(pt) O anarquismo na Indonésia

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Quarta-Feira, 29 de Dezembro de 2010 - 00:24:43 CET


[A entrevista a seguir foi publicada em alemão no livro “Von Jakarta bis
Johannesburg – Anarchismus weltweit”, Sebastian Kalicha & Gabriel Kuhn
(editores), Unrast Verlag 2010.]
Pergunta > Vocês podem nos contar algo sobre a história do anarquismo na
Indonésia?
MT < Pelo que sei das histórias dos meus amigos e do que aprendi por aí, a
origem do anarquismo na Indonésia está com a chegada da música punk por
volta de 1998. Nessa época, anarquia era sinônimo de punk, e algumas
pessoas na comunidade começaram a se aprofundar em direção a uma ideologia
e valores anarquistas. A partir daí o discurso anarquista começou a se
desenvolver entre individualidades e coletivos na comunidade
punk/hardcore, e mais tarde em muitos outros grupos ativistas, estudantis,
trabalhadores; chegando essencialmente a um público maior em diferentes
ambientes.
Junto com a propagação do discurso anárquico, começaram a ocorrer muitos
debates, e a anarquia começou a ser debatida, analisada e criticada com
mais profundidade (e isso continua acontecendo hoje, agora com um leque
mais amplo de diferentes análises). O próximo passo foi colocar na
prática, por exemplo, formando coletivos com princípios e valores
anarquistas (descentralizados, não hierárquicos e de consenso). Apesar de
muitos problemas, estes coletivos, podiam ser encarados como algo
diferente, um contra-modelo dos grupos que sempre buscavam dominar (tanto
na esfera política como na não política) através de suas formas ou
estruturas hierárquicas, centralistas e autoritárias.
Ações como o Comidas Sim Bombas Não podem ser vistas como sendo uma das
primeiras formas de ação direta que surgiu da práxis anarquista aqui,
junto com fanzines e outras publicações como boletins, panfletos, etc. De
início os temas tradados nos fanzines eram principalmente sobre
punk/hardcore, mas com o tempo e o desenvolvimento do processo, começaram
a surgir outros temas como o feminismo, os valores da anarquia, o
anticapitalismo, a resistência global e social, variantes do anarquismo,
movimentos ambientalistas e animalistas, notícias políticas, entre outros.
O progresso da anarquia também foi beneficiado pelos crescentes níveis de
acesso à internet; nossos companheiros usam a internet para difundir
informação sobre o discurso anarquista.
PM < Acho que primeiramente tenho que falar que o indonésio não tem
familiaridade com a língua inglesa, então mesmo quando a era da internet
começou a se estender, somente uma parte de toda a geração anarcopunk
sabia o que era o anarquismo. Mas a urgência de “fazer alguma coisa”,
auxiliada pela turbulência da situação econômica, política e social da
época, e nossa sede de saber quem somos, acabou levando a metade de nossa
geração para o PRD (Partai Rakyat Demokratik, o Partido Democrático
Popular), um partido leninista. Não tínhamos muitas alternativas para
escolher já que não tínhamos referências em nossa própria língua. Havia
vários panfletos sobre Bakunin, Emma Goldman, Rudolf Rocker, traduzidos
por vários colegas anarquistas e distribuídos amplamente. Mas não nos
ajudaram muito porque o que escreviam os clássicos não estava relacionado
com o que acreditávamos que estava acontecendo em nosso tempo e lugar. Por
exemplo, como podíamos realmente compreender o mal do governo quando a
história da Indonésia somente havia tido dois presidentes? Somos um Estado
pós-colonial, e isto tem muito a ver com a crença de que o Estado é um mal
por natureza.
Por volta de 2001, um a um fomos deixando o partido, mas muitos ainda
acreditavam que a única coisa possível que podíamos fazer é o que Lênin
dizia: uma revolução sob uma bandeira, o governo de transição, e esta
merda toda. Muitas pessoas nos tratavam como anormais, já que como
