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Quarta-Feira, 7 de Outubro de 2009 - 17:10:57 CEST


Representando o projeto anarkismo.net, este ano tive o privilégio de
participar da 8ª Conferência Anual do Ação Autônoma, um grupo anarquista
com coletivos espalhados por toda a Rússia, Bielorússia e Ucrânia
A conferência foi realizada em um lugar secreto nos Montes Urais, onde foi
montado um acampamento com o que laboriosamente foi transportado numa
caminhada de 6 horas morro acima. Essa precaução era necessária por causa
da polícia, e também porque forneceu alojamentos econômicos num país em
que a pobreza está bastante generalizada.
O local do acampamento era maravilhoso; localizado em um intacto bosque de
coníferas vibrando com a vida selvagem, mas boa parte formada por uma
variedade de insetos. O/as companheiro/as foram os mais fantásticos
anfitriões, indo e vindo várias vezes para que eu me sentisse bem vinda,
apresentando as pessoas, encontrando tradutores para mim, levando às suas
casas antes e depois da conferência e em geral cuidando muito bem de mim
durante a minha estadia.
Durante a longa viagem ao local do acampamento o/as companheiro/as puderam
me explicar algumas coisas sobre a história recente do Anarquismo Russo no
qual achei muito interessante. Após serem totalmente aniquilado/as pelo
movimento Bolchevique que se seguiu à Revolução Russa, o/as anarquistas na
Rússia Soviética, nos anos 80, tiveram que encarar a tarefa de reconstruir
um movimento do nada, quando a política da Perestroika de Mikhail
Gorbachev uma vez mais permitiu a oposição política. Não foi uma tarefa
fácil, dado que o número de anarquistas vivos em um país maior que a
Europa poderia literalmente ser contado numa só mão. A primeira tarefa
do/as anarquistas nos anos 80 foi, portanto, atuar nas iniciativas de
propaganda para informar às pessoas sobre a filosofia anarquista.
Como em outros países, o movimento anarquista foi muito influenciado pelos
movimentos subculturais como o punk. O movimento ambiental também tem sido
uma grande influência. Em particular os Rainbow Keepers, um equivalente
russo do Earth First!, ativos nos anos 90, influenciados pelas idéias e
princípios organizacionais anarquistas e tem sido uma base para
popularizar as idéias anarquistas entre ativistas.
A coordenação dos grupos que levou à formação do Ação Autônoma (siglas
A.D. em russo) começou mais ou menos em 2000, como tentativa de organizar
os elementos difusos da atividade anarquista em uma federação capaz de se
defender e se coordenar de uma forma mais organizada.
O Ação Autônoma tem agora cerca de 120 membros. 12 grupos enviaram
delegados para a Assembléia Geral representando as cidades de Tyumen, Ufa,
Nizhni Novgorod, Moscou, Irkutsk, Magnitogorsk, Novosibirsk, Barnaul, e
Minsk. Além disso, dois novos grupos de Cheboksary e Kazan foram admitidos
na federação durante a assembléia, e também uma individualidade que veio
de São Petersburgo.
Também estavam presentes como convidados membros da União de Jovens
Autônomos, a ala jovem da Confederação Siberiana do Trabalho (SKT), um
sindicato com aproximadamente 6.000 filiado/as, principalmente na área de
controle de tráfico aéreo, saúde e transporte público. 48 pessoas
estiveram presentes no total.
No Ação Autônoma, as individualidades e os grupos devem aceitar seguir o
manifesto e os princípios organizativos. Foi aprovada uma proposta durante
a conferência de que os membros devem se abster de expressar publicamente
opiniões que contradigam as posições que foram postas em acordo no Ação
Autônoma. Fora isso estes grupos têm uma grande autonomia para adaptar a
atividade às suas condições locais.
Os projetos locais e as campanhas são decididas na conferência, mas a
participação dos grupos locais não é obrigatória. As resoluções das
atividades conjuntas têm o status de “recomendações”. A conferência
aprovou vários projetos conjuntos, incluindo a publicação de um manual
ativista “Como fazer...” e uma campanha nacional contra o Centro de
Prevenção do Extremismo, que é uma iniciativa policial contra o/as
ativistas.
