(pt) Neno Vasco , Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mun dos

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Segunda-Feira, 29 de Junho de 2009 - 14:48:35 CEST


Publicado em Portugal o livro Minha Pátria é o Mundo Inteiro, de Alexandre
Samis, retrata com profundidade e seriedade a biografia de Neno Vasco,
importante anarquista luso-brasileiro que teve relevante participação no
movimento sindical de sua época. Por meio da vida do militante, o leitor
conhecerá, além do contexto histórico de Brasil e Portugal, significativa
parte das discussões que permearam o universo libertário no período. O
livro é uma obra obrigatória para aqueles que se interessam pela história
do anarquismo e das próprias mobilizações populares do início do século
XX.
Aqui, apresentamos uma pequena resenha escrita para o periódico A Batalha,
de Portugal, e depois uma apresentação do livro, inédita, escrita pelo
autor.

Felipe Corrêa


MINHA PÁTRIA É O MUNDO INTEIRO
NENO VASCO, ANARQUISMO E
SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO EM DOIS MUNDOS
Alexandre Samis
editora Letra Livre, Lisboa, 2009, 455 páginas

 * * * *

Depois da reedição (fac-similada) de O Socialismo Libertário ou o
Anarquismo, de Silva Mendes, a primeira obra teórica de vulto sobre
anarquismo que se publicou em Portugal, Letra Livre dá-nos agora a
biografia de uma das grandes figuras do anarquismo luso-brasileiro, tanto
do ponto de vista intelectual como do de atividade militante e, acima de
tudo, como exemplo de exigência ética. Este laborioso trabalho de pesquisa
empreendido por Alexandre Samis procurou, para além duma exaustiva
pesquisa sobre a vida e obra do biografado, situar essa vida nas condições
econômicas, políticas, sociais e intelectuais da sua época, tanto em
Portugal como no Brasil e, em menor medida, no resto do mundo.

Neno Vasco que nasceu em Penafiel (1887), foi aos 9 anos com o pai e a
madrasta para São Paulo, onde se demorou cerca de dois anos, quando o
Brasil ainda era uma monarquia, e regressou a Portugal para freqüentar o
liceu (Amarante) e o curso de Direito (Coimbra) onde se graduou em 1901.
Em dezembro desse mesmo ano voltou ao Brasil, já então uma República, onde
desenvolveu a atividade militante que iniciara em Coimbra e no Porto. Aí
constituiu família, regressando a Portugal em 1911, de onde se ausentara
no reinado de D. Carlos e que era então uma jovem República. Também aqui
um interessante paralelismo entre a evolução política nos dois países. Em
Portugal prosseguiu intensa militância, nomeadamente através de constante
participação na imprensa operária e libertária. Veio a falecer de
tuberculose, algum tempo depois da esposa, a 15 de setembro de 1920.

A sua atividade militante decorreu pois em partes iguais no Brasil e em
Portugal, uma década em cada um deles, embora na realidade ele tivesse
sempre mantido uma participação ativa na imprensa portuguesa quando vivia
no Brasil e na imprensa brasileira quando vivia em Portugal. Dificilmente
poderia Alexandre Samis escolher melhor exemplo de militante
luso-brasileiro. Mas talvez a faceta mais aliciante do livro seja a
permanente correlação entre a vida, evolução ideológica e atividade
militante de Neno Vasco e as circunstâncias históricas e o ambiente social
em que a sua vida e ação decorreram.

Essa recriação pormenorizada do meio implicou um enorme trabalho de
investigação, com recurso às mais variadas fontes (jornalísticas,
literárias, históricas, econômicas, sociológicas, correspondência, etc.)
que exigiu a consulta não apenas de arquivos nacionais de Portugal e
Brasil, mas também de arquivos estrangeiros. O caráter erudito desta obra,
que foi a sua tese de doutoramento, não apaga a fluidez e vivacidade da
biografia, que se lê de um fôlego com curiosidade e interesse constantes.
À admiração e amizade que nos liga ao autor não podemos deixar de
acrescentar também uma palavra de reconhecimento à Livraria Letra Livre
por esta meritória iniciativa editorial.


publicado em A Batalha, escrito por L.G.S.


