(pt) [Portugal; entrevista a poetisa libertária portuguesa] “Quanto maior o medo mais urgência em enfrentá-lo”

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Terça-Feira, 16 de Junho de 2009 - 18:00:52 CEST


[Emília Cerqueira é poeta, professora. É anarquista! “O meu coração está
no Porto, mais do que em Lisboa, onde vivo”, afirma essa portuguesa que
nasceu no seio de uma família revolucionária: o avô foi
anarco-sindicalista, o pai se chamava Libertário. Suas poesias são
expressões da resistência e defesa da dignidade. Mas que também comportam
beleza, sonhos, amores e liberdade. “Sou livre como o vento”, diz ela, que
se declara amante da natureza, do Mar: “o entendo como símbolo de
liberdade.” Na entrevista que segue, ela fala da sua família, de poesia,
palavras... deixa impressões sobre a Feira do Livro Anarquista de Lisboa e
das lutas que os professores e professoras estão a travar contra as
políticas anti-educacionais do Estado português. Enfim, vamos a Emília,
viajar com ela...]
Agência de Notícias Anarquistas > Não me xingue, mas vou começar do jeito
de sempre essa entrevista. Como surgiu seu interesse pelo anarquismo? Como
começou sua caminhada.
Emília Cerqueira < Sempre senti esta sociedade como um absurdo, a miséria,
a dupla exploração a que sempre sujeitaram as mulheres. Fui sempre pouco
domesticável, melhor dizendo, selvagem. Por outro lado, cedo aprendi a
amar a liberdade e a lutar por ela. Por quê? Sei lá... Cresci no meio do
fascismo. Via pela janela o meu vizinho da frente ser enfiado à força num
carro pelos homens da polícia política, PIDE. Via quando ele voltava da
prisão torturado. Ouvia as histórias da minha família, a miséria presente,
mas também o orgulho da luta. O avô anarcosindicalista que lutou na
Espanha, contra Franco, que fugiu para a França e que teria morrido num
campo de concentração. O meu pai que se chamava Libertário. Eu aos 15 anos
já lutava, passava papéis clandestinos contra o fascismo e contra uma
guerra que consumia um povo, escravizado, mas que era colonialista e
racista. Depois na universidade era outro o tipo de luta. Aí tive contato
com o marxismo. Era quase sempre esta a iniciação da luta anticapitalista
na época. Depois foi a crítica há falta de liberdade de opinião, ao
centralismo democrático, aos sindicatos tradicionais, à consciência da
manipulação das pessoas, dos representantes que só se representam a si
próprios... A consciência me levou à procura de grupos de
anarcosindicalistas portugueses, daí a descoberta de um mundo novo, há
cerca de doze anos... Depois disso foi uma constante reflexão e ação. É
assim que concebo o anarquismo, uma prática de vida, de reflexão e ação.
Pela liberdade. Contra o capitalismo.
ANA > Seu pai se chamava “Libertário”? Interessante... Ele tinha irmãos?
Emília < Um irmão, mais velho, que se chamava Fernando. Penso que teve
influência decisiva o fato do meu avô ser militante anarcosindicalista. Já
tive conhecimento da existência de pelo menos mais duas pessoas com este
nome, Libertário, com idade aproximada. Mas era raro depois disso, pois
desde o fim da primeira república, com o nascimento do fascismo português,
era um nome tabu.
ANA > E seu pai nunca teve problema com o nome?
Emília < Com o nome não, mas sim por não querer colaborar com o fascismo.
Chegou a ser aliciado mais do que uma vez para ser informante, contou-me
ele uma vez muitos anos depois. Nunca esteve ligado a nenhuma estrutura
política, mas existia muita solidariedade e era comum esconderem
temporariamente fugidos à polícia política nas casas dos operários daquela
zona. Na nossa casa isso aconteceu, altas horas da noite senti baterem à
porta, depois vozes baixas, de manhã a recomendação de silêncio quando
perceberam que eu tinha acordado, era o meu vizinho, o tal que tinha sido
preso várias vezes já pela PIDE, fugido tempo depois de avisado.
ANA > Mas ele gostava do nome? (risos)
Emília < Gostava sim. (risos) Imagino que soava meio esquisito para muita
gente.
ANA > E você quando tomou consciência do nome, do significado, como foi?
