(pt) [Entrevista aos editores do periódico venezuelano] Conversando com El Libertario*

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Domingo, 13 de Setembro de 2009 - 12:48:50 CEST


* Resumo e síntese de duas entrevistas realizadas em 2009, a direção
coletiva da publicação anarquista venezuelana.

-- Quem são vocês?

ºº El Libertario é um jornal publicado desde 1995 (56 números até junho de
2009), que visa informar sobre a teoria e prática anarquista na América
Latina e no mundo, assim como apoiar o que de libertário se tenha nos
movimentos sociais em nosso âmbito. Não recebemos – nem queremos receber –
nenhum tipo de subvenções do Estado ou outra instância de poder
hierárquico. Nossa atividade é 100% autogestionada. Esta publicação se
inspira no ideal antiautoritário do anarquismo e é promovido pelo Coletivo
Editor do El Libertario, grupo de afinidade aberto à participação e
colaboração de pessoas com atitudes e postulados libertários, num ambiente
de respeito mútuo e sem nenhum dogmatismo. O critério central de afinidade
é compartir o ideal anarquista, pela construção de uma sociedade baseada
na democracia direta, justiça social, autogestão, apoio mútuo e o contrato
livre sem a imposição autoritária da lei nem da força, entre outros
valores. Além de ser um grupo de propaganda, tentamos animar a existência
de um movimento libertário em nosso país, mas para isto pressupomos que
deva existir uma série de movimentos sociais de base, autônomos e
beligerantes, como condição necessária para a expansão das idéias e
práticas libertárias em nosso meio. Por esta razão nos vinculamos com
diferentes organizações sociais de base, as acompanhando em suas lutas
contra o poder hierárquico e pelos direitos humanos. Mesmo assim, alguns
de nós, fazemos o trabalho de investigação e reflexão teórica. Também
impulsionamos atividades de promoção de uma cultura autogestionária como:
mostras audiovisuais, debates, ou a Primeira Feira de Livros e Vídeos
Libertário, pautadas para Novembro de 2009 em Caracas. Por último, na
medida de nossas afinidades e possibilidades, participamos em campanhas
como a realizada no ano passado pelos 20 anos do massacre de El Amparo.
Mais detalhes sobre nós, como atuamos e o que pensamos estão disponíveis
em nosso sítio de internet www.nodo50.org/ellibertario e nas edições
impressas do jornal.

-- Qual é a posição do El Libertario frente à denominada revolução
bolivariana?

ºº Entendemos que o que tem acontecido na Venezuela desde 1999 tem sido
uma infeliz mistura de caudilhismo descarado e capitalismo de Estado, com
base na abundância da renda petroleira. Nossa análise aponta a que o
chamado governo bolivariano é uma continuação, e não uma ruptura, da crise
da democracia representativa na Venezuela e seu modelo econômico baseado
na exploração energética. Houve uma ‘revolução’ já que nosso modo de vida
foi desarticulado em muitos sentidos, mas o que vemos em construção
anuncia claramente resultados negativos para @s explorad  s e oprimid  s e,
portanto, permitir sua consolidação é tornar as coisas mais difíceis de
mudar. As transformações que @s anarquistas pretendem caminham sob rumos
muito diferentes do que se tomou este ‘processo’, que com mais de 10 anos
ao leme se mostra repleto de autoritarismo, em aliança vergonhosa com o
capital transnacional (via associação nas empresas mistas que controlam as
reservas petroleiras do país), burocraticamente ineficaz, estruturalmente
infectado de corrupção, com orientações, personagens e atitudes que não
podemos avalizar. 

