(pt) PM Press: editora independente e anarquista

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Segunda-Feira, 30 de Agosto de 2010 - 14:49:31 CEST


[Ramsey Kanaan é co-fundador da PM Press, uma das mais interessantes editoras do
mundo libertário hoje em dia. Powell's Chris Faatz encontrou com ele no mês passado
e o entrevistou. Reproduzimos a seguir esta conversa.]
Chris Faatz > Ramsey, quais são as origens da PM Press? Pelo que sei você foi um dos
fundadores da AK Press. Você pode falar um pouco sobre esta experiência? Como a AK
Press influenciou a fundação da PM?
Ramsey Kanaan < Pelos meus pecados, eu sou/fui, de fato, o fundador da AK. Na
verdade a AK foi nomeada dessa forma por causa da minha mãe - Ann Kanaan - embora
freqüentemente eu tivesse o hábito de falar para os companheiros que minha mãe se
chamava Kalashnikov. Passei grande parte das três décadas (comecei jovem, aos 13
anos) com a AK, e quando ela ficou maior do que eu, nós a estruturamos como uma
cooperativa de trabalhadores no Reino Unido. Então quase tudo que aprendi sobre
publicação, distribuição, propaganda, escrever, editar, trabalho cooperativo,
administrar um negócio, etc., etc., foi feito através da rubrica da AK.

A maioria das coisas foi inventada na medida em que íamos desenvolvendo o trabalho.
Estou muito orgulhoso das coisas que fizemos com/na AK - e a PM foi iniciada por mim
e outro membro da AK, Craig O'Hara. Somos agora muito sortudos por podermos fazer
ainda mais com a PM. Mesmos fins, meios similares, somente tomando um alcance mais
amplo de formatos, gêneros e plataformas, para levar as idéias lá fora, e
esperançosamente, para que os companheiros possam interagir com elas.

Faatz > Olhando atentamente o teu catálogo e os livros que você já publicou, fica
bem aparente que a PM opera desde uma perspectiva radical, libertária, até mesmo
anarquista. Que tipo de mercado você encontra para este tipo de material?

Kanaan < Bem, há o mercado que já existe - basicamente o que restou do "movimento"
dos anos 60, somado às ultimas gerações de jovens ativistas, que vieram através do
punk, do movimento por outra globalização, e por aí vai. O desafio, penso eu, sempre
foi apreender não somente a melhor maneira de informar "o movimento", mas apreender
a melhor forma de levar as idéias para todas as pessoas. Realmente, como ativamente
contribuir para construir um "movimento" que esteja genuinamente disposto a
desmontar o Capital e o Estado.

Não há um caminho "correto". Em termos de idéias, estamos explorando todos os
aspectos da arte, da cultura, da ficção, da música, do vídeo, dos textos acadêmicos
e dos manifestos inspiradores, para que as palavras, os sons, e as imagens possam
ser levadas além... e esperançosamente, construir uma audiência.

Faatz > Resumidamente, como você definiria o anarquismo para aqueles que estão
curiosos?

Kanaan < Isto dependeria do público é claro. Para aqueles que não são muito bem
versados em teoria política (ou prática), eu definiria o anarquismo pela noção senso
comum de que as pessoas são mais capazes de organizar suas próprias vidas sem o
estorvo da hierarquia, da autoridade, estado, capitalismo, etc. É uma forma
particular de organização horizontal, oposta às organizações verticais, social e
economicamente. Para os mais sofisticados, a resposta rápida seria de que o
anarquismo é a auto-emancipação da classe trabalhadora.

Faatz > Dito isto, todo mundo que sabe alguma coisa sobre anarquismo tem um livro ou
texto introdutório para recomendar a amigos e colegas de trabalho que pensam que
anarquia é desordem, caos, e um mundo sem escrúpulos. Um dos meus favoritos é o
"Anarquismo" do Daniel Guerin. Qual que você recomendaria? Da lista da PM, qual
seria o mais indicado para as pessoas que querem conhecer mais sobre a forma de
política libertária?

Kanaan < Guerin é certamente um dos meus favoritos. Assim como o Mulher à Beira do
Tempo de Marge Piercy. E Anarquia em Ação do Colin Ward. Com relação ao que a PM
publicou, o monumental Exigindo o Impossível de Peter Marshall é uma introdução de
1000 páginas ao largo rio da anarquia. O livro de Stuart Christie e Albert Meltzer,
As Comportas da Anarquia, é uma fantástica introdução ao bom e velho anarquismo
classista. E o Por Todas as Pessoas de John Curl é uma maravilhosa escavação da
ocultada história dos movimentos e trabalhos cooperativos na América do Norte.

Faatz > É engraçado você ter mencionado a novela Mulher à Beira do Tempo. Em se
tratando de ficção, eu amo o "Os Despossuídos" da Ursula Leguin.  Quais outras
incursões literárias às idéias libertárias que você pode recomendar?