* * * * *


APRESENTAÇÃO

O presente trabalho surgiu pela necessidade de encontrar algumas respostas
a questões que se apresentaram por ocasião da elaboração da pesquisa
intitulada Clevelândia do Norte: anarquistas, repressão e exílio interno
no Brasil dos anos 20.[1] Na referida pesquisa procuramos, além de
promover uma ampla devassa nos documentos relativos à Colônia Penal
Agrícola de Clevelândia, nos anos 20, resgatar o papel dos militantes
anarquistas na organização do movimento operário. A execução de tal tarefa
nos levou a estabelecer uma estreita relação entre a constituição dos
órgãos de repressão do Estado e o aumento da importância das organizações
operárias já na década de 10. Observamos, além disso, que para o desterro
da Clevelândia[2] foram remetidos, levando-se em consideração os grupos
operários organizados ideologicamente, apenas os “radicais anarquistas”.
Tal constatação serviu para a fundamentação das hipóteses iniciais, além
de demonstrar a necessidade de se repensar a importância dos libertários
para a conformação do quadro político-social nos anos de 1920.

Entretanto, ao longo de nossa investigação, nos deparamos com algumas
significativas lacunas na historiografia correspondente ao tema. Entre
elas, podemos destacar a falta de um estudo da constituição das relações
do movimento operário anarquista, não só entre os grupos no território
brasileiro, como também entre os que aqui se encontravam e seus congêneres
no exterior. E, em conformidade com esta constatação, em que pese a
significativa contribuição de vários contingentes de imigração, percebemos
que, ao menos para a organização do operariado no antigo Distrito Federal,
as relações levadas a efeito pela chegada do elemento português
encontravam-se ainda muito pouco estudadas.

Dessa forma, nos pareceu bastante oportuna a idéia de utilizar a biografia
de um militante português que, pelo tempo de permanência e importância que
possuiu em iniciativas concretas no Brasil, servisse de fio condutor para
uma investigação que, de alguma forma, desse conta de hipóteses
preliminares.

A escolha para tanto recaiu sobre a figura de Neno Vasco[3], um militante
que pela sua importância, primeiro no Brasil e depois em sua terra natal,
junto aos órgãos da imprensa radical, podia ser encarado como um dos
indivíduos representativos da integração e colaboração entre as
experiências sindicais dos dois países. Ainda que referida em trabalhos
que possuem o anarquismo como objeto, tanto na historiografia portuguesa
quanto brasileira, a trajetória de Neno Vasco não havia sofrido ainda um
estudo da sua “década brasileira” e, muito menos, do que esta havia
representado para os restantes nove anos em que atuaria em Portugal, após
seu retorno em 1911.

Para esse fim, envidamos esforços no sentido de investigar os passos dados
por Neno Vasco no Brasil, o que nos descortinou um quadro bastante
elucidativo da importância dos jornais operários para uma projeção, ou
mesmo, diagnóstico dos primeiros anos do anarquismo no país. Muito pouco
estudada, a permanência do militante português foi sem dúvida fundamental
para o enriquecimento das discussões sobre métodos de ação ou inserção na
sociedade. Podemos mesmo afirmar que Neno Vasco foi um dos elementos mais
significativos daquela “geração militante”, de responsáveis orgânicos pela
visibilidade social que viria a ter o anarquismo nas décadas posteriores.

