(pt) [Portugal] Crônica da Jornada Contra o TGV

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Segunda-Feira, 20 de Dezembro de 2010 - 00:27:28 CET


Realizou-se no dia 18 de dezembro, no Largo da Severa, Mouraria, em
Lisboa, a “Jornada Contra o TGV”, uma sessão de debate e informação sobre
"O projeto do Trem de Alta Velocidade em Portugal e a necessidade de o
parar" e "Experiências de luta na Itália e no País Basco contra o TGV".
Cerca de 60 pessoas, de diversas partes do país animaram uma tarde de
debate e informação em que as lutas contra o TGV no Vale de Susa, região
de Turim, na Itália, e no País Basco, foram relatadas na primeira pessoa,
através de companheiros e companheiras intervenientes nessas lutas.
Em particular, a luta contra o TGV, no País Basco, intimamente ligada às
populações locais, as dificuldades da luta libertária, decorrentes da
repressão brutal do Estado, potenciada pela atuação da ETA, foram
comparadas com a luta no Vale de Susa, uma luta que dura já 20 anos,
impedindo, de fato, a construção do TGV, pois as obras têm sido impedidas,
há mais de cinco anos. Uma luta exemplar, já que as populações têm se
organizado de forma libertária, informal, sem controle de nenhuma espécie,
aí residindo a sua força e eficácia, segundo os companheiros italianos.

Outro aspecto interessante na riqueza desta luta é como ela transbordou o
Vale de Susa e como se interligou numa rede de apoio-mútuo com outras
lutas em toda a Itália, seja contra a energia nuclear, seja no âmbito
antimilitarista ou contra incineradoras (lixões) e outras mais.

A luta expande-se assim como o TGV. Atualmente uma luta inicia-se em
Stuttgart, na Alemanha. E o projeto do TGV atravessou oceanos e promete
instalar-se no Brasil, ligando o Rio de Janeiro a São Paulo e Campinas
(http://www.tavbrasil.gov.br/). Quando este projeto bilionário estiver
implantado, o Brasil será o único país da América do Sul a ter um trem de
alta velocidade.

A importância da luta contra o TGV em Portugal, cujas obras vão ser
brevemente iniciadas, um dos projetos mais destruidores que o capitalismo
concebeu para a região portuguesa, foi por demais salientada.

Foi referido, também, o impacto que este projeto desenvolvimentista
provocará no meio ambiente e nas vidas de todos, a atualização do sistema
de miséria, o controle social, a transformação do território, a
militarização das ruas e a urbanização desenfreada nas cidades, vilas e
aldeias por onde passa a Alta Velocidade.

Como balanço, ficou a consciência de que lutar contra o TGV é apenas o
início de uma luta mais ampla contra o desenvolvimento do Capital e muitos
outros dos seus projetos.

Emília Cerqueira

[A seguir folheto distribuído antes e durante a Jornada Contra o TGV.]

O TGV não vai passar por aqui porque nós não vamos deixar!

RAVE: em alta velocidade a destruir tudo por onde passa

O projeto do trem de alta velocidade (TGV ou TAV; em Portugal foi nomeado
RAVE – Rede de Alta Velocidade) vai começar a ser construído entre Lisboa
e Caia, na fronteira com Espanha, para a partir daí continuar até Madri. A
sua construção é uma imposição, independentemente das pessoas afetadas, da
sua vontade e do seu bem-estar. As expropriações por parte do Estado já
começaram.

A discussão sobre este projeto tem sido, até hoje, meramente política:
partidos e organizações sentam-se à mesa de negociações e regateiam onde,
quando e como será este projeto levado em frente. O seu interesse não está
em parar este projeto de morte, mas em decidir qual será a forma mais
vantajosa de construí-lo, e em que momento será economicamente mais
aceitável. Mesmo aqueles que estão sinceramente contra a construção do
TGV, a nosso ver até hoje não apresentaram nenhuma forma concreta de
resistência e ataque a este projeto que o possa efetivamente parar.

Nesta discussão política, todos os fatores entram em consideração, exceto
um: a nossa vontade de viver e circular livremente e de destruir os planos
que sufocam a nossa vida e os lugares onde vivemos.

É por isto que pensamos que a resistência ao TGV deve ser tentada através
de uma luta anti-política, uma luta que ponha em prática os nossos
desejos, necessidades e vontades reais, e que verdadeiramente consiga pôr
um travão no avanço da morte. Esta luta, além de recusar a negociação com
aqueles que nos tentam impor vidas que não queremos, deve ser uma luta de
ataque e não de simples resistência, ou seja, deve tomar a iniciativa e
agir da maneira que cada um achar melhor, tendo como alvo as obras do TGV,
estações e acessos, assim como as empresas e instituições envolvidas na
sua construção/exploração/financiamento.

