(pt) [Bielorússia] Relato sobre o Congresso Anarquista

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Quarta-Feira, 22 de Julho de 2009 - 14:32:22 CEST


De 3 a 5 de julho aconteceu o Congresso Anarquista, na Bielorússia. Eu
tive a sorte de participar dele. O local foi bem escolhido - perto de
Minsk (capital da Bielorússia), num bosque. O/as participantes acamparam
entre as árvores e próximo do lugar tinha uma fonte de água (pena que lá
não havia nenhum rio para se banhar, mas tudo bem). O/as organizadore/as
chegaram uns dias antes para preparar o local e construir as tendas da
cozinha e as barracas. A comida ficou sob a responsabilidade do grupo
local Food not Bombs (Comida Sim Bombas Não). Participaram do encontro
pessoas da Bielorússia, Ucrânia e Rússia.

Sexta-feira, 3 de julho

O primeiro dia começou com um café da manhã, que se transformou em
apresentação do/as participantes. Havia representantes de várias
iniciativas libertárias: Food not Bombs, okupas, sindicalistas, autônomos,
antifascistas, feministas, exército de palhaços, médicos de rua, frente de
libertação animal, ecologistas radicais e outras sensibilidades mais.

Após a apresentação começou a discussão sobre a segurança - durante as
ações e manifestações e mesmo durante o próprio Congresso. Foi proibida
qualquer fotografia ou filmagem, o/as presentes tiveram que desligar seus
celulares e retirar as baterias.

Também foram debatidos os temas de segurança individual e coletiva, onde
foi apresentada uma brochura sobre como se proteger - parecida com uma
editada na Rússia, mas com os artigos do código penal da Bielorússia.

Depois houve um pequeno intervalo e em seguida uma discussão sobre
anarco-sindicalismo. Primeiro, uma introdução ao anarco-sindicalismo a
partir do Século XX até os dias de hoje. Posteriormente um debate entre
anarco-sindicalistas e autônomos sobre a viabilidade do projeto na
atualidade, e a respeito de dois métodos de ação: entrar num grupo de
trabalhadore/as e gradativamente transformá-lo numa célula anarquista, ou
criação de coletivos pelo/as próprio/as anarquistas sem integração nos
grupos de trabalhadore/as e a criação de comunas de produção. Fiquei
com a impressão que cada um/a continuou com seu ponto-de-vista.

Em seguida houve um pequeno intervalo para o almoço e seção sobre a
resistência anti-nuclear. Sobre os males da energia nuclear e suas
alternativas. E bate-papo acerca das estratégias e táticas de luta contra
as usinas nucleares que já operam e estão em construção na região. Também
conversamos sobre a cooperação e luta internacional contra a energia
nuclear. No final foram distribuídos filmes com a crônica dos protestos
contra a energia nuclear e brochuras sobre fontes alternativas
de energia.

Aí teve um grande intervalo para descanso. Iríamos assistir a um filme,
mas o gerador de energia e o equipamento de som ainda não tinham chegado.
Então todo mundo foi preparar a janta e conversar sobre os assuntos mais
variados.

Às 23 horas chegou o gerador e vimos o filme “Ocupação”, de Naomi Klein,
sobre as fábricas ocupadas na Argentina, em particular sobre a Zanon. Após
o filme aconteceu uma noitada de anarcodiscoteca.

Havia vigília toda a noite ao redor do acampamento e na fogueira para
garantir a segurança do Congresso. Parte do/as participantes bebiam álcool
à noite, moderadamente, e não houve nenhuma bagunça.

Sábado, 4 de julho

O segundo dia começou com o café da manhã. A primeira conversa foi sobre a
Cruz Negra Anarquista (CNA), sua história e trabalho em Moscou. Na
Bielorússia e na Ucrânia não há grupos organizados da CNA, há pessoas que
fazem o trabalho individualmente e coletas de recursos para companheiro/as
preso/as. O nível de repressão não é tão alto nestes países. Mas como
disseram companheiro/as da Rússia, é melhor se preparar antes para a
possível repressão.

Depois, discutimos o sistema de transportes. Um ativista apresentou quais
meios de transporte são mais ecológicos e porque o transporte individual,
o carro, é perigoso. Após houve uma exposição sobre a campanha de
transporte coletivo gratuito em Minsk e sobre a rede internacional de
transporte gratuito freepublictransport.com. E, no final, falamos da Massa
Crítica e viagens de carona.