Ao chegar ao Brasil em 1901[4], Neno Vasco articulou-se muito depressa com
os anarquistas residentes no país. Em São Paulo, ajudou a criar, no ano de
1902, o primeiro jornal libertário de língua portuguesa de publicação
regular, O Amigo do Povo.[5] Dessa iniciativa participaram alguns dos mais
conhecidos anarquistas do Rio de Janeiro, imigrantes e nacionais, através
da elaboração de artigos e divulgação do periódico.[6] A importância de
tal empreendimento, assim como o de outros da mesma natureza, não se
esgotava na simples exposição diletante de opiniões. Jornais como O Amigo
do Povo, cumpriram o papel de forum deliberativo informal do movimento
anarquista nos seus primeiros anos. Forjaram, mesmo na esfera pública
burguesa[7], um lugar definido para o livre debate das idéias, o locus
fundamental para a circulação de teses, traduções e sínteses políticas. O
primeiro Congresso Operário Brasileiro, de 1906, no Rio de Janeiro, foi,
não apenas tributário, mas um dos resultados concretos da mobilização, em
grande parte animada pela imprensa libertária, de iniciativas e energias
que se encontravam dispersas.

Neno Vasco, apesar de radicado no Brasil, não negligenciou os contatos com
as publicações libertárias no seu país de origem. Ao longo de sua
permanência no território brasileiro manteve uma disciplinada rotina de
correspondência enviando para Portugal artigos, notícias e traduções.
Muito do que Neno Vasco viria a registrar em seus escritos partiria de uma
profunda reflexão da realidade brasileira à luz da perspectiva
internacionalista. Dessa forma, o intelectual que havia chegado ao Brasil,
recém bacharel de Coimbra[8], aperfeiçoava sua aguda capacidade crítica a
partir da vivência militante fora da Europa.

Nesse sentido é que aprofundamos nossa hipótese central quando
evidenciamos, pela exposição exuberante de elementos empíricos, a formação
de militantes estrangeiros na vivência com outros nascidos no Brasil.
Relação essa que se dá na perspectiva horizontal, sem a ascendência do
“elemento estrangeiro” sobre os que, sem sair do país, adquiriram alguma
experiência colocando-a a serviço do ideal anarquista. Tais contatos
“interétnicos”, principalmente entre espanhóis, italianos, brasileiros e
portugueses, de forma nenhuma aconteciam para que propedeuticamente
determinado grupo ditasse um único caminho para os demais. Como também,
sequer por afinidades de origem, enfileiravam-se os anarquistas em torno
de uma corrente específica da complexa malha estratégica libertária.

Assim, as fontes italianas que influenciaram Neno Vasco, até que este
assumisse convictamente o anarquismo comunista de Malatesta, vieram
simultaneamente da própria Itália, que no Brasil chegava pelo braço do
imigrante, como igualmente da Argentina, que por fenômeno análogo, recebia
o mesmo contingente étnico. Tais idéias, entretanto, longe de permanecerem
“puras”, trazidas de fora e preservadas de qualquer “influencia
interpretativa”, misturaram-se em favor da resolução de problemas
específicos encontrados na América. A nova realidade levou a uma espécie
de “sincretismo” que, se por um lado, preservava o vocabulário político
comum ao europeu, por outro facultou aos anarquistas nas suas “relações
americanas” uma sensibilidade única. Tal singularidade foi mesmo
evidenciada por Neno Vasco quando ele, ao apoiar entusiasticamente a
Revolução Mexicana – enquanto muitos anarquistas importantes radicados no
Velho Continente, entre eles o próprio Malatesta, olhavam o fenômeno com
parcimoniosa reserva – percebeu a sua importância para a alteração da
estrutura fundiária no continente.

Foi mesmo a experiência brasileira um importante momento na consolidação
do “internacionalismo” defendido por Neno Vasco já em Portugal. A sua
parceria com os jornais e individualidades brasileiras, a relação que se
manteve estreita com os grupos organizacionistas, e mesmo a articulação
política que insistentemente buscou ativar não podem ser desvinculadas do
cabedal adquirido na “década brasileira”. Principalmente por ter ele
passado a defender, ainda por força dessa experiência, a construção de uma
entidade internacional para os anarquistas de ambos os continentes.
Estratégia que se encontrava, aliás, bastante incipiente por ocasião de
seu desembarque no porto de Lisboa.