Temos investigado, documentado e denunciado o referido papel assinado à
Venezuela na globalização econômica, que não é nada mais do que fornecer,
de maneira segura, barata e confiável, recursos energéticos ao mercado
mundial. Como nenhum outro no passado, este governo de retórica
nacionalista e esquerdizante tem sido muito eficaz em instruir a sociedade
a aceitar seu papel de submetimento ao negócio petroleiro global, e
agradecer servilmente as migalhas recebidas enquanto se mantêm como uma
das distribuições de riquezas mais injustas do continente. É assim que as
preocupações ambientais sobre os efeitos da exploração de hidrocarbonetos
e minerais se converteram hoje em tabu e politicamente incorretos. O
regime bolivariano desenvolveu um impressionante aparato de propaganda
para vender as supostas bondades de suas políticas sociais, mas os dados e
a própria realidade demonstram que se houveram melhoras em algumas
dimensões concretas e programas do governo pontuais – pretexto da ação
estatal para atribuir sua pretensa legitimidade em qualquer parte do mundo
– a situação do coletivo não melhorou significativamente, apesar de haver
contado neste último decênio com as rendas fiscais e petroleiras mais
altas da história do país para um lapso similar, que serviram para elevar
a “boliburguesia” ou burguesia bolivariana que cresceu à custa do poder
oficial. Muito de tudo isso nós demonstramos em nossa publicação,
procurando citar fontes e dados do próprio governo, e como exemplo do
agravamento da crise dos de baixo recordamos que a Venezuela possui um dos
maiores índices de homicídio do continente, podendo contar com 14.000
mortes por dita causa no ano de 2008. Isto já nos dá uma idéia  sobre a
extensão de um clima de violência que está refletindo na desintegração
desta sociedade, tendência esta que se reverteria, ou ao menos se
conteria, se experimentássemos algum tipo de mudança que estivesse
beneficiando realmente a população. 

-- O chavismo chama a unidade progressista para enfrentar o golpismo
oligárquico e o imperialismo. Que tal se com este propósito se
estabelecesse uma aliança estratégica e mais adiante, derrotados esses
adversários, tratar de fazer a revolução anarquista?

ºº As alianças estratégicas são um modo de ação política para ganhar o
controle do Estado por quem os integre, enquanto que @s anarquistas buscam
dissolver o Estado com a participação de tod  s. A derrota do que se chama
reação e oligarquia (motes com claros objetivos propagandísticos) somente
serviria para consolidar no poder os vencedores, aqueles que
necessariamente formariam uma nova oligarquia porque assim impõe a lógica
do poder estatal, como aconteceu na URSS, China ou Cuba. Isto tornaria
mais difícil a revolução anarquista e a Espanha de 1936 foi um exemplo.
Também é inexato identificar o projeto chavista como que em oposição ao
golpismo, quando seu desejo original era de dar um golpe militar, e
constantemente se orgulha de sua identificação com as linguagens e
práticas de quartel. Em relação à sua luta com o imperialismo, se
prestarmos atenção nas políticas propostas e implementadas no petróleo, na
mineração, na agricultura, na indústria, no trabalho, etc., parecem querer
ser escudos do império, não seus inimigos (Para detalhes precisos sobre as
relações estratégicas com o capital transnacional e os interesses
imperialistas, ver diversos artigos publicados no El Libertario).

-- O governo venezuelano declara haver propiciado uma explosão do poder
popular, com a massiva implantação e transferência de competência aos
Conselhos Comunais, organizações comunitárias e horizontais de
participação popular. @s anarquistas apóiam estas estruturas de base?

ºº O que acontece com a instauração e o funcionamento dos Conselhos
Comunais evidencia que sua existência e capacidade de ação dependem de sua
lealdade ao aparato governamental, ao qual se assegura deixando nas mãos
do Presidente a faculdade jurídica de dar aprovação ou não a ditas
organizações, entre outros mecanismos que garantem o controle oficial e se
expressam na legislação correspondente. Disto há experiência na Venezuela,
onde tantas agrupações de base (como os sindicatos, sem ir muito longe)
sempre se assemelham a bondes, que recebem correntes elétricas de cima.
Certamente, há tentativas de uma real agrupação de baixo para cima, e isto
acontece em áreas residenciais, trabalhadoras, camponesas, indígenas,
ecologistas, estudantis, culturais, etc., embora estas não contem com a
simpatia do oficialismo. Temos a impressão de que a submissão legal,
funcional e financeira dos Conselhos Comunais ante o poder estatal é um
severo obstáculo para iniciar desde aqui um movimento de base autônomo. O
mesmo pode ser visto em relação aos Conselhos de Trabalhadores para as
empresas, que são modos de anular um possível sindicalismo independente.


