(pt) II Encontro Pró-Federação Anarquista de São Paulo. Documentos

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Quarta-Feira, 22 de Julho de 2009 - 13:53:30 CEST


Documentos distribuídos no II Encontro Pró-FASP: "Questões de Saída" e
"Teoria: O Especifismo Como Forma de Organização Anarquista".

Questões de saída
Pró-Federação Anarquista de São Paulo (FASP)
Todos as/os militantes interessados/as ser membros da FASP devem concordar
com estas “questões de saída”, consideradas por nós como o mínimo
necessário para se iniciar as discussões.

a. Da compreensão do anarquismo como ideologia e, assim, como um sistema
de idéias, motivações e aspirações que possuem necessariamente uma conexão
com a ação no sentido de transformação social, a prática política.

b. Da defesa de um anarquismo social, em permanente contato com a luta de
classe dos movimentos sociais de nosso tempo, e funcionando como
ferramenta de luta e não como pura filosofia ou em pequenos grupos
isolados e sectários.

c. Da compreensão de um conceito de classe que ainda deve ser aprofundado,
mas que inclui todas as parcelas de explorados/as da nossa sociedade.

d. Da necessidade de o anarquismo retomar seu vetor social, perdido desde
a década de 1930, quando da crise do sindicalismo. Assim, buscaremos
encontrar os melhores espaços de trabalho, onde as contradições do
capitalismo são mais evidentes.

e. Da defesa da revolução social e do socialismo libertário como objetivos
de longo prazo.

f. De ser imprescindível as/os anarquistas se organizarem de maneira
específica para atuar nas mais diversas manifestações da luta de classes.
Ou seja, uma separação entre os níveis político (da organização específica
anarquista) e social (dos movimentos sociais, sindicatos, etc.).

g. De conceber a organização como imprescindível e de sustentarmos uma
posição contrária ao individualismo e ao espontaneísmo.

h. Da concepção da organização anarquista como uma organização de minoria
ativa, diferindo-se esta da vanguarda autoritária por não se considerar
superior às organizações do nível social. Assim, o nível político é
complementar ao nível social e vice-versa.

i. De compreendermos como principal atividade da organização anarquista o
trabalho/inserção social em meio às manifestações de luta do povo.

j. De acreditarmos que a ética é um pilar fundamental da organização
anarquista e que ela norteia toda a sua prática.

k. De compreendermos a necessidade de propaganda e de nos comprometermos a
realizá-la nos terrenos mais férteis.

l. De entendermos poder dividir a organização anarquista em frentes para
facilitar o trabalho/inserção social.

m. De utilizarmos a lógica dos círculos concêntricos de funcionamento,
dando corpo a uma forma de organização que quanto maior o nível de
compromisso dos militantes, mais dentro eles estão da organização e maior
é seu poder de deliberação. Da mesma maneira, uma organização que
proporcione uma inteiração eficiente com os movimentos sociais.

n. De construirmos uma organização com critérios claros de entrada e com
posições bem determinadas para todos/as que queiram ajudar.

o. De buscarmos sempre o consenso mas não nos prendermos a ele, podendo
votar quando necessário, vencendo a maioria.

p. De trabalharmos com unidade teórica, ideológica e programática
(estratégica). Assim, a organização construirá coletivamente uma linha
teórica e ideológica e da mesma forma, determinará e seguirá com rigor os
caminhos definidos, todos/as remando o barco no mesmo sentido, rumo aos
objetivos estabelecidos.

q. De assumirmos que a FASP será uma organização com compromisso
militante. Uma organização com membros/as responsáveis, que não é
complacente com a falta de compromisso e a irresponsabilidade.

r. Finalmente, de assumirmos o modelo especifista de organização
anarquista que difere do modelo sintetista (que busca colocar dentro da
mesma organização todos os tipos de anarquistas).

* A FASP não almeja (não tem a pretensão de) representar os anarquistas de
São Paulo.





TEORIA: O ESPECIFISMO COMO FORMA DE ORGANIZAÇÃO ANARQUISTA
Pró-Federação Anarquista de São Paulo (FASP)
O especifismo é uma forma de organização anarquista. Apesar de o termo ter
sido apropriado recentemente pela Federação Anarquista Uruguaia (FAU),
refere-se a formas de organização propostas pelos clássicos anarquistas
desde o século XIX e que são defendidas até hoje, no Brasil e em outros
lugares do mundo.

Sua primeira origem pode ser identificada nas posições orgânicas de
Bakunin, tanto em relação às organizações populares – o que materializou
em sua defesa de um determinado modelo para a Associação Internacional dos
Trabalhadores (AIT) –, quanto em relação à organização política
revolucionária – que se materializou na teoria e na prática em torno da
Aliança da Democracia Socialista (ADS). Sua segunda referência pode ser
considerada nas posições de Malatesta, tanto em relação às organizações
populares – e toda a discussão que ele realizou em relação ao movimento
operário e ao sindicalismo –, quanto em relação à organização específica
anarquista, que ele chamou de “partido anarquista”. Ao longo do tempo esta
teoria foi sendo contrastada com a realidade, e outros elementos foram
sendo incorporados. Hoje, para nós, fazem parte de “caldo organizacional”
que compõe o especifismo outras posições como a dos russos do Dielo Trouda
que estiveram em torno do projeto da Plataforma, a dos latinos da FAU, dos
organizacionistas como Neno Vasco, José Oiticica e Domingos Passos, que
atuaram no Brasil no início do século XX e também militantes já falecidos
que defenderam posições semelhantes e que puderam tratar do tema com a
nossa geração: Antônio Martinez, Jaime Cubero e Ideal Peres.

