(pt) [Galiza , estado espanhol] Coletivo Ren de Ren: "Somos contrários ao Desenvolvimento"]

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Quinta-Feira, 9 de Julho de 2009 - 16:56:29 CEST


Recentemente, o Coletivo Editorial Ren de Ren publicou seu segundo livro
coletivo, “A Civilização Enferma”, obra onde “se constrói uma rigorosa e
implacável observação do processo de industrialização da vida”. O primeiro
trabalho editado por este coletivo galego é instigante e certeiro: “A
falácia da sustentabilidade”. Em sua página eletrônica são abordadas
várias questões como desenvolvimento, sustentabilidade, capitalismo verde,
entre outros temas. Acompanhe a seguir a entrevista que o Coletivo Ren de
Ren concedeu à ANA.

Agência de Notícias Anarquistas > Quando vocês tiveram a idéia de criar o
Coletivo Ren de Ren? Com que atitude, sensibilidades, nasce o grupo?

Coletivo Ren de Ren < O Coletivo Ren de Ren surge de um encontro
libertário que aconteceu em Ourense no ano de 2007. A idéia inicial era
reunir algumas das individualidades anarquistas existentes na Galícia à
volta de  um projeto comum que pretendia ligar as diversas sensibilidades
existentes. A Galícia é um país pequeno embora o movimento anarquista
esteja muito atomizado. Embora a sua presença tenha sido hegemônica
historicamente (antes de1936), hoje apenas subsistem, para além das
organizações anarcosindicalistas, pequenos grupos autônomos próximos do
anarquismo insurrecionário, do comunismo de conselhos, e ainda a
insurgência poética e artística... O projeto Ren de Ren tenta ser um
elemento a mais no processo de ligação entre as pessoas do mundo
libertário sem interação com outros movimentos da esquerda revolucionária,
procurando sempre inspiração nas filosofias e experiências revolucionárias
anarquistas e sua amarração com o atual estado das coisas.

A iniciativa deste coletivo bem se poderia inscrever entre as que não
reclamam adjetivos para uma prática libertaria em constante evolução.
Concretamente as bases do projeto editorial são: a independência econômica
e ideológica de qualquer instituição, organização ou associação, o
funcionamento autogerido, autônomo e assembleário, autofinanciamento,
ausência de publicidade e de contraprestações econômicas tanto para os
colaboradores como para o coletivo editor; rigor nos resultados e métodos,
atitudes anticapitalistas e que seja frutuoso em termos libertários. Sem
mais.

ANA > O que significa Ren de Ren?

CRR < “Nada de Nada”.

ANA > E o que vocês editaram até agora?

CRR < Ate hoje colocamos em circulação duas monografias coletivas nas
quais participaram quase uma centena de pessoas. Estes trabalhos tiveram
uma difusão local em versão impressa, que é a que colocamos à venda, e
global e totalmente gratuita através da nossa página na Internet.

ANA > Vocês publicam trabalhos de outras pessoas. Há alguma condição para
isso, como vocês escolhem o que irão publicar? Ecologia é o principal tema
do trabalho de vocês?

CRR < O Coletivo Ren de Ren nasce na Galícia e, portanto procura o
intercâmbio de idéias na língua galego-portuguesa, mas também contamos com
as valiosíssimas contribuições de companheiros como Pedro García Olivo,
Miguel Amorós, Agustín García Calvo... que mantêm viva a comunicação com
outros lugares do território onde nos movemos e dos países com os quais
mantemos contato.

O coletivo constitui-se assim para além deste grupo editor, por pessoas
que lêem, debatem, escrevem, desenham, diagramam, distribuem... já que
todos os esforços que contém cada publicação não são senão uma mostra
deste trabalho coletivo, completamente original e sem objetivo de lucro.

Ren de Ren trata de oferecer suporte a idéias, projetos e soluções
práticas contra o Estado, o capital, as religiões e toda a forma de poder
e governo, lutando pela construção de uma sociedade, justa e igualitária,
de indivíduos livres. Como dissemos, pretendemos abordar todos os temas de
maneira assembleária, através do consenso. É no debate aberto que surgem
as temáticas que estão sempre em aberto. Por estes dias sairá do prelo "A
civilização enferma", um novo monográfico de Ren de Ren que submete a
observação a monstruosa indústria da saúde e a doença provocada pela
indústria.

