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Segunda-Feira, 31 de Maio de 2010 - 11:52:29 CEST


Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
n. 121, maio de 2010
********************+
grécia: a vida começa com fogo
Em dezembro de 2008, os anarquistas incendiaram as ruas da Grécia e anunciaram a
sacudida que só acordaria, quase dois anos depois, as demais forças políticas do
planeta. Diante da insuportável perseguição aos estudantes, repressões que se
avolumavam, demissões de muitos trabalhadores e da política de imigração do governo
grego, com a truculência característica dos Estados da União Europeia, os
anarquistas se insurgiram.

 Iniciaram manifestações de rua, intervenções pontuais e ataques com paus, pedras,
bexigas de tinta e molotovs, que tinham alvos muito claros: delegacias de polícia,
tribunais, prédios do governo, lojas de departamento e de grandes marcas
transnacionais. Eram afirmações da recusa dos jovens anarquistas gregos.

 Recusa ao governo, ao Estado grego e ao estilo de vida que se oferece aos jovens no
capitalismo, atacando diretamente os alvos onde o exercício do poder atingia
diretamente cada um deles. Algo que só foi possível pela ação direta praticada por
esses jovens procedentes de diversas associações anarquistas existentes e do
esgotamento pessoal diante do insuportável, muito antes das manifestações de rua,
especialmente no bairro de Exarchia, onde a violência sistemática e
institucionalizada do Estado, por meio da polícia, executou um garoto de dezesseis
anos.

 O ano de 2010 inicia-se com notícias e comentários sobre "a profunda crise
econômica da Grécia" e o anúncio de ajuda monetária da União Europeia (UE),
capitaneada pela Alemanha, com um empréstimo de 110 bilhões de euros, em troca de
"medidas de austeridade econômica", prometidas pelo governo socialista grego aos
demais membros da UE, para salvar a moeda de uma super desvalorização.

 A situação grega alertou para o problema com a dívida pública em outros países
membros da UE, como Espanha e Portugal. Hoje, aparecem análises, como a do
economista alemão diretor da UNCTD (Conferência da ONU para o Comércio e o
Desenvolvimento), dizendo que a responsável pelo desequilíbrio estrutural na zona
do euro é a nação que se apresenta como salvadora: a Alemanha.

 O anúncio dessas medidas pelo governo grego, que vão do arrocho salarial a cortes
nos gastos públicos e aumento de impostos, desencadeou, em março de 2010, uma nova
série de protestos, manifestações e ações de rua, desta vez envolvendo grupos de
esquerda, centrais sindicais e grupos anarquistas.

 Em muitas cidades, embora Exarchia continuasse como um pólo de aglutinação
anarquista, pessoas de toda a Grécia saíram às ruas para expressar sua indisposição
em apoiar as medidas do governo grego.

 Atenas reuniu mais de 40 mil pessoas de Omonia até a Praça da Vitória.

 Como as informações sobre o número de manifestantes nunca são precisas,
encontram-se relatos, comunicando que no dia da votação do pacote de medidas de
austeridade econômica no parlamento, mais de 150 mil pessoas foram às ruas.

 Além de Exarchia, descrito pela imprensa como bairro boêmio e de concentração de
jovens anarquistas - onde fica a Escola Politécnica, foco de resistência estudantil
à ditadura dos coronéis (1967-1974) -, os bairros de Patission e Neo Psychico, e
também a cidade de Salônica, são espaços de intensa concentração de resistências.

 Desde então, os anarquistas são vistos ora como elementos da desordem diante de um
movimento intitulado como legítimo, ora como bucha das manifestações organizadas
pelas centrais sindicais e grupos da esquerda institucionalizada. Na imprensa, os
especialistas declaram que "trata-se, antes de tudo para eles, de atacar a polícia,
sem grandes considerações ideológicas".

 Por sua vez, a imprensa anarquista articula, via internet, uma série de pedidos de
solidariedade, denúncias das ações violentas dos policiais, perseguições e prisões
de vários militantes, e ações globais diante de embaixadas gregas, como a ocorrida
na Polônia, onde as bandeiras do país e da UE foram retiradas e substituídas por
bandeiras negras.