Historicamente, a discussão em torno da Plataforma colocou em campos
distintos duas propostas organizacionais do anarquismo. Uma primeira, já
citada, que foi proposta pelos russos exilados na França, a Plataforma de
1926, e outra, que surgiu como resposta à Plataforma e que foi formalizada
em dois momentos diferentes: primeiramente por Sebastièn Faure em 1928 e
por Volin em 1934, ambos em documentos homônimos chamados “A Síntese
Anarquista”. Na América Latina, diferentemente de outras localidades do
mundo em que há uma tradição anarco-comunista claramente inspirada na
Plataforma, o modelo de organização que se diferencia da síntese é o
especifismo que, apesar das influências que possui da Plataforma, não pode
resumir-se a ela.

O especifismo caracteriza-se, na prática, pela defesa de dois eixos
fundamentais: a separação entre a organização anarquista e os movimentos
populares (o que se chama normalmente de separação entre os níveis
político e social de atuação) e a prática prioritária de trabalho e
inserção social, no seio das lutas sociais. No entanto, não é só isso.
Hoje, o especifismo inclui uma série de outras concepções que determinam
esta “nossa” forma de organização anarquista. Vejamos algumas delas.

Entendemos o anarquismo como uma ideologia que, neste sentido, deve
possuir, necessariamente, uma prática política com intenção de
transformação social. Esta ideologia nasce em meio às lutas de classe do
século XIX e representa as aspirações de um determinado setor do povo,
ideologia esta que, ao mesmo tempo em que emerge da sociedade, volta a ela
em forma de prática organizada para buscar a revolução social e o
socialismo libertário. Estes objetivos de tipo finalista, a nosso ver, só
chegarão por meio de uma mobilização social, ampla e popular, que consiga
acumular força e promover a transformação – que não acreditamos ser
decorrente das contradições internas do próprio capitalismo, mas fruto da
vontade do povo organizado. Por estes motivos, esta nossa concepção de
anarquismo não tem nada de individualista.

Desta forma, organização para nós é uma questão central, imprescindível
para um processo revolucionário consistente que pavimente as vias de uma
nova sociedade. E trabalhamos a organização para a transformação social a
partir de dois níveis: a organização específica anarquista e a organização
dos movimentos populares.

A organização específica anarquista possui caráter de minoria ativa,
associando militantes no nível político-ideológico e cujo trabalho
principal se dá no seio dos movimentos populares. Estes, para nós, não
devem caber dentro de uma ideologia determinada, mas organizarem-se sobre
a necessidade e possuir diversas ideologias em seu seio. Toda nossa
perspectiva de organização baseia-se nestes dois níveis onde nos
associamos, na organização anarquista, por nossas afinidades ideológicas,
e nas organizações populares, por nossas necessidades como trabalhadores.

A organização específica anarquista possui objetivos determinados, que se
refletem nas atividades e no perfil de seus/suas militantes. Ela funciona
com uma lógica que chamamos de “círculos concêntricos”, que determina
posições claras para cada militante na organização. Há posições em que há
maior comprometimento, e consequentemente maior poder de decisão – o que
poderíamos chamar de um “núcleo” militante orgânico –, e posições em que
há menos comprometimento e menor poder de decisão, como as posições de
apoio ou colaboradores/as. Geralmente, as/os militantes orgânicos/as
desenvolvem uma atividade interna (nos secretariados: organização,
formação, comunicação, relações, finanças e infra) e outra externa, em uma
das frentes, que são os setores organizados para o trabalho social que
possuem como objetivo estimular, organizar, formar as organizações
populares, influenciando-as a terem um conjunto de características, que
poderíamos chamar “libertárias” (em termos de metodologia), que lhes
possibilitará realizarem da transformação social. Para isso, é necessário
que as/os militantes tenham responsabilidade e autodisciplina para levarem
a cabo o trabalho cotidiano. Características da organização anarquista que
também marcam o especifismo são: as unidades em termos de teoria,
ideologia, estratégia e tática; a ênfase no trabalho social e a realização
de outras atividades como propaganda, teoria, formação, estratégia,
relações etc.

As organizações populares (movimentos sociais, sindicatos, etc.) são, na
maioria dos casos, expressões de uma sociedade de classes, dividida entre
capitalistas e trabalhadores/as, que se evidencia em um processo de luta
de classes. Por evidenciar as contradições do sistema e significar certa
articulação dos setores populares nas lutas do povo, as organizações
populares possuem um potencial transformador. É por meio da atuação nestas
organizações e da criação de novas que entendemos poder dar ao anarquismo
sua real função, que é de estimular e servir como fermento das
organizações populares. No entanto, hoje a grande maioria destas
organizações está burocratizada e, portanto, tem este potencial de
transformação limitado. No contato com elas, o objetivo dos/das
anarquistas é lutar para que estes movimentos sociais desfaçam-se destes
laços burocráticos, ampliem-se o máximo possível, aumentem seu nível de
combatividade e de autonomia. Para que elementos como autogestão e ação
direta possam contribuir com processo de luta que aponte para uma
revolução social. Para nós, é somente a luta popular, este “nível social”
conhecido outrora por representar os “movimentos de massa” que tem
condições de promover a transformação.

É o conjunto das organizações populares, unidas umas com as outras, e da
organização anarquista que pode constituir o meio que levará ao fim
desejado por nós – o socialismo libertário. Esta estratégia está na base
da concepção especifista de organização anarquista.



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