ANA > Há alguma rentabilidade na venda das publicações para editar mais
livros?

CRR < Na realidade o que fazemos com a venda do material apenas é
recuperar parte do dinheiro que custa a produção, um dinheiro que nós
mesmos adiantamos. A finalidade deste projeto não é estabelecermos uma
rede de relações comerciais, mas sim uma rede de afinidade e de
cooperação.

ANA > Depois de dois anos de vida como coletivo editorial, vocês fazem um
balanço positivo da difusão destes trabalhos?

CRR < Sim. Mas para sermos exatos temos que chamar a atenção para uma das
bases do nosso projeto participativo: com estas publicações não
pretendemos doutrinar ninguém.

Ren de Ren só acredita na expressão, na ação espontânea  e na criatividade
social que procura a máxima liberdade e o bem comum. O que valorizamos
principalmente é o extraordinário apoio recebido por parte dos numerosos
indivíduos e agrupamentos que colaboraram em todas as fases do projeto,
ativando ou revitalizando as relações de cooperação e as ferramentas para
a comunicação entre os companheiros e companheiras do nosso meio. Desta
perspectiva a experiência já foi enormemente satisfatória. Mas só o tempo
dirá quanto avançamos no nosso objetivo inicial de contribuir na
construção de um espaço libertário mais amplo e mais próximo dos desafios
do nosso tempo.

ANA > E qual têm sido a principal dificuldade?

CRR < Essa enorme dispersão e atomização social de que falávamos antes se
reflete na convivência com atitudes de mútua desconfiança entre alguns dos
grupos libertários do nosso meio. Uma situação que, pensamos, dificulta
muito a comunicação, desativa a solidariedade e impede uma prática
conseqüentemente libertária.

Além disso, desde o primeiro momento tentamos com pouco sucesso que as
pessoas que simpatizam com o que fazemos aumentem sua colaboração no
projeto de forma que Ren de Ren possa prescindir das nossas
individualidades.

ANA > Além das publicações, o que mais vocês produzem?

CRR < Esta rede de afinidade e apoio mútuo que é o Ren de Ren está
organizada, hoje, como coletivo editor, como fórum de debate e como
dispositivo de distribuição. Isto logicamente não impede que as
companheiras e companheiros mantenham os seus compromissos individuais
noutras frentes da luta social e (contra)cultural.

ANA > Por favor, falem um pouco das principais lutas ambientais na Galícia...

CRR < A Galícia contemporânea está a viver uma contínua e profunda crise
ambiental motivada pela irrupção do capitalismo industrial e a recente
introdução das suas técnicas de dominação nos setores produtivos
tradicionais: o mar (sobre-exploração, turismo, plano agrícola...), o agro
(concentração de propriedades, transgênicos...) e o monte (vacas loucas,
abandono, incêndios florestais...). Tudo isto a juntar ao negócio
especulativo com as fontes de energia (gás natural, térmica,
aerogeradores, hidráulicas...) e com as grandes infra-estruturas
desnecessárias (Trem de Alta Velocidade, macro-portos...)

O afundamento em 2002 do petroleiro Prestige com 77.000 toneladas de óleo
provocou na Galícia um importante movimento de protesto e ativismo
ecológico e social de base assembleária. A crescente recuperação de boa
parte deste trabalho de base por parte das organizações políticas
partidárias fez com que surgisse, para muita gente, a necessidade de
manter-se à margem. Desde aí as numerosas e diversas lutas populares
relacionadas com o meio ambiental encontram-se pela primeira vez de modo
livre num espaço não partidário chamado "Galícia Não Se Vende" que
proclama a sua rebeldia frente a qualquer governo (Governe quem governe,
Galícia não se vende!). Também é desta rebeldia que nasce o Ren de Ren.

ANA > Dessas lutas que vocês comentaram, há alguma que vocês destacariam?
Que a resposta da população tem sido efetiva? Por exemplo, há oposição em
relação aos macro-portos?

