(pt) [Portugal] Reunião nacional da Plataforma Abstencionista - 10 de Ja neiro 2009

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Quarta-Feira, 7 de Janeiro de 2009 - 17:43:25 CET


Gostávamos de convidar toda a gente que subscreve o manifesto, se sente
representada pelas ideias nele expressas ou quer ouvir com mais atenção o
que esta plataforma propõe, a comparecer pelas 14h00 na Biblioteca dos
Operários da Sociedade Geral (BOESG - rua das Janelas Verdes, nº 13
1ºEsq.), em Lisboa, para a primeira reunião nacional da Plataforma
Abstencionista em 2009. A ordem de trabalhos provisória é a seguinte:
1- BALANÇO DO CAMINHO PERCORRIDO PELA PLATAFORMA ABSTENCIONISTA: ERROS,
VIRTUDES, COISAS A CORRIGIR;

2- "SAIR PARA A RUA": FORMAS E METODOLOGIAS PARA LANÇAR ESTA PROPOSTA
PUBLICAMENTE E NO "MOVIMENTO DE MASSAS";

3- ARTICULAÇÃO E FUNCIONAMENTO DA PLATAFORMA A NÍVEL NACIONAL.
Aproveitamos para acrescentar que, caso pretendam contribuir para a
discussão da ordem de trabalhos, o podem fazer enviando um email para a
lista da Plataforma Abstencionista (primeiro link na barra à direita).

Publicada por Plataforma em


12.12.08
Pedem-nos o voto, diremos não O capitalismo é um sistema sem lei que
alimenta e serve os interesses dos grandes grupos económicos e de todos os
que lhe seguem o modelo. Um sistema norteado por valores cujos princípios
básicos potenciam o crescimento da injustiça e desigualdade sociais, da
alienação e expropriação dos direitos fundamentais dos indivíduos, da
exclusão, da exploração desenfreada de pessoas, animais e natureza, do
fomento de necessidades de consumo, hábitos e procedimentos desnecessários
que causam ciclos de guerra, sofrimento e miséria.

As democracias "representativas" inculcam massivamente no imaginário dos
cidadãos que os resultados dos actos eleitorais significam procuração
irrevogável para o Estado agir, em seu nome, de forma omnipotente e
omnipresente.

A democracia resume-se assim a isso mesmo: de tanto em tanto tempo fazer
variar nos assentos do Poder aqueles que apenas estão lá não para nos
representar como proclamam, mas para fazer cumprir todas as políticas
decididas algures nos centros financeiros internacionais. Desta forma, a
vontade dos povos e dos indivíduos não tem qualquer poder decisório. No
entanto, são chamados sazonalmente ao cumprimento do seu "dever", a horas
e nos lugares certos, sendo-lhes outorgado um falso carácter determinante,
vendendo-se assim a ilusão de que mandar, representa, apenas, obedecer ao
sentimento maioritário.

Para a prossecução deste embuste arenga-se que as eleições projectam um
sublime acto de escolha. Com maior ou menor propaganda e manipulação, com
mais ou menos promessas demagógicas que não colhem apenas os incautos, o
sistema capitalista desce à terra de quatro em quatro anos submetendo-se
estoicamente à prova das feiras, dos comícios em terras inóspitas, dos
beijos e abraços à saída das missas. Tem o seu banho democrático, diz-se
orgulhoso por isso e afirma-se posteriormente encartado para decidir o que
quiser decidir.

São, depois, as regras da democracia "representativa" a gerarem a
rotatividade na protecção do aparelho de Estado e na defesa das políticas
rigidamente definidas que, a nível super-estrutural, o capitalismo impõe
para prosperar e garantir a sua ditadura.

São as terapias impostas para que o pulmão não se debilite, seja qual for
o corpo (partido ou agrupamento político) que lhe dá abrigo.

O sistema capitalista tem sabido lutar bem por este seu paradigma,
exigindo a quem dele vive o respeito e aceitação do Estado como entidade
reguladora das relações sociais. Os jogos de alianças, a necessidade de
apresentar alternativas e soluções como sinal de afirmação construtiva
fizeram encostar a "extrema -esquerda" e a "esquerda" à "direita" e parte
da "direita" à "esquerda" e ao "centro", juntando-se todos no Parque das
Nações a comerem um caldo de maioridade e sensatez.