-- Porque @s anarquistas criticam a Força Armada Venezuelana – que
proclama sua raiz popular e nacionalista – e a sua capacidade de sustentar
um projeto revolucionário?

ºº Em todo exército moderno o grosso das tropas são recrutas dos setores
populares. Mas apesar da origem social da maioria de seus integrantes, a
razão de ser do exército é a defesa de uma estrutura de poder e seus
detentores, portanto nunca pode sustentar uma revolução em favor dos
oprimidos. No máximo, mudar um personagem por outro e mudar algumas regras
da estrutura de poder, mas não a eliminar porque o mando e a obediência é
sua essência. Por isso não respaldamos em nenhum exército, nem policia,
nem privilegiados que em seu proveito próprio podem usar das armas e da
força contra as outras pessoas. O nacionalismo não é uma postura que o
anarquismo aprova, porque implica em se circunscrever aos interesses de
certas pessoas, fechadas artificialmente por um Estado em certo
território-nação, que se consideram diferentes e até superiores aos
demais. Somos inimigos de todo tipo de privilégio por nascimento, raça,
cultura, religião ou lugar de origem. Agregamos também que, na experiência
de quem vive o dia a dia na Venezuela, pode-se evidenciar com constantes
exemplos que o amplo e privilegiado lugar que hoje têm os militares no
funcionamento da burocracia oficial, só tem aumentado a corrupção, a
ineficácia e a ignorância que geralmente tem sido a norma no aparato
estatal venezuelano.

-- O movimento contrário ao oficialismo é tão homogêneo como pretende os
defensores desse último? Há tendências distintas que atualmente lutam
contra o governo? Que relação existiria entre essas tendências?

ºº Certamente é falsa e interesseira a imagem que apresenta a propaganda
chavista de uma oposição qualificada em bloco como de “direita terrorista,
lacaio do imperialismo e controlada pela CIA”, pois embora possa existir
algum setor que esteja próximo dessa imagem, o quadro é muito mais
heterogêneo.  A oposição é herdeira do modelo político dominante anterior
a 1999, com os velhos e debilitados partidos AD (social-democrata, próximo
ao PSOE espanhol) e o COPEI (cristão-democrata, afim ao PP), somados a
outras formações cuja atribuição ideológica é bastante similar, se
contando entre elas ex-partidários do atual governo (como os partidos MAS
e PODEMOS), cuja ruptura com o chavismo teve mais a ver com as apetências
burocráticas e de poder insatisfeitas do que com os conflitos
político-ideológicos significativos. Essa oposição social-democrata e de
direita pretende – à imagem do que faz o chavismo por seu lado – se
apresentar como única opção possível assim como reduzir os problemas do
país ao âmbito político-eleitoral, já que seu interesse exclusivo é de se
apoderar do governo para manejar a seu capricho a renda petroleira. Sua
estratégia propagandística tem sido bastante eficaz em atrair iniciativas
cidadãs de base atrás de sua liderança, ao se vender como um “mal menor”
frente à ameaça autoritária no governo.