Emília < Tinha aí os meus quinze anos. Fiquei orgulhosa, claro! Foi nessa
altura que soube que o pai dele, que tinha sido padeiro em Lisboa, tinha
partido para a Espanha, com outros anarcosindicalistas de Lisboa, Barreiro
e Setúbal, deixando as famílias para trás, clandestinamente, para ajudar a
república na luta contra Franco. Mas só muito mais tarde prometi a mim
própria que iria tentar encontrar o lugar onde o meu avô teria morrido na
França. Num campo de concentração de refugiados da guerra, fugindo de
franquistas e comunistas, é obra, não? Até hoje não sei ao certo, mas
chegou aqui a notícia de que estaria na França, depois o silêncio. Mas
ficou o desejo de escrever um livro em homenagem a esses homens e a essas
mulheres que agüentaram firmes. E também o que aconteceu ao meu povo na
noite fascista. O meu pai começou a trabalhar como guarda de minério, em
cima de vagões de comboios que iam para o sul. Aos doze anos, ia de noite,
com chuva e ao frio... em cima de vagões. Quando ele morreu, aos 56 anos,
de tanto trabalhar, tanto... fiquei zangada com o mundo. E foi aí que
prometi fazer-lhe essa homenagem, escrever esse livro. Já recolhi
informação em Portugal e na Galiza.
ANA > Tens alguma história curiosa, engraçada, ao apresentar o nome do seu
pai na escola, trabalho... (risos)
Emília < Não, por acaso, não. Tinha dezessete anos quando acabou a
ditadura fascista em Portugal. Antes nunca comentariam o nome. Depois, com
a explosão da mudança e o sonho da liberdade, também não se reparava.
ANA > Mas quando você era marxista seus pares não ficavam comentando o
nome do seu pai? (risos)
Emília < (risos) Li livros sobre marxismo aos 17 anos, não tinha pares,
nunca estive enquadrada em nenhuma organização política, apenas em
associação de estudantes, e depois em sindicato. Foi aí, um ano como
dirigente sindical, que me apercebi da incompatibilidade que tinha com o
centralismo democrático e com as manipulações das pessoas, de fato nada
tinha a ver com aquele mundo. Apercebi-me que não podia ser por ali, aí
procurei informação sobre o anarquismo, contatei com eles, mas isso tudo
sem saberem o nome do meu pai.
ANA > E porque seu tio não teve um nome “libertário”? (risos)
Emília < Sei lá! (risos) Se calhar, porque não era ainda
anarcosindicalista, ou, então, ainda não tinha se entusiasmado o
suficiente, ou os padrinhos não eram anarcosindicalistas. (risos)
ANA > E seus irmãos seguiram o mesmo caminho que o seu?
Emília < Tenho um irmão, muitos anos mais novo, ao contrário de mim nunca
teve preocupações sociais, apenas queria gozar a vida sem preocupações, no
meio do consumismo nascente com o fim da ditadura. Chegou a ter discussões
comigo por me achar muito radical, mas a vida pregou-lhe uma lição,
infelizmente.
Meu pai morreu com 56 anos, meses depois morreu minha mãe com a mesma
idade. O meu irmão tinha vinte anos, estava desempregado, com curso
inacabado, tinha saído da tropa obrigatória há pouco tempo. A casa onde
viviam pertencia à companhia dos caminhos de ferro onde meu pai
trabalhava. Depois da morte de meu pai o meu irmão ficou sozinho, sem pai,
sem mãe, sem nada... sem emprego, sem casa, só eu, que tinha um filho
pequeno e vivia só e até com dificuldade na época, com um ordenado
pequeno... bem, aí ele cresceu, cresceu! Não foi fácil, e teve a minha
ajuda, aí ele compreendeu o que era o capitalismo, sentiu na pele!
Tornou-se um lutador com o tempo, pelo menos em termos sindicais, mas não
libertário. Enfim...
ANA > Além deste episódio que acabou de contar sobre seu pai há outro
marcante na sua memória?
Emília < Um bem marcante, por sinal, tinha cinco anos, era 1º de Maio e
não era feriado. Em 1960, em Portugal, na região onde nasci, uma vila
operária, de grandes tradições de luta, grandes greves de resistência ao
fascismo, a violência era enorme nas ruas, exército a cavalo, a chamada
guarda nacional republicana atacava as pessoas nas ruas, nesse 1º de Maio
de luta, nas ruas, mulheres, crianças, idosos... os cavalos chegavam a
passar por cima das pessoas!
Nesse dia, estava na rua para ir comprar pão na padaria, era cedo, de
manhã... Pessoas fugiam na minha direção, fiquei paralisada de aflição
quando vi um cavalo enorme com um homem de ar feroz inclinado a bater com
um grande bastão nas pessoas. Outros cavalos e outros homens à volta, de
repente senti que me puxavam para trás, e caí no chão dentro da padaria, e
os cascos dos cavalos à porta. Por momentos imaginei que por ali
entrariam, mas os tempos eram duros, nunca soube quem me ajudou. Fiquei
abandonada ali dentro! Mas, no meu pequenino coração, criança que cresceu
de repente, iluminou-se um desejo profundo de liberdade, de amor por
aquela gente. Mas também de revolta! Não mais me esqueci!