Por isso, nenhuma, mas mesmo nenhuma, força partidária equaciona, hoje, a
legitimidade dos cidadãos se sentirem defraudados com o que fazem do seu
voto. Outra coisa, aliás, não poderia acontecer: por muito que possa doer
a muita gente boa que palmilha caminhos de insubmissão, certo é que a
participação nos órgãos de poder institucional significa a aceitação
cordata das suas regras de funcionamento e a reverencial simpatia pelo
Estado e pelo sistema que o mantém.

Há que assumir sem rodeios que nas sociedades modernas a exploração
violenta, desumana, arcaica e irracional que o sistema capitalista exerce
legalmente vem resultando da "carta branca" fornecida pelos plebiscitos
eleitorais.

Percebendo a importância que as eleições dão ao sistema capitalista, ao
longo das últimas três décadas várias foram as mobilizações em torno da
defesa política da abstenção. Não havendo campanhas públicas
sistematizadas nem qualquer sector a emergir colectivamente, o poder
foi-se aproveitando disso para atribuir os resultados incomodativos à
"preguiça", ao "tempo de praia", à "chuva diluviana", à "abstenção
técnica", à não "limpeza dos cadernos eleitorais", à "mobilidade dos
cidadãos". Como se "ir à praia" em dia de eleições não devesse ser
enquadrado numa atitude política assumida, denunciadora da rejeição do
circo da sociedade do espectáculo; como se o "direito ao não voto" fosse
menos legítimo que o "direito ao voto".

Reduzir a participação eleitoral aos que alimentam e se alimentam do
sistema, transformá-los em criadores, actores e espectadores da sua
própria encenação poderá ser uma interessante tarefa revolucionária
geradora de ataques localizados aos órgãos vitais desta sociedade
dominante. Nesta lógica de combate deverá ser claro que uma plataforma de
entendimento e acção em defesa da abstenção, que se almeja poder funcionar
sem qualquer mecanismo reprodutor dos poderes conhecidos, nunca deverá ser
entendida como um fim em si mas antes como um meio para reforçar o ataque
sistémico ao capitalismo.

Ao longo da história a sociedade humana foi sendo encaminhada para
sistemas de funcionamento autocrático e dirigista ao arrepio das normas de
relação fraternas, solidárias e horizontais. A introdução das regras
mercantilistas, do desempenho individual, da competição e do orgulho na
propriedade privada adulteraram a lógica comunal, transformando o ser
humano num produto que deve mais do que tem a haver! A desumanização das
sociedades dos novos tempos transformou as pessoas em números prontos para
o massacre.

Isto não é inevitável!

Sabemos de múltiplas lutas de resistência que foram capazes de mostrar que
outro mundo é sempre possível ainda que o devir nos tenha acrescentado
frustrações. Todos esses processos históricos encontram-se catalogados nos
protótipos da utopia, tendo, alguns deles, sido concretizados. Este parece
ser o grande combate de quem enjeita o poder institucional e não quer agir
sozinho. A luta pela felicidade e pelo mundo harmonioso também passa por
aqui sem aqui se esgotar!

Liberdade não é poder escolher os tiranos, mas sim não querer nenhum.
Todas as rebeliões começam por uma recusa.
Para justificar a tirania, virão pedir-nos o nosso voto.
OLHOS NOS OLHOS, DIR-LHES–EMOS QUE NÃO.


"Aconteceu
e acontece agora como dantes
e continuará a acontecer
se não acontecer nada contra isso


Os inocentes não sabem de nada
porque são demasiadamente inocentes
e os culpados não sabem de nada
porque são demasiado culpados


Os pobres não dão por isso
porque são demasiado pobres
e os ricos não dão por isso
porque são demasiado ricos


Os estúpidos encolhem os ombros
porque são demasiado estúpidos
e os espertos encolhem os ombros
porque são demasiado espertos


Aos jovens isso não preocupa
porque são demasiado jovens
e aos velhos isso não preocupa
porque são demasiado velhos


Eis porque não acontece nada contra isso
e eis porque razão aconteceu
e acontece como dantes
e continuará sempre a acontecer"

Erich Fried, "Quem Manda Aqui?"


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