Além disso, existe um setor da população identificado com o “nem-nem”, por
não concordar nem com o governo nem com a oposição. Este grupo representa
a minoria mais numerosa do país nas pesquisas eleitorais, de modo que
todas as estratégias de captação de voto se dirigem a seduzir os “nem-nem”
com algumas das ofertas em conflito. Com sua existência se evidencia que,
apesar do que prega o confronto inter-burguês, o país não se encontra
dividido mecanicamente entre chavistas e anti-chavistas. O El Libertario
nunca se auto-identificou como uma iniciativa “anti-chavista”, pois desde
2002 que denunciamos a construção de uma falsa polarização, a fim de
hipotecar a autonomia dos movimentos de base e eleitoralizar suas
dinâmicas de mobilização. El Libertario forma parte de uma constelação,
agora dispersa e com pouca coordenação, de grupos e organizações de
esquerda anticapitalista que denunciam com igual ênfase o governo do
presidente Chavez assim como os seus oponentes na oposição midiática.
Porém como cabe supor, estas expressões são omitidas pelas forças que têm
o interesse de deixar perceber a existência de somente dois bandos em
conflito. Os sinais de existência dessas outras alternativas que da luta
com os de baixo tentam romper com o eleitoralismo, está se fazendo notar
nos últimos dois ou três anos, quando pouco a pouco a manifestação dos
conflitos sociais faz vislumbrar aos trabalhadores, indígenas, camponeses,
estudantes, vítimas da violência institucional e criminal, pessoas sem
lugar para morar, etc., que da luta pelo poder estatal não sairá a via de
solução de seus problemas, como não aconteceu nesta década de suposta
revolução, nem antes em 40 anos de enganosa democracia representativa. 

-- Por acaso @s anarquistas venezuelan  s são “esquálidos” (apelido no qual
o chavismo faz alusão aos seus oponentes) e, portanto, apóiam a oposição
socialdemocrata e de direita?

ºº Esquálido é uma qualificação meramente midiática, depreciativa em seu
uso político oficial e com ar de ordem, que nada diz sobre quem assim se
qualificam. Mas, se em todo caso com ela se quer assinalar aquelas pessoas
que não admitem ceder sua liberdade e autonomia para se submeterem à
imposição autoritária de uma pessoa, de um partido, de uma ideologia,
então o somos. E se isso significa que erguemos correntes identificadas
com o liberalismo econômico, com o desprezo quase-racista das elites às
maiorias, com a estafa da democracia representativa e o retorno a formas
de organização sócio-políticas superadas pela história, então não somos.
Repudiamos o regime de Chávez e seus adversários eleitorais; podemos
coincidir com algumas das ações de uns e outros, com algumas declarações
de uns e outros, mas fundamentalmente criticamos a maioria dos feitos e
discursos de uns e outros. Rechaçamos a frustração repetida das esperanças
das pessoas que apoiaram a Chávez, mas recusamos a convalidar as manobras
politiqueiras do grupo de oportunistas que servem de oposição
institucional. E sobre tudo, não podemos, por razões de princípio,
respaldar naqueles que fundamentam a busca de uma vida melhor através da
subordinação das pessoas sob uma hierarquia estatal, como pretendem ambos
os lados.

-- Que atividades e reivindicações estão promovendo @s libertári  s
venezuelan  s?

ºº O movimento anarquista local, atual, tem vida curta, que quase se
confunde com o tempo de publicação do El Libertário, de modo que nos tocou
durante esses anos a lidar com os autoritarismos do governo e dos partidos
opositores, pois ambos são igualmente alheios à nossa proposta. Temos
enfrentado enormes obstáculos tanto para nos assentar como uma opção
reconhecível como para inserirmos nas lutas sociais concretas; mas nossa
tenacidade rendeu seus frutos e a prova disto poderá ser obtida revisando
as páginas das diferentes edições do El Libertário (muitas estão
disponíveis no nosso website), particularmente as recentes, que tratam
sobre como se vem abrindo espaços para prometedoras conexões entre o
ativismo anarquista e as mais dinâmicas expressões de mobilização social
que existe hoje na Venezuela, pois buscamos nos relacionar com os
conflitos mais sentidos e as reivindicações do coletivo, promovendo a
autonomia dos movimentos sociais e acompanhando seu desenvolvimento. Para
isto estamos construindo afinidades e coordenações diversas com movimentos
e iniciativas de base e grupos anticapitalistas, entre os quais
mencionaremos o Comitê de Vítimas contra a Impunidade de Lara, a Casa da
Mulher “Juana la Avanzadora”, o grupo de estudos “Povo e Consciência” de
Maracay, a União Socialista de Esquerda e a tendência sindical CCURA, o
grupo Terceiro Caminho do ex-guerrilheiro Douglas Bravo, diversos
sindicatos do setor público de saúde, organizações de direitos humanos,
iniciativas juvenis e coletivos ecologistas.