Outro foi a consciência da miséria moral que o fascismo fez aos
portugueses desse tempo. Depois do 25 de Abril de 1974, descobrir que, na
minha rua, porta sim, porta não, eram combatentes anti-fascistas ou
famílias inteiras de informantes da polícia política. O meu povo era
conivente com o fascismo, alimentava-o! Só quando li, muitos anos depois,
a "Servidão Voluntária" de La Boétie, é que percebi como esta engrenagem
se move. E o Estado é isso, todos os Estados. Estruturas alimentadas e
suportadas pelos escravos que reproduzem o sistema, todos!
Depois temos as fronteiras, a família, a escola, as religiões, os
exércitos, as polícias, as prisões... para garantirem que o sistema
funcione. Controlamos-nos e somos controlados! Controlamo-nos a nós
próprios. E aí surgem os e as anarquistas que são estranhos a esta
engrenagem.
ANA > Sua mãe também era anarquista?
Emília < Minha mãe não era anarquista. Era apenas a mulher mais corajosa
que conheci, na sua simplicidade. Enfrentou a família, que queria que
abandonasse o meu pai, tuberculoso, à morte, um ano depois de viverem
juntos. Nesse tempo não havia antibióticos ainda, minha mãe tinha casado
com o meu pai contra a vontade da família endinheirada. Meu pai era
ferroviário, pobre, ficou tuberculoso na tropa. Esteve três anos internado
num sanatório, fez sete operações. Minha mãe sempre presente, sujeita a
contágio... Trabalhava muito, muito... Ao fim de cinco anos nasci eu,
fruto de muito amor. Depois de já não haver perigo, minha mãe e meu pai
transmitiram-me essa fibra, de enfrentar a vida pelos chifres, de
solidariedade, de amizade... Do meu pai retenho a sua sede de justiça, a
sua serena firmeza ao enfrentar o medo que transpirava à nossa volta, o
seu amor por nós, o seu sentido de humor!
Minha mãe era atéia como o meu pai. Recusaram-se a casar pela igreja
católica. Meu pai esteve quase a perder o emprego por causa disso.
Esconderam em casa várias pessoas, fugidas à polícia política, mas nunca
falávamos muito nisso. Eu fingia que nada se passava de anormal, e eles
apenas me pediam cuidados.
ANA > Já tive a oportunidade de conhecer alguns “velhinhos anarquistas”,
estes que passaram por várias situações abjetas, campos de
concentrações... Li memórias, e é incrível perceber o sentido de humor que
tinham, e que alguns ainda têm... (risos)
Emília < É, conheço um que até nasceu num campo de concentração em Timor,
tem um sentido de humor que é uma delícia. O humor como resistência,
celebração da vida. E é essa celebração da vida que é a vida. Anarquia
também é isso! Também conheci outros que se o tiveram já o perderam há
muito tempo. (risos) Só resta apenas rancor e mágoas, o ego em primeiro
lugar... Se calhar resistiram a tanta coisa e no fim, foram vencidos
através do azedume e do desprazer.
ANA > E há algum tema, luta que você demonstre mais interesse?
Emília < Bem, tudo está ligado. Penso que atualmente temos de nos preparar
para as grandes alterações climáticas e para o fim do capitalismo, para o
caos social e ambiental daí decorrente, que já começou. O futuro do ser
humano está numa prática anarquista, só através do apoio-mútuo,
solidariedade, entreajuda, a prática do consenso, o respeito pela
natureza, a recusa do capitalismo, poderemos sobreviver.
Depois existe a luta cotidiana de resistência contra a perda de direitos,
contra um fascismo que se voltou a instalar. A luta é em múltiplas
frentes. A luta pela aproximação entre anarquistas de diferentes
correntes, a necessidade de termos consciência do nosso papel como
dinamizadores de uma luta internacionalista de resistência contra os
estertores deste capitalismo moribundo e louco.
ANA > Uma, ou várias anarquias?
Emília < Várias anarquias. O tema é incômodo. (risos) Pois, também o que
mais faltava era começarmos todos, os anarquistas, a dizer: "o meu é que
é... no meu quintal é que é..." (risos) A diversidade de cambiantes é
salutar, mas uma coisa é comum, o amor pela liberdade, depois a recusa do
capitalismo. No contexto atual, uns serão mais individualistas do que
outros, uns sentir-se-ão melhor em coletivos, outros nem isso. Já conheci
companheiros e companheiras defendendo o comunismo libertário e, na
prática, serem completamente individualistas, com uma dificuldade enorme
em colaborar em grupo. Por outro lado, conheço vários companheiros e
companheiras que se assumindo como individualistas, têm uma prática de
partilha, de colaboração notável. Enfim, a mensagem que deixo é que
procurem conhecer-se bem e hajam de acordo com o que sejam
verdadeiramente. Inventem todas as anarquias que forem precisas, deixem os
velhos dogmas, os "ismos", por exemplo...
ANA > E a poesia, como ela entra na sua vida?