anarquistas começamos a acreditar que o Estado também era nosso inimigo
sistêmico. Enquanto outras pessoas exigiam que a Indonésia tivesse mais
poder como Estado na comunidade internacional, nós declarávamos que o
Estado e todos seus funcionários eram também nossos inimigos. E nesta
época chegou a segunda geração de anarquistas como resultado das
atividades e da confusão da primeira. Esta segunda geração tinha um
conhecimento mais profundo sobre o anarquismo e podia reconhecer as
diferenças com o leninismo, ou, como se poderia dizer, esta geração
aprendeu a lição dos erros da primeira geração.
Pergunta > Qual é a situação hoje? Quais são os principais grupos e
correntes no anarquismo indonésio?
JC < Pelo que eu saiba não há um grupo predominante na Indonésia. Há
vários coletivos e indivíduos de vários lugares e que professam as mais
variadas correntes do anarquismo. Esta diferença de métodos resultou em
acalorados debates, embora estes debates não causem hostilidade entre os
coletivos e individualidades envolvidas. Inclusive há ocasiões em que
estes coletivos e individualidades de diferentes origens e correntes do
anarquismo se juntam para realizar um projeto em comum. Os 1º de maio de
2007 e 2008 são exemplos disto. Vários coletivos e individualidades de
várias cidades se juntaram no 1º de maio de 2007. Os coletivos eram:
Affinitas (coletivo de Yogyakarta), Jaringan Otonomis (coletivo de
Jakarta), Apokalips (coletivo de Bandung) e Jaringan Autonomus Kota
(coletivo de Salatiga). Além destes, havia individualidades de várias
cidades como Bali e Semarang que também participaram, assim como punks de
Jacarta. Os coletivos e individualidades de que se reuniram, escolheram o
nome Jaringan Anti-Otoritarian (Rede Anti-Autoritária). No 1º de maio de
2007 o número de participantes chegou a 100 pessoas, todas vestidas de
preto. Neste momento a mensagem do Jaringan Anti-Otoritarian apontava à
redefinição do primeiro de maio, já que esta data estava dominada pelos
grupos esquerdistas. A ação do Jaringan Anti-Otoritarian pode ser
considerada um êxito. O movimento anarquista, que naquele momento estava
considerado como inexistente, começou a receber atenção.
Depois do primeiro de maio de 2007, o movimento anarquista começou a
florescer. Apareceram vários grupos novos em diferentes cidades. Os
anarquistas também começaram a ficar mais envolvidos com as manifestações,
como os protestos contra a construção de uma usina nuclear.
Enquanto o primeiro de maio de 2008 se aproximava, a coordenadora foi
reativada. Esta coordenadora seguiu dois canais: pela internet e encontros
cara a cara. Desta vez houve mais manifestantes envolvidos. Infelizmente,
nessa época o Apokalips (de Bandung) e o Sindikat Melawan (coletivo de
Salatiga) se retiraram da convocatória por vários motivos. Parecia que a
coordenadora iria se romper, mas o Affinitas (de Yogyakarta) e os
coletivos de Jacarta, assim como individualidades de outros povos e
cidades conseguiram levar a ação adiante. Como no ano anterior, o primeiro
de maio foi realizado em Jacarta. Aproximadamente duzentas pessoas
participaram, incluindo os punks. O tema do primeiro de maio era sobre os
abusos corporativos, e o objetivo da ação era o edifício Bakrie. Este
prédio abrigava os escritórios de várias empresas como a Mogul e os
políticos de Aburizal Bakrie. Alguns participantes vandalizaram o
edifício, e não muito tempo depois a polícia apareceu e começou com a
repressão. Vários manifestantes foram detidos pela força policial (embora
algum detido tenha sido liberado com êxito pelos outros manifestantes).
Depois de resistirem da maneira que puderam, os manifestantes continuaram
com o protesto, mas infelizmente a polícia voltou mais preparada, com um
maior número de policiais. Todos os manifestantes na ação foram detidos.