 Os ataques a lojas, bancos, tribunais, prédios do governo e policiais continuaram.
Jovens foram presos, assim como advogados, e idosos atacados violentamente por
policiais. Um estado de sítio se instaura nas ruas de Atenas, comandado pela
polícia.

 A morte de três empregados do Banco Marfin anunciou uma nova situação aos
manifestantes: os anarquistas passaram a ser vistos com mais desconfianças e eles
próprios começaram a questionar a maneira de atuar junto às forças políticas que se
juntaram a eles desde o início do ano. Procuram diferenciar-se das posições das
centrais sindicais, do Sindicato dos Bancários (OTOE), do PAME (Partido Comunista
Grego) e do Syriza (partido de esquerda de menor expressão com alguns assentos no
parlamento).

 No início, em 2008, as manifestações partiam da Escola Politécnica, em Exarchia,
acionadas por jovens universitários e secundaristas, articulados em pequenos grupos
que se diziam anarquistas, anarco-punks, autônomos ou anti-autoritários, em
oposição à ação da polícia e à carestia.

 Em 2010, quando se avolumam os protestos, e ocorrem mortes, desponta uma estranha
vontade de dar respostas à sociedade grega, enfatizando uma certa responsabilidade
nos atos para se desvencilhar das acusações de pura violência e medir forças
políticas com os grupos da esquerda organizada.

 Neste instante, inicia-se um novo momento no movimento que pode fazer o fogo
inicial de 2008, inventivo e surpreendente, abrandar para cozinhar uma situação
política que já preocupa toda Europa e o planeta.

 Não cabe a análise sobre tudo que vem ocorrendo na Grécia, e nem mesmo os que lá
estão ainda não têm como fazê-la, mas é possível acompanhar alguns efeitos entre as
associações anarquistas, iniciadoras dos combates. Os jovens estudantes passam a se
denominar anti-autoritários, como maneira de ampliar suas pretensões políticas, e
as proximidades com grupos chamados autônomos começa a se delinear. O Indymedia
grego é a maior expressão disto.

 O comunicado veiculado pelo site Occupied London (www.occupiedlondon.org), que
mantém uma página de atualização quase diária, com o nome From the Greek Streets,
divulgou uma nota, logo após as mortes, com afirmações que explicitam esses recuos,
como: "o que o movimento anarquista grego está experimentando é um torpor total".

 Esse torpor decorre da vontade de mostrar maturidade diante dos fatos e de se
responsabilizar por uma causa maior, de justiça social e emancipação humana como
conclui o comunicado: "hoje, ao invés de nos sentirmos fortes depois de uma
passeata tão grandiosa, nos sentimos estarrecidos, para dizer o mínimo. Isso fala
por si. Devemos tornar essa experiência trágica em uma busca interna e inspirar
outra no fim do dia, agindo todos com base em nossa consciência. E o cultivar de
tal consciência coletiva é o nosso suporte".

 Juntam-se a isso o fato de se dirigirem ao governo, pedindo respeito à
constituição, cobranças por responsabilização penal para os policiais assassinos de
Alexis, jovem morto em 2008, e a crença de que o movimento é uma "imagem do
futuro". A chama poderá minguar.

 A euforia e a dúvida, comuns em situações como esta, podem ser acompanhadas por
meio de outras declarações de alguns participantes, onde se misturam práticas
anarquistas com um vocabulário do contemporâneo revisionismo marxista: "A raiva
saiu às ruas em manifestações tão multitudinárias que nem no dezembro de 2008 havia
vivido a Grécia". Muitos manifestantes falam em solidariedade como "eu por ti, por
que somos irmãos"; enquanto outros expressam sua perplexidade diante do
acontecimento: "há momentos em que ninguém sabe por onde começar e onde terminar".

 A breve descrição sugere como o fogo vai virando brasa e pode se apagar, quando se
busca maturidade, propostas políticas negociáveis, flexibilização de posições e
práticas, responsabilidade e legitimidade diante da opinião pública, e
possibilidade de diálogo com outras forças políticas.