Em conformidade com tais premissas, Neno Vasco, ao chegar a Portugal,
uniu-se ao grupo de A Sementeira que, como ele, via no sindicalismo um
meio importante para a inserção social dos anarquistas. Na esteira do que
vinha acontecendo no Brasil, ele viria a auxiliar na organização de
congressos, conferências e articulações no âmbito da classe ou puramente
ideológicas. Esteve ainda igualmente empenhado em eventos internacionais
nos quais se encontravam portugueses e brasileiros, como o caso do
Congresso da Paz, primeiro em Ferrol (Galícia) e depois no Rio de Janeiro,
em 1915 e, ainda que como hipótese, na greve geral revolucionária de 18 de
novembro de 1918, simultaneamente preparada no Brasil e em Portugal.

Por outro lado, a atuação de Neno Vasco até a sua morte, em setembro de
1920, não pode ser entendida como mero desdobramento do que havia
assimilado no Brasil. Também as dificuldades e incertezas enfrentadas em
Portugal tiveram grande importância para a sua formação.[9] Dessa forma, o
papel fundamental que desempenhou no movimento anarquista foi o somatório
do que havia acumulado, e a aplicação de uma metodologia de ossatura
malatestiana, descoberta no Brasil e aperfeiçoada até o fim de sua vida.

Como se pretende demonstrar, a idéia que, em particular até os anos de
1980, prendia a imagem do anarquista a do conspirador estrangeiro, formado
no exterior e que premeditava, sem efetivamente a conhecer, a
transformação violenta da sociedade fica bastante prejudicada.
Principalmente se levarmos em consideração que, entre outras variantes,
esta tradição historiográfica reservava para o trabalhador nacional
qualidades vizinhas à impotência e a incapacidade.[10]

Para a organização da narrativa, em uma explicação mais geral, dividimos o
livro em três capítulos; além de outros dois, um de caráter introdutório e
outro mais conclusivo.

O primeiro, introdutório, que recebeu o titilo de Intróito Biográfico, tem
como objetivo anunciar o nascimento de Neno Vasco e circunstanciar o meio
em que se encontrava a sua família, as relações sociais desta e a fase da
história portuguesa na qual se inseriu o nascimento do biografado. Foi
também neste “intróito” que aproveitamos para sublinhar a importância
econômica que representou para a monarquia portuguesa a emigração de seus
súditos, em particular os das províncias do norte. Este pequeno capítulo
trata ainda de questões diretamente ligadas aos primeiros anos de vida de
Neno Vasco.

O primeiro capítulo, que de fato recebe esse nome, está dividido em duas
partes: a primeira diz respeito à tradição construída ao longo do século
XIX, mesmo antes do nascimento de Neno Vasco, dos socialistas e
republicanos em Portugal. Abordamos nessa fração as querelas de Coimbra,
conhecidas como a “Questão Coimbrã”, os estatutos socialistas da “geração
de 70”, e a importância que tiveram as figuras de Eça de Queiroz e Antero
de Quental. Ainda nessa parte resgatamos o episódio da chegada da
“Internacional” a Lisboa e os desdobramentos da propaganda da Comuna de
Paris nos meios socialistas. Na segunda parte do capítulo, já com Neno
Vasco de retorno a Portugal, depois de breve estada no Brasil, aludimos a
sua formação secundária e seu posterior ingresso no curso de Direito da
Universidade de Coimbra. Nesse momento, em que ele descobre o anarquismo,
demos ênfase ao seu circulo de relações e a conjuntura antimonarquista e
anticlerical que se desenhava em Portugal. Neno, nesta época, está
sintonizado com o anarquismo de caráter intervencionista, corrente, aliás,
muito importante no fim dos oitocentos. O fim do capítulo coincide com a
partida de Neno Vasco para o Brasil, em 1901, já formado bacharel e
entusiasmado pela possibilidade de atuar como anarquista em país
republicano.