Emília < Desde muito pequena que adorava ler. Os meus pais não tinham
possibilidades de comprar livros. Eu ia à sede do sindicato dos
ferroviários, no Barreiro, um edifício deserto de crianças, cheio de
livros poeirentos, mas que me faziam esquecer a dor de ver tanta gente a
sofrer. Lia, lia... devorava tudo. Não eram livros para crianças, tinha
oito anos. Só mais tarde, aos 15 anos, é que contatei com a poesia, como
forma de resistência. Era um tempo em que se cantava a poesia de
resistência, de luta! Comecei a fazer poesia tarde, quando pude recuperar
a criança dentro de mim, aos trinta anos! (risos)
ANA > Mas a poesia sempre esteve dentro de você. É que você perdeu o medo.
Aliás, é tão difícil transpor o medo, não? (risos)
Emília < Sim. (risos) A poesia está dentro de nós. É outro tipo de
linguagem, vai beber nas nossas raízes ancestrais, há um tempo em que o
ser humano fazia parte da natureza e se deixava impregnar por ela, cores,
odores, sabores... Perdeu-se quase tudo, essa capacidade de estar
conectado com a natureza, essa sabedoria, perdeu-se no caminho... Resta a
poesia, por isso é ela tão perigosa para o sistema, para o Estado! Através
da poesia regressa-se a um lugar, tempo, onde não existiam coações, logo
perde-se o medo! É difícil transpor o medo, só há uma forma, praticando!
(risos) Como se fosse um treino, da próxima vez já é mais fácil. E a vida
também é isso, transpormos os medos e seguir em frente. Quanto maior o
medo mais urgência em enfrentá-lo, não há outra forma. Só se pode amar
aquilo de que ou de quem não temos medo. Tem-se medo do diferente, do
desconhecido. Temos de nos (re)conhecer, para lutarmos em conjunto contra
o nosso inimigo comum.
ANA > Parece que as pessoas não querem sentir o mundo, mas apenas
habitá-lo, explorá-lo...
Emília <   Falamos de séculos e séculos de desenvolvimento tecnológico do
chamado "homem civilizado", depois deste ter destruído civilizações muito
mais ligadas à natureza. Só os povos indígenas mais isolados ainda se
mantêm em íntima comunhão com a Mãe Terra. Para os outros restará a
vontade ou não de regresso a Gaia -uma entidade viva que é maior do que a
soma de todas as coisas vivas e não vivas do planeta Terra-. Gaia descreve
o planeta Terra como um "superorganismo" capaz de se auto-regular, tal
qual um ser vivo fazendo uso pleno dos seus direitos, com capacidade de
realizar ajustes e até mesmo otimizar as condições necessárias para manter
vida na Terra, passando pelos mecanismos naturais que regulam desde o
clima até a biodiversidade. Somos a natureza... não podemos dominá-la, mas
podemos destruir-nos.
ANA > Em um dos seus escritos você diz que o “Não” é a palavra mais
importante do ser humano. Esse é um “Não” carregado de utopias, sonhos,
sensibilidades, certo? (risos)
Emília < "Não" é uma palavra de revolta, de resistência, de dignidade, de
luta, de combate, se for necessário! Mas para isso é necessário a utopia,
o sonho, as sensibilidades...
ANA > Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa, a impressa e a que
soa melhor ao seu ouvido?
Emília < "Mar". E a que soa melhor é "Saudade". Tenho o "apelo do mar" e
"saudades do futuro"... O mar o entendo como símbolo de liberdade... A
saudade é mistura de perda, distância e amor... Mas as melhores são as
palavras ditas nas entrelinhas das que se escrevem e as pensadas e não
escritas, mas sentidas... O que pode soar melhor do que o som das palavras
que traduzem a estima que sintam por nós? Mesmo que numa língua
incompreensível?
ANA > E o que está por trás dos seus versos? Por quais caminhos você
“viaja”? Do amor e da sensualidade? Da resistência e da dignidade?
Emília < Sei lá. Pelos da vontade de resistência e dignidade, sim, mas
também pelos do amor e sensualidade, que é uma forma de resistência
também. (risos) Pois a sensualidade na poesia ainda é tabu, principalmente
para a mulher. Falar do corpo no feminino ainda é tabu, falar do desejo e
do prazer, numa perspectiva de igual para igual, na poesia, em Portugal,
ainda é raro. A procura duma linguagem poética é também a busca da
identidade. Acima de tudo sou uma pessoa, antes de ser mulher. Assim é
provável que no futuro os meus poemas se virem cada vez mais para a
resistência. (risos)
ANA > E qual a importância do silêncio no seu trabalho? Não estou falando
propriamente de se isolar do barulho, mas de buscas de percepção, de
intuição...
Emília < ... O silêncio está sempre presente quando nos pomos no lugar do
outro. A empatia é uma capacidade humana ancestral, tem a ver com a
maneira como se comunicava antes da existência das palavras. Mas preciso
de um lugar algures [lugar desconhecido] fora do espaço e do tempo, como
um território só meu para me (re)conhecer, é desse "silêncio” que falas?
