(pt) [Espanha] Recordando a Josefa Martín Luengo

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Quarta-Feira, 7 de Julho de 2010 - 14:55:07 CEST


Em 1 de julho de 2009, há um ano, morreu Josefa Martín Luengo, Pepita, como era
conhecida pelas pessoas próximas a ela. Pedagoga, pensadora anarquista, feminista
convicta, fundadora da Escola Livre Paideia, escritora e amiga.
Natural de Salamanca, onde estudou Psicologia e Pedagogia, fixou residência e
começou a trabalhar em Estremadura, terra que acolheu por adoção no início da sua
carreira de inovação pedagógica, em 1975, em Fregenal de la Sierra. Quando lhe
perguntavam por que se fixou aqui em Estremadura e não levou a cabo as suas idéias
noutro lugar, respondia sempre: "Por que não aqui? Estremadura é onde mais se
precisa, durante a sua história muitos dela tiraram tudo e poucos lhe deram alguma
coisa".
Em Mérida fundou, em 1978, a Escola Livre Paideia, enquanto trabalhava na escola
estatal, compartilhando o seu trabalho nesta e pela tarde na Sua Escola, até que
pediu licença para se dedicar por inteiro à sua paixão para o resto da sua vida: a
Sua Escola, os seus escritos, as suas idéias e o coletivo que foi se formando à sua
volta e que tanto mimava.

Ainda passou pouco tempo, desde a sua morte, para se poder descrever com
objetividade a personalidade de Pepita. Mas quem a conheceu, e nós a conhecíamos,
podemos dizer, primeiro que tudo, que não deixava ninguém indiferente, que
impressionava a sua personalidade e a sua palavra, que parecia que ia desnudando e
clarificando os teus pensamentos e dizia o que você queria dizer, mas não sabia
como. Outras pessoas, contudo, sentiam-se intimidadas pela sua sinceridade, força e
coragem.

Mas, nós, os que melhor a conheciam, destacamos também a sua grande capacidade de
dar carinho às pessoas que o necessitavam e em primeiro lugar sempre às crianças.
Dizia muitas vezes que o afeto é essa emoção que vem de você e não vai voltar ou não
tem para onde voltar, dá-se porque a outra pessoa o necessita, em troca há outra
emoção mais egocêntrica que se dá porque retorna para você, porque você precisa, e
não a outra pessoa. Esta capacidade de afeto era também (desculpa Pepita) o seu
ponto mais vulnerável, não sabia negar ajuda a quem a pedia, recebendo em troca mais
de uma decepção. Mas, como ela dizia: "Eu sou assim e não posso nem quero desistir
da minha essência como pessoa."

O seu Pensamento evoluiu de livre pensadora a amante da Anarquia. Guiada por seus
próprios valores ela ia expondo a sua forma de pensar e soube, com o tempo, que esta
forma tinha um nome e se chamava Ética da Anarquia.

Em educação soube mesclar ciência e arte. Gostava de dizer que a educação é ciência
em grande medida, mas para realizar tal atividade era necessário também talento
artístico, para saber quando agir e quando não, e mesmo sabendo que a criatura
diante de você precisa, você tem que esperar ou escolher esse momento que é único e
não perdê-lo, para poder ajudar-lhe. É uma questão de sensibilidade.

Fez sempre a distinção entre educação e instrução, ela era educadora antes que tudo
e além disso instruía.

Trabalhadora incansável e apaixonada sabia arranjar tempo, depois de doze horas de
trabalho na Escola para escrever seis livros, inúmeros artigos e temas de oficinas,
elaborar trabalhos para as criaturinhas, para as Acampadas Autogestionárias e os
Cursos de Pedagogia Libertária. Habilidosa com a caneta, nunca se deixou ficar atrás
dos potes e panelas, vassouras, escovas, ou enxada no jardim. Nem renunciou a
comemorar as noites de sexta-feira, as tardes de primavera tomando refrescos num
terraço, umas curtas férias ou uma boa discussão para estimular os neurônios e
espevitar as mentes.

Perante as dúvidas, os pensamentos que lhe ocorriam e os desafios encontrados,
sempre se demarcou e lutou pela justiça, sem vacilar. Feminista convicta, o seu
cavalo de batalha sempre foi à igualdade de gênero e com esse modo de pensar se
posicionava em todas as áreas do pensamento. A coerência na maneira de pensar e
agir, o seu melhor argumento e a sua palavra fácil e clara, era o seu veículo de
comunicação.

A doença a levou faz agora um ano, mas o seu pensamento e a sua recordação continuam
vivos.

Até sempre, Pepita.

Mérida, 1 de julho de 2010.


Coletivo Paideia


Mais infos: http://www.paideiaescuelalibre.org/

Tradução > Liberdade à Solta

agência de notícias anarquistas-ana

Escorre pela folha
a tarde imensa,
pousada em gota d'água.

Yeda Prates Bernis



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