(pt) CONSIDERAÇÕES SOBRE O PROGRAMA ANARQUISTA

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Segunda-Feira, 8 de Junho de 2009 - 18:06:39 CEST


anarkismo.net
José Antonio Gutiérrez Danton
Durante os últimos setenta anos, o anarquismo viu-se reduzido em quase
todo o mundo a uma expressão mínima, salvo notáveis exceções em que ainda
conservou um certo peso, até o início da década de 1970 (o Uruguai é o
caso mais notável na América do Sul), em que houve, com altos e baixos,
uma certa continuidade, como no caso espanhol. Muitos fatores contribuíram
com seu declínio e não vem ao caso, neste artigo, realizar uma avaliação
dos fatores que contribuíram para isso. O certo é que, durante esta época,
a maioria das expressões libertárias, muito minoritárias, viu-se limitada
em seu raio de ação para a propaganda. De tal maneira, as grandes
organizações de caráter libertário foram reduzindo-se até terminarem
convertidas em grupos de afinidade ou coletivos, que mantinham, de uma ou
outra maneira, a chama acesa, por meio de uma publicação ou alguma outra
forma de divulgação.
Foi nas últimas duas décadas que houve um novo despertar do interesse no
anarquismo e que, novamente, os ensinamentos de Bakunin e as lições
deixadas pelos antigos sindicalistas revolucionários encontraram um novo
eco no movimento popular. O anarquismo, mais uma vez, encontrou-se com as
massas. Os primeiros indícios deste renascer libertário deram-se nas
jornadas do Maio de 68 na França, e durante toda a década de 1990. Depois
da queda do Muro de Berlim e do colapso dos chamados “socialismos reais”,
o campo foi novamente aberto para o movimento anarquista, que, por um
lado, opunha-se enfaticamente à (velha) “Nova Ordem”, e por outro,
proporcionava, principalmente à juventude, novas formas de organização, de
luta e de canalização de sua rebeldia, formas estas que se distanciavam
radicalmente das fórmulas do marxismo-leninismo clássico. Os novos
movimentos populares desta década (particularmente desde a emergência do
movimento zapatista em 1994) retomavam, em seu discurso e em suas
práticas, muitos elementos que marcavam um claro rompimento com a esquerda
que se desmoronava com o muro em Berlim, enquanto, algumas vezes,
retomavam certos elementos da tradição libertária. A prática do próprio
povo reivindicava o velho Bakunin.

No ritmo destas transformações sociais e destas novas resistências,
agrupamentos anarquistas floresceram por todo mundo, às vezes surgindo de
alguma publicação, outras de um movimento mais amplo (como o zapatismo) e
às vezes com a intenção definida de reconstruir o movimento anarquista.
Contudo, os problemas que todos estes grupos enfrentaram foram notáveis: a
falta de referências organizacionais foi um dos mais graves, já que as
únicas referências conhecidas eram de caráter histórico e só podiam ser
conhecidas nos livros de história ou pelos relatos de um ou outro
militante da velha guarda que sobreviveu às transformações da segunda
metade do século XX. Que o anarquismo é organização, como diziam todos os
panfletos, ninguém discutia, porém, surgiam outras questões. Como se
organizar? Que aspectos teria uma organização libertária? Como chegar a
acordos sem cair nos modelos tradicionais dos agrupamentos de esquerda?
Todas estas perguntas rodearam vários de nós, que tratamos então de
levantar alternativas libertárias. Com a falta de referências fomos
encontrando as respostas de maneira muito empírica, em parte pegando
elementos daquilo que conhecíamos, em parte pegando elementos de alguns
dos novos movimentos populares, em parte imaginando como as velhas
organizações ácratas haviam chegado a acordos e, em grande parte,
improvisando.

Desta forma fomos crescendo, atraindo novo sangue para a causa libertária.
Porém, as limitações começaram a aparecer de maneira clara, conformes as
coisas começaram a andar. Notávamos que a maioria das organizações
continuava reproduzindo o modelo dos grupos de propaganda. Estes grupos de
propaganda tiveram um trabalho importante quando o anarquismo era um
movimento minoritário, e é graças a eles que as idéias libertárias
sobreviveram até nossos dias. Mas diante das exigências do presente e
diante de um movimento que já havia crescido bastante para ainda
conformar-se com as tarefas de propaganda, esta lógica de organização
mostrava-se insuficiente.