-- Quais são as correntes que se manifestam no movimento libertário
venezuelano?

ºº A cena anarquista venezuelana é ainda muito pequena e de existência
bastante recente para que a gente possa falar de correntes no mesmo
sentido em que esta expressão é entendida na Europa. Sem dúvida @s
ativistas tem diversas afinidades de ações e de pensamento, mas isto não
faz com que se diferenciem de uma maneira em que se separem um d  s outr  s.
Além disso, o feito mesmo de realizar atividades libertárias onde há pouco
tempo atrás não existia, e nas circunstâncias que antes assomamos, na
verdade tem sido um estímulo para que @s pouc  s anarquistas se mantenham
unid  s.

Quis se apresentar – especialmente para o exterior – uma divisão entre os
anarquistas locais na qual havia, de um lado, “anarco-chavistas” ou
“anarquistas-bolivarianos”, que acham que o processo revolucionário em
curso permite avanços para a causa libertária, enquanto de outro, nós,
seríamos os “anarco-liberais” ou “anarco-dogmáticos”, porque não
reconhecemos estes avanços, de modo que, pelo fato de nos opormos ao
governo progressista, nos julgam a favor do império e da reação
direitista, fazendo uma simplificação grotesca do que viemos dizendo no El
Libertário.  Obviamente, semelhante impostura sobre a Venezuela e a
situação d  s anarquistas locais somente podem se sustentar na ignorância,
na cegueira, na má fé e na provocação. Há pessoas que em algum momento se
consideram a si mesmas anarquistas, mas agora proclamam a suposta
excepcionalidade histórica do caso venezuelano, repudiando ou adulterando
a essência liberaria, anti-autoritária e autogestionária do ideal ácrata,
de modo que mesmo quando seguem se auto-identificando como anarquistas, é
evidente que deixaram de sê-lo. Por outro lado, coincidentemente, a
maioria dessas pessoas são funcionárias do atual Estado, ou recebem algum
tipo de subsídio econômico governamental para as suas atividades, o que já
deixa bastante a desejar sobre a intensidade de sua filiação libertária.
Para nós, que revimos o ocorrido em situações parecidas no continente,
isto se repete com algumas excentricidades o que aconteceu na Cuba de
Castro ou na Argentina de Perón, onde houve tentativas do poder para
cooptar e dividir o movimento anarquista.

Em todo caso, como qualquer anarquista em qualquer parte do mundo pode
refletir um pouco, sendo coerente com o ideal que defendemos e com um
mínimo de informação sobre o caso venezuelano, se dará conta da
incongruência absoluta de se declarar anarco-chavista ou
anarco-bolivariano, pois é uma contradição tão óbvia como se proclamar
“anarco-estatista”. Adicionalmente, convidamos as pessoas para conhecerem
não somente as opiniões do El Libertario, mas sim de todas as iniciativas
anticapitalistas que vem denunciado o chavismo por sua pretensão
autoritária e por beneficiar os setores mais agressivos da atual economia
global. Portanto, o melhor seria, se estiver visitando a Venezuela, ver a
realidade escondida atrás do espetáculo pseudo-revolucionário bolivariano.

-- Atribuir a estes defensores do regime chavista tais características,
não é por acaso uma acusação contrária ao espírito anti-dogmático do
anarquismo?