 Diante da euforia, da confusão, do amansamento prenunciado e da perplexidade,
algumas linhas, dos anarquistas gregos e do planeta, se desenham. A mais recente, e
que chama a atenção, é o B-Fest (Festival Babilônia), que teve uma edição em maio
do ano passado, em Atenas, e tem uma nova este ano, neste mês.

 De imediato, nota-se a predominância de um certo anarquismo estadunidense e suas
simpatias pelo que chamam de marxismo anti-autoritário, suas apostas em mídias
alternativas e vagas defesas ecológicas.

 Nesse evento, encontraram-se Michel Albert, com uma tese sobre sociedade
participativa; Howard Zinn, cientista político e dramaturgo que escreve sobre
história dos EUA, e autor de uma peça de teatro chamada Marx in Soho; David
Graeber, professor em Yale, antropólogo em busca de uma ciência anarquista; Richard
Stallman, fundador do movimento de software livre, e que trabalhou como voluntário,
até 1984, no MIT, quando saiu para fundar GNU (General Public Licence); Andrej
Grubacic, sociólogo e proponente do novo anarquismo; e, claro, Noam Chomsky, via
videoconferência.

 Além deles, estavam presentes grupos ecológicos, veganistas e de mídias
independentes que falaram, diante da situação grega, sobre energia limpa, ecologia,
comida alternativa, espaços públicos livres, novas revoltas e imigração.

 Ação direta é fogo! Ela é antirrepresentativa, antiprogramática, antidiplomática.
Uma recusa que não é necessariamente violenta, que não deve ser confundida com
agressão ou baderna, mas que inflama por agitar passividades, anunciar novos
combates, antecipar enfrentamentos, escancarar a vida.

 Nesse movimento de centelhas, as práticas de ação direta não estão livres de se
deslocarem em direção a novas codificações, servir a antigos repaginados ou
revestir de radicalizações os investimentos em pacificações e amansamentos,
deixando de ser direta, e passando a ser programática e negociada.

 O que acontece na Grécia lembra o vigor, a perspicácia e a coragem que os
anarquistas sempre tiveram diante de situações difíceis.

 Alguns desdobramentos iniciais alertam para a dificuldade que se tem hoje em
transformar esse fogo em potências inventivas de liberdade, sem escorregar para a
agenda política do momento ou se deixar levar por velhos sonhos de uma nova
sociedade, anunciada pelos pronunciamentos reciclados.

 É o que se pode notar via Internet, pois não se sabe ao certo o que faz cada jovem,
que estava em 2008 e está em 2010, quando volta das manifestações de rua; o que
ocorre, não no espetáculo e no enfrentamento, fartamente noticiado pela mídia, seja
oficial, burguesa ou alternativa, mas na vida de cada um e na existência e
convivência entre os estudantes da Politécnica e de outros lugares.

 Adiante, outros traços talvez aparecerão de forma mais clara. Impossível ser tão
taxativo como os editores da AK Press que afirmaram, por meio do grupo CrimethInc.
Ex-Workers' Collective, "que as manifestações gregas, em 2008, possuem a mesma
importância para o fim do capitalismo, como o movimento zapatista, em 1994, foi
importante para os movimentos antiglobalização", do final da década de 1990.

 Conclusão como esta é sinal que o movimento encontra-se em vias de ser capturado.
Ou se trata de apenas um jargão jornalístico de ocasião, contaminando a luta
anarquista?

 Pode-se afirmar que a potência de liberdades surpreendentes como a vida está no
fogo que alimenta práticas inovadoras, como fizeram os anarquistas do passado. E
esse fogo estará restrito à garrafa de um molotov?

 De fato, pouco importa o enfrentamento com a ordem sem problematizar a ordem
autoritária, diz Octavio Alberola. Não basta expressar eleitoralmente que "não
querem pagar a crise", alertava Antonio Negri, propondo uma participação
democrática dos cidadãos na gestão do capital financeiro, como maneira da multidão
fazer frente ao Império. Tampouco uma chamada para a greve geral, generalizada
proposta em Le Monde Libertaire, é suficiente para blindar as possíveis
singularidades de uma captura pelas agendas de negociação política. O sociólogo
Immanuel Wallerstein, enfim, considera que Europa e Estados Unidos vivem numa
gangorra e que a melhor solução para a Grécia é que "a Alemanha compreenda que as
suas necessidades são melhores preenchidas pelo protecionismo europeu que pelo
protecionismo alemão".

