(pt) [Cuba] Revolução extra muros

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Quinta-Feira, 24 de Dezembro de 2009 - 09:11:07 CET


No dia 7 de novembro, na comemoração do episódio da revolução de 1917 na
Rússia, o coletivo da Casa del Joven Creador de San José de las Lajas
acolheu uma jornada de pensamento crítico e imaginação radical com o apoio
da AHS e da Red Observatorio Crítico.

Nela decidimos preencher o vazio midiático à volta do vigésimo aniversário
da queda dos regimes euro-soviéticos, pois justamente no dia 9 de novembro
de 1989 multidões de alemães começaram a derrubar o Muro de Berlim. O
Observatorio Crítico tinha organizado, ao longo do ano, uma série de
vídeo-debates, com o objetivo de aprofundar o tema da crise dos modelos de
intenção socialista do século XX, onde a jornada em San José funcionou
como o culminar de tais reflexões.

Além das datas famosas, o que nos mobilizava era o questionamento e o
espírito rebelde. Rejeitando ao mesmo tempo o conformismo intelectualóide,
a traquinagem acomodada e o entretenimento midiático, consideramos que é o
momento de se pôr em sintonia os diversos projetos e coletivos que
organizam redes e ações sociais, derrubando as estruturas esclerosadas do
pensamento e da prática, rompendo as barreiras que excluem a livre
criação. Este foi o significado da jornada: irmos falar nas periferias,
fazer a nossa revolução. Juntamente com os projetos do Observatorio,
contavam-se entre os convidados o Centro Teórico-Cultural Criterios, Ruth
Casa Editorial e Taller Vivir la Revolución, patrocinado pelo Instituto
Juan Marinello.

Julio César Guanche apresentou os três primeiros volumes dos Cuadernos de
Pensamiento Crítico, editados pela Casa Ruth, entre os quais o mais
recente é dedicado aos cinqüenta anos do processo cubano. O conteúdo dos
volumes merece uma resenha especial, mas surpreende que, no primeiro e
segundo números, apareçam pela primeira vez, na imprensa cubana, textos de
Kropotkin (“Carta a Lenin de 4 de março de 1920”, onde, meses antes da sua
morte, o revolucionário anarquista denuncia o final do poder dos sovietes
e o estabelecimento de uma ditadura do aparelho do partido bolchevique),
Castoriadis (“A fonte húngara”, onde o filósofo franco-helênico analisa a
Revolução Húngara de 1956, que foi a primeira revolução total contra o
capitalismo burocrático) e Holloway (“Voltar a derrotar o capitalismo
hoje”, onde o sociólogo azteca-irlandês detecta as rachaduras no sistema
de dominação, abrindo-as e expandindo-as até que “o nosso poder se escape
e se crie algo novo”).

Estes autores, antes quase desconhecidos para o público e meios acadêmicos
cubanos, serão de grande utilidade para a reflexão e ação em prol de outra
Cuba e outro mundo possível. Os outros textos contidos nos Cuadernos são
também profundos, interessantes e polêmicos. Pena é que a tiragem dos
Cuadernos não suporte os custos para se poder ter um exemplar em cada
curso universitário, em cada biblioteca municipal. Daí que Revolução extra
muros significou uma oportunidade única para que os participantes
comungassem com a imaginação dos pensadores radicais.

Além disto, apresentou-se a primeira parte de “A política cultural do
período revolucionário: memória e reflexão”, outra flagrante “raridade
bibliográfica”, livro editado pelo Centro Criterios em 2007 que compila as
conferências organizadas por esta instituição em torno do que se chamou
“período cinzento” da história cubana recente.

Não podemos contar com a presença de Desiderio Navarro (devido à eterna
maldição transportística de Havana, fora dos muros da capital), mas o seu
esforço de promoção do pensamento crítico teve mais um fruto quando
Revolução extra muros pôs à disposição dos presentes a compilação digital
de 2002 notáveis teórico-culturais que Desiderio reuniu e traduziu de mais
de dez idiomas originais.

O ponto alto do encontro foi sem dúvida o diálogo cordial entre os
representantes dos projetos sociais e coletivos que juntamos em San José
de Las Lajas. Assim, conhecemos o projeto “Love In”, dedicado à promoção
da ecologia, a paz e a não-violência, que organizaram vários concertos e
outras ações em torno desses temas. Também tomamos conhecimento e
debatemos sobre a ação que no dia anterior teve lugar na esquina da G com
a 23: a primeira manifestação contra a violência realizada na capital
cubana. Apresentou-se igualmente um resumo do evento “Ahimsa” realizado
este ano, em outubro, comemorando o nascimento de Mahatma Gandhi, assim
como o da atividade de reflorestação em que se envolveu o projeto “El
Guardabosques” e os planos do coletivo Esquife y de la Cátedra Haydée
Santamaría que em breve realizarão o Encuentro Internacional Medios
Digitales y Cultura - o primeiro que se realizará em Cuba, esperando-se
grande diversidade de autores e obras – e o Dia da Descolonização
Histórica 2009- quarta homenagem anual aos anônimos rebeldes Abakuá que,
em 27 de novembro de 1871, protagonizaram um protesto armado contra o
assassinato de oito estudantes cubanos de Medicina pelos colonialistas.

Na sessão teórica de Revolução extra-muros vários oradores compararam os
objetivos dos projetos e as práticas socialistas nos séculos XX e XXI.
Ariel Dacal (co-autor do livro “Rússia: do socialismo real ao capitalismo
real” publicado em 2005 pela Editorial Ciencias Sociales) falou da
pós-revolução na URSS e a gênesis do estalinismo; Mario Castillo explicou
a oposição entre a auto-organização social libertária e as lógicas
hierárquicas estatais, sempre baseando-se no exemplo soviético; Pedro
Campos Santos apresentou uma análise da viabilidade do modelo socialista
autogestionário. No debate, Julio César Guanche somou outra idéia chave: a
exploração não consiste em pagar pouco pelo trabalho realizado, mas sim
quando não são os próprios trabalhadores que estabelecem as suas condições
de trabalho.

Devemos agradecer a Marfrey e a todo o coletivo da Casa del Joven Creador
pela coordenação, pelo seu trabalho esplêndido na logística da jornada
assim como à Sala de Video de San José que cedeu o espaço, e aos
trabalhadores gastronômicos que providenciaram o almoço.

Pedro Campos comenta com certa ironia que a AHS é uma das poucas
instituições onde os executivos provinciais elegem o diretor de sua casa
sede. Creio que é óbvio que a organização consiga renovar e radicalizar o
espírito democrático que a caracterizou nos seus melhores momentos.

Consideramos que a passagem da teoria à transformação ativa do nosso meio
social é uma etapa lógica no momento que Cuba vive assim como todo o
Planeta

Podemos plantar árvores ou idéias, manifestarmo-nos contra a violência ou
contra a amnésia histórica, enfrentar a burocracia ou a guerra contra a
violência, desfraldar bandeiras verdes ou vermelho-negras, defender o
direito à informação em Cuba ou em Honduras, escrever nos muros de Habana
ou na Internet, criar arte ou novas instituições, promover a renovação do
espírito da Constituição – em qualquer caso, o radicalismo chama-nos e
impõe-se porque, como dizia certo personagem cubano de 1933, as revoluções
são como andar de bicicleta: o único modo de manter-se sobre rodas é
seguir, pedalando.

Dmitri Prieto Samsonov

Tradução > Liberdade à Solta

agência de notícias anarquistas-ana




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