Kanaan < A trilogia Marte, e o "Os Anos do Arroz e do Sal" de Kim Stanley Robinson
deveriam ser lidos. Stanley Robson é um socialista utópico, o que é absolutamente
perfeito para mim. Notícias de Lugar Nenhum de William Morris não somente representa
uma sociedade socialista, mas os processos e armadilhas para se chegar lá.

Faatz > Você não publica somente livros. Quais outros materiais que você também
disponibiliza?

Kanaan < A nossa intenção é levar as idéias lá fora. Fazemos isso através de vários
gêneros de livros (arte gráfica, quadrinhos, ficção, não-ficção, etc.), formatos de
livros (nossos títulos estão todos disponíveis em cópia impressa e em todos os
diversos formatos eletrônicos) e lançando DVDs e CDs (novamente, ambos em cópia
impressa e eletronicamente) - documentários, música, narrações. Tudo que os
companheiros estiverem envolvidos.

Faatz > Falando de música, você publicou alguns livros substanciais sobre as
políticas da música. Você poderia dizer alguma coisa sobre eles?

Kanaan < Tenho interesse em trazer ao público os potenciais emancipatórios, ou
elementos, em todas as formas de cultura. Como cresci escutando música punk (e
também música folk) é de alguma forma mais fácil começar com o que você já conhece.
Nós publicamos o "A História do Crass", sem dúvida a biografia definitiva (baseada
em entrevistas com todos os membros da banda) do grupo que não somente criou o
gênero conhecido agora como anarco-punk, mas revolucionou uma geração - e continua a
revolucionar quase trinta anos após a banda ter acabado. E com o "Vida Sóbria para a
Revolução" nós estamos examinando o objetivo radical da cena "straight-edge" - uma
subcultura musical que se abstém do uso de drogas, álcool e tabaco. Muitas vezes
puritanamente conservador, é claro, mas novamente contendo todos os tipos de idéias,
ações e aderências revolucionárias.

Faatz > Quais são as diretrizes para escolher os materiais que você publica? Qual é,
brevemente, o objetivo?

Kanaan < Temos dois critérios. Primeiro e antes de tudo, tudo o que publicamos tem
que ser bom! Partimos do princípio de que o material esteja, amplamente falando,
deixando/adicionando alguma coisa para o mundo. Mas tem que ter qualidade, tanto o
material como o visual. O segundo critério no qual temos que pensar é se temos a
capacidade de vendê-lo. O que, infelizmente, não é o caso para tudo que queremos
fazer.

Faatz > Vi o lançamento de três livros do Paul Goodman. O que provocou o interesse
sobre ele, e porque você escolheu publicá-lo nestes tempos?

Kanaan < Goodman é uma das muitas grandes figuras
(escritores/autores/palestrantes/ativistas) que não somente tiveram um grande
impacto em seu tempo (no caso de Goodman, seu Absurdo Crescente vendeu um milhão de
cópias no começo dos anos 60), mas cujas vozes/idéias são tão relevantes hoje como
foram ontem. Traçando a Fronteira Mais uma Vez (uma coleção de seus escritos
anarquistas) e o Nova Reformação (seu último livro de crítica social, publicado em
1970, na altura de sua desilusão com o movimento da década de 60 que ele mesmo
ajudou a parir) estão publicados agora. O Paul Goodman Reader sairá em poucos meses
- a coleção definitiva, reunindo a vasta extensão de seus escritos (e ficções e
poesias), seguida de uma coleção de palestras e conferências que nunca foram
publicadas antes.

Faatz > Você também está publicando um livro do Gustav Landauer. Quem foi Landauer,
e porque você acha que ele é importante nos tempos de hoje?

Kanaan < Landauer foi o anarquista alemão mais conhecido, e foi criminalmente
negligenciado fora do universo germanófano. Como Goodman, eles escreveu bastante
sobre política, atualidades, arte, literatura, e - juntamente com seu amigo bom
amigo Martin Buber - propagou um espiritualismo judaico secular. Ele esteve ativo no
levante/comuna bávara de 1920, foi capturado e assassinado. Esta é a maior coleção
de seus escritos políticos que foi traduzido e publicado em inglês. Estamos bastante
entusiasmados! E como os companheiros irão descobrir, seus escritos oferecem muito
mais do que somente uma curiosidade histórica.

Faatz > Por fim, um dos livros mais animadores e impressionantes que eu já vi é o
Exigindo o Impossível: Uma História do Anarquismo do Peter Marshall. Como é que foi
a resposta gerada por este monumental livro de 840 páginas?

Kanaan > Por enquanto ele está vendendo bem, e começou a ganhar uma maior atenção
nas resenhas - também deveria, naturalmente. Vendeu 1000 cópias nos primeiros meses
de publicação, e as vendas parecem estar melhorando, portanto estamos muito
contentes.

Faatz < Muito obrigado, Ramsey, pela disposição.

PM Press: http://www.pmpress.org/

Tradução > Marcelo Yokoi

agência de notícias anarquistas-ana



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