Depois do primeiro de maio de 2008 o crescimento do movimento anarquista
começou a declinar. Alguns coletivos foram desfeitos. Mas isto não
significava que o anarquismo estava morto. Novos coletivos foram formados
com as individualidades e pessoas que há tempos militavam no movimento
anarquista indonésio, e assim começou a se formar uma rede, e novas ações
foram realizadas em vários lugares que estavam sofrendo nas mãos das
corporações. Até hoje, têm muitos anarquistas envolvidos em lutas
populares contra as corporações e o Estado. Alguns anarquistas inclusive
começaram a realizar ações mais militantes como atacar delegacias de
polícia ou centros comerciais.

Para o 1º de maio de 2008 em Jacarta ver
http://news.infoshop.org/article.php?story=2008050604370826]

MT < Vou responder mais sobre a situação atual, já que as respostas do JC
dão uma descrição sobre as dinâmicas dos grupos.

Podemos dizer que o estado do anarquismo hoje é um processo em curso. E
vejo que se pode dividi-lo em duas áreas, a primeira: a do discurso e
teoria; e a segunda: a práxis.

Na área do discurso e teoria, os tópicos dos debates e as análises são
cada vez mais amplos, começando com o capitalismo, o trabalho, a cultura
da segurança, a civilização, a filosofia, mídia, o consumismo, a religião,
gênero, corporações, forma de associações livres, a relevância da anarquia
no contexto da vida diária na Indonésia, e por aí vai. Estes debates são
realizados em duas direções (conferências, vídeo fóruns, debates
regulares, livros, jornais, panfletos, zines, boletins, webs, blogs). No
entanto, acredito que neste momento os debates sobre as corporações, o
capitalismo, a resistência social e a ação direta estão sendo os temas
mais candentes nos círculos anarquistas. Como mulher, creio que os temas
da mulher, do corpo, a sexualidade, a orientação sexual, e as relações
pessoais não estão sendo debatidos suficientemente. Por isso estou
tentando levantar a questão de várias maneiras e sob diferentes meios
(ação direta, críticas, escritos, arte), e agora estou trabalhando num
romance sobre uns “genitais rebeldes”. Espero que através da ficção a
minha mensagem possa ser aceita e compreendida mais facilmente.

Também vi recentemente que outras mulheres estão escrevendo coisas
parecidas e que estes assuntos estão no auge, e são conhecidos como
“sasatra lendir”. Estão preocupadas com a liberdade sexual (a sexualidade
da mulher, lésbicas e gays), embora sem assinalar as relações e os valores
que a fundamenta, como o poder, o domínio, o controle e por aí vai.

Enquanto ao nível prático, hoje mais e mais amigas estão empreendendo a
ação direta baseada em valores anarquistas, como o Comidas Sim Bombas Não,
oficinas, campanhas de rua e manifestações (contra os abusos corporativos,
a violência policial, o consumismo, o capitalismo, etc.), construindo
coletivos com diferentes enfoques, (como escolas livres, espaços de
leitura, centros sociais), festivais DIY (Faça Você Mesmo), seguindo uma
visão anarquista de se organizar com as pessoas que sofreram abuso das
corporações, e também sabotagens. Pode-se dizer que a existência dos
anarquistas, seus discursos e ativismo, esta cada vez mais sendo notado
pelos grupos maiores, e é claro que isto acaba gerando muitas dinâmicas e
debates, especialmente na esquerda autoritária (grupos
marxistas-leninistas, maoístas-chavistas) que domina os movimentos de
resistência. Existem muitos erros e mal-entendidos com a teoria, a
filosofia e a ação anarquista nesta cena da “esquerda”. É entendível, já
que os grupos de esquerda sempre vêem a ideologia como uma “ferramenta
para sua luta política”, enquanto que os anarquistas compreendem que a
ideologia é algo muito filosófico e pessoal (às vezes internalizada em nós
mesmas), e que pode ser aplicada em muitos contextos, sejam eles pessoais,
nas relações ou na vida diária, ou na luta social e política. Ao mesmo
tempo sinto que existe um desejo cada vez maior de conhecer o discurso
anarquista por parte de outros indivíduos ou grupos. Isto pode ser visto
pelo aumento das perguntas aos nossos coletivos e pelo fato dos amigos se
sentirem atraído pela idéia da anarquia.