Isso faço através de pequenas viagens sozinha ou caminhando, de
preferência no meio da natureza...
ANA > E você já publicou algum livro?
Emília < Não, mas agora que fala nisso...
ANA > Nem em revistas, jornais...
Emília < Isso sim, dispersos. Faço parte também de um grupo informal de
"poesia vadia", ao correr da poesia, encontramo-nos e partilhamo-la. É uma
prática curiosa, lá, daquela forma, um território interdito ao estado se
vai tecendo, o da amizade! Mas estou a pensar colaborar mais com revistas
anarquistas. Já enviei um poema para a revista anarquista "Húmus". Na
verdade tenho escrito editoriais, notícias, artigos de opinião, contos,
muito mais do que poemas.
ANA > E sua passagem pelo Indymedia-Portugal. Como foi essa experiência?
Você fazia o quê?
Emília < Escrevia editoriais. Na época tinha pouca experiência de meios
informáticos, fazia o que podia. Escrever editoriais e notícias foi um
desafio interessante e aliciante. O Indymedia- Portugal passou por várias
dificuldades, falta de suficientes colaboradores. Alguns companheiros do
Porto lutaram bastante para mantê-lo funcionando, neste momento está
parado, mas talvez isso mude brevemente, quem sabe. Mas é bom recordar que
o Indymedia- Portugal não era um coletivo anarquista, estavam lá alguns,
só isso.
ANA > Um tempo atrás chegou a minhas mãos uma publicação portuguesa
chamada "Coice de Mula". Achei-a graficamente muito bonita, e com conteúdo
interessante. Ela ainda existe? É feita por "profissionais"?
Emília < Adoro a "Coice de Mula"! É feita por um anarquista que é um
artista! (risos) E com colaboradores muito bons. É realmente diferente!
Além de um humor combativo fantástico, muito inteligente, tem grande
qualidade gráfica e aborda múltiplos temas, nomeadamente referentes à
ecologia. Pena é que esteja a sair com alguma irregularidade.
ANA > Você também escreve peças de teatro, não? São peças infantis?
Emília < Escrevi apenas uma, mas estou com vontade de continuar. Foi para
adolescentes, os meus alunos, têm entre 12 e 15 anos. O tema foi a
comemoração do ano internacional da astronomia nos 400 anos em que Galileu
resolveu olhar para as estrelas, questionar o desconhecido e recusar pôr a
sua luneta ao serviço da guerra. Ignora-se muito este fato. Explicar,
através da poesia, numa peça de teatro interativo, com dança, música, coro
grego, projeção de slides, através de Copérnico, Giordano Bruno e Galileu,
dos séculos XV a XVII, o nascimento da ciência, o questionar livremente, o
"ousar pensar o novo... enfrentar o temor da Inquisição... não ter medo!"
como diz Giordano Bruno na peça...: "enfrentei a Inquisição, fui queimado
na fogueira, mas nunca abdiquei das minhas idéias... sou um ser livre!"
Desmascarar o poder terrorista da Inquisição, ao fazê-los perceber como no
passado havia falta de liberdade, como o terror se exercia, isso para
ajudá-los a perceberem melhor o que hoje se passa, e passará no futuro.
Interessa-me que a ciência seja encarada de uma maneira holística, ligada
a tudo. A minha formação foi em engenharia química e depois matemáticas,
preciso libertar-me de muitos preconceitos que adquiri, ao pensar as
coisas de forma dividida. Então preciso convocar a poesia e a intuição, e
pensar as coisas de uma forma global.
A arte e a liberdade são fundamentais para as aprendizagens. Escrevi esta
peça e encenei-a com os alunos e alunas de 12 anos, aprendi imensamente
com eles, maravilhei-me com as suas capacidades. E foi gratificante
perceber que a mensagem chegou lá, a de quanta luta existiu no caminho
pela liberdade de pensamento, quanta luta pela liberdade!
ANA > Já que você falou em educação. Há a possibilidade de uma pedagogia
libertária, mesmo dentro do aparato estatal? Como funciona sua prática
pedagógica, suas dinâmicas...
Emília < Neste momento em Portugal é extremamente difícil. Dentro das
escolas públicas resiste-se. Anda-se à procura de uma escola pública de
qualidade e isso passa por uma escola laica, com rigor científico, com a
arte como pano de fundo, mas para uma prática libertária é preciso isso e
muito mais... Essa pedagogia libertária está a anos-luz do que se passa
nas escolas em Portugal. É avaliação, avaliação... dos alunos, dos
professores... A tônica é posta no controle dos resultados, como se uma
escola fosse uma empresa, que tem de dar lucro!