As decisões são feitas a nível nacional de três formas: por votação ou
consenso entre delegados do grupo, por conferência ou por referendum entre
os membros.
O conselho de delegado/as é realizado a cada duas semanas através da
internet. Espera-se que cada grupo se reúna regularmente para discutir a
ordem do dia e que eleja um/a delegado/a. O conselho de delegado/as tem
poderes limitados comparados com a conferência, por exemplo, não podem
mudar nenhuma regra, admitir coletivos ou expulsar alguém.
A conferência caso seja possível toma as decisões por consenso, ou por
votos de 2/3 caso não seja. Os membros não presentes não podem votar.
O referendum dos membros permite que as decisões sobre os temas
importantes não sejam tomadas entre as conferências. Podem ser iniciadas
por qualquer grupo e decididas em um mês. Como na conferência, se busca
primeiramente chegar num consenso. O período permitido para se alcançar um
consenso é de um mês, após este prazo é aceito uma votação de maioria de
2/3. Este período é mais curto do que o anterior, já que o acesso à
internet na região chegou ao ponto onde todos os grupos têm ao menos um
membro que tem acesso à internet. Isto está melhorando a eficiência na
tomada de decisões.
A conferência começava a cada manhã com um entretenimento físico. Estou
envergonhada de dizer que nunca soube no que isto implicava, considerando
que a marcha pelas montanhas do primeiro dia já foi bastante dura,
preferindo passar as minhas manhãs molhando tranquilamente os pés no rio.
A programação logo continuou com uma discussão sobre vários temas, muitas
vezes se estendendo até a noite. Os temas eram: antifascismo, Cruz Negra
Anarquista, a crise econômica e treinamentos para lidar com a polícia.
Também houve decisões sobre propostas nacionais. Estas eram em geral de
natureza administrativa, mas também houve propostas para um programa de
ações conjuntas. Discutiu-se a estratégia e a direção que o Ação Autônoma
deveria tomar no futuro.
Grande parte da conferência foi dedicada aos informes de cada grupo sobre
suas atividades e a situação na região, seguida de debates e sugestões.
Isto proporcionou um panorama extremamente interessante sobre a atividade
e o trabalho do Ação Autônoma. Fiquei impressionada pelo tom de respeito e
companheirismo dos debates e a vontade do/as participantes de escutar
críticas construtivas.
A maior parte dos grupos dedicou um tempo significativo em seus informes
ao antifascismo e às atividades da Cruz Negra Anarquista. O movimento
fascista na região é bastante grande embora se desconheça o número exato,
já que muitos fascistas estão organizados de forma descentralizada em
gangues de rua.
O movimento neonazi adota uma via radical ao invés de parlamentar, e tem a
idéia de criar uma superioridade nas ruas e destruir toda oposição
política como passo prévio para tomar o poder estatal. O popular lema
“Rússia para os russos” é saudado através de ataques contra os imigrantes.
A existência dessas agrupações claramente necessita de uma resposta
militante do movimento anarquista. O/as companheiro/as reportaram que a
violência está aumentando, freqüentemente envolvendo o uso de facas onde
antigamente só se usava os punhos.
A nível nacional, 9 companheiro/as foram assassinados pelos fascistas no
últimos anos: Nikolay Girenko, Timur Kacharava, Aleksandr Ryukhin,
Stanislav Korepanov, Ilya Borodaenko, Fyodor Filatov, Stanislav Markelov,
Anastasia Baburova e Ilya Dzhaparidze.
Destes, Timur Kacharava, Ilya Borodaenko e Anastasia Baburova eram
anarquistas, e Ilya e Anastasia também eram membros do Ação Autônoma.
Há um racismo muito grande na sociedade em geral contra as pessoas do
Cáucaso e da Ásia Central que os racistas conseguem explorar. Um
companheiro me contou que muitas pessoas mais estariam envolvidas nos
movimentos fascistas se não fosse pelo fato de os anos soviéticos terem
engendrado um sentimento de cinismo a qualquer tipo de expressão política!