A participação das mulheres no ativismo anarquista é ainda mínima, e isto
tem sido um problema para mim durante mais ou menos dez anos, desde que
estou “na luta”. Creio que tenho feito um esforço contínuo para apoiar e
animar as amigas, mas elas sempre desistem no meio do caminho, e a maioria
opta por voltar à sua “prisão”. Escolhem casar e construir uma família, ou
trabalhar, ou trabalhar em ONGs de mulheres. Acredito que na sociedade na
qual eu vivo, os valores e práticas patriarcais e sexistas ainda têm um
impacto muito forte, e se dão em quase todos os contextos (família,
relacionamentos amorosos, amizade, comunidade, organizações, escolas,
trabalho, sociedade, religião, etc.), talvez seja uma razão pela qual as
coisas são como são. Na Indonésia há pouquíssimas histórias sobre
movimentos radicais de mulheres. Na época do PKI (Partai Komunis
Indonesia, Partido Comunista da Indonésia) tinha uma organização de
mulheres chamada GERWANI (Gerakan Wanita Indonesia, Movimento das Mulheres
da Indonésia). Este movimento foi destruído durante o massacre do PKI por
parte do Estado em 1965-1966. Tudo que estava ligado ao PKI ou com o
comunismo deixou um trauma profundo na sociedade indonésia, e isto se
converteu numa ferramenta de propaganda e uma ameaça que a autoridade usou
para calar toda forma de luta popular. “Você não quer que o que se passou
em 1965 volte a acontecer outra vez, não é verdade?”. Depois desta época
não restou quase nenhum movimento de mulheres ou nenhuma mulher individual
radical. Hoje o que se conhece como “movimento das mulheres” está
concentrado em ONGs de mulheres ou nas organizações de esquerda que
repetidamente apóiam o Estado.

Mal-entendidos: também vejo entre os compas que crêem na anarquia e que a
vive em suas vidas, muitas vezes, debates e diferenças de opinião que não
dá para organizar muito bem; vejo que há mal-entendidos sobre os valores e
princípios anarquistas nas relações diárias (por exemplo, há hierarquia,
dominação e sexismo). Mas posso compreender isto como parte de nosso
processo de aprendizagem.

A falta de acesso à informação e à literatura: além disso, vejo que as
referências anarquistas e a literatura são ainda mínimas e de difícil
acesso. A maioria da informação disponível está em inglês (ou em outros
idiomas) ou na internet. No entanto, nem o acesso à internet, ou o acesso
a livros, nem a língua inglesa, são muito habituais em nossa sociedade. O
Institut-A Infohouse and Community Center foi criado mais ou menos por
esta razão, há a necessidade de um espaço em que se possa ter acesso à
literatura anarquista.

Pergunta > Há movimentos históricos na Indonésia nos quais os anarquistas
de hoje podem se inspirar – inclusive se estes movimentos não se
consideravam “anarquistas”?

JC < Existem alguns movimentos que, embora nunca tenham se considerado
anarquistas, foram, sem dúvida, muito inspiradores. Como os de Blora e
Plati (regiões da Indonésia); os anarquistas se inspiraram no movimento
Sedulur Sikep (conhecido como povo Samin), um movimento social dissidente
que existiu desde o período da colônia holandesa. No entanto ele só foi
ativo localmente. Há também muitos anarquistas que sentem que os
movimentos sociais e políticos da Indonésia não são inspiradores. Por
várias razões, alguns anarquistas tentam estudar seriamente a história da
luta na Indonésia, lutas que apesar de não estarem identificadas
claramente com os anarquistas, têm características anárquicas.

MT < Vou tentar dar uma resposta mais completa sobre o movimento Sedulur
Sikep (Samin) e sua filosofia.