CRR < A geografia inteira do nosso país está cheia de conflitos ambientais
que se tornam visíveis na luta das assembléias e grupos vizinhos que se
opõem à destruição do seu modo de vida e de trabalho. São principalmente
estas pequenas lutas contra um viaduto, contra um porto desportivo, contra
alguma nova exploração mineira, em defesa de um rio... as que mantêm acesa
a chama contestatória na nossa terra.

Além dos contínuos protestos contra os inumeráveis derramamentos tóxicos e
as múltiplas indústrias perigosas e contaminantes (Planta de Gás na costa
litorânea de Ferrol, Fábrica de Celulosa na costa litorânea de Pontevedra,
Central Térmica das Pontes...), cabe destacar o movimento em defesa do
litoral galego. Há vinte anos que os nossos litorais sofrem, ademais da
investida da nova indústria, uma constante maré especulativa que não para
de gerar conflitos com os vizinhos.

A eficácia destes protestos populares tem que ser analisadas já que até há
pouco tempo foram manipulados e usados pela oposição política. Um exemplo
disto foi a histórica derrota do partido conservador pela catástrofe que
engendrou a sua gestão do Prestige. Se bem que seja inegável o papel
motriz do nacionalismo galego, de raiz marxista, em muitas das lutas do
passado (contra a auto-estrada AP9, contra as expropriações nas Encrobas,
contra a central nuclear em Xove em 1977, contra ENCE...), na atualidade
boa parte da população observa com ceticismo e nojo as proclamadas
reformas de quem já liderou no governo algumas das políticas mais nocivas
do ponto de vista ambiental.

Não obstante a organização desde a base continua a ser muito necessária.
Atualmente o movimento libertário tem se envolvido nos conflitos abertos e
participa de um jeito ativo nas mobilizações da plataforma “Galícia Não Se
Vende”.

Os macro-portos, os planos eólicos e agrícolas e as novas autovias e
estradas de ferro, elitistas e destrutivos com a natureza e a população,
fariam parte do capítulo das lutas que ainda temos que enfrentar, perder
ou ganhar.

ANA > Já se sente o efeito do aquecimento global na Galícia?

CRR < O ciclo da desflorestação e da progressiva desertificação da nossa
terra foi aberto pela mão do homem há várias dezenas de anos e os próprios
políticos reconhecem hoje que Galícia está num lugar muito frágil e já
está a sentir os sintomas deste outro fenômeno global.

Para nós a existência do aquecimento global não é mais que outra prova da
imparável degradação ambiental que observamos à nossa volta. Mas a nossa
denúncia deve falar das causas e não só dos efeitos.

ANA > Decrescimento ou desenvolvimento sustentável? Muitas reflexões e
críticas de vocês vão de encontro a este conceito, “desenvolvimento
sustentável”, não?

CRR < Somos contrários ao Desenvolvimento. No coletivo editorial achamos
que é muito necessário meditarmos as palavras que empregamos para termos o
controlo sobre as nossas vidas. No plano que se fez para o primeiro
monográfico quis salientar já no próprio título (“A falácia da
sustentabilidade”) que nos opomos de maneira frontal à sustentabilidade
deste monstro em declive que é o sistema de economia capitalista. Algumas
das reflexões dos nossos colaboradores recolheram esse elemento da
proposta.

“A Civilização Enferma”, o novo monográfico, reivindica a necessidade
atual de renunciarmos às ilusões domésticas que oferece a civilização
capitalista em prol da saúde, da plena liberdade e do bem comum. Frente
aos discursos do ambientalismo reformista, nós reivindicamos que o
capitalismo caia para que a vida continue. Mas, como pessoas libertárias,
procuramos também uma prática sem autoritarismo e não acreditamos na
possibilidade de um decrescimento real num mundo controlado pelos estados
e as multinacionais.

ANA > Podemos afirmar com todas as letras que as corporações farmacêuticas
são as indústrias mais asquerosas, podres e aterrorizantes do planeta, que
só se preocupam com o lucro?

CRR < Somos conscientes da condição totalmente perniciosa de todas as
indústrias humanas que se têm ensaiado sob modelos autoritários. Há que
lembrar que a indústria capitalista não é senão a vanguarda de um sistema
de dominação baseado na transformação e/ou destruição da natureza, da
nossa própria natureza.