ºº O anarquismo não é um estado anímico, é um modo de enfrentar as
circunstâncias sociais em transformação buscando o bem-estar de cada um no
seio do bem estar de todos, com propostas que surgem de pessoas concretas
e são discutidas, adotadas ou rechaçadas pelos demais em determinadas
circunstâncias espaços-temporais.  Qualquer um pode se autodenominar
anarquista, mas somente a mútua interação é que nos situa, e são @s demais
anarquistas quem irão determinar como pertencendo ou não ao movimento,
segundo nossas condutas e nossas idéias. Como não somos perfeitos, podemos
adotar condutas ou defender idéias que o coletivo não aprova. Isso não faz
de ninguém ser mais ou ser menos, nos faz diferente, embora às vezes essa
diferença seja tal que se torna insuportável para os demais e estes deixam
de reconhecer como seus.

-- Vocês têm relações com outr  s anarquistas da América Latina e do mundo?

ºº Sempre nos preocupamos em estabelecer o mais amplo contato com @s
anarquistas do exterior, em particular com nossos afins do âmbito
ibero-americano. Em primeiro lugar porque como nossa experiência é mais
recente, queremos nos nutrir do que foi e é a trajetória da anarquia em
outros cenários, mas também porque aspiramos compartir nossas andanças,
nossas realizações, nossas dúvidas, nossas certezas, nossos sucessos e
tropeços, pois quem melhor que os companheiros para isso!...em termos mais
concretos, essa relação tem se expressado na difusão que tem havido nossa
publicação impressa, que nos orgulha (e nos incentiva!) dizer que tem sido
o periódico anarquista latino-americano mais amplamente distribuído do
continente em tempos recentes, pois seus 2000-2500 exemplares por edição
não somente chega a diversos lugares da Venezuela, mas também regularmente
é enviado a uma dúzia de países.  Outro dado significativo é que nossa web
já supera as 160.000 visitas registradas, com uma média diária de 50 a 80
consultas. Além do mais, mencionamos a afinidade de vínculos pessoais
diretos com pessoas libertárias de todo o planeta. Tudo isso se traduz em
um fluxo contínuo de relação e intercâmbio com o movimento anarquista
internacional, que é para nós uma fonte constante de desafios e
satisfações.

-- Quais são as atitudes do governo frente às agrupações e
individualidades anarquistas que não conseguem controlar?

ºº Embora não exista ainda uma repressão específica contra o anarquismo, o
Estado venezuelano vem avançando em uma política de controle e sujeição a
qualquer manifestação de dissidência radical que questione e combata as
bases do atual sistema de dominação política e econômica. Isto de nenhum
modo é diferente do que é feito em outros Estados no resto do mundo, mesmo
quando aqui se queira mascarar sob uma fraseologia de revolução,
socialismo e poder popular. Portanto, na medida em que nós anarquistas
participamos nas lutas sociais e promovemos seu desenvolvimento autônomo
frente ao poder autoritário, nos vemos submetidos à mesma onda repressiva
que paira atualmente sobre as expressões do movimento popular que negam
aceitar que na vontade do Comandante Chávez esteja a salvação coletiva.

Neste sentido queremos dar um maior enfoque à criminalização e repressão
contra o protesto social realizada pelo governo atual. Durante os anos de
2002 e de 2004, com a desculpa do golpe de Estado, foram realizadas
modificações em diversas leis, como o Código Penal e a Lei Orgânica de
Segurança Nacional, que penalizava o fechamento de ruas e a realização de
greves nas chamadas empresas básicas. O que se vendeu como “repressão para
os golpistas” agora está afetando às comunidades que se mobilizam por seus
direitos. Segundo cifras levantadas pelos sindicatos, o movimento camponês
afeto ao governo e às organizações de direitos humanos, há aproximadamente
1200 pessoas submetidas a regimes de apresentação nos tribunais por ter
realizado protestos.