Porque é que o TGV é um projeto de morte?

Porque a sua construção vai destruir centenas e centenas de quilômetros de
floresta, montanha, planície e terrenos de cultivo, assim como milhares de
casas, palheiros, fontes e cursos de água.

Porque, como a linha inclui barreiras em todo o seu comprimento, vai
separar fisicamente pessoas que fiquem a viver em lados diferentes da
linha e pessoas dos seus locais de trabalho, passeio, namoro, etc...

Também os animais vão deixar de poder cruzar os campos, dado que vão
deparar-se com uma barreira intransponível à sua frente.

Porque vai causar um barulho ensurdecedor de cada vez que um trem passar,
com todos os riscos para a saúde psicológica que isso acarreta.

Porque as crianças e pessoas com um espírito rebelde que desejem
atravessar o campo onde sempre o fizeram vão ascender as barreiras de
proteção, recusando na prática a imposição de barreiras no seu caminho, e
por isso a ameaça que a RAVE lhes coloca é a de atropelamento ou
eletrocussão.

Porque querem enterrar para sempre a beleza daquilo que é a viagem,
daquilo que se vê, ouve e sente no espaço e tempo que percorremos entre um
local e o outro.

Porque a sua existência serve unicamente os interesses das máfias
construtoras, políticas, dos banqueiros, dos grandes donos de terras e dos
empreendimentos turísticos. E nós estamos fora e contra todas elas. Porque
quem o vai utilizar majoritariamente são as elites políticas, econômicas,
patronais e turísticas da Europa: e para dizer a verdade estamos fartos de
elites e das suas ordens, e dá-nos asco a idéia de vê-los atravessarem-se
no nosso campo de visão.

Porque a visão de um monstro de metal a rasgar os campos ofende os nossos
sentimentos mais íntimos de amor pela terra, pelo espaço e de uns pelos
outros. É como ver a destruição sobre linhas de trem a romper em alta
velocidade as nossas memórias e os nossos sonhos.

Quem está contra o TGV?

• Os partidos da direita, que nos parece serem contra o TGV apenas porque
estão na oposição e é isso que a oposição faz: opor-se ao governo. De
fato, as questões que têm levantado são meramente acerca da pertinência
deste projeto no dia de hoje, devido à falta de dinheiro. Ou seja, não são
verdadeiramente contra o TGV, o seu interesse é simplesmente o de serem
eleitos e com isso decidirem eles quando é que o vão construir e quais as
máfias que preferem beneficiar.

• Os ecologistas, que se pautam pela indecisão, sendo que há os contra o
TGV porque vai destruir muitos hectares de floresta, ao mesmo tempo que há
os a favor do TGV porque supostamente é um meio de transporte não
poluente. Aos primeiros reconhecemos a sua sinceridade, mas lamentamos as
formas de resistência que até hoje foram propostas e que normalmente
propõem,  e que têm a haver com manifestações inócuas que nada atacam,
ações simbólicas que infelizmente fazem rir os nojentos líderes que nos
querem impor determinados projetos, e abaixo-assinados que simplesmente
procuram o reconhecimento e a negociação com aqueles que nos estão a
lixar. Aos  segundos, além de querermos perguntar como é possível uma obra
desta envergadura e materiais envolvidos serem considerados “não
poluentes”, há uma questão para nós mais fundamental: ao enaltecerem as
razões ambientais esquecem toda a questão social e de classe, ou seja, o
fato de um projeto deste tipo destruir completamente relações e formas de
vida e despedaçar ainda mais cada indivíduo por ele atingido, e que
aparentemente nada pode fazer face a tamanha monstruosidade.

• Os pacifistas e humanistas, que até podem ser contra a construção do
TGV, mas ao serem pela não-violência são também contra a idéia de ataque,
e dessa forma deixam descansadas todas as empresas e instituições
interessadas na construção do TGV.

• Por fim, há todos os outros onde nos incluímos que, sem interesses
políticos nem ideologias que bloqueiem a sua ação, têm todas as razões
para tentar de fato travar este projeto de morte, e um vasto leque de
ferramentas ao seu dispor que poderão ser experimentadas.

Uma possibilidade

Através da auto-organização e da ação direta de todos os que
verdadeiramente desejam travar a imposição da morte poderemos fazer
descarrilar este projeto.

Nesta luta que recusa a lógica do progresso, do patriotismo e do
parlamentarismo, estaremos lado a lado com aqueles que agirem de forma
honesta, decidida e concreta contra este projeto que nos quer roubar mais
um pedaço das nossas vidas. E recusaremos qualquer diálogo  com quem o
pretende levar avante; não há diálogo com quem tenta impor a destruição
das nossas vidas.

Juntos podemos destruir a RAVE!

Alguns anarquistas daqui e dali

agência de notícias anarquistas-ana





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