Muitos de nós tínhamos cada vez mais consciência da necessidade de dar o
salto qualitativo dos grupos de propaganda para organizações de caráter
político-revolucionário. Como dar este salto? Por muito tempo, acreditamos
que iríamos encontrar a resposta para esta pergunta em certos formalismos:
a organização como mera estrutura, o número de militantes ou a quantidade
de áreas em que nossos militantes estavam inseridos. Na realidade, nada
disso era o fundamental e, além disso, podíamos aspirar ser grupos de
propaganda maiores ou menores, com secretariado nacional ou não, ou com
áreas de propaganda mais ou menos diversificadas. No entanto, no fim das
contas, continuávamos sendo grupos de propaganda. E com a limitação que
isso representa para o desenvolvimento do movimento.

Era necessário, então, ir para além dos formalismos: o salto dos grupos de
propaganda para a sólida organização política revolucionária requer uma
transformação política de fundo, que permita um crescimento em termos
políticos e que permita a transformação do movimento libertário em um
movimento de massas. Esta transformação é a tradução da prática e do
pensamento libertário em um programa revolucionário concreto de ação. E é
esta a fase atual em que muitos movimentos libertários a nível global
encontram-se hoje, tratando de definir um projeto libertário para o
presente e o futuro imediato.

NOSSA POSIÇÃO NA TRADIÇÃO ANARQUISTA E A NECESSIDADE DO SALTO POLÍTICO

Para abordar a questão do programa revolucionário, o que realizaremos com
mais profundidade neste artigo, é necessário partir de preceitos políticos
muito básicos, já que ainda que todas as expressões do movimento
libertário tenham de dar este salto ao plano programático, isso é
particularmente sensível para a tradição anarco-comunista da qual somos
parte. O lugar exato que ocupamos na tradição anarquista é algo que
devemos ter presente a todo momento. Ser parte da tradição
anarco-comunista (que se desenvolve a partir da Plataforma) não é algo que
deveríamos fazer sem pensar e nem algo que devemos transformar em um mero
artigo de fé. Tal opção não é uma decisão simplesmente de capricho, nem
foi escolhida por excessivo zelo ideológico. Tal opção expressa,
sensivelmente, a vontade de construir um certo tipo de organização, a fim
de contar com um certo tipo de ferramenta para transformar nossa realidade
opressiva e exploradora em uma sociedade livre e justa. Com este propósito
em mente, consideramos que o marco revolucionário e a aproximação
organizacional colocados na Plataforma possuem elementos centrais de muito
valor. Sem ser uma receita para seguir de maneira cega, seus elementos
fundamentais são concretos e úteis, a julgar pela própria experiência que
construímos internacionalmente, pelo estudo dos movimentos revolucionários
que nos precederam e das causas de seu fracasso.

O essencial da Plataforma é como construir uma organização que reúna os
anarquistas de idéias afins em função de propostas e táticas concretas –
ou seja, uma “organização política” em oposição àquilo que é um grupo
puramente ideológico. Estando nesta tradição, é perfeitamente justo que
nos perguntemos quantas de nossas organizações, deixando de lado qualquer
tipo de pretensões, conseguiram realmente alcançar um nível de
desenvolvimento próprio de uma organização política. No presente, a
maioria destas agrupações são somente grupos de propaganda. A principal
diferença entre uma organização política e um grupo de propaganda não é
seu número de militantes e nem sequer o nível de militância, ou de
inserção política de seus membros. A principal diferença é a simples
resposta à pergunta: o que podemos oferecer ao povo? Enquanto os grupos de
propaganda não podem mais do que oferecer uma visão política e ideológica
e, no melhor dos casos, algumas palavras de ordem, a organização política
revolucionária pode oferecer uma linha de ação, um programa, uma linha
tática, uma estratégia, objetivos de curto, médio e longo prazo.

A partir deste ponto de vista, deveríamos superar a limitação básica do
anarco-sindicalismo ortodoxo em relação à organização anarquista, uma
limitação que os seguidores da Plataforma combateram, mas da qual, hoje,
frequentemente não temos como escapar. Esta limitação é a crença de que o
grupo anarquista é uma entidade puramente ideológica, alheia às pequenas
lutas diárias, e imaculada em relação à luta por reformas. As reformas, em
sua opinião, são tarefa dos sindicatos, das frentes políticas e sociais ou
das organizações sociais.