Por outro lado, o governo não precisa realizar, em primeira instância, a
repressão direta contra as manifestações, pois emprega organizações
paraestatais, intituladas como “poder popular”, que fazem uma pressão
psicológica e física sobre o descontentamento com o pretexto de
“neutralizar a sabotagem à revolução”, o que sem dúvidas faz lembrar
estratégias similares ocorridas em outros países. Se as manifestações
perseverar ou alcançar notoriedade, o Estado apela para a polícia e os
militares, com os resultados conhecidos em qualquer parte do mundo:
repressão violenta com saldo trágico de mortes e lesões. É assim que
fazem, como aconteceu no passado 20 de Março de 2009 onde assassinaram um
sem-teto, José Gregorio Hernández, em uma desocupação em Anzoátegui, e em
30 de Abril de 2009 assassinaram um estudante, Yusban Ortega, em Mérida,
só para citar casos recentes. É neste contexto que o governo qualifica de
“contra-revolucionária, promovida pela CIA e o imperialismo” a qualquer
expressão de descontentamento, uma estratégia que se foi bem efetiva no
passado, mas agora perdeu parte de sua efetividade e os cidadãos, vencendo
o medo, vêm se animando para protestar por melhores condições de vida.

-- El Libertario publicou recentemente vários artigos denunciando a
repressão sindical por parte do governo. Pode nos falar deste assunto?

ºº Casos como o dos trabalhadores da Mitsubishi assassinados no final de
janeiro de 2009 pela polícia “socialista e bolivariana” do governador
chavista em Anzoátegui, ou o caso dos três sindicalistas mortos em Aragua
em 27 de Novembro de 2008 sob circunstâncias extremamente suspeitas, são
apresentados pela propaganda governamental – igualmente a outros exemplos
de repressão – como uma exceção alheia à política do Estado, ou como
conseqüência de provocações e/ou infiltrações que procuram turvar a imagem
oficial. Mas já denunciamos detalhadamente no El Libertario que essa é a
aplicação de uma orientação em que se comprometeu o atual Estado
venezuelano – fiel às suas origens de golpismo militarista e à orientação
ideológica que buscou inspiração na ditadura de Castro em Cuba - que, sob
a máscara do socialismo do século XXI, quer impor, tanto pela via do
garrote como pela via da cenoura, um modelo de controle autoritário sobre
a sociedade que é realizado em acordo e com a bênção de seus sócios do
capital transnacional. Hoje, com a crise econômica do capitalismo global,
os recursos para controlar com a cenoura se tornam cada vez mais escassos
na Venezuela também, apesar da riqueza petroleira, por meio do qual com
toda diligência esta caindo sobre as costas dos oprimidos “o pau do povo”
que Bakunin previu como recurso inevitável dos autoritários que se
proclamam de esquerda.

Com relação ao respondido na pergunta anterior, recordamos a situação dos
“14 de Sidor”, grupo de trabalhadores que junto com o regime de
apresentação está sendo julgado por “apropriação indevida qualificada e
restrição à liberdade de trabalho” por protestar por suas condições
laborais, o que podia significar para eles uma pena de 5 a 10 anos de
prisão (mais informações em
http://www.nodo50.org/ellibertario/descargas/solidaridad_camila.doc).
Neste ponto, devemos denunciar que de cima estão tentando construir,
artificialmente, centrais sindicais controladas pelo partido do governo, o
PSUV. Esta manobra aprofundou a crise histórica no setor e reforçou a
presença dos “sindicaleiros”, que vivem à custa de vender os direitos dos
trabalhadores frente aos patrões.

