(pt) [Brasil] Entrevista com a FAG: Protesto não é crime

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Sexta-Feira, 6 de Agosto de 2010 - 08:28:23 CEST


O Socialismo Libertário, orgão do FAO, esteve conversando com um militante da
Federação Anarquista Gaúcha, FAG, neste momento em que se aproxima a data da
audiência para a qual 6 militantes da organização foram intimados. Será no dia 19 de
julho e contará com a presença da governadora Yeda Crusius em pessoa, fazendo a sua
denúncia contra a FAG.
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Socialismo Libertário: Poderíamos fazer uma pequena retrospectiva dos fatos que
levaram vocês a terem a sede invadida pela polícia civil e seus militantes intimados
judicialmente?
Militante Faguista: Em 21 de agosto, durante uma sinistra operação de guerra montada
pela Brigada Militar no despejo da ocupação dos trabalhadores do MST na fazenda
Southall, no município de São Gabriel, foi assassinado Elton Brum. O crime foi ato
premeditado do Estado. O companheiro Sem Terra foi alvejado pelas costas pela
polícia com disparo de calibre 12. Esse fato comocionou todo o movimento popular e
sindical, direitos humanos e grupos de foro internacional. Imediatamente se
organizaram caravanas solidárias para São Gabriel, a cidade onde se consumou um
golpe de morte que era anunciado pelas escalada de violência do Estado contra o
protesto e a pobreza. Em Porto Alegre no mesmo dia levantamos com outros setores
organizados da luta um ato de solidariedade ao MST e de repúdio ao governo de Yeda
Crusius e a Brigada Militar. Dessa mobilização imediata resultou a decisão da FAG de
levar pra rua uma campanha de agitação denunciando o crime e responsabilizando os
seus mandantes, nesse caso o chefe das operações e o governo do Estado. Pois a
própria Yeda Crusius em pessoa fez uma queixa crime contra os militantes da FAG por
calúnia e difamação e abriu este processo judicial que se arrasta até sabe-se lá
quando.

SL: Como vocês definiriam a conjuntura para os movimentos populares no RS, nos
últimos anos?

MF: Em uma análise discutida e aprovada pelo Conselho Federal da organização que
recorria aos fatos repressivos e os esquemas corruptos que sucediam a leitura que
fizemos era de evidências de um Estado policial com alto grau de truculência, dentro
do regime democrático burguês, aos pobres e os setores organizados da luta. Vivemos
a combinação explosiva de um governo corrupto até a medula, de uma oposição
parlamentar rendida as cláusulas neoliberais do empréstimo do Banco Mundial e uma
pauta repressiva implacável às manifestações da pobreza e do protesto social nas
ruas ou no campo. Essa conjuntura ainda teve a mediação de um discurso reacionário
que ganhou circulação pela mídia e pedia mão pesada contra as "desordens" que vem de
baixo. Nessa produção poderosa da comunicação dominante ganhou palco e holofote o
comandante da Brigada Militar Paulo Roberto Mendes que foi batizado "capitão
Nascimento dos Pampas". Paralelo ao fogo cruzado dos inquéritos, investigações e
polêmicas que convulsionavam a máquina do governo e também do ajuste fiscal que
desmontou com os serviços públicos e a política social, o comandante Mendes era o
símbolo da ação do Estado.

Em 2008 a luta de classes no estado do RGS passou por um momento brutalmente
repressivo enquanto o governo de Yeda Crusius se equilibrava na corda bamba para
passar impune a fraude com dinheiro público do Departamento Estadual do Trânsito, a
língua solta do vice-governador Feijó, a morte mal explicada do representante do
estado em Brasília, caixa dois de campanha pra compra da mansão da governadora,
etc... Como dissemos, em 2008 a mão pesada desceu o cacete. Pra lembrar melhor. Em
janeiro o encontro estadual do MST em Sarandi foi cercado, paralizado e invadido por
um contingente absurdo da polícia constituindo numa grave violação dos direitos
democráticos. Em fevereiro uma manifestação do Encontro Latino Americano de
Organizações Populares (ELAOPA) em Porto Alegre, durante conferência mundial das
cidades teve que se defender da agressão policial.

Em Rosário do Sul, na jornada das mulheres camponesas pelo 8 de março uma ocupação
em terras da zona de fronteira que são ilegalmente invadidas pela empresa
sueco-finlandesa Stora Enzo terminou reprimida selvagemente sem discriminação de
crianças. Pela metade do ano mais episódios. Uma batalha em frente a um supermercado
da rede Wall Mart em Porto Alegre deixou vários companheiros de mov. Sociais do
campo e da cidade feridos e um em estado grave. Em Passo Fundo na ocupação da Bunge
mais violência policial. Um piquete de grevistas do sindicato dos bancários em Porto
Alegre foi surrado covardemente. A marcha dos sem, que todos os anos se realiza na
capital do Rio Grande foi proibida de chegar perto do palácio do governo e
dispersada a balas de borracha e bombas pelas forças repressivas.

Uma ação do Ministério Público estadual pediu a cabeça do MST, suspendeu as escolas
itinerantes, quis por fora da lei, proibir, amordaçar, a maior força social dos
oprimidos do país. A conjuntura tinha prenúncios sinistros de morte, de perda de
companheiro, dada a escalada repressiva que investiu com força sobre a resistência
popular. Nos bairros e vilas da periferia, nas favelas, a prisão sobretudo da
juventude negra e pobre foi incorporada no aparelho como política de limpeza social.
Foi assim que se fez em 21de agosto de 2009 o assassinato do trabalhador sem terra
Elton Brum. Em meio a peleja histórica que faz o MST no coração do latifúndio, na
"terra dos generais" chamada São Gabriel.