A partir da nossa concepção, rechaçamos completamente esta maneira de
entender o papel das agrupações anarquistas, e é isso o que nos faz ser,
antes de tudo, anarco-comunistas. O que significa defender a necessidade
que os anarquistas que possuem afinidades em termos políticos unam-se, mas
também que se organizem como tais para enfrentar as lutas cotidianas. Que
desenvolvam suas propostas sociais, não somente em vista da pouco provável
eventualidade de uma revolução que ninguém sabe quando será, mas para o
presente. Depois de tudo, as revoluções não acontecem magicamente, mas são
impulsionadas. Se não começarmos a transformar o presente, nunca
chegaremos a conclusões satisfatórias no futuro. Na teoria todos estão de
acordo com isso, mas o que ocorre na prática?

FAZENDO O ANARQUISMO RELEVANTE PARA TODOS

A questão, então, nos é colocada de frente, sem possibilidade de evitá-la:
podemos estar sinceramente satisfeitos com a propaganda? A propaganda, já
admitimos, foi necessária para construir um movimento como o que temos
hoje em dia. Mas não pode continuar sendo o foco exclusivo de nossos
esforços hoje em dia – a propaganda não pode determinar as necessidades da
organização; são as necessidades da organização que devem determinar a
propaganda. Podemos estar satisfeitos, com toda honestidade, indo de luta
em luta divulgando nossos princípios? Nesta altura, deveríamos estabelecer
algo mais para nós, deveríamos buscar uma linha de ação e de pensamento
estratégico, que dê coerência à nossa participação (ou não participação)
em uma ou outra luta. É hora de assumir responsavelmente a importância que
nosso movimento conseguiu e deveríamos começar a nos comportar de acordo
com esta circunstância.

Hoje em dia, simplesmente não é suficiente fazer declarações sobre a
sociedade que queremos nos próximos 500 anos ou depois da revolução. Entre
as lutas que travamos hoje e a sociedade ideal do futuro que aspiramos
existe um enorme abismo. Somos utópicos no pior sentido da palavra. Ou
reformistas, na medida em que a luta pelas reformas não se liga (para além
de nossos desejos) a uma estratégia revolucionária. Entre nosso utopismo e
nosso reformismo é onde devemos encontrar o caminho para a política
revolucionária, que unifique nossa participação nas lutas por reformas e
transformações no presente, com aquelas grandes aspirações que nos
inspiram.

É hora de pensar que tipo de sociedade, de país, queremos nos próximos,
digamos, cinco anos. Ou em qualquer espaço de tempo concreto. Esta é a
grande pergunta que devemos nos fazer no momento, cuja resposta será de
grande proveito para nosso movimento e para fazer nosso anarquismo
relevante para o povo hoje. Não em teoria, mas na prática. O economista
libertário Michael Albert, em uma fala em Dublin, fez um comentário
certeiro afirmando que o povo em sua imensa maioria está de acordo conosco
em nossa crítica aos vícios do capitalismo. Muitos, inclusive, estarão de
acordo com aquilo que é almejado em uma sociedade anarquista, quando isso
é explicado corretamente. Mas enquanto não formos uma alternativa prática,
com propostas muito concretas e factíveis para o presente, que demonstrem
que o projeto libertário é viável, não há muitas oportunidades para nosso
movimento aumentar seu círculo de influência.

PARA QUE SERVE MILITAR EM UMA ORGANIZAÇÃO ANARQUISTA?

Então, deveríamos nos perguntar o que nos impede de crescer como
organização. Às vezes, pessoas próximas a nossos grupos colocam como razão
para não se somarem à militância em nossas estruturas orgânicas, o fato de
não verem motivo para estar em uma organização anarquista se podem
participar de organizações sociais e fazer o mesmo – ou mais – nelas.
Alguns outros dizem que os anarquistas, assim como boa parte da esquerda,
passa todo o tempo correndo atrás do próprio rabo. É que sem um programa e
uma estratégia, é fácil sermos levados à deriva pelos eventos, e ao
terminar uma luta virarmos a página e começarmos de novo outro novo
círculo. Precisamos deixar de dar voltas em círculos e começar a acumular
seriamente em nossas lutas, para um projeto concreto que tenha
continuidade no tempo.