 Compreendemos o alerta anarquista de Alberola, os desafios à multidão de Negri,
passando pelas proclamações recorrentes do Le Monde Libertaire e até as soluções de
governo de Wallerstein.

 Se ninguém tem nítido como se desenrolará este acontecimento grego, quem acreditará
que sua solução será satisfatória à ordem?

 Todavia, não há como discordar que os efeitos dos programas eleitorais ainda
repercutem sobre a grande massa abúlica e covarde. E da mesma maneira como se
entregou rapidamente às esperanças na campanha eleitoral, ela pode, a qualquer
momento, oferecer-se à negociação. Mas, também, dentro dela, poderá crescer a
insatisfação libertária contra o governo, os partidos, os sindicatos negociadores e
o Estado.

 Os anarquismos, desde o movimento antiglobalização, caminham por seus fluxos
próprios, alguns tocam na vertente estadunidense do marxismo anti-autoritário, e
outros se mantêm adeptos de práticas do início do século passado.

    Quando a anarquia deixar de ser tão refratária ao fluxo individualista notará
que as chamas gregas começaram pela insatisfação de cada jovem com o esgotamento
das políticas financeiras, dos serviços de Estado e dos programas eleitorais
para acesso ao governo.

    Por isso mesmo, as ações diretas apareceram espocando contra os bancos desde
2006, e a partir da recusa à devastação ecológica de amplo espaço destinado ao
empreendimento imobiliário. De fato, o problema ecológico pode ser o novo mote
para os anarquismos expressarem a urgência na mudança. Neste momento,
vanguardismos à parte e vínculos bastante claros com outras organizações são
suficientes para que se escape das capturas ou que se adormeça sobre as linhas
gerais da ecologia social.

    Pouco importa se o destino do anarquismo coletivista for aproximar-se do
marxismo repaginado. Pensar é uma forma de ação, mas praticá-la como ação direta
requer aumentar o fogo com a presença daqueles que fazem de si uma estética da
existência. E estes o fazem em seus locais de trabalho, no trânsito para o
trabalho, nas experimentações culturais libertárias, afirmando novas práticas, e
evitando extasiar-se com a concentração de massa, produzir invenções inacabadas.

 É preciso dissolver a distinção entre coletivistas e individualistas.

 É precioso o ar daqueles que se incomodam com a sobrevivência a partir de si próprios.

 É pressa por revolta!

 O mundo é outro! O fogo é o mesmo!



 Palavras Insurgentes

 "A anarquia não pode deixar de ser a negação do conjunto do sistema autoritário, e
que em período de luta é a prática da
  desobediência, da insubmissão, da indisciplina, numa palavra, da revolta"
(sébastien faure).

 "Os agitadores são um bando de pessoas intrometidas que se infiltram num
determinado segmento da comunidade totalmente satisfeito com a situação em que
vivem e semeiam o descontentamento nele. É por isso que os agitadores são
necessários" (oscar wilde).

 "Elaboram-se propostas sem conta para melhorar o Estado (...): procura-se melhorar
onde já não há nada para melhorar" (max stirner).

 "Do ponto de vista ético, tenho horror aos mornos" (émile armand).


 verve. revista semestral autogestionária do nu-sol
  número 17:
 aula inédita de michel foucault do curso do governo dos vivos - émile armand -
 rené char - thiago rodrigues - octavio alberola - pietro ferrua
 josé oiticica - colin ward - gustavo simões - stéfanis caiaffo -
 alexandre henz - beatriz carneiro - gustavo ramus
 anamaria salles - marcolino jeremias - edson passetti


 toda terça-feira, flecheira libertária
 em www.nu-sol.org


[Remetente: "Acácio" <estadoalterado -A- yahoo.com.br>]




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