Pois nos parece que desse padrão repressivo intenso que resistimos agora nos sobrou
a judicialização dos conflitos. É onde estamos. O governo Yeda voltou a caça as
bruxas no final de mandato contra os seus opositores. Pelo menos três casos são
emblemáticos desses ataques judiciais. O protesto em frente a residência da
governadora organizado por sindicatos e partidos de esquerda; a campanha
publicitária do fórum dos servidores públicos, liderada pelo Cpers-Sindicato contra
o governo; e a propaganda da FAG denunciando os responsáveis pelo assassinato de
Elton Brum. Todos chamados ao Foro Central na 6° vara criminal para responder a
queixas crimes da governadora como réus.

SL: Por que, na opinião de vocês, o assassinato de Elton Brum não gerou uma onda de
protesto, como costuma ocorrer nestes casos, como por exemplo, na Argentina (Dario
Santillán e Maxiliano Kosteck) ou Grécia (Alexandrous Grigoropoulos)?

MF: O assassinato estava inscrito dentro de uma conjuntura mais geral onde
atravessavam as lutas e mobilizações populares contra a dura política de ajuste
fiscal do governo. Temos nossa própria avaliação, nossas hipóteses sobre isso.
Estava formada no Rio Grande do Sul uma campanha que tinha entro na luta política
contra o governo, pelo Fora Yeda, que contava como setor mais dinâmico das cidades o
sindicato dos trabalhadores da educação. O governo Yeda vinha colecionando
escândalos e cambaleando no fogo cruzado da crise política, com fraturas expostas na
própria base. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi instalada na
Assembleia Legislativa do estado que deu cena ao PT e suas ambições eleitorais. O
reformismo ganhou protagonismo como intermediário político da luta que se ampliava
nas ruas e nos locais de trabalho do setor público. Com o tempo o parlamento e a
comissão de inquérito passou a ganhar lugar mais decisivo, deslocou a ação direta
popular. Esse é o primeiro elemento.

O segundo é o prejuízo que resultou a falta de independência de classe do movimento
sindical, especialmente das forças organizadas na CUT, que se burocratizaram aos
trâmites da CPI e os interesses evidentes do PT em sangrar o governo até as próximas
eleições esvaziando a luta das ruas e ganhando protagonismo pela oposição no
parlamento. Essa relação de correia da central sindical com o PT explica a ausência
completa de um plano de ação contra os acordos do governo Yeda com o Banco Mundial
que na Assembleia Legislativa tiveram aprovação unânime, incluso do PT e do PC do B.
Pois a falta de independência de classe que nos referimos impediu que se realizassem
modalidades mais fortes de ação que pudessem provocar a caída do governo.

Em terceiro, o acontecimento de São Gabriel, o assassinato de Elton Brum, elevava o
grau da crise política gaúcha para uma situação em que um plano de ação direta
unificado, do campo e da cidade, como por exemplo: a paralisação de todo o serviço
público, piquetes nas zonas industriais ou o bloqueio de estradas e rodovias
poderiam ter desestabilizado seriamente o governo do estado e mudado a correlação de
forças a nosso favor.

A concepção reformista não procura decisão pela luta direta dos interessados, o que
pode fugir do seu controle, mas pelos intermediários. O movimento popular e sindical
é grupo de pressão enquanto os agentes parlamentares decidem e ganham os créditos.

SL: Qual tem sido o papel da imprensa gaúcha nos episódios de violência policial?

MF: Das mídias burguesas foi evidentemente de uma desinformação criminosa. Os grupos
dominantes da comunicação são parte fundamental de uma estrutura de poder que pôs na
agenda da política a criminalização do protesto e da pobreza.

SL: Que papel tem uma organização política anarquista num momento como este?

MF: Somos uma pequena organização dentro desse cenário, contudo fizemos nosso lugar
nas lutas que fizeram pauta na sociedade. Estar junto com os que lutam deve ser um
lema dos anarquistas, em qualquer lugar. Lutar contra um governo corrupto e
neoliberal e defender resolutamente as liberdades públicas, apostando na força
social das ruas, na ação direta popular é nossa razão de ser. É aí que se abre
perspectiva libertária, que se geram relações de força para formas de poder popular
contra os intermediários reformistas.

SL: Vocês têm recebido solidariedade de fora do RS, como têm sido isso?

MF: Muita, muita solidariedade. De todos os cantos do Brasil, de nossa América
Latina e do Mundo. Logo depois da invasão da polícia na sede da FAG, em poucos dias,
se fizeram atos solidários no Uruguai, na Argentina, na Espanha, na França, etc...
Distintos grupos, organizações, militantes, meios alternativos e libertários nos
fizeram chegar seu apoio. Somos muito agradecidos por todos e todas que nessa hora
se moveram por essa causa.

SL: O que esperar para o dia 19 de julho?

MF: Mobilização da FAG e de todos e todas que sejam solidários, ou que façam causa
comum na pauta contra a criminalização do protesto. No dia 19 de julho estaremos
concentrados para um ato de protesto. Não reconhecemos a acusação de calúnia e
difamação que a governadora nos imputa. Estaremos até o fim por justiça e punição
dos responsáveis pelo assassinato de Elton Brum.

SL: Palavras finais?

MF: Não tá morto quem peleia!!!


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