A avaliação é utilizada como arma de arremesso contra os professores, para
controlá-los e explorar melhor, no caso dos alunos como funil. Uma
pedagogia libertária põe a tônica numa prática de autonomia dos alunos e
dos professores, práticas cooperativas -a competividade é algo estranho a
isso- a arte está sempre presente e a descoberta, assim como o contato com
a natureza, as crianças, jovens, desde muito cedo que se habituarão a ter
opinião em assembléias, as decisões por consenso, o saber parte de uma
auto-descoberta, e só depois é que é estruturado com a ajuda da e do
professor. Enfim, procuro pôr um pauzinho na engrenagem, e de vez em
quando tento que alguma destas coisas aconteça, ou todas ao mesmo tempo,
sem dar muito nas vistas. (risos) No clube de teatro ligado à história da
matemática e na oficina de matemática ligada à arte e ao meio ambiente,
projeto muito recente, acima de tudo com muito amor para dar e sem
hierarquias na cabeça, pouco mais posso fazer.
Mas o que seria uma pedagogia libertária? Seria aquela que "doutrinaria"
as crianças para o anarquismo? Ou seria aquela que preparava as crianças
para escolherem o seu próprio caminho? É importante pensar nisto! Do meu
ponto de vista é mais a segunda que a primeira...
ANA > O que mais te incomoda no anarquismo?
Emília < Talvez o "ismo", não a anarquia. (risos) E que o mundo não seja
todo anarquista! O meio anarquista onde me movo é, ainda, um mundo muito
masculino, isto é, as mulheres ainda estão muito ausentes, mas está
começando a mudar. Começaram a aparecer nos últimos anos muitas jovens
interessadas pelo anarquismo em Portugal, como de resto em toda a parte,
julgo. Também têm diminuído bastante alguns preconceitos machistas,
próprios das gerações mais velhas, No meio ecologista nota-se um
crescimento notável de mulheres sendo aí que os preconceitos machistas
estão mais diluídos, no chamado "anarquismo verde", embora não goste do
termo. (risos) Verde, amarelo, vermelho, negro... de todas as cores, pois,
claro! Enfim, somos seres imperfeitos em crescimento constante, não?
ANA > “Anarquismo verde” é só um mais termo. No fundo, nós que nos
assumimos “anarquistas verdes”, amamos todas as cores. Amamos o arco-íris.
Amamos e defendemos a diversidade da vida... (risos)
Emília < Pois, alguns, algumas até são contra o aborto.  Interessa-me,
claro, defender a diversidade da vida, os direitos dos animais, o direito
à diferença, em tudo, na diversidade da sexualidade, por exemplo. Mas
todos os fundamental(ismos) são negativos. Interessa-me que uma criança
nasça se desejada, pois o seu primeiro direito é esse, ter sido desejada e
amada já, antes de nascer, verdadeiramente. O aborto é um mal necessário,
e deve ser um direito, não ser uma despenalização! Interessa-me que os
vegans não sejam fundamentalistas para com quem não o seja, para quem
fume, beba etc. E sim, é preciso muito "anarquismo verde", é lá que
encontro uma prática anti-machista clara, anti-homofóbica clara. Pergunto,
como se atrevem a chamar-se anarquistas todos e todas aquelas que são
homofóbicos e homofóbicas? Como se atrevem?
ANA > Atualmente faz parte da luta dos anarquistas portugueses à temática
ambientalista, ecológica?
Emília < Sim, bastante. Ela atravessa a prática de todos os coletivos de
uma forma geral, e os que não pertencem a nenhum coletivo também têm essas
preocupações. Ela está presente, sempre, diria.
ANA > No Brasil há ainda muitos vícios da sociedade machista no meio
libertário, nas novas gerações. Aliás, na semana passada um grupo de
anarco-feministas mascaradas invadiu a plenária final da “Conferência
Anarquista de Londres”, com mais de 300 anarquistas reunidos, e expôs o
sexismo que havia no movimento e na sociedade capitalista, as
contradições, o domínio masculino no movimento, que muitos reproduziam
estruturas de poder na cena libertária, a homofobia... Tudo muito
interessante... Gostei! Se estivesse lá faria o mesmo? (risos)
Emília < (risos) Bem, até que a cena é bem engraçada, imagino as caras dos
companheiros. Talvez sim... sim! Mas, de fato, encontrei em Portugal
algumas anarco-feministas bastante incoerentes. Se a sua prática era
sectária como esperavam contribuir para mudar as mentalidades? Há muita
confusão entre ressentimento e revolta, companheiros para um lado e
companheiras para outro? Nunca! (risos) Gosto de trabalhar em conjunto,
luta-se se for preciso, dá-se um murro na mesa, se for preciso, já o fiz,
de preferência deverá ser feito com firmeza e amizade, mas sempre com
eles! (risos)
ANA > Sim, juntar energias. Todas e todos juntos. Mas não podemos “jogar
para debaixo do tapete” nossos prejuízos, principalmente dos machos, não?
(risos) Você não acha que há a necessidade de maior questionamento entre
nós, no sentido da autocrítica?
