(pt) [Espanha] O fuzilamento de Ferrer i Guardia , “um crime judicial”

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Quinta-Feira, 31 de Dezembro de 2009 - 12:50:27 CET


Entrevista com Francisco Bergasa, autor do livro "Quién mató a Ferrer i
Guardia?", motivado pelo centenário da Semana Trágica.

Foi um ajuste de contas e um crime judicial. Esta é a tese que sustenta o
advogado e jornalista Francisco Bergasa em seu livro “¿Quién mató a Ferrer
i Guardia?” [Aguilar], onde defende que o fuzilamento do fundador da
Escola Moderna foi executado, não por sua participação nos sucessos da
Semana Trágica, mas por sua ideologia subversiva. "O Governo, os tribunais
militares, a Igreja, o catalanismo, o republicanismo de Lerroux, a
imprensa integrista e até a mesma Coroa tinham contas pendentes com ele. O
apresentaram como o maior responsável pelos eventos nos quais não teve
intervenção alguma", afirma Bergasa em uma entrevista com elmundo.es.

Pergunta > De onde parte seu interesse pela figura de Ferrer i Guardia? O
que pretende transmitir com seu livro?

Resposta < Ferrer i Guardia é uma clara referência de como as idéias
políticas têm criminalizado ao longo da Historia condutas que não eram em
absoluto delitivas nem puníveis. Neste livro quero provar documentalmente
que Ferrer foi condenado, não por sua participação nas jornadas da Semana
Trágica, mas por sua ideologia subversiva e seu trabalho frente à Escola
Moderna. E que seu fuzilamento obedeceu, conseqüentemente, mais que uma
falha judicial justa, a um ajuste de contas.

P. > Por que razões converteram a Ferrer em responsável da Semana Trágica?

R. < Porque tanto o Governo como as instituições máximas do Estado
necessitavam uma figura na qual concentrar as responsabilidades pelos
eventos cuja violência tinha comovido ao país, e sobre os quais a opinião
pública exigia uma exemplar lição. Ferrer reunia, em sua condição de
permanente transgressor da ordem, todas as cartas para converter-se na
vítima ideal sobre a quem personalizar esse castigo. E se aproveitou de
sua presença casual no cenário dos fatos para reunir, em um clima de
desamparo como o que naqueles dias se vivia na Catalunha e sem o menor
respeito a legalidade, todas as provas que pudessem incriminar-lhe.

P. > Por que ninguém propôs reabilitar sua figura durante estes cem anos?

R. < Para a ditadura de Primo de Rivera, e, sobretudo para o franquismo,
Ferrer, republicano, maçom, livre-pensador e anarquista, tinha
necessariamente que ser um personagem maldito. E quanto aos últimos 25
anos, tão pouco a direita que tem governado na Catalunha tem feito nada
para desculpar seu passado moral nem seu anticatalanianismo. Além disso,
seu principal legado, a Escola Moderna, sim, tem sido objeto de revisão,
estudo e reconhecimento por parte de pedagogos e historiadores, sobretudo
a partir do início da transição democrática.

P. > O que representou para a Espanha um projeto educativo tão singular
como foi a Escola Moderna?

R. < Apesar de sua curta vida (só permaneceu ativa desde 1901, data de sua
fundação, até 1906, em que foi fechada por causa do atentado contra os
Reis na rua Mayor de Madri), a Escola Moderna assumiu uma ruptura contra o
dogmatismo inculcado naquele tempo pelo ensino religioso e a falta de
meios de que viciava a educação do Estado. E introduziu postulados tão
inovadores como a co-educação de classes e sexos, a laicidade, o
racionalismo, a práxis experimental, o respeito à personalidade do aluno,
a ausência de prêmios e castigos, o reconhecimento da igualdade de gênero,
a educação sexual, a higiene escolar e o combate a tantas crenças que
pudessem contribuir a perpetuar nos estudantes a alienação ou o
obscurantismo.

P. > Por que tu qualificas em seu livro como crime judicial o processo
contra Ferrer i Guardia?

R. < Porque seu julgamento violou todas as garantias processuais e feriu
os mais elementares princípios do Direito. Assim, se tipificou
inexplicavelmente sua participação nos eventos como um delito de rebelião
militar; se abriu um processo à parte contra ele independente do resto das
causas instruídas pelos mesmos fatos; foram aceitos o rumor e a suspeita
como provas incriminatórias; se filtraram uma infinidade de ações que
violaram, em prejuízo seu, o secreto sumarial; se orquestrou uma campanha
mediática para satanizar-lhe; não lhe foi autorizado a depor em nenhum dos
autos; as provas documentais que o culpavam foram obtidas sem os mínimos
requisitos legais; não se aceitaram os testemunhos solicitados por sua
Defesa; foram soltos todos os que depuseram contra ele; foram ignoradas as
declarações que podiam inocentar-lhe; foram falhos os trâmites do plenário
e até se evitou a presença de testemunhas na passagem oral que precedeu a
sentença.