Além disso, temos as disputas entre sindicatos pela distribuição de postos
de trabalho, uma particular “conquista” das contratações coletivas nos
setores petroleiros e de construção, onde os sindicatos controlam uma alta
porcentagem da atribuição de empregos. Se bem que esta situação é anterior
ao governo Chávez, a degradação atual do sindicalismo, incentivada pelo
poder estatal, o levou a esferas dramáticas, e é dessa forma que, como no
ano de 2007, um total de 48 pessoas, em sua maioria sindicalistas, foram
assassinadas por conflitos relacionados com a obtenção de empregos, sendo
29 mortes a cifra de 2008. Por outro lado, são bastante conhecidas as
declarações presidenciais atacando a autonomia das organizações sindicais,
assim como as pressões aos empregados públicos para aderirem ao PSUV e
participarem “voluntariamente” em manifestações a favor do governo.

É incrível que a demissão de pessoas por não serem afeitas à visão
política oficial encontre justificação nas pessoas que se consideram a si
mesmas “revolucionárias”. Recorda-se a publicação do censo de eleitores de
oposição, a chamada “Lista de Tascón” (em homenagem ao deputado que a fez
pública), com que se discriminou, como política sistemática, a quem ali se
identificava como adversos ao governo. A propaganda oficial vocifera que a
Venezuela tem o salário mínimo mais alto do continente, mas se cala quando
os dados mostram que 18% dos trabalhadores ganham menos que isso, e 50%
recebem entre 1 e menos de 2 salários mínimos, no  país com a inflação
mais alta do continente na década em curso.  No entanto, hoje vemos com
esperança como, progressivamente, mais trabalhadores e trabalhadoras, de
diferentes setores, perderam o medo ao serem criminalizados e estão saindo
às ruas para ganhar seus direitos mediante a luta.

-- Certas críticas apontam que o anarquismo somente fica pregando sem
oferecer nada construtivo. Qual é a proposta do El Libertario para
transformar positivamente a atual realidade venezuelana?

ºº Nossa luta não é nem conjuntural nem de circunstâncias, mas sim por uma
nova modalidade que adotamos para a vida coletiva e individual, onde a
ação direta e a autogestão faz que nossa existência esteja em nossas
próprias mãos, sincera e honestamente, nos educando no estudo e na relação
com @s outr  s, sabendo que nossa liberdade se estende com a liberdade do
outr@, respeitando a igualdade já que as diferenças não criam
superioridade, tendo sempre em mente que nossa vida só é possível graças
aos outr  s, cujos interesses devemos atender prioritariamente para assim
poder alcançar os próprios, aos que não devemos renunciar porque aspiramos
desfrutar de uma existência plena. Cada um@ vive sua vida e é responsável
por ela perante a si mesmo e perante os outros, mas ninguém pode assumir
nossa “salvação”. Portanto, não temos uma receita “pronta”, pois as
propostas e ações revolucionárias devem ser resultado de um esforço
coletivo consciente e contínuo, para o qual procuramos aportar nossa
participação entusiasta, promovendo e potencializando a recuperação da
autonomia por parte dos movimentos sociais do país, onde será possível o
espaço de tensão necessário para o desenvolvimento e a influência das
idéias anarquistas de liberdade e igualdade em solidariedade.

-- Algo mais a acrescentar?

ºº Para nos contatar por e-mail, nossos endereços são
ellibertario  nodo50.org e ellibertario  hotmail.com. Além do mais,
repetimos o convite para visitar nosso sítio de internet
www.nodo50.org/ellibertario. Gostaríamos de agradecer esta oportunidade de
difundir nossa voz, pois estamos comprometidos com a ação social autônoma
d  s oprimid  s e explorad  s na Venezuela, assim como difundir as lutas sem
condicioná-las aos interesses do poder do Estado e do Capital. Tod  s
aqueles que leram esta entrevista e que desejam colaborar com a realização
da Primeira Feira do Livro e Vídeo Libertário que vai ser realizada em
Caracas, entrem em contato, é só escrever para
feriaa.caracas2009  gmail.com. Saúde e Anarquia para tod  s!...

[Traduçaõ: Marcelo Yokoi]







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