Os ensinamentos do Sedulur Sikep foram difundidos por Samin Surosentiko
(1859-1914), e era um conceito para o rechaço da cultura colonial
holandesa e o capitalismo quando estes emergiram na era colonial na
Indonésia, no século XIX. Este movimento cresceu de início ao redor de
Klopoduwur, Blora, na Java Central. Em 1890 o movimento Sedulur Sikep se
desenvolveu em duas aldeias na floresta do distrito de Randublatungm, sob
direção de Bojonegoro, Java Oriental; e nas florestas da cadeia montanhosa
de Kendeng. Em todas as regiões que circundam a Java central e oriental,
segundo os mapas de hoje, surgiu uma luta de resistência contra a
autoridade dos holandeses quando estes tomavam as terras para
transformá-las em suas plantações de teca.

Os ensinamentos do Sedulur Sikep emergiram como resultado, ou como reação,
das arbitrariedades do governo colonial holandês. A luta não tomou a forma
de confrontação física, mas desafiou todos os regulamentos e obrigações do
governo, por exemplo, não pagando os impostos. Influenciados por sua
atitude de querer mudar tudo, acabaram por construir sua própria ordem
social, suas leis de uso, costumes e tradições independentes.

Um dos princípios do Sedulukur Sikep era “kulo ndiko sami, kowe aku podho”
(você e eu somos iguais, portanto todas as pessoas são iguais). Este é um
princípio igualitário que não faz distinções baseadas na cor da pele,
etnia ou crenças religiosas. Nenhum ser humano é melhor que o outro, ou
tem mais direitos ou obrigações. Samin acreditava que em todas as questões
da vida, as pessoas deveriam organizar suas vidas por si mesmas ou
mediante a cooperação voluntária.

O Sedulur Sikep era uma filosofia prática, não tentava criar algo
impossível. O objetivo do Sedulur Sikep era trazer uma liberdade efetiva
para toda a humanidade. A minoria não tem mais direitos que a maioria, e
vice-versa. Supõe-se que cada pessoa deve ter os mesmos direitos para
obter as riquezas da terra, sem o uso de dinheiro ou salário; o que uma
pessoa produz se converte em sua posse, e ninguém, ou pessoas atuando
conjuntamente, tem o direito de tomar estas posses sem o consentimento
destas pessoas; que todo mundo pode trocar as coisas que produzem se
quiserem; não há limites ao que as pessoas podem escrever, comer ou beber,
conquanto que não moleste os direitos dos demais.

O Sedulur Sikep rechaçava o arrendamento da terra, permitindo a quem vivia
da terra fazer o uso dela; rechaçava as patentes e o copyright como formas
de monopólio; rechaçava a imposição de impostos sobre as pessoas porque os
impostos deveriam ser voluntários; não enviava seus filhos para a educação
formal; e tratava a natureza e o meio ambiente com sabedoria porque a
terra era considerada como uma mãe que se deve respeitar...

Os pontos chaves dos ensinamentos do Sedulur Sikep eram: a religião pode
ser uma arma ou um princípio para a vida. Deve-se compreender que o
Sedulur Sikep não fazia diferença entre as religiões, e por causa disto
seus seguidores nunca desprezavam ou odiavam a religião. O que era mais
importante era a maneira como as pessoas se comportavam em sua vida. O
casamento era realizado diretamente, sem necessidade do governo ou das
instituições religiosas, porque sua religião não era reconhecida pelo
Estado.

• Não incomodar as pessoas, não discutir, não ser invejoso, e não tentar
tomar as posses dos outros.

• Preferir atuar com sabedoria, e não ser arrogante.

• Um ser humano deve desenvolver uma compreensão sobre sua própria vida,
porque nossa vida é a mesma que nossa alma e somente temos uma para toda a
eternidade. Segundo o Sedulur Sikep, quando uma pessoa morre, sua alma não
morre, só se tira a “roupa”.

• Quando falamos devemos ter cuidado com o que sai de nossa boca, devemos
ser honesto e respeitar os demais. Para o Sedulur Sikep o comércio estava
proibido porque continha um elemento de “desonestidade”. Tampouco se
poderia receber contribuições em forma de dinheiro.