No segundo capítulo, além dos fatos que, em paralelo, sensibilizaram Neno
Vasco, como a imigração e a precária urbanização brasileira, estabelecemos
os parâmetros através dos quais ele se relaciona com os demais anarquistas
em São Paulo. Foi nesse mesmo capítulo que narramos sua aproximação das
idéias de Malatesta, e a atuação nos jornais O Amigo do Povo, A Terra
Livre e na revista Aurora. Tais iniciativas, imbricadas com a organização
do Primeiro Congresso Operário, dos grupos de afinidade e de uma intensa
discussão sobre a organização dos anarquistas e trabalhadores, além é
claro das teses que chegavam ao Brasil desde Amsterdã, no Congresso
Anarquista de 1907, agregam-se a um sem número de atividades que agitam a
militância, em particular, dos organizacionistas. É nesse contexto que
Neno escreve suas duas peças de teatro, e trabalha freneticamente para
consolidar as relações orgânicas entre os grupos do Rio de Janeiro e São
Paulo.

O capítulo registra ainda o casamento de Neno com a espanhola Mercedes
Moscoso, sua relação com o cunhado, o fecundo anarquista Manuel Moscoso, e
do nascimento de seus filhos. Em relação à militância registra o texto as
perseguições aos anarquistas com a lei de deportação de 1907, a fundação
da Confederação Operária Brasileira e a circulação do jornal A Voz do
Trabalhador. Tais iniciativas, somadas ao apoio a Revolução Mexicana, a
partir de 1910, e aos contatos que vinha Neno estabelecendo por carta, com
Elisée Reclus, Emma Goldman e Kropotkin, acrescidas ainda das traduções
que sistematicamente publica dos textos de Malatesta, confirmam a sua
importância para o movimento anarquista não apenas no Brasil.

Por fim, o texto termina com o retorno de Neno a Portugal, esperando,
entre outras coisas, disputar na República portuguesa mais espaço para o
anarquismo. Entretanto, a viagem não acontece sem que antes ficassem bem
traçados os planos para a continuidade da articulação política.

O terceiro capítulo, o mais longo, por representar a maturidade não só de
Neno, como das propostas por parte dos anarquistas, demandou um enorme
esforço de cotejamento de fontes. Nessa parte fica bastante clara a
relação que ele continua a estabelecer com os brasileiros, até mesmo na
garantia de sua sobrevivência. No plano geral, as linhas de ação continuam
as mesmas estabelecidas na “década brasileira”, entretanto as tarefas se
avolumam diante de um movimento sindical cada vez mais tendente ao
anarquismo. É nesse período que os libertários, em disputa com
republicanos e socialistas, ganham a dianteira dos sindicatos mais
aguerridos. Ainda é dessa época a mais viva discussão entre os
“sindicalistas puros” e anarquistas dentro das associações de classe.
Neno, como havia feito no Brasil, preocupa-se nitidamente com a questão e
busca teorizar sobre ela. Os debates no campo do sindicalismo
revolucionário intensificam-se até a Grande Guerra que, no plano da
tática, divide os anarquistas entre aliadófilos e antibelicistas. A
Revolução Russa, outro importante divisor de águas, acabaria por alavancar
ações dos organizacionistas e, independente naquele momento de
determinadas singularidades, foi importante para a posição que viriam a
assumir os anarquistas na década seguinte. A morte de Neno, em 1920,
privou-nos, entretanto, de um aprofundamento maior de sua critica ao
centralismo bolchevista. Apesar das já comuns alusões aos métodos
diferenciados, o que ficava patente, ao menos nos primeiros textos dos
anarquistas, era para os anarquistas preferível dialogar com os
“centralistas” a terem que dividir com o reformismo socialista o espaço
político nos meios operários.