Em seguida aconteceu a seção problemas de gênero. Falaram da questão de
gênero, da diferença entre o gênero e o sexo. E fizeram uma apresentação
onde todo/as participantes se dividiram em 10 grupos e cada grupo recebeu
um cartão com uma história para apresentar, focando o tema gênero. Por
exemplo, ao se encontrar, menina aperta a mão, aí o cara fala: você aperta
a mão como um homem/macho. Aí todo/as tinham que discutir a cena. Foram
levantados vários problemas bem interessantes sobre o gênero e rolaram
boas discussões.

Seguindo, veio a discussão sobre a cooperação internacional. Depois
almoço, com uma comida maravilhosa preparada na fogueira. E apresentação
lúdica do exército de palhaços - que tática eles usam, como ela pode
funcionar em nossos países. Também uma falação sobre cheerleeders radicais
e seção sobre os médicos de rua – como se prevenir durante as ações, do
gás pimenta, e exercícios práticos.

Pessoas de Kiev (capital da Ucrânia) apresentaram o Sindicato Estudantil
Ação Direta, recentemente criado. É um sindicato oficialmente registrado,
com estrutura e tomada de decisões horizontais. Entre os objetivos da
agremiação está a luta pelos direitos estudantis e divulgação das idéias
anarquistas entre o/as estudantes. O sindicato publica um jornal,
participa de manifestações e agrupa estudantes de três grandes
universidades da cidade, formados e que estão ainda estudando.

Após um grande intervalo (atraso do gerador de novo), começou o seminário
sobre a segurança no uso de computadores. Depois rolou concerto do grupo
Politzek (preso político, em russo) e discoteca com som do Atari Teenage
Riot, Scooter, MC Hammer, "Дюна” e outros. Muito
bom. Com canções, danças e álcool.

Domingo, 5 de julho

O terceiro e último dia começou com um café da manhã, como sempre, e
continuou com a apresentação do/as ativistas da Federação Anarquista da
Bielorússia. Contaram da sua história e sobre as perspectivas num futuro
próximo. Quando acabou, o pessoal da Rússia e da Ucrânia foram discutir
seus assuntos locais.

Logo após veio o seminário sobre a contra-cartografia. A criação de mapas
não geográficos, mas psicológicos (da situação psicológica em cada bairro
da cidade). Ou como pode ser a demarcação de prédios que precisam ser
destruídos (bancos, tribunais de justiça, bases policiais). Ou a criação
dos mapas de migração da população de uns países para outros. A
contra-cartografia não usa métodos habituais e pode “colocar” a África no
norte do globo, ou a Europa no sul, pois isto não atrapalharia a
compreensão do mapa. A idéia principal é destruir o privilégio dos
poderosos na criação dos mapas. É sabido que na elaboração dos primeiros
mapas o centro do mundo
era Jerusalém, por exemplo. Ou na época da Renascença, onde o centro
situava-se no atlântico e isto servia aos interesses dos colonizadores e
invasores das Américas.
Ou como hoje em dia nos mapas chineses o centro do mundo se situa - sabem
aonde? Na China.

E, no final, todo mundo se reuniu para debater o tema antifascismo. Houve
apresentação de grupos antifascistas existentes na Rússia e as atividades
dos grupos neonazistas. Também sobre os projetos futuros e situação em
geral do movimento.
Depois falaram do antifascismo ucraniano, de seu crescimento e saída do
apoliticismo. Suas manifestações agrupam mais pessoas que as dos
neonazistas, e eles criaram projetos sociais nas escolas.

Com este tema o Congresso não acabou. Ele acabou com um almoço muito
gostoso, de salada de verduras e trigo sarraceno com legumes. Depois o/as
participantes colheram todo lixo, apagaram as fogueiras, fecharam as
barracas, foram até a estação, e se despediram...

Este Congresso funcionou sem as provocações da polícia e sem incidentes. O
ambiente do encontro foi amistoso e os temas se intercalavam com a
alegria. Na minha memória este foi o mais tranqüilo e proveitoso
Congresso. É bom que o nosso movimento cresça e fique menos infantil e
mais sério.

Participante da Ação Autônoma - Moscou, Rússia

Tradução > Cristina Dunaeva





More information about the A-infos-pt mailing list