Somente alguns poucos grupos foram capazes de informar sobre a
superioridade nas ruas ou progressos para evitar a organização dos
fascistas. A experiência anarquista mais comum é de ser localmente
ultrapassada em número pelos fascistas. O nível de atenção do Estado sobre
o/as anarquistas é alto também. O movimento tem preso/as político/as e
muitos grupos têm experienciado o acosso do Centro de Prevenção de
Extremismo. Isto se reflete em partes devido às táticas militantes
empregadas pelos antifacistas, mas não se explica totalmente por isto.
Embora os delegados de Ufa reportarem que o ativismo político em geral se
distingue do antifascimo militante e é tolerado localmente, esta
experiência não é representativa e de qualquer maneira é somente um
desenvolvimento recente lá.
Portanto, não surpreende que a participação na Cruz Negra Anarquista seja
uma atividade muito habitual para os membros do Ação Autônoma. Entre as
atividades da Cruz Negra Anarquista estão: recolhimento de dinheiro para
honorários de advogados, recopilação e publicação de informações sobre
preso/as, educação de ativistas em direitos legais básicos, táticas para
lidar com a polícia e apoio de resistência ao/às preso/as.
A atividade da CNA está coordenada com a do Ação Autônoma mediante listas
de correio. Pelo visto isto não está sendo totalmente eficaz e foram
informadas dificuldades em obter informação precisas. Foi feita a proposta
de delegar a responsabilidade de algumas tarefas para certas pessoas, mas
se decidiu que não, para evitar criar uma elite de ativistas da CNA e para
favorecer a responsabilidade coletiva.
Além do antifascismo e dos grupos da CNA, os coletivos informaram sobre
uma ampla gama de atividades como: campanhas de direitos animais,
campanhas ambientais, produção de propaganda e clube de cinema,
iniciativas do Comidas Sim Bombas Não, tentativas de organizar os
trabalhadores das fábricas, inquilinos, sindicatos estudantis e fazer
campanhas sobre assuntos cotidianos como o preço do transporte público.
Os anarquistas, em particular em Ufa estão envolvidos com temas LGBT. A
Rússia é um país bastante conservador socialmente e os direitos das
pessoas LGBT nem sempre são respeitados. Por exemplo, uma marcha do
Orgulho Gay em Moscou esteve sujeita a uma contra-manifestação de membros
da Igreja Ortodoxa e outros reacionários.
O/as anarquistas parecem ter alcançado um maior apoio popular nas
campanhas ambientais, logicamente, já que há tantos projetos públicos que
são danosos às pessoas locais assim como ao meio ambiente em geral.
É justo dizer, no entanto, que a busca de organização social e trabalho em
campanhas muitas vezes ficam em segundo plano devido à necessidade de
sobreviver e de autodefesa. Não é uma crítica ao Ação Autônoma, que me
surpreendeu por conseguir manter com êxito uma organização decente baixo
tamanha repressão. Um delegado, em uma região bastante abandonada,
informou que “tudo que fazermos é pendurar faixas e lutar para
sobreviver”.
Outros delegados comentaram sobre os desafios organizacionais cada vez
mais difíceis enfrentados pelos grupos como conseqüência da repressão da
polícia e dos neonazis.
Mas o Ação Autônoma parece capaz de responder eficazmente a estes
desafios, mas a solidariedade de outros países é com certeza muito
bem-vinda! A conferência deu a impressão de um movimento pequeno, mas que
está muito centrado e bem organizado. Um compa comentou que embora a
filiação esteja sempre em torno de 100 pessoas, nos últimos anos a
qualidade do/as participantes cresceu em seriedade e autodisciplina.
De todas as formas um grupo fantástico de companheiro/as! Só posso
terminar a reportagem agradecendo toda a hospitalidade numa semana
inspiradora e informativa.
Ellenor Hutson / Liberty & Solidarity
http://avtonom.org/
Tradução > Marcelo Yokoi
agência de notícias anarquistas-ana


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