Freqüentemente nos deparamos com companheiros excelentes, próximos, que
militam conosco em espaços de luta ou organizações populares. Por que
estes companheiros deveriam ser militantes anarquistas? Por que participar
de um grupo que não lhes dá mais do que perspectivas que a luta nos
espaços em que, de todo modo, já estão participando? O que um companheiro
ganha, em termos políticos, ao unir-se a uma organização libertária? A
organização anarquista tem de ser mais que um somatório de espaços ou
frentes de luta se ele deseja ter algum sentido.

A principal razão de ser de uma organização política libertária é a
capacidade de desenvolver uma linha política que dê direção à ação
coletiva, que lhe dê uma orientação para um conjunto maior do que um
determinado setor social (por exemplo estudantes, trabalhadores, etc.) ou
para povo em uma determinada localidade. A organização é um espaço de
convergência em que se acumula para um projeto de sociedade. Ser membros
de uma organização anarco-comunista deveria representar uma diferença
qualitativa para nossa atividade política em termos não somente de
presença organizativa, mas também de direção política. Esta direção
constitui-se nas bases de uma linha de intervenção concreta e explícita
nos conflitos sociais.

A pura fé no anarquismo, ainda que necessária, não basta: é necessário
desenvolver um projeto político concreto. Não se pode, diante de cada uma
das lutas, voltar a debater do zero, voltar a inventar a roda; é
necessário ter políticas claras, fruto de um acúmulo de experiências, com
uma linha de ação igualmente clara, que facilite a avaliação e a
intervenção nos processos sociais à medida que se desenvolvam, tendo a
capacidade de enfrentar a história.

Esta linha de ação clara é de maior importância, já que o problema real
não é se triunfamos ou fracassamos diante de uma luta específica, mas o
que faremos para a continuidade da luta, independente de ganharmos ou
perdermos. O problema é como esta ou aquela luta pode ser útil no processo
de acúmulo de experiências, de ganho de confiança e de aumento de poder
que pode ser utilizado nas lutas vindouras e na elaboração de um projeto
social.

A capacidade de ter esta linha de ação e um programa nascido desta
experiência acumulada, que uniformize nossas propostas para enfrentar o
presente com nossos objetivos de longo prazo, é o que faz a diferença em
uma organização política revolucionária. Ninguém tem motivo para unir-se a
uma organização anarquista para, por exemplo, fazer sindicalismo. Para
isso basta unir-se a um sindicato. Da mesma forma, as idéias sobre o
futuro podem ser muito interessantes, mas são insuficientes para a maioria
das pessoas como um argumento para unir-se a uma iniciativa política. É
necessária uma visão prática da possibilidade de transformação do conjunto
da sociedade em médio prazo. Se sou uma esposa maltratada, se sou um
imigrante, se sou um trabalhador mas estou desempregado, se detesto meu
trabalho e todos os trabalhos que eu poderia conseguir, que diferença faz
na minha vida ser um anarquista? Esta é a pergunta que deveríamos nos
fazer para entender nosso anarquismo como uma força viva na sociedade e
como projeto de transformação, ou seja, como programa revolucionário.

POR QUE UM PROGRAMA REVOLUCIONÁRIO?

Já falamos muito da necessidade de uma visão estratégica, de concretizar
nosso anarquismo, do programa revolucionário. Mas o que queremos dizer
exatamente com tudo isso? Devemos especificar bem o que queremos dizer
para não confundir o que nós, anarco-comunistas, entendemos por programa
revolucionário, com o que entendem as correntes dogmáticas. Seu programa
não é mais do que algo sem validade, escrito há cinco décadas e em nada
modificado (como se o mundo não tivesse mudado desde então). Também não
podemos confundir o programa com uma panacéia que magicamente vai superar
todas os equívocos de nossa prática política.

Um programa revolucionário é, em breves palavras, um conjunto de propostas
muito precisas e concretas para avançar até transformações sociais
profundas. Não é a teoria revolucionária, mas sim a aplicação desta teoria
para compreender e transformar a sociedade concreta. Ele parte de uma
análise da sociedade atual, estuda as condições atuais do terreno para a
luta de classes, identifica os problemas mais urgentes e as condições para
desenvolver um movimento; estuda potenciais aliados e inimigos; e propõe
uma série de transformações, assim como um caminho para alcançá-las por
meio da luta. Em todos estes momentos da elaboração do programa, a teoria
serve de guia. A teoria, não entendida como dogma, mas como uma ferramenta
para compreender melhor o mundo.