Emília < Acho fundamental sim, companheiro, acho fundamental. Mas como
dizes achei piada aquela tirada dos "prejuízos dos machos". (risos) Acho
fundamental que não se reproduzam hierarquias, poder também é o
conhecimento e aí corre-se o risco de nos aniquilosarmos, isto é, ficarmos
cristalizados, parados no tempo, e não ouvirmos, vermos os outros e
outras. E menos ainda os erros que cometemos. Fico admirada com as
barreiras que existem ainda entre muitos de nós, mas pergunto, antes de
ser uma luta exterior não será dentro de nós que temos de exorcizar esses
fantasmas? Cada um e uma terá de se interrogar primeiro, se vencermos
esses medos e barreiras dentro de nós elas desaparecerão no exterior,
naturalmente...
ANA > Pode-nos falar um pouco como foi a Feira do Livro Anarquista de Lisboa?
Emília < Não estive integrada no grupo organizador, como sabes, mas posso
falar-te dela como participante. Penso que os objetivos definidos foram
alcançados. Queria-se ir para além da informação e da opinião, partindo de
diferentes projetos, pretendia-se criar um espaço de discussão, reflexão,
encontro e confronto de idéias anarquistas, onde cada um destes projetos
possa se desenvolver. Também se pretendia encontrar e conhecer outros
indivíduos e descobrir potenciais cúmplices no que cada um de nós
desejava, continuando a dar importância à palavra escrita enquanto
ferramenta de comunicação e ataque. Tudo isso aconteceu nesta feira.
Especial destaque para o tema dos grupos de afinidades, lutas intermédias
e insurreição, para práticas de resistência e medidas de prevenção e
emergência, assim como para o tema das prisões, a resistência dentro das
prisões por parte de anarquistas gregos, a questão do julgamento dos "25
de Caxias", ex-presos que se revoltaram na prisão de Caxias, Portugal, e o
caso das detidas por uma "vivenda digna" em Madri, em 2006.
Outro tema bem quente foi o da luta contra a exploração e a escravatura
causadas pelas empresas de trabalho temporário, por parte de um grupo de
emigrantes. Como não podia deixar de ser as próximas eleições em Portugal
e a mobilização em torno da "Plataforma Abstencionista"  estiveram
presentes. O anarquismo e os movimentos populares foi outro tema em cima
da mesa.
Excelentes filmes e documentários anarquistas passaram durante os três
dias de feira. Muitas bancas, muitos livros e revistas anarquistas, muitos
companheiros e companheiras de Portugal, mas também da Galiza, da
Catalunha, de Madri, da Inglaterra, do Canadá, da França... Saborosa
comida vegetariana... Como não podia deixar de ser, o reencontro de
companheiros e companheiras... caras novas, coletivos novos... e,  como
sobremesa, poesia anarquista! Belas canções anarquistas, cantadas com
muito amor e que nos comoveram a todos e todas, que nos uniram para lá das
diferenças, poemas ditos e cantados em várias línguas, a emoção à flor da
pele e a certeza de continuarmos a luta mais unidos e decididos,
porventura as afinidades mais assentes! Sem machismos e autoritarismos
visíveis. (risos)
Gostei, amei particularmente esta feira anarquista, e o dia seguinte foi
muito difícil, de repente tinha saído de um lugar tão bonito, e o mundo cá
fora era tão feio!
ANA > Nos últimos dias houve uma onda de protestos e agitação dos docentes
portugueses contra a política educacional do atual governo. Poderia
discorrer um pouco sobre esta luta?
Emília < Esta luta já começou em 2008, contra a divisão da carreira de
professor, que agora querem escandalosamente hierárquicas, para explorarem
melhor os professores, contra um modelo de avaliação absurdo, contra a
gestão autoritária e clientelar das escolas, contra a infestação
burocrática do ensino, por uma escola inclusiva, sem discriminações, com
meios materiais e humanos, que promova o sucesso de todos e todas, e que
não seja engolida pelas políticas neoliberais que dela querem fazer um
negócio ou um simples instrumento do mercado capitalista. Agora começam a
existir professores com salários em atraso, pois o Estado privatizou parte
do currículo, entregando-o às Câmaras Municipais que por sua vez contratam
empresas que por sua vez contratam professores ganhando uma miséria, no
país em que um em cada cinco trabalhadores não tem contrato de trabalho. A
precariedade atinge em cheio os professores. Tudo isto quando milhares
deles ficam de fora dos concursos nacionais. Resta-lhes o desemprego, ou a
precariedade das Atividades de Enriquecimento Curricular, ou a
precariedade nas empresas de explicações, cujo florescimento só mostra que
a escola não tem todos os recursos humanos necessários ao sucesso de todos
os alunos.