P. > Que conseqüências teve seu fuzilamento?

R. < Como resultados imediatos, a morte de Ferrer ocasionou o maior
protesto internacional contra a Espanha como nunca até então se tinha
conhecido (houve dezenas de manifestações, atentados contra várias
Embaixadas e diversos sindicatos europeus boicotaram os produtos
espanhóis); supôs a queda do Governo e representou o fim da carreira
política de seu presidente Antonio Maura. A isto temos além do mais que
acrescentar, a meio prazo, a quebra do bipartidismo político vigente até
então; a radicalização do movimento trabalhador, traduzido na fundação de
um novo sindicalismo revolucionário, a CNT; e o auge do antimilitarismo e
do anticlericalismo entre as classes médias e o proletariado; levou também
ao grave descrédito da Monarquia, o que diante de sua negativa ao indulto
abrira toda uma escalada de erros que terminou conduzindo-la ao exílio.

P. > Quem foi o maior responsável pela morte de Ferrer i Guardia?

R. < Todas as instituições da Espanha oficial de 1909 contribuíram para
tornar possível a falha judicial que condenou Ferrer a pena de morte. O
Governo, os Tribunais militares, a Igreja, o catalanismo, o republicanismo
de Lerroux, a imprensa integrista, e até mesmo a Coroa tinham contas
pendentes com ele e não omitiram esforço algum para apresentá-lo como o
grande responsável dos sucessos nos quais ele não teve intervenção alguma.
Para boa parte da opinião nacional, Ferrer era um conspirador empenhado em
fraturar o Estado, próximo a subcultura da dinamite, e ideólogo de um
projeto educativo sectário, distante da idéia de Deus e dirigido a formar
futuros revolucionários. E nenhum lugar melhor que os fossos de Montjuic
para purgar um ideário tão subversivo como o seu.

P. > Que realizações sociais ocasionaram a Semana Trágica tanto para a
Catalunha como para a Espanha?

R. > A curto prazo, nenhum, na medida que a revolta fracassou, e o Governo
a apresentou, além disso, diante da opinião pública como uma revolta
separatista. Não obstante, o movimento trabalhista pronto extrairia dessa
derrota a lição de que a revolução que Maura pretendia impor “desde cima”
só podia ser realizada “desde abaixo”, e propiciou um sindicalismo muito
mais beligerante que reivindicativo, que opôs a exploração do capital a
greve geral e revolucionária. Em datas imediatamente posteriores se
aprovaram a lei de pensões, a jornada de oito horas, e se fiscalizou com
mais eficácia a observação do descanso dominical, a segurança trabalhista
e o trabalho dos menores.

P. < Para que servirá, em sua opinião, a celebração do centenário da
Semana Trágica?

R. < A comemoração de um acontecimento histórico é sempre uma recordação
do que esse evento representou e das conseqüências que do mesmo se
derivaram. O centenário da Semana Trágica deveria servir para visualizar o
resultado a que conduziu a confrontação entre uma Espanha autoritária,
intransigente, coronelista e oligárquica, os emergentes movimentos de
massas que defendiam um modelo de sociedade mais justo e humano, ainda que
para fazê-lo tivessem de recorrer à violência. E para evidenciar também
como um protesto social sem controle nem orientação conduziu a uma
revolução inútil que acabou desembocando em uma repressão sangrenta.

P. > Qual é a tese de seu próximo livro, um ensaio intitulado “El arte de
matar el tiempo”?

R. < Ao longo de quase três séculos, os espanhóis, igualmente que o resto
dos europeus, tem feito do Café seu principal espaço de encontro e
sociabilidade. E tem convertido a máxima expressão desse cenário, a
tertúlia, em um suporte de comunicação aberto a discrepância, ao debate e
a crítica. Neste ensaio discorro sobre o modo em que o "entreter" ou
"matar" o tempo, ou seja, a ociosidade que geralmente caracterizava a vida
do café, conduziu a efeitos tão criativos e estimulantes como a
convivência, a tolerância, o respeito ao outro, e, sobretudo, ao
nascimento da opinião pública, tal e como na atualidade a entendemos.

Tradução > Juvei

agência de notícias anarquistas-ana


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