O texto de conclusão, que por sua proposta e dimensões reduzidas, recebeu
o título de Post Scriptum de uma vida, relata a morte de Neno Vasco,
poucos meses após o falecimento de sua companheira de toda uma vida
Mercedes Moscoso. Ambos acabaram por perecer da mesma sufocante
tuberculose. No corpo narrativo desta conclusão incluímos um balanço breve
do legado de Neno, e as muitas opiniões que sobre ele emitiram os
principais jornais operários de Portugal e Brasil. Foi possível também
constatar que a sua morte, ironicamente, acontecia no momento em que os
anarquistas, tanto no Brasil quanto em Portugal, caminhavam para a adesão
majoritária ao organizacionismo, de resto a corrente tão apaixonadamente
defendida por ele em suas pregações. Aproveitamos assim, para ainda
incluir no texto, as impressões sobre algumas diferenças metodológicas de
ambos os campos revolucionários, o do bolchevismo e do anarquismo, para o
esclarecimento em favor de algumas observações feitas no capítulo
terceiro.

Como é comum a um capítulo conclusivo, estão presentes no texto as
relevâncias do trabalho empreendido, as considerações finais de ordem
teórica e uma apreciação sobre a importância do personagem no contexto de
sua época.

Dessa forma, acreditamos ter sido a biografia um revelador exercício de
articulação entre a vida de um militante anarquista e as múltiplas
circunstâncias atravessadas por este diante dos dilemas teóricos, posições
táticas concretas e opções por metodologias a serem aplicadas em favor de
determinados objetivos finais. Além do que, enfronhado em seu próprio
tempo, não pôde Neno Vasco escapar às encruzilhadas, nem às vertigens de
ter que optar sempre pelo caminho mais adequado, contando para isso, mesmo
que de forma aparente, apenas com o foco de sua ideologia.


Alexandre Samis




Notas:

1. Publicada em livro: Alexandre Samis. Clevelândia. Anarquismo,
Sindicalismo e Repressão Política no Brasil. São Paulo/Rio de Janeiro,
Imaginário/Achiamé, 2002.

2. Da totalidade dos prisioneiros enviados para as margens do rio
Oiapoque, no Amapá, 51% lá faleceram.

3. Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos foi um dos mais
ativos militantes anarquistas no Brasil e em Portugal. Veio a falecer em
Portugal, seu país de origem, a 15 de setembro de 1920. In prefácio de
João Freire: Neno Vasco. Concepção Anarquista do Sindicalismo. Porto:
Afrontamento, 1984.

4. Prefácio de João Freire. op. cit., p.12.

5. Edilene T. Toledo. O Amigo do Povo: grupos de afinidade e a propaganda
anarquista em São Paulo nos primeiros anos deste século. Dissertação de
mestrado, IFCH/UNICAMP, 1993. p. 50.

6. Ibidem, p. 52.

7. Ver para o conceito de “esfera pública burguesa”: Jürgen Habermas.
Mudança Estrutural da Esfera Pública - Investigações quanto a uma
categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

8. Prefácio de João Freire, op. cit., p.12.

9. Entretanto, os eixos através dos quais passava a perceber a militância,
de fato, tinham sido concebidos entre 1901 e 1911.

10. Contribuíram, em alguma medida, para o mito da mão-de-obra estrangeira
os trabalhos de Aziz Simão. Sindicato e Estado. São Paulo: Editora Ática,
1981; José Albertino Rodrigues. Sindicato e Desenvolvimento no Brasil. São
Paulo: Difusão Européia do Livro, 1968; Leôncio Martins Rodrigues.
Conflito Industrial e Sindicalismo no Brasil. São Paulo: Difusão Européia
do Livro, 1966 e Leslie Sheldon Maram. Anarquistas, imigrantes e movimento
operário no Brasil (1890-1920). Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979.




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