A submissão atual da alimentação e da saúde humana e animal à ditadura do
máximo lucro é um fato verdadeiramente arrepiante. As corporações
farmacêuticas, na realidade são mais uma parte de um complexo monstro que
nunca vai  parar para pensar nos efeitos devastadores das suas ações.

ANA > Querem acrescentar algo mais?

CRR < A ideologia do capital está tão difundida, que cada vez parecem ser
menos as pessoas que concebem um mundo livre da sua coação. Mas somos nós,
os indivíduos, que temos as respostas todas. Só nós temos a chave para
prender o bicho que combatemos. E para isso é necessária a comunicação.

Saúde e Ren de Ren!

Já está na rua: “A Civilização Enferma”

Galícia, Verão de 2009

Acaba de sair do prelo “A Civilização Enferma”, o novo monográfico do Ren
de Ren. Este segundo trabalho do coletivo libertário galego junta várias
colaborações, todas elas originais, com as quais se constrói uma rigorosa
e implacável observação do processo de industrialização da vida e se
afirma a necessidade atual de renunciarmos às ilusões domésticas que a
civilização capitalista nos oferece se se tiver como objetivo a saúde, a
liberdade plena e o bem comum.

Para começar, Miguel Amorós oferece-nos o seu diagnóstico e tratamento
para esta sociedade doente de capitalismo. Depois, introduzimo-nos nesse
labirinto social pela mão de vários membros da Associação Viguesa Forças
Eskizoá; e numa linha semelhante, na busca  da diferença, o anti-pedagogo
Pedro García Olivo, (Derradeira Cidade) e Fátima Bermejo, percorrem o
desolador panorama que esta nova civilização oferece aos indivíduos
indefesos.

Uma entrevista com Alejandro Argumedo, agrônomo quechua, dá passagem aos
contributos de Felix Rodrigo Mora e da gente de Matosende que tomam o
pulso à relação que mantemos com um contorno natural devastado pela
industrialização do agro.

A seguir, Alberto Domínguez aborda as relações entre a medicina, a
indústria e o autoritarismo; Benito Alonso dá conta dos cadáveres da fria
estatística; Marcos Abalde lembra-nos o pulso do real por detrás da TV;
Minux põe a mira na trindade perversa do trabalho, a produção e consumo; e
Manolo Rei, na limpeza patológica. Emma Dourado faz um completo resumo da
problemática sanitária existente e um apelo à rebeldia contra esta
civilização enferma.

O monográfico termina com novos contributos de Rebeca Baceiredo (Estamos
enfermos ou simplesmente não estamos?), Antipanfleto (Comunicar-se no
barulho urbano), Eliseo Fernández (A doença do medo) e o poeta Paulo
Hortak (Antivírus).

A parte gráfica conta com excelentes contributos de Ana Cibeira, Calavera
(desde Valencia), Idoia de Luxán, Kardo Kosta (desde a Suíça), Miguel
Brieva (desde Madri), Minux e Paula Cabildo, para além do brilhante
trabalho de diagramação e as colagens de Adriana.

As colaborações foram tão numerosas que ainda teremos de aguardar pela
publicação íntegra do trabalho monográfico no sítio web de Ren de Ren
(http://renderen.blogspot.com) para conhecerem os contributos de Rafa
Becerra, David Bruzos, Teresa Rodríguez, Otto Mas e o Grupo de Agiatação
Social (GAS).

Ren de Ren coletivo mantém firme as bases originais do seu projeto: a
independência econômica e ideológica de qualquer instituição, organização
ou associação, o funcionamento autogestionado, autônomo e assembleário;
autofinanciamento, ausência de publicidade e de contraprestações
econômicas tanto para os colaboradores como para o coletivo editor;
rigorosidade nos conteúdos, atitude anticapitalista e semente libertária.
Nada mais (e nada menos).

Coletivo Editorial Ren de Ren: colectivo.renderen(a)gmail.com

http://renderen.blogspot.com

Apdo. 457 - 32080 Ourense - Galícia - Espanha

Se nas próximas semanas não encontrares o teu exemplar nos lugares
habituais entre em contato com: Corsárias Distri // Telefone: 635 04 05 49
// corsariaseditora(a)hotmail.com

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