Aumentaram muito o horário de trabalho, aumentaram a idade da reforma,
congelaram há anos os salários. Os mais jovens ficaram quase sem os
direitos adquiridos com muita luta depois do fim da ditadura, em 1974, com
o 25 de Abril. Cem mil professores nas ruas, quase metade do que existem
em Portugal, depois mais duas grandes manifestações nacionais com a volta
de setenta mil, desobediência civil de metade dos professores das escolas
públicas contra a entrega dos "chamados objetivos" que era uma maneira
indireta de nos obrigar a obter resultados fictícios na avaliação dos
alunos, aceitando uma prática de competitividade selvagem entre
professores para obter uma classificação, por cotas, de excelente ou muito
bom que lhe permitisse subir na carreira, uma desgraça, uma vergonha!
Tenho de salientar o papel decisivo do aparecimento de cinco movimentos
cívicos de professores, dois deles pela defesa da escola pública, faço
parte de um deles, pressionando os sindicatos, depois destes nos terem
traído e terem assinado um "protocolo" com o governo, então os professores
foram para a rua, ultrapassando os sindicatos, e conseguiram que estes,
para não serem completamente ultrapassados, recuassem na sua estratégia de
submissão.
ANA > Os estudantes também participaram destas manifestações?
Emília < Já se começa a verificar algumas movimentações, alunos têm vaiado
a ministra da educação em todas as escolas aonde vai, mas não como se
desejaria e seria preciso.
ANA > O Partido Socialista português apóia as medidas anti-educacionais do
governo?
Emília < Completamente. Aliás, estas medidas também estão a ser tomadas em
outros países europeus. A gravidade das situações dependerá da capacidade
de resposta em termos de luta, mas em todos os lados os sindicatos
corporativos traem e são ultrapassados pelas pessoas em luta!
ANA > E os protestos continuam?
Emília < Sim, continuam. Mas o desgaste é visível. Algo terá de ser feito,
tem que se lutar para impedir que o próximo ano letivo comece nas atuais
condições, em setembro...
ANA > Uma última questão. Vamos imaginar que você tem o poder de trazer
para os dias atuais um grande anarquista, homem ou mulher, destes que
marcaram sua história pela coragem, ousadia... Quem você traria? (risos)
Emília < (risos) Sou contra o culto dos heróis -mesmo que anarquistas-
pois se até o Proudhon foi misógino! (risos) A sério, estou apaixonada
pelo Giordano Bruno, não sei se era anarquista (risos) é do século XVI, e
essa palavra só foi inventada mais de dois séculos depois por Proudhon. De
resto não queria ter poder nenhum (risos), mesmo que fosse esse de trazer
o Giordano Bruno, isso se ele quisesse, o que duvido, mas segundo ele, "a
morte é dissolução", então ele está vivo! E presente nos nossos corações,
e espero que na nossa memória coletiva.
Tenho um respeito imenso por todas as companheiras anarquistas estejam
onde estiverem, estando vivas ou não, num mundo patriarcal, lutar contra o
capitalismo, lutar contra a dominação, lutar contra os fantasmas do poder,
que geram violência nos homens. Tenho uma admiração imensa pela capacidade
de resistência e amor pelo planeta Terra que as mulheres indígenas
revelam, vítimas de discriminação total, pois são pobres, indígenas e
mulheres.
Tenho uma curiosidade e admiração especiais pela anarquista Emma Goldman.
Foi uma feminista notável, foi escritora e ensaísta de filosofia
anarquista, antimilitarista, lutou na revolução espanhola, denunciou e
repudiou a falta de liberdade após a revolução russa, fundou jornais
anarquistas, foi uma mulher a sério! Gostaria de falar com ela, acho que
nos havíamos de entender, e rir juntas, e lutar juntas!
ANA > Mais alguma coisa? Você já deve estar cansada... (risos)
Emília < Só que foi uma aventura esta viagem. E não, não estou cansada.
(risos) Adivinho que vêm aí tempos que não admitirão cansaços, como disse
a anarquista brasileira Beatriz Carneiro: "E preciso estar atento e forte.
Não há tempo para se temer a morte".
Mais do que dizer "Não!", é preciso saber escolher o caminho e dizer
"Sim!", às coisas que realmente são urgentes e fundamentais, aquelas que
unem os e as anarquistas. Nós somos fermento de lutas, o nosso papel
também é esse: estarmos ao lado de outros companheiros e companheiras
anti-autoritários e anti-capitalistas nas lutas locais e também
internacionais. Para todos e todas: Saúde, Tesão e Anarquia!
A TERRA É DE QUEM A AMA

Para quem trabalhar a terra é outra forma de fazer amor...

Cheirar a Terra,
tomar-lhe o pulso,
dançar com ela
ao som do vento...

Fazê-la desabrochar,
parir em cada ciclo...

Partilhar com ela
os frutos...
Chorar com ela as perdas.

Fazer amor com as amoras.

Emília Cerqueira - Agosto de 2003

agência de notícias anarquistas-ana


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