Este programa nos orienta na ação e nos entrega propostas claras com as
quais podemos converter o anarquismo de uma “linda idéia que é
impraticável” em uma alternativa clara para o presente de opressão e
exploração. Os programas revolucionários não devem ser considerados
“tábuas de Moisés”, mas devem ser reavaliados, atualizados ou modificados
constantemente. O programa deve conservar, a todo momento, sua relevância,
sua atualidade, e sobretudo, deve ter um vínculo concreto por meio de uma
prática coletiva e definida.

Certamente, esta aproximação programática requer passar das palavras de
ordem para as propostas; e requer passar da crítica da realidade ao estudo
crítico da realidade. Se o anarquismo quer alcançar a maioridade como
movimento político, não podemos nos contentar com fórmulas fáceis nem com
a ausência de propostas que reina em nossos círculos. Em um artigo
esclarecedor, o pensador libertário Camilo Berneri assinalava neste
sentido o seguinte:

“O inimigo está aí: é o Estado. Mas o Estado não é somente um organismo
político, um instrumento de conservação das desigualdades sociais; é
também um organismo administrativo. Como estrutura administrativa, o
Estado não pode ser abolido. Ou seja, é possível desmontá-lo e remontá-lo,
mas não negá-lo, porque isso paralisaria o ritmo de vida da nação, que
pulsa nas artérias ferroviárias, nas veias telefônicas, etc.

Federalismo! É uma palavra. É uma fórmula sem conteúdo positivo. O que nos
oferecem os mestres? A premissa do federalismo: a concepção antiestatal, a
concepção política e não a fundamentação técnica, o medo da centralização
e não os projetos de descentralização.

Aqui está, ao contrário, um tema de estudo: o Estado em seu funcionamento
administrativo. Aqui está um tema de propaganda: a crítica sistemática do
Estado como órgão administrativo centralizado e, portanto, incompetente e
irresponsável. Cada dia a notícia de sucessos nos oferece assuntos para
esta crítica: milhões desperdiçados em más especulações, em lentidões
burocráticas; poeira nos ares por negligência dos gabinetes “competentes”;
latrocínios em pequena e grande escalas, etc. Uma campanha sistemática
deste tipo poderia atrair sobre nós a atenção de muitos que não se
comoveriam, em absoluto, lendo Deus e o Estado.

Onde encontrar os homens que podem alimentar regularmente esta campanha?
Os homens existem. É necessário que eles dêem sinais de vida. É necessária
uma mobilização! Profissionais, empregados, professores, estudantes,
trabalhadores, todos vivem em contato com o Estado ou ao menos com as
grandes empresas. Quase todos podem observar os danos da má administração:
os desperdícios dos incompetentes, ou roubos dos preguiçosos, os
empecilhos dos organismos mastodontes.

[...] Devemos voltar ao federalismo! Não para deitar no divã da palavra
dos mestres, mas para criar o federalismo renovado e fortalecido pelo
esforço de todos os bons, de todos os capacitados.”


Pagine Libertarie, Milão, 20 de novembro de 1922.

Em suas palavras está clara a necessidade de superar o anarquismo
discursivo, autocomplacente e começar a pensar com toda a seriedade nos
problemas sociais em toda sua complexidade, sem simplificações e nem
apriorismo teórico. Esta necessidade, transversal a todas as expressões do
movimento libertário, explica porque é necessário dar o salto para o
estabelecimento de programas revolucionários. Porém, o pensamento
programático não serve somente como uma maneira de enfrentar com propostas
construtivas os problemas sociais e para ampliar o círculo anarquista,
mas, além disso, permite-nos acabar com duas características do movimento
libertário: primeiro, com a política de satélite em torno do resto da
esquerda, que nos converte em meros contraditores ou seguidores de outras
alternativas, sem um desafio próprio e sem ser, por conseguinte, uma
alternativa em direito próprio. Por outro lado, ele também nos ajuda a
superar os desvios sectários, já que muitas vezes o sectarismo e a
incapacidade de assumir corretamente uma política de alianças deve-se à
falta de clareza dos próprios libertários em todos de seus próprios
objetivos imediatos. O desenvolvimento de programas concretos, em
conclusão, fortalece nossa presença nas lutas populares, com força própria
a nossa bandeira.