PM < Tristemente, o regime de Suharto conseguiu acabar com qualquer
material histórico que encontrou pela frente e que não defendia suas
posições. Um historiador australiano, Anton Lucas, escreveu livros sobre
um levante social muito interessante na Indonésia, da época da declaração
da independência, que encontrei como não especificamente anarquista, mas
que se referia a um levante popular autônomo contra a classe dirigente - 
contra as forças coloniais e contra a República Indonésia também. Creio
que o movimento indígena de Papua também é interessante. Por volta do ano
2000 conheci alguns de seus líderes, e vários anos mais tarde me dei conta
de que sua visão, suas críticas sobre a Indonésia, me fizeram lembrar o
conflito entre a sociedade igualitária (primitiva) e a sociedade
hierárquica moderna. Creio que a primeira coisa que temos que fazer é
encontrar a nossa própria história, é um trabalho ardoroso que temos que
fazer.

Pergunta > A Indonésia é um país enorme com muitas tradições culturais e
religiosas. Em quais partes da Indonésia e em quais comunidades do país há
anarquistas?

JC < Eu moro na ilha de Java, e durante todo este tempo minhas atividades
foram desenvolvidas com anarquistas que também vivem em Java (e nem mesmo
conheço todos), e com anarquistas de outras ilhas (mas somente na esfera
da comunicação, não chegamos a trabalhar em um projeto conjuntamente).

MT < Há de se compreender que na Indonésia, a ilha de Java é o “coração”
do governo, da informação, da educação, etc., causando um desequilíbrio ao
acesso a estas coisas em outras partes do país. O Estado cria
intencionalmente estas condições para que as pessoas que vivem fora de
Java sejam mantidas “estúpidas” em seus territórios que servirão para a
exploração em grande escala feita pelo Estado e as corporações.

Vivo em Jakarta (no ocidente de Java) e sei de anarquistas
(individualidades ou coletivos) nas ilhas de Java (Jakarta, Bandung,
Jogya, Semarang, Pati, Blora, Surabaya, Rembang, Randublatung, Salatiga,
Porong) - Sumatra (Palembang, Pekanbaru, Medan, Aceh) - Kalimantan
(Balikpapan) - Sulawesi (Makassar, Manado, Gorontalo) – Bali. No entanto,
algumas destas pessoas ou coletivos tenho que conhecer pessoalmente.

PM < Creio que a anarquia é um caráter humano básico. Então, dessa forma,
penso que há algumas comunidades nas quais podemos encontrar valores
anarquistas, inclusive se estas comunidades não se consideram anarquistas.
Algumas inclusive têm tradições religiosas - que normalmente diferem das
religiões legais principais.

Pergunta > A religião tem algum papel no movimento anarquista? As pessoas
criaram paralelismos entre o anarquismo e as tradições muçulmanas, por
exemplo? Ou os anarquistas são anti-religião?

JC < Como anarquista eu sou agnóstico. Muitos de meus amigos anarquistas
têm a mesma tendência que eu. Mas há alguns anarquistas que estão
inspirados no movimento Sufi, por exemplo. Para mim, a religião é uma
instituição coerciva e hierárquica, pelo que não é necessário somente
rechaçá-la, mas também destruí-la. A religião não é a mesma coisa que a
espiritualidade. Embora anti-religião, não sou uma dessas pessoas modernas
que glorificam a razão e que negam a espiritualidade.

MT < Escolhi não seguir uma religião antes mesmo de saber o que era
anarquismo, devido às minhas experiências pessoais na família e na
sociedade. Sou crítica da forte dominação ou do controle que as
instituições religiosas têm na Indonésia desde que escutei pela primeira
vez as visões e atitudes sobre a religião de alguns amigos sobre a
religião. No entanto, nos círculos anarquistas, muitos amigos ainda “têm
religião”, ou não são valentes o suficiente para abrirem suas mentes em
relação ao rechaço à religião. Normalmente buscam um equilíbrio em que
podem demonstrar respeito às suas famílias ou ambiente religioso.

