
conseguia entender o porquê de anarquistas “proeminentes” darem seus
materiais
ao Estado ou às universidades privadas ao invés de mantê-los dentro do
movimento
– ou pelo menos assegurassem que cópias de tudo fossem feitas para que
ficassem
conosco, e assim, esperançosamente, teríamos acesso aos materiais.
Então passei
a inteiramente apreciar a KSL e o trabalho que ela estava fazendo. Era um
trabalho intenso e com pouca possibilidade de glamour, mas era, eu sentia,
vital.

Pergunta > E o que aconteceu em seguida?
Barry <Sempre tive a idéia de, por fim, doar para a KSL todas as coisas que
estava juntando, uma vez que encontrasse uma casa mais segura. Então,
acho que
em 1991, Albert Meltzer me disse que a KSL estava procurando uma nova
casa. Eu
estava morando em Stamford (próximo a Peterborough) naquela época e,
imagino,
tinha somente um quarto para isso e ofereci ajuda. Não posso dizer que minha
esposa ficou muito feliz quando chegamos com um micro-ônibus cheio de caixas
(duas vezes!) mas ela ficou com um sorriso fixo e fez um pouco de café. Ela
resmungou em voz alta, eu me lembro. Até aonde vai a memória, eu estava
bastante
intimidado pela quantidade total de materiais e a responsabilidade de
estar com
tudo aquilo na nossa casa. Nunca perdi os sentimentos, junto com a
emoção disso
tudo.

Pergunta > Quando você se encarregou disso, a livraria encheu uma sala
vazia? A
casa inteira? E que tipo de material tinha lá?

Barry <A biblioteca preencheu um quarto com caixas e coloquei outras no
chão, em
cima de mesas etc. De início comecei a classificar o que dava. Livros em
inglês,
documentos, jornais, panfletos, correspondências, efêmeras em um lugar etc.
Outras línguas ficaram todas agrupadas em conjunto também. Enquanto isso
conversei com Albert sobre planos futuros. Ele estava bastante
entusiasmado em
tornar a KSL uma pequena editora, publicando alguns materiais que tinha.
Col e
Ineke produziram alguns informativos bem legais e ele estava entusiasmado
para
torná-los uma publicação regular. Esta foi a gênese do Boletim da KSL. A
primeira publicação, enquanto eu ainda desempacotava (!), era o
“Lembranças
Pessoais do Passado Anarquista” de George Cores que ele tomou do
manuscrito do
George. Entretanto eu tinha conversado com o Albert, eu acho, sobre mudar a
ênfase da KSL. Quando chegou ela tinha uma considerável quantidade de
materiais
anarquistas históricos. Também tinha materiais que os anarquistas
poderiam usar
– regulamentos seguros e sadios etc; histórias tradicionais do
Fascismo; livros
sobre vários aspectos e períodos da história etc., etc. Da minha
própria busca
percebi que haviam muitos materiais escritos por e sobre anarquistas,
senti que
a KSL deveria se concentrar nisso. Diria que, naquele tempo, não percebi o
quanto que tinha! Simplificando, a KSL deve existir para a coleção e
difusão de
nossa história. Eu tinha começado a sentir que a narrativa das histórias e
idéias anarquistas era complexa e tínhamos somente começado a arranhar sua
superfície. Albert estava muito à frente de mim a este respeito.

Pergunta > “Albert estava muito à frente de mim” – pode explicar
isso melhor?
Barry <Albert sabia que o anarquismo não era somente Kropotkin ou
Stirner, ou
seja lá quem for. Colocá-lo na prática que era importante. Ele sabia que o
anarquismo poderia ser feito por pessoas que tiveram somente um parco
conhecimento (se algum!) de nossos principais escritores e pensadores. Ele
também sabia que as histórias do anarquismo excluíram incontáveis
pessoas que
tinham sido essenciais em seu desenvolvimento e mudanças. Pelo fato dessas
pessoas em sua maioria não terem escrito teoria ou não terem sido oradores
proeminentes elas foram ignoradas. Ele também sabia que, entre
anarquistas, a
história anarquista poderia ser uma história de amargas discórdias e
poderia ser
tão parcial como qualquer história. Ele estava lendo relatos de seu
tempo que,
para ele, não estavam particularmente corretos. Ironicamente, depois isto
começou a acontecer comigo, levando-me a perguntar se tinha esquecido um
monte
de coisas, ou somente não estava consciente. Assim, senti tudo isso.

Pergunta > Quais foram as transformações da Biblioteca desde que você a
assumiu?
Imagino que tenha ficado maior agora.

Barry <A mais óbvia mudança na Biblioteca está em seu tamanho. Ela cresceu
exponencialmente. Amigos e compas doaram muitos materiais, nós compramos um
tremendo lote, enorme. Você acha que conhece a maioria das coisas que está
rolando por aí, mas ainda, diariamente, estamos constantemente encontrando
materiais, ou referências a eles, que nunca tínhamos ouvido falar antes. A
maioria está arquivado agora, ou está em caixas arquivos. Isto ajuda! A
grande
diferença é que reconhecemos que somos um arquivo. Nosso trabalho não
é somente
coletar materiais, mas preservá-los também. Não há muitas publicações
anarquistas da Letônia do começo do século passado. Nós fazemos o
melhor para
garantir que elas sobrevivam. Conseqüentemente muito tempo e dinheiro
(sempre
dinheiro) vão para o material de preservação do arquivo – pastas de
arquivo,
pastas de arquivos alcalinas, envelopes de mylar alcalinos para nossos
panfletos, etc., etc. Fiquei espantado em ver como todas essas coisas custam
caro. Temos economizado para comprar algumas caixas alcalinas. Maldição,
alguém
está ganhando dinheiro com tudo isso!

Pergunta > Você daria um chute de quantos livros a biblioteca possui
agora? Ou
quantos micro-ônibus ela preencheria?

Barry <Temos mais de dois mil livros, três mil panfletos e mais de dois mil
periódicos – e isto somente em língua inglesa. Temos seções bem
grandes em
francês, italiano e espanhol, bem como publicações na maioria das
línguas,
inclusive esperanto. Não posso nem mesmo avaliar a quantidade de efêmeras
anarquistas que temos. Precisaria de algumas caminhonetes agora!

Continuará...
Kate Sharpley Library: http://www.katesharpleylibrary.net/
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana
o feno no sol,
o outono no seu fim.
o cheiro é bom.
Alaor Chaves



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