POR ONDE COMEÇAR A DISCUSSÃO DO PROGRAMA?

Voltamos, então, a repetir a pergunta: o que eu ganho ao unir-me a uma
organização libertária? Não deveríamos responder esta pergunta de maneira
assistencialista. Não há obras de caridade que possamos ou queiramos
fazer. Certamente, unir-se a um grupo libertário não lhe permitirá
ascensão e não há, muito menos, a remota possibilidade de tornar-se um
político profissional. A resposta deveria surgir do quanto podemos
transformar e mobilizar a sociedade em seu conjunto. Enquanto a direita e
o centro apóiam-se, para atrair base de apoio, nos benefícios imediatos
mas inconsistentes (a prática do clientelismo), nossa posição é que, para
haver melhorias, é necessário lutar. Por este motivo, os benefícios
imediatos são difíceis (com exceção da satisfação própria do apoio mútuo
entre companheiros, da solidariedade e do sentimento de ganho de poder que
vêm junto com a luta), mas as melhorias que conquistarmos, serão
definitivamente mais consistentes.

Portanto, somos organizações de luta. Mas se somos organizações de luta, a
estratégia e a tática devem ser aplicadas. Devemos conhecer bem nossos
objetivos de longo prazo e fazer com que nossas posições avancem, a fim de
enfraquecer nosso inimigo de classe, fortalecendo assim nossa base de
apoio (na classe trabalhadora) e dando os passos táticos concretos que nos
aproximem de uma posição de rompimento com a (atual) velha ordem.

Para começar uma batalha é necessário saber, exatamente e com precisão, a
natureza e as características do campo de batalha. Devemos desenvolver
análises políticas, econômicas e sociais, tanto em nível nacional como
internacional. Descrever e identificar as principais tendências no
desenvolvimento global do capitalismo. Esta análise deve ser atualizada
regularmente.

Uma vez conhecido o terreno em que se pisa, a tarefa seguinte é
identificas os aliados em potencial; não tanto em nível teórico (algo que
já deve estar definido), mas em termos muito concretos. Como está
estruturada a classe trabalhadora hoje em dia? Que tipo de contradições
internas ela apresenta? Onde está o potencial para a luta? Que conflitos
se apresentam? Quem são os outros atores em luta?

Uma vez que sabemos com quem podemos contar, devemos saber como atraí-los.
Devemos começar, portanto, a discutir os assuntos mais urgentes do
momento: saúde, moradia, educação, recursos naturais, relações
trabalhistas, etc... Não de maneira abstrata, mas concreta. Em nosso país,
hoje, ou no futuro imediato. Essas necessidades mais urgentes requerem uma
visão de conjunto, a fim de dar respostas coerentes a problemas
particulares, em relação aos quais tenhamos algo mais a oferecer do que
palavras de ordem. Temos que discutir sobre o transporte, a distribuição,
as estruturas democráticas de base, a troca, etc. Desta maneira, devemos
traduzir o anarquismo, de uma “ideologia” para um sistema de propostas
sociais, de alternativas de luta.

Com esta aproximação, nos afastamos daquela visão milenar de revolução,
como se ela fosse uma espécie de momento apocalíptico no qual podemos,
então, e somente então, estabelecer magicamente nosso programa
construtivo. A história nos ensina que as revoluções são resultado de um
processo prolongado no tempo; não acontecem da noite para o dia, pois a
ruptura crítica das classes em conflito pode ocorrer depois de um período
relativamente grande de concessões, conquistas, tensões e disputas em
torno de demandas sociais colocadas. Algo que pode parecer uma reforma
irrelevante hoje tem como se converter na faísca que acenderá o fogo
revolucionário. O dever dos revolucionários é impulsionar nosso programa
na resistência e na construção, desde o presente, e não esperar aquele
distante dia da revolução, em um distante amanhecer. Ao trabalhar desta
maneira estamos, na realidade, fundamentando as bases práticas da
sociedade em que queremos viver.


Outubro-Novembro de 2006.

* Tradução: Felipe Corrêa




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