No contexto da Indonésia, ao ser o país com o maior número de habitantes
muçulmanos no mundo, estes valores estão bastante implantados em nós,
impostos, dirigidos para nos controlar, começando pela família, a
sociedade e o Estado. No entanto, temos debatido muito sobre este ponto e
vemos a religião como uma fonte de dominação e controle que deve ser
destruída. Alguns anarquistas analisam esta questão com mais profundidade
e fazem críticas ao Islã desde uma perspectiva anarquista.

PM < Se falamos do movimento anarquista, posso te dizer que a religião não
tem nenhum papel nele. Mas um dos meus amigos é muçulmano e anarquista. E
sim, ele pode traçar paralelismos entre o anarquismo e a tradição
muçulmana. Ele inclusive trabalha de editor numa editora que está enfocada
na publicação de livros muçulmanos.

Pergunta > Existe uma forte conexão entre todos os anarquistas na Indonésia?

PM < Não sei se podemos chamar isto de “forte conexão”, mas sim, quase
todos os anarquistas (os que se auto-identificam como anarquista) na
Indonésia se conhecem.

MT < Posso dizer que sim, talvez porque sentimos que somos uma minoria, os
vínculos entre nós são bastante fortes. Há um sentimento de que apoiamos
uns aos outros e que há um desejo de conhecer as atividades de outros
amigos. No entanto, por causa da situação geográfica e financeira das
pessoas na Indonésia, é bastante difícil nos encontrarmos e termos uma
comunicação cara a cara. Normalmente nos comunicamos pela internet ou pelo
telefone.

Pergunta > Quais são as posições dos anarquistas sobre as lutas pela
independência que aconteceram na Indonésia nas últimas décadas: Timor
Oriental, Papua Ocidental, Aceh, e outras?

PM < Não posso falar por nenhum anarquista da Indonésia, mas pessoalmente
creio que posso apoiar em algum nível estas lutas. Estive envolvido na
luta por um Timor Leste livre (preferem Timor Leste, não East Timor) antes
de ser um Estado independente e ter um governo corrupto.

MT < É necessário compreender que todas as partes da Indonésia têm seus
próprios problemas, por isso os anarquistas sempre agirão e resistirão de
uma maneira que se aproxime aos problemas que primeiramente encontram em
seu próprio lugar de residência. Evitamos métodos que envolvam
representantes (em contraste com a maioria dos grupos de esquerda), e isto
porque sempre construímos nossos movimentos e nossas ações nos lugares em
que estamos. Também porque não há amigos anarquistas vivendo nestes
lugares (realmente há um compa em Aceh, mas ele não pôde fazer muita coisa
porque acabou de chegar).

Mas de qualquer forma estamos conscientes do que se passa nesses lugares,
e apoiamos toda forma de luta contra a autoridade do Estado e as lutas
autônomas. No entanto, há uma contradição quando vemos que as lutas
populares para se libertar da Indonésia são para formar uma nova nação (o
sistema é o mesmo: um governo e um poder com novas caras), como pudemos
ver no caso do Timor Leste, por exemplo.

Enquanto isso, nós também debatemos estas questões desde vários pontos de
vista, especialmente no contexto da autoridade do Estado, o militarismo, e
a exploração do meio ambiente.

Pergunta > O Estado indonésio tem um terrível legado no tocante à
perseguição de dissidentes. Como os anarquistas foram afetados por isto
historicamente? Qual é a situação hoje?

JC < A Indonésia de hoje é uma Indonésia que não difere totalmente da
Indonésia do período do Nova Ordem. O que eu quero dizer com isso é que,
aqueles que renunciaram a se submeter ao poder seguem sendo perseguidos.
Hoje em dia, os líderes da Indonésia aprenderam com os erros de seus
predecessores, e estão melhor organizados para a repressão. Se no tempo do
Nova Ordem a dissidência foi destruída de uma forma crua, agora já não
acontece mais isso. Os que detêm o poder na Indonésia promovem uma imagem
errônea de que não dominam mediante a violência, e promovem uma ilusão de
paz e segurança a um limite fantasioso. Isto faz com que uma quantidade
maior de pessoas seja pró-governo - e mesmo se elas não são, elas somente
discordam de seus líderes. A hierarquia e o poder em si são vistos como
legítimos pela maioria das pessoas.

MT < Vários entre nós já tivemos que enfrentar ações repressivas do Estado
como terror, intimidação, perseguições e detenções. Para continuar a
resposta de JC, estamos alerta com respeito a esta situação e buscamos não
nos influenciar pela imagem que é projetada pelo Estado. Também buscamos
prestar mais atenção aos problemas de segurança começando a construir uma
“cultura de segurança” como algo que deve ser considerado de grande
importância em todas as nossas atividades, e estamos desenvolvendo métodos
e estratégias para lidar com estas situações. Mas é importante salientar
que somente poucas pessoas estão realmente conscientes desta questão.

PM < No entanto, o governo realmente é o mesmo que o de antes, mas
desempenha um papel mais suave. Já não se declaram abertamente violentos.
Mas isto não significa que não usem a violência para resolver o que
enxergam como problemas. Alguns meses atrás o povoado de Riau (ilha de
Sumatra) foi bombardeado e incendiado por helicópteros do exército porque
os camponeses do povoado não queriam abandonar suas terras para uma
corporação de azeite de palma. Em Sulawesi, vários camponeses foram
assassinados em um caso similar. Também em vários povoados de Java. Mas
nenhum meio de comunicação realmente cobriu estes casos. Eu e outros
colegas normalmente publicamos estas notícias terríveis de forma
independente.

Pergunta > Como são as conexões internacionais de vocês? Têm vínculos com
outros anarquistas no sudeste asiático?

PM < Formalmente não. Mas alguns companheiros têm sim.

MT < Em meu caso, pessoalmente, tenho vário contatos com anarquistas de
fora da Indonésia e desde o começo do Institut-A este foi capaz de existir
graças à ajuda e solidariedade de uma rede internacional. Buscamos fazer
contatos com vários coletivos para difundir a informação de nossa
existência e nossas atividades. Estamos conscientes da importância de
difundir e de nos conectar, e realmente sabemos quais ferramentas podemos
utilizar para isto, o que acontece é que o idioma acaba nos limitando, ou
o fato de não termos tempo para traduzir um monte de materiais. Poucos de
nós temos a capacidade e o desejo de traduzir intensamente.

Pergunta > Como vocês vêem as possibilidades futuras do anarquismo na
Indonésia e no sudeste asiático?

PM < Não posso falar disto, já que não sei muito sobre o anarquismo no
sudeste asiático. Sei que uma rede é importante, mas por enquanto, quero
enfocar mais na Indonésia já que há muitas coisas que precisam ser feitas
e são poucos os anarquistas indonésios realmente atuantes aqui.

JC < Com o processo atual em marcha, creio que há muitos espaços nos quais
os anarquistas na Indonésia podem preencher. Muitas pessoas que costumavam
ser marxistas-leninistas estão começando a ver que toda forma de poder
corrompe e reprime. As pessoas que estão sendo vítimas das corporações
também estão começando a sentir que o governo sempre estará do lado das
corporações, e que portanto é necessário fazer algo mais que simplesmente
pedir ajuda ao governo.

MT < Sou bastante otimista, especialmente no contexto da Indonésia onde há
tantos problemas. Mais e mais pessoas e grupos estão começando a sentir
que a sua forma de luta está chegando a um ponto morto, e a anarquia está
sendo vista como algo bastante lógico. Contudo, será necessário um largo
processo e um trabalho muito árduo, necessitamos construir alianças e
reafirmar a solidariedade entre nós. Creio que veremos as sementes da
anarquia que plantamos e espalhamos hoje começarem a crescer por todas as
partes...

Mais infos: http://hidupbiasa.blogspot.com/

Tradução > Marcelo Yokoi

